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A Assembleia Nacional de 1789 e o Debate Francês

No documento A reserva de jurisdição (páginas 110-116)

Pressuposto Teórico e Constitucional da Reserva de Jurisdição

1 A SEPARAÇÃO DE PODERES COMO IDEIA E SUA QUADRIDIMENSIONALIDADE HISTÓRICA

3 A SEPARAÇÃO DE PODERES COMO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL

3.1 DOIS DEBATES FUNDAMENTAIS

3.1.1 A Assembleia Nacional de 1789 e o Debate Francês

Como sabido, no desenrolar dos acontecimentos que se seguiram à Revolução francesa de 1789, o chamado Terceiro Estado, acatando proposta do Abade Sieyès, se declarou como Assembleia Nacional, representante da nação, e, em 9 de julho de 1789, Assembleia Constituinte, seguindo-se os seus trabalhos até a promulgação final, em 3 de setembro de 1791, daquela que foi a Constituição da chamada “primeira fase revolucionária”.

Foram muitas as ideias discutidas nessa tumultuada Assembleia, na qual a Separação de Poderes se consagrou como um dos temas centrais e fundamentais do debate, contextualizando-se e misturando-se a discussão da ideia separatista sistematizada por Montesquieu com muitas outras fincadas no pensamento e no sentimento dos que fizeram aqueles primeiros e difíceis tempos do processo revolucionário.

O debate que daí adveio em torno da Separação de Poderes legou para a posteridade, e para toda a ciência política, um dos vetores do pensamento que se formou em torno dessa ideia, e que se traduz na mais rígida interpretação que se possa dar à mesma, com a concepção de órgãos distintos e absolutamente separados, sem relacionamento recíproco, sem cooperação no desenvolvimento de suas tarefas, sem colaboração no cumprimento de suas respectivas funções, que, igualmente, são concebidas de forma estanque e rigidamente delimitadas.

O que para uns foi uma leitura desequilibrada em favor do Poder Legislativo, sob influência das apaixonadas e radicais ideias em torno da soberania popular, e para outros foi uma leitura totalmente perversa da Teoria da Separação de Poderes, constituiu, decerto, a mais radical interpretação da proposta de Montesquieu, no sentido de se retirar do seu pensamento uma Separação tão rigidamente concebida que, acreditamos, não se pode extrair de O Espírito das Leis.

É visível que o radicalismo da concepção teve como ponto de partida a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que, em seu artigo 16

declara que “toda sociedade, na qual a garantia dos direitos não é assegurada nem a separação dos poderes determinada, não tem constituição”173

Duguit, em exame minucioso acerca dos trabalhos da Assembleia francesa e dos debates que aí surgiram em torno da Separação de Poderes, assinala:

, mas não resta dúvida de que se pretendeu buscar – ou pelo menos justificar – a inspiração para tão radical construção na obra de Montesquieu.

No hay duda de que el ilustre autor Del Espíritu de las Leyes inspiró a las mejores cabezas de la Asamblea Nacional, y de que, al elaborar esta célebre y peligrosa teoría de la separación de poderes, la Constituyente creyó, con la mejor fe, reproducir fielmente las doctrinas del gran pensador. Basta con leer los discursos y los informes de todos aquéllos que colaboraron más activamente en la obra constitucional de 1789-91, Mounier, Malouet, Bergasse, Duport, Lally-Tollendal, Thouret174.

Conclui, pois, Duguit, que “la influencia de Montesquieu sobre los hombres de 1789 no puede, pues, discutirse”, salientando, entretanto, que estes não tomaram do autor de O Espírito das Leis senão as suas formas gerais e sintéticas, desprezando o lado prático de sua obra que é, exatamente, a penetrante análise do regime político inglês, o que conduziu a uma Separação em termos tão rígidos.

Com efeito, é pertinente a observação de Duguit de que, dos debates que se desenvolveram no seio da Assembleia francesa, não se procura extrair as restrições que a obra do pensador francês faz a uma pretensa Separação rígida, dotada de órgãos incomunicáveis, tais quais os contemplados pela Constituição de 1791.

Assevera Duguit:

no se ve que Montesquieu se limita a reproducir las reglas de la Constitución inglesa, que no admite la separación de poderes más que en la medida en que se practica en Inglaterra, que una división absoluta desemboca fatalmente en la concentración de todos los poderes en uno solo; no ve, en fin, que, en La continuación del capítulo VI, Montesquieu muestra, con claridad meridiana, que una íntima solidaridad, que una colaboración constante deben unir a los diferentes poderes del Estado, que el poder ejecutivo debe tener un derecho de veto sobre el legislativo, que los agentes del ejecutivo deben ser políticamente responsables ante el Parlamento.

173 DECLARAÇÃO DOS DIREITO DO HOMEM E DO CIDADÃO DE 1789. In: COMPARATO, Fábio

Konder. A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos, p. 158.

174 DUGUIT, Léon. La Separación de Poderes y La Asamblea Nacional 1789. Madri: Centro de

E conclui:

Todas estas restricciones al principio de separación de poderes, que la sagacidad de MONTESQUIEU había sabido poner de relieve, la mayor parte de los constituyentes no las percibieron o no quisieron percibirlas. Si las conocían no era más que para criticarlas y rechazarlas175.

Há, pois, na análise de Duguit, uma percepção de que, embora “os homens de 1789”, tenham sido efetivamente influenciados pela doutrina de Montesquieu, somente chegaram à concepção extremada de Separação de Poderes que lançaram na Constituição de 1791 a partir de uma leitura equivocada e radical de O Espírito

das Leis.

Alguns autores, como Malberg, conforme já se teve a oportunidade de examinar, não concordam com esta conclusão, entendendo que a forma rígida como a Assembleia de 1789 assimilou a ideia da Separação de Poderes se pode extrair, de maneira autêntica, da própria doutrina de Montesquieu, tendo sido este mesmo espírito rigidamente separatista que inspirou toda a obra do pensador francês176

Em sentido contrário entende Caetano, ao constatar que “esta concepção dos poderes e da sua separação afasta-se da inglesa e da americana: nem é sequer a que se encontra em Montesquieu, pois tende à distinção rígida de autoridades que se encontra na fórmula constitucional de 1791”

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177

Em meio a esta questão – se é ou não autêntica a interpretação que os constituintes franceses fizeram da obra de Montesquieu – faz-se necessária a introdução de um terceiro aspecto que não costuma ser considerado, que é a constatação, independentemente da invocação que se faz a O Espírito das Leis, ou do socorro recorrente ao nome de Montesquieu, da preponderância da Separação de Poderes de inspiração em Rousseau.

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Não é novidade a influência que teve Rousseau, em especial suas ideias de soberania popular e de supremacia do legislativo, sobre todo o curso revolucionário francês, da qual não se excluem os trabalhos da Assembleia de 1789. Neste particular, parece ser unanimidade o entendimento de que a soberania popular e a supremacia do legislativo almejaram, na Constituição de 1791, o seu ponto mais alto, a sua concretização maior.

175

DUGUIT, Léon. La Separación de Poderes y La Asamblea Nacional 1789, p. 14-15.

176 MALBERG, R. Carré de. Teoría General Del Estado, p. 778.

177 CAETANO, Marcello. Manual de Ciência Política e Direito Constitucional. Tomo I. Coimbra:

É exatamente na combinação dessa supremacia do Legislativo, efetivamente consagrada no texto constitucional, com a proclamada Separação de Poderes e, mais ainda, com a Separação tão rigidamente concebida, que os doutrinadores detectam o que acreditam ser a maior incoerência do referido texto constitucional. Duguit, por exemplo, observa que os constitucionalistas franceses “consagran, sin saberlo, una serie de decisiones contradictorias: declaran a los tres poderes iguales e independientes y subordinan el poder ejecutivo y el judicial al poder legislativo”178, no que é seguido por Malberg, que afirma, no mesmo tom, que “no si dieron cuenta de que se contradecian a si mismos al declarar, por una parte, a los tres poderes iguales e independientes, y por otra parte al subordinar al poder legislativo el ejecutivo y el judicial”179

Tal contradição, entretanto, só se apresenta aos olhos daqueles que enxergam a Separação de Poderes em sua dimensão apenas política, que pressupõe um equilíbrio entre os órgãos, o que efetivamente guarda uma incompatibilidade absoluta com a supremacia do Legislativo, mas não daqueles que, como nós, entendem que é possível contemplar-se uma Separação de Poderes nas dimensões orgânico-funcional e jurídica, que, conforme se acredita, estão presentes na obra de Rousseau.

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Com efeito, já se logrou demonstrar, em linhas anteriores, e ao contrário do pensamento de muitos que se aprofundam no tema, que há uma Separação de Poderes em Rousseau, ainda que, diversamente da proposta por Montesquieu – fundada na supremacia do Legislativo e não na equivalência dos Poderes – haja, em tal formato de Separação, uma nítida finalidade de se preservar a legalidade e, por via sequencial, o Poder soberano, o pacto social e as liberdades e os direitos civis que daí decorrem.

Pois é este mesmo formato de Separação de Poderes que é levado a cabo pelos constitucionalistas de 1789, em que se faz presente, em tintas fortes, a supremacia do Legislativo e, ao mesmo tempo, se proclama a Separação de Poderes em sua versão mais rígida, que, evidentemente, não conduz ao equilíbrio entre os mesmos.

Se a Separação rígida conduz, como têm observado muitos doutrinadores, à supremacia do Legislativo, uma vez que o Executivo e o Judiciário nada mais fazem

178 DUGUIT, Léon. La Separación de Poderes y La Asamblea Nacional 1789, p. 132. 179

do que concretizar o que já se decidiu no âmbito do Legislativo, com muito mais razão isso se verifica quando tal Separação se faz acompanhada do deslocamento de algumas funções administrativas e judiciais para o âmbito do Poder Legislativo, como parece ter sido o caso da Constituição de 1791.

Portanto, a convivência da ideia da supremacia do Legislativo, que norteia toda a concepção constitucional francesa, com a Separação de Poderes não parece ser apenas uma má interpretação de Montesquieu, mas a adoção de uma linha de Separação de Poderes inspirada essencialmente em Rousseau.

Se a pretensão fosse simplesmente de uma conciliação entre o pensamento dos dois grandes pensadores, talvez tivesse saído vitoriosa a concepção conciliatória de Sieyès – cujo opúsculo Qu’est-ce que le Tiers État? pareceu a Miranda ser uma “síntese entre Du Contrat Social e De L’Esprit des

Lois, a síntese entre a concepção de soberania popular de Rousseau e a

concepção de separação de poderes de Montesquieu”180

Mas, como sabido, as ideias de Sieyès – pelo menos neste particular – não predominaram, já que, como observa Saldanha, “suas repercussões tiveram que se ater ao plano dos princípios, ao plano doutrinário”, não adentrando “no plano da construção política efetiva”, já que “não se chegou a integrar a teoria do poder constituinte com a dos três poderes constituídos num esquema unificado”

– que, de certa forma, deslocava a soberania popular para o nível do Poder constituinte, o que permitia, em uma dimensão inferior, o equilíbrio dos Poderes concebido por Montesquieu.

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Findou, pois, a Assembleia, em se inclinar à supremacia do Legislativo, bem como à Separação de Poderes, o que alguns entendem como conciliação incoerente, o que se acredita, nesse trabalho, se tratar de uma Separação fortemente influenciada por Rousseau e tal qual por este contemplada.

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De qualquer forma, preponderando o pensamento de Rousseau ou o de Montesquieu, ainda que em uma leitura equivocada, o certo é que o debate francês travado na Assembleia de 1789 se traduziu em uma das vertentes do pensamento e, principalmente, da institucionalização da ideia da Separação de Poderes.

180 MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional, t. III, p. 380. 181

Tal vertente, como já ficou claro, se funda na noção de uma Separação rígida entre os Poderes, sem comunicação entre os mesmos, sem interdependência, coordenação ou cooperação, uma “dogmatização da separação de poderes”, para usar a expressão de Fleiner-Gerster182, ou, nos

dizeres de Miranda, “uma visão mecanicista, de apertada distribuição de poderes pelos diversos órgãos”183

Sobre as consequências dessa concepção, a que Duguit chamou de “teoria artificial de los tres poderes separados”, é ele mesmo quem adverte, ao considerar que tal Separação, delineada de forma estanque, finda por fatalmente condenar tais poderes à luta e, como sempre, um estará menos armado que seu rival e será absorvido por ele, o que, inclusive, já conduziu a França, conforme sua própria observação, à tirania de uma Assembleia em uma ocasião e, em outra, ao despotismo de um Imperador

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Há de se perceber, por fim, que essa vertente de pensamento acerca da Separação de Poderes é a que, nos tempos atuais, tem recebido as mais profundas críticas, as quais, ainda que sem se lançarem de forma mais detida e profunda ao exame da conformidade ou não dessa concepção com a doutrina contida em O Espírito das Leis, são dirigidas, quase unanimemente, contra o próprio Montesquieu.

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Em qualquer caso, entretanto, tal forma de pensar e conceber a Separação de Poderes, seja proveniente da pena de Montesquieu ou da concepção de Rousseau – mas certamente decorrente dos debates que se procederam no antro da Assembleia de 1789 –, tenha ou não as consequências alardeadas por Duguit – mas com certeza de difícil aplicação, sem turbulências, no mundo atual –, viria a constituir, daí por diante, ao lado da outra vertente que decorre do também fundamental debate que se verificou em torno da Constituição dos Estados Unidos da América, um dos polos norteadores de todo o tratamento que as Constituições iriam dar à ideia da Separação de Poderes, alçada já, de forma quase plena, à categoria de princípio constitucional.

182 FLEINER-GERSTER, Thomas. Teoria Geral do Estado, p. 481. 183 MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional, t. III, p. 383. 184

3.1.2 O Debate em torno da Constituição Norte-americana e dos Checks and

No documento A reserva de jurisdição (páginas 110-116)

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