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O PODER JUDICIÁRIO

No documento A reserva de jurisdição (páginas 180-186)

O PODER JUDICIÁRIO E A RESERVA DE JURISDIÇÃO

4 O PODER JUDICIÁRIO NO CONTEXTO DA SEPARAÇÃO DE PODERES 1 O Poder, os Poderes e os “Poderes” 2 Poder, Função,

4.3 O PODER JUDICIÁRIO

Já ficou bem definido, a partir da distinção entre as diversas acepções com que o termo Poder é utilizado, que quando falamos de Poder Legislativo, Poder Executivo ou Poder Judiciário estamos nos referindo a estruturas orgânicas ou a sistemas de órgãos do Estado, que são encarregados do desempenho das funções estatais ou, na expressão de Alessi, invocada por Grau, “centros ativos de funções”278

Deve-se esclarecer, desde já, que não estamos aqui rendendo homenagens a uma nomenclatura que possa se entender como fixa e absoluta – qual seja, Poder Judiciário –, tendo em vista que, como sabido, não se traduz tal expressão em uma constante nos ordenamentos constitucionais, mas apenas utilizando a mais comum das denominações empregadas para significar esta estrutura orgânica, à qual invariavelmente tem sido conferida a função de julgar. Assim, por exemplo, não obstante tal sistema de órgãos receba denominações distintas em diversas Constituições – como “autoridade judiciária” na França ou simplesmente “os tribunais” em Portugal –, ainda assim são sempre amparados, principalmente doutrinariamente, sob a denominação comum de Poder Judiciário ou Poder Judicial. Quanto à atribuição a tal estrutura da função jurisdicional, valemo-nos da obviedade já que, mesmo não desconhecendo que a atribuição de certa função a um determinado Poder seja obra exclusiva de cada Constituição, não nos pareceria

, pelo que não há qualquer dificuldade em se perceber o Poder Judiciário como esta estrutura orgânica ou sistema de órgãos aos quais se atribui a função jurisdicional.

278

lógico, nem razoável, que um ordenamento constitucional deliberasse pela instituição de um Poder Judiciário e não lhe atribuísse a função de julgar, ainda que teoricamente essa conduta não seja impossível. Desconhecendo, entretanto, qualquer ordenamento que tenha atribuído precipuamente ao Poder Judiciário, por exemplo, a função legislativa, seguimos tranquilamente pelo caminho do óbvio para afirmar que ao Poder Judiciário se atribui precipuamente a função jurisdicional.

De forma geral, tal estrutura orgânica se perfila ao lado dos demais Poderes, com status institucional assemelhado, integrando-se na harmonia e no equilíbrio que devem reger a convivência entre todos e sem prejuízo do exercício de sua função jurisdicional, o que se pode facilmente constatar da mera observação de alguns textos constitucionais.

A Constituição brasileira, por exemplo, já em seu artigo 2º proclama que “são Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”279, conferindo, no imediatismo da percepção, a ideia de que alçou estas três grandes estruturas orgânicas ao status de Poder para que, em igualdade de condições, cada uma desempenhasse uma função que lhe seria própria e adequada de forma autônoma e independente sem, entretanto, estarem separadas de forma rígida e estanque, razão pela qual impôs, ao lado da independência, a perspectiva de deverem ser harmônicas, passando uma nítida mensagem de equilíbrio político280

Na sequência constitucional, quando do trato específico de cada Poder, a Constituição evidencia e concretiza esta ideia inicial, dando a cada um – conforme anteriormente já acentuamos – uma função específica (ou mais de uma) a ser precipuamente exercida, sem prejuízo de outras atribuições destinadas ora a garantir sua própria independência, ora a limitar os demais Poderes, em busca da harmonia e do equilíbrio entre todos.

.

O Poder Judiciário aparece, pois, no texto da Constituição brasileira como um dos três Poderes da União, independente e autônomo em relação aos demais e situado no contexto de uma Separação de Poderes que prestigia a adequação

279 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 5 out. 1988. Disponível em:

<www.planalto.gov.br>. Último acesso em: 8 set. 2009.

280 Esta mensagem de equilíbrio político, como perceptível pelas só considerações anteriores, se

estende também aos órgãos que, não obstante não tenham recebido da literalidade constitucional o

status de Poder, são autônomos e independentes o suficiente para serem tidos como estruturas

orgânicas assemelhadas aos chamados Poderes do Estado, e cujo exemplo mais marcante e inconstestável é o Ministério Público.

orgânica por meio do exercício, por cada um, de uma função que com ele guarde afinidade institucional, mas, ao mesmo tempo, seja moldada pelo equilíbrio, o que se evidencia pela existência de mecanismos de controle entre os Poderes. Em outras palavras, o Poder Judiciário se situa no contexto de uma Separação de Poderes concebida em suas dimensões orgânico-funcional e política.

Esta posição do Poder Judiciário, no contexto de uma Separação de Poderes dimensionada sob seus aspectos orgânico-funcional e político, é observável na maioria dos ordenamentos constitucionais, não obstante as variedades de arranjos institucionais e as formas diversas em que se apresentam tais arranjos. Para que assim se perceba, basta uma breve passagem pelas Constituições de alguns Estados nacionais, independentemente de serem eles de feição presidencialista ou parlamentarista.

Na Constituição dos Estados Unidos, por exemplo, são contemplados os Poderes em sua clássica tripartição e, embora não haja uma declaração formal da Separação e do equilíbrio que deve nortear o relacionamento dos mesmos, cada um recebe uma função específica, a qual evidencia a busca da adequação orgânica e funcional, bem como atribuições diversas, que conduzem à percepção clara do controle recíproco que existe entre os mesmos. O Poder Judiciário, contemplado no artigo 3° e tal como modelado pela prática constitucional, se insere neste contexto de igualdade e independência em relação aos demais Poderes e, principalmente, de equilíbrio político.

A Constituição da República Federal da Alemanha também “não contém mandamento expresso da separação de poderes”, como lembra Hesse, e também “nada diz sobre equilíbrio dos poderes”281, o que não implica dizer que não haja

constituição de Poderes diferentes, além de coordenação e equilíbrio entre estes Poderes, como acentua o próprio Hesse282

Ao contrário, consagra, de forma aparentemente tripartida .

283

281

HESSE, Konrad. Elementos de Direito Constitucional da República Federal da Alemanha, p. 366. , a instituição dos Poderes independentes, sob o signo da coordenação e do equilíbrio, ao declarar

282 Cf. o que Hesse escreve sobre “Conteúdo e alcance do princípio da divisão de poderes na ordem

constitucional da Lei Fundamental” da Alemanha. Ibidem, p. 370-377.

283

A expressão “aparentemente tripartida” resulta da observação de que, não obstante mencione os três Poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário –, a adoção do sistema parlamentarista impôs a instituição de órgãos que, a rigor, poderiam ser tidos como Poderes diversos, autônomos e independentes. Assim, além do Poder Judiciário e do Parlamento Federal (Bundestag), consubstanciador do Poder Legislativo, aparecem de forma bem distintas e exercendo funções diversas o Presidente Federal (Bundespräsident) e o Governo Federal (Bundesregierung).

que todo poder do Estado emana do povo e ao proclamar, em seu artigo 20, que “o povo o exercerá por meio de eleições e outras votações e por intermédio de órgãos específicos dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário”284

Já na Constituição italiana, embora não se declare formalmente a existência dos Poderes, são instituídos órgãos destinados ao exercício das funções do Estado que bem correspondem a estas estruturas orgânicas. Assim, ali se encontram expressamente definidos o Parlamento, composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado da República, estabelecendo-se que “a função legislativa é exercida coletivamente pelas duas câmaras” (art. 70); o Presidente da República, que “é o chefe de Estado e representa a unidade nacional” (art. 87); o Governo, composto pelo Presidente do Conselho e pelos Ministros que, juntos, formam o Conselho de Ministros (art. 92); e a Magistratura, que “se constitui numa ordem autônoma e independente de qualquer outro poder” (art. 104), cujos magistrados exercem “a função jurisdicional” (art. 102)

. É no contexto desta Separação que se inclui o Poder Judiciário, que recebe um tratamento mais pormenorizado a partir do artigo 92, no qual se evidencia a sua inclusão neste sistema de independência, mas de harmonia e equilíbrio em relação aos demais.

285

Bastam tais colocações para evidenciar que o Poder Judiciário se situa, na Constituição italiana, no contexto de uma Separação de Poderes em que se prestigia a especificidade da função jurisdicional que lhe é atribuída, resguardando- se sua autonomia e independência para o exercício de tal função e decorrendo, das disposições constitucionais, o equilíbrio entre este e os demais Poderes.

.

A Constituição portuguesa, por sua vez, prefere falar em órgãos de

soberania em vez de se referir a Poderes, contemplando, entretanto, estruturas

orgânicas que como tais podem ser consideradas. No artigo 110, portanto, proclama que “são órgãos de soberania o Presidente da República, a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais” para, em seguida, estipular que “os órgãos de soberania devem observar a separação e a interdependência estabelecidas na Constituição” (art. 111). Ao tratar dos tribunais, o texto português acentua que “são

284 ALEMANHA. Lei Fundamental para a República Federal da Alemanha. 23 mai. 1949. Disponível

em: <http://brasilia.diplo.de/vertretung/brasilia/pt/Startseit.html>. Último acesso em: 8 set. 2009.

285

ITÁLIA. Constituição da República Italiana. 1 jan. 1948. Disponível em: <http://www.ecco.com.br/cidadania/const_italiana.asp>. Último acesso em: 8 set. 2009.

órgãos de soberania com competência para administrar a justiça em nome do povo” (art. 202)286

Novamente, o Poder Judiciário surge no contexto de uma Separação de Poderes que prestigia a dimensão orgânico-funcional, atribuindo-se-lhe uma função específica – função jurisdicional ou administração da justiça

.

287

Já a Espanha, que se denomina “monarquia parlamentaria” e, portanto, também apresenta distinção entre chefia de Estado e o Governo, institui estruturas orgânicas que se enquadram no conceito que adotamos de Poderes, quais sejam, a Coroa, as Cortes Gerais, o Governo e o Poder Judicial.

– que se insere nas exigências do equilíbrio político entre os Poderes (“interdependência”), evidenciando-se a sua dimensão política.

Como de tradição, o Rei, representante da Coroa, é o “chefe de Estado” (art. 56), ao passo que o Governo “exerce a função executiva”, que consiste, nos dizeres constitucionais, na direção de “la política interior e exterior” e da “administración civil y militar y la defensa del Estado” (art. 97). Já as “as Cortes Gerais exercem a função legislativa” (art. 66) e o Poder Judicial “la potestad jurisdiccional”, assegurando-se a “independencia de la justicia” (art. 117)288

Há, pois, uma nítida Separação de Poderes, atribuindo-se a cada uma das estruturas orgânicas tidas como tal uma função específica, de tal forma que ao Judiciário compete a função jurisdicional, que deve ser exercida em um contexto de igualdade e equilíbrio com os demais Poderes.

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A partir deste breve exame de alguns textos constitucionais, que abrangeu tanto Constituições que adotam o sistema presidencialista de governo quanto aquelas que adotam o parlamentarismo, já é possível concluir que, de forma geral, a estrutura orgânica que denominamos Poder Judiciário se apresenta ao lado dos demais Poderes, com status institucional a estes assemelhado, no contexto de uma Separação de Poderes que prestigia a independência, a harmonia e o equilíbrio.

Salientamos que a observação geral que aqui se faz não alcança a totalidade dos ordenamentos, já que sequer pretendemos alcançar as especificidades de cada arranjo institucional – o que, a rigor, seria impossível –,

286 MOREIRA, Vital. Constituição da República Portuguesa: lei do Tribunal Constitucional. 8. ed.

Coimbra: Coimbra Editora, 2008.

287 Ressalva-se que o termo “administração da justiça” não tem o sentido de função administrativa

que comumente se emprega no Brasil, mas de função jurisdicional em sentido próprio.

288

ESPANHA. Constitución Española. 6 dez. 1978. Disponível em: <www.gva.es>. Último acesso em: 8 set. 2009.

sendo que almejamos tão somente demonstrar como se situa o que se denomina Poder Judiciário no contexto da Separação de Poderes e no atual momento da evolução do Estado Constitucional.

Assim, evidentemente há casos que não se inserem na observação geral ou, pelo menos, merecem um exame mais detalhado e minucioso para que possamos adequadamente situar o Poder Judiciário ou mesmo constatar a sua real existência enquanto estrutura orgânica autônoma que mereça ser inserida no que aqui concebemos como Separação de Poderes.

O exemplo emblemático é o da França que, instituindo apenas o que chama de “Autoridade Judiciária”, parece não alçá-la efetivamente ao status de Poder, seja pela ausência, no texto constitucional, de uma estrutura organizada de forma autônoma e independente, seja pelo fato de que sua independência é assegurada apenas pelo Presidente da República (art. 64), seja pela circunstância de que seu órgão de administração superior – o Conselho Superior da Magistratura – está sob a direção do Presidente da República e do Ministro da Justiça e é formado preponderantemente por membros externos à magistratura (art. 65)289

Por esta razão e a partir da observação de Zaffaroni, se “permite afirmar que na França não é concebível o poder judiciário como poder independente”

, seja, enfim, por não se inserir no quadro de equilíbrio político entre os Poderes constituídos.

290. Tal

circunstância também não passa desapercebida por Pinto quando, ao acentuar os aspectos marcantes da estrutura judiciária francesa, destaca o “fato de o Judiciário não se apresentar como Poder autônomo, mas como órgão integrante do Poder Executivo, na medida em que se encontra subordinado ao Ministério da Justiça”, o que, inclusive, “causa espécie por ser a França o berço do idealizador do princípio da separação dos poderes (Barão de Montesquieu)”291

A despeito de existirem exceções, bem evidenciadas por casos emblemáticos como o francês, não nos afastamos da conclusão de que, de uma forma geral, o Poder Judiciário, tido como estrutura orgânica à qual se atribui a função jurisdicional, se integra na harmonia e no equilíbrio que devem reger a convivência entre os Poderes constituídos, sem prejuízo do exercício de sua função

.

289

FRANÇA. Constituição da República Francesa. 4 out. 1958. Disponível em: <www.assemblee- nationale.fr>. Último acesso em: 8 set. 2009.

290

ZAFFARONI, Eugenio Raul. Poder Judiciário: Crise, Acertos e Desacertos, p. 173.

291

PINTO, Flávia Sousa Dantas. O Judiciário Francês sob a Ótica de um Juiz Brasileiro. Revista

Direito e Liberdade/Escola da Magistratura do Rio Grande do Norte, ano 4, v. 8, n. 2 (2005). Mossoró:

específica – a função jurisdicional –, pelo que se insere no contexto de uma Separação de Poderes considerada em suas dimensões política e orgânico- funcional.

No documento A reserva de jurisdição (páginas 180-186)

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