CAPÍTULO 1. UM CAMPO EM CONSTRUÇÃO
1.13 A base da pirâmide
Em uma sociedade lastreada por produção, consumo e especulação financeira é natural que a enorme parcela da população mundial com pouco ou nenhum acesso ao consumo das facilidades contemporâneas seja motivo de interesse por parte dos agentes econômicos, além daqueles que se ocupam das causas sociais. De fato, um debate em que todos os agentes, aparentemente, têm interesse: governos, empresas e instituições em geral. Trata-se de ampliar, sob os mais diferentes motivos, a população de incluídos no sistema vigente, trazendo para cima da mesa – de modo a alimentar os maiores, que sempre precisam de mais energia para realizarem suas conquistas e estenderem a sua dominação - aquilo que se dá por baixo dos panos: um fantástico volume diário de transações de natureza econômica na base da pirâmide social (FARIA, 2006).
Do ponto de vista dos agentes econômicos globais, estratégias de ação voltadas à base da pirâmide são uma nova oportunidade de voltar a crescer em casas de 2 dígitos em um mundo inundado de mercadorias. Necessário apenas adaptar ou pensar novos produtos, criar novas marcas (não convém perder a freguesia que requer certas exclusividades), desenvolver novos modelos de negócio e estabelecer processos de produção e distribuição em larga escala.
Talvez pensar em impactos ambientais, onde houver regulamentação nesse sentido. E capitalizar os resultados sociais, medidos em termos de ampliação do consumo - que pode ser tomada como indicativo da erradicação da pobreza. Nenhuma palavra, no entanto, sobre a erradicação de pequenos comércios e empresas locais que atendem a esse mercado muito antes dele representar valor para os grandes comerciantes (FARIA, 2006).
Em geral, como bem coloca Prahalad (2005):
[...] a abordagem tradicional para criar a capacidade de consumo entre os mais pobres tem sido prover produtos e serviços de forma gratuita. Isto tem os contornos da filantropia. [...] a caridade pode ser agradável, mas raramente ela resolve o problema [da pobreza] em larga escala e de forma sustentável (PRAHALAD, 2005, pg. 16).
O que se busca, assim, é incluir esta massa de excluídos sociais no mercado, como consumidores, compreendendo as particularidades que os envolvem e as potencialidades que representam. Diversos programas sociais serão montados para viabilizar isso e, gradualmente, como imaginam os agentes econômicos e seus parceiros, o progresso chegará para todos.
A entrada no mercado da população da base da pirâmide social, no entanto, não atingirá a todos. Não há capacidade empresarial para isso, nem recursos que bastem. A inclusão social, se não substituída por uma proposta de criação de novas realidades sociais com protagonismo social, não se sustenta. Incluir mais pessoas pela via do consumo e continuar deixando outras de fora em um cenário de crescimento populacional exatamente nessas regiões mais pobres; aumentar a pressão sobre recursos naturais em um planeta já alavancado além da conta; produzir mais lixo de consumo e pós consumo; e tirar recursos dessa população que poderiam estar sendo investidos em melhoria da sua qualidade de vida a longo prazo, não parece exatamente um caminho sustentável.
No entanto, o acesso da base da pirâmide a condições de vida consideradas dignas pelos padrões atuais é, sim, essencial. Pode ser mesmo uma oportunidade para se repensar a vida fora do eixo das mercadorias, assegurando o protagonismo social e os retornos pretendidos pelos diversos agentes (PRAHALAD, 2005). Mesmo que as iniciativas voltadas a criar acesso ao consumo na base da pirâmide tenham inspiração financeira apenas – uma realidade inescapável (COMPTE-SPONVILLE, 2005) - elas podem trazer benefícios
inestimáveis à humanidade (HART, 2005). Uma percepção, no entanto, que não considera a história – ou a considera parcialmente, de modo a que possa ser útil.
Parece assim razoável, pela lógica do mercado e seus associados, a avaliação de que o mercado na base da pirâmide – o que corresponde a aproximadamente 4 bilhões de pessoas (PRAHALAD, 2005) – apresenta potencialidades possíveis de serem exploradas. “A colaboração entre os mais pobres, a sociedade civil, o governo e as grandes empresas podem criar os maiores e mais promissores mercados do mundo. Larga escala e empreendedorismos estão no coração da solução para a pobreza” (PRAHALAD, 2005, pg. 4). De fato, neste mercado por tanto tempo ignorado parecem residir as melhores perspectivas de crescimento econômico - dentro dos parâmetros atuais, que dão conta de mercados saturados em ciclos cada vez mais curtos. Em defesa da globalização, afirma (PRAHALAD, 2005, pg. 5): “Os pobres não podem participar dos benefícios da globalização sem um engajamento ativo e sem o acesso a produtos e serviços que tenham padrões de qualidade globais.” Mas, é preciso perguntar em que medida esse crescimento poderá se traduzir em desenvolvimento social quando os padrões de consumo de alguns países permanecem acima do que eticamente teriam acesso em termos de apropriação de recursos naturais (HART, 2005; PRAHALAD, 2005).
No entanto, justamente por encontrarem-se ainda em estado evolutivo, sem grandes comprometimentos de capital instalado, os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento “são as incubadoras idéias para tecnologias e produtos ambientalmente sustentáveis que podem um dia beneficiar o mundo inteiro.” (HART, 2005, pg. 135). Em outras palavras, enquanto considerar a base da pirâmide social parece custosa demais nos países desenvolvidos, a construção de um novo modelo de acesso social pode ser uma solução factível em países pobres. Isso seria bem mais razoável do que as soluções sem escala adotadas hoje por parcerias entre governos e iniciativa privada, que adiam o diálogo e o confronto de prioridades, principalmente se forem privilegiados aspectos sociais e ambientais. “De fato, elaborar estratégias para a base da pirâmide carrega o potencial de dissolver o conflito entre os proponentes do livre comércio e capitalismo global por um lado, e os defensores do meio ambiente e sustentabilidade social do outro.” (HART, 2005, pg. 158). No entanto, as estratégias são auto-centradas e não respondem às contradições nem às deteriorações ambiental e social que experimentam hoje as sociedades contemporâneas; simplesmente, tocam a vida – a de sempre, apenas com cuidados extras que seguem sendo reivindicados por diversos segmentos sociais ou que determinam as condições de acesso a determinados mercados.