nietzschiana, extremamente dinâmica e performática, marcada pelo predomínio do sujeito sobre o objeto da interpretação, o que implica na valorização do papel e das intenções do interprete.
A originalidade do método, ou dos métodos, do pensamento político que Arendt desenvolve, talvez decorra menos dos conceitos que ela lança mão, do que da forma como ela os desenvolve. A infidelidade interpretativa deixa de ser um obstáculo hermenêutico, na medida em que encontra coerência, e razão de ser, na autonomia do pensar independente (selbstdenken). Ainda mais porque, levando-se em consideração as reflexões de Theodor Adorno (2003, p. 18), “nada se deixa extrair pela interpretação que já não tenha sido, ao mesmo tempo, introduzido pela interpretação”. Nesse aspecto, o papel da imaginação criadora torna-se central em todo processo hermenêutico, pois “qualquer interpretação é a união criativa do intérprete com a coisa interpretada resultando num terceiro elemento além desses dois” (TILLICH, 2004, p. 21).
Assim, partindo do reconhecimento do modus operandi que Hannah Arendt emprega em sua escritura, nosso objetivo é indicar a maneira que ela constrói o percurso que vai da filosofia da vontade de Duns Escoto à liberdade da ação política, em outros termos, do modo que ela se apropria da teoria escotista a respeito da vontade à constatação da liberdade como fundamento da ação política. Trata-se da análise de um recorte teórico diminuto e específico, mas que se encontra no cerne da teoria política de Arendt, e que guarda desdobramentos nem sempre percebidos.
Para tanto, desenvolveremos, em linhas gerais, as diretrizes teóricas que orientam a filosofia da vontade de Duns Escoto, bem como a recepção dessas idéias no pensamento político arendtiano. Em seguida, pontuaremos os desdobramentos conceituais da passagem dessas concepções – já apropriadas pelo modus philosophandi de Hannah Arendt – para as implicações decorrentes da liberdade como fundamento último da ação política.
3.2 A autonomia e a primazia da vontade sobre o intelecto:
John Duns Escoto, o ilustre Doutor Sutil, é um dos grandes nomes da escolástica inglesa do final do século XIII. A novidade que perpassa às obras de Escoto (em especial Ordinatio35), e que por certo chamou a atenção de Hannah Arandt, foi sua original
35 Admite-se que Duns Escoto tenha comentado por três vezes os Libri quattuor sententiarum de Pedro
Lombardo em Oxford, Paris e Cambridge. Classificam-se, por sua vez, esses comentários em três classes: 1) o texto mais originário que nos foi transmitido é o comentário de Oxford, chamada Lectura Oxoniensis, ou
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interpretação da vontade. Ele opôs ao reconhecido intelectualismo de Tomás de Aquino – que considerava a vontade submissa e dependente dos dictamem da reta razão – a argumentação que defendia o caráter radical da autonomia e primazia da Vontade sobre o Intelecto. Nas palavras de Arendt:
se São Tomás argumentara que a Vontade é um órgão executivo, necessário para executar os insights do Intelecto, uma faculdade meramente “subserviente”, Duns Scotus sustenta que “Intellectus... est
causa subserviens voluntatis”. O Intelecto serve à Vontade, fornecendo a ela seus objetos, bem como o conhecimento necessário; ou seja, o Intelecto torna-se, por sua vez, uma faculdade meramente subserviente. Precisa da Vontade para direcionar sua atenção e só pode funcionar adequadamente quando seu objeto é “confirmado” pela Vontade. Sem esta confirmação, o Intelecto deixa de funcionar. (ARENDT, 1991, p. 281)
Desse modo, Hannah Arendt considera que Duns Escoto teria sido o primeiro pensador que conseguiu captar de maneira correta e original os aspectos específicos do fenômeno do Querer. Entretanto, as avaliações superficiais e desatentas que foram transmitidas pela tradição “infelizmente acabaram por obliterar enormemente a originalidade do homem e a significância de seu pensamento” (ARENDT, 1991, p. 281). Por isso, é importante lembrar que Duns Escoto tornou a Vontade superior ao Intelecto, muito antes de Immanuel Kant ter lançado as diretrizes de sua Crítica da razão Prática, o que por si só já revela o caráter seminal de suas reflexões. Arendt escreve que, “na história da filosofia, somente Kant pode se igualar a Duns Scotus em seu compromisso com a liberdade” (1991, p. 295).
Contrariando a tradição escolástica, Escoto ampliou de tal modo a importância da Vontade, tornando-a uma faculdade tão ou mais importante que a Inteligência, que fora levado a considerar que até mesmo Deus age contingentemente. Segundo Émile Bréhier (1931, p. 176), Escoto considera que os acontecimentos da “criação, encarnação, imputação dos méritos de Cristo são, da parte de Deus, atos livres no sentido pleno da palavra, isto é, que poderiam não haver sucedido e dependem da iniciativa de Deus, que não tem outras razões que sua própria vontade. Escoto encontrava-se, portanto, em completa discordância com o simplesmente Lectura, que se constitui, possivelmente, de transcrições de anotações, as quais Escoto teria usado quando do comentário das Sentenças; 2) relatos fornecidos por discípulos que tomavam notas, em parte posteriormente aprovadas, das lições de Escoto em Paris; tratam-se das chamadas Reportationes, também conhecidas como Reportata Parisiensia; 3) o comentário inacabado, saído da própria pena de Duns Escoto, registrando definitivamente suas idéias e preparado para a publicação. Essa obra, redigida, pelo menos em sua maior parte, em Oxford após o retorno de Escoto à Inglaterra, é chamada em antigas edições Opus Oxoniense, tendo ficado posteriormente conhecida como Ordinatio (GUERIZOLI, 1999, p. 19 e 20).
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princípio anselmiano do credo ut intelligam, pois quaisquer esforços para escrutar os desígnios de Deus, esbarravam nos intransponíveis obstáculos que dizem respeito à contingência de sua Vontade.
Se a vontade divina – da qual o homem é uma centelha – é essencialmente marcada pela contingência, como seria possível então conciliar vontade e natureza? Ou de modo estritamente filosófico, como seria possível conciliar liberdade e necessidade? À resolução desta questão, Duns Escoto destinará as viae, isto é, os caminhos, as cadeias de argumentos corretos, de sua metafísica da vontade.