• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1. UM CAMPO EM CONSTRUÇÃO

1.11 Sinalizações: a crise de 2008 e outras crises

Um fato relevante deflagrado - e ainda em curso - no decorrer do desenvolvimento deste trabalho evidencia bem a necessidade, cada vez mais pressentida, de se enfrentar questões de fundo complexas e entrelaçadas por poderes que se afirmam e se ocultam com grande habilidade: a tragédia da economia global de 2008. Provocada pela evolução em escala global da prática da esperteza e da especulação, da fraude, da agiotagem e da alavancagem artificial - e guiada por forças de um mercado paralelo, sem regulamentação, oportunista,

inconseqüente e muito bem remunerado, a crise de 2008 foi decidida em uma mesa de jogo. Mas talvez pudéssemos dizer que o que aconteceu foi a superposição de inovações financeiras – traduzidas em novos produtos – sem que o risco sistêmico fosse considerado. São infinitas, como se vê, as possibilidades de se olhar o mesmo fato, o que aponta para a dificuldade de tratar sustentabilidade com, pelo menos, certa isenção. De todo o modo, não seriam os agentes econômicos interessados que chamariam a atenção para a necessidade de se avaliar melhor os riscos sistêmicos.

Ávidos por novas modalidades de lucro, as mentes mais brilhantes do mercado financeiro mundial se debruçaram sobre equações e modelos - matemáticos e estatísticos – e conseguiram tornar os ativos financeiros muito superior aos ativos reais. Em outras palavras, um fluxo real de pagamentos de hipotecas servia de base para inúmeros títulos de seguros e re-seguros amplamente atestados pelas agências competentes como papéis de baixo risco. No entanto, como o próprio nome diz – sub-prime – este mercado estava focado em um público específico: os cidadãos americanos de baixa renda, segmento que constava como promissor em diversas análises de mercado (PRALAHAD, 2005). Quando as hipotecas pararam de ser pagas, toda a complexa estrutura de títulos que se equilibrava precariamente sobre eles, sobre seu lastro real, ruiu, pondo em risco todo o funcionamento dos mercados financeiros, já que estes ativos, que ocupavam grande parte da carteira dos bancos, agora passavam a ganhar o status de “ativos podres”. E enquanto os governos buscam às pressas a melhor maneira de apagar este incêndio com o dinheiro dos contribuintes, os contratos dos executivos com seus empregadores – estabelecidos sob condições normais de mercado - obrigavam ao pagamento de bônus milionários. Contradições legais no âmbito de um sistema cuja lógica se volta, exclusivamente, para a geração de lucro privado.

Esta foi bem mais do que mais uma demonstração de que o crescimento econômico não pode ser acelerado para além das capacidades econômicas dos mercados: foi uma demonstração de que os agentes não têm compromisso com o desenvolvimento social e requerem fiscalização - e os mercados requerem regulamentação - sob pena de que a diminuição da qualidade vida continue a ser o preço a ser pago pelos espetáculos do capitalismo financeiro. No entanto, não nos enganemos; a regulamentação dos mercados não será capaz de prevenir novas crises porque, de fato, elas estão na gênese do sistema social dominante.

Silva (2007) aponta, a propósito das análises econômicas, que os valores e as instituições são sistematicamente deixados de fora, isolados em relação ao foco principal, econômico, dando lugar a um racionalismo amoral e voltado para interesses particulares. A afirmação da preponderância de resultados econômicos como realidade última à qual se subordinam todas as outras realidades que integram o cotidiano contemporâneo leva a uma atrofia de valores, influencia decisivamente a qualidade da vida em sociedade, ameaça o meio físico e desafia a busca de equidade entre os povos. A prevenção da critica, a chantagem política, a exploração do medo e as ameaças constantes à sobrevivência e à perda de padrão de vida praticado pelas grandes organizações tem destruído a possibilidade da criação de novas realidades e aprofundado a dependência e a alienação tanto ao nível do indivíduo como da sociedade. A crise de 2008, ao tornar os governos reféns, acabou favorecendo empresas que vinham acumulando perdas ano a ano e que estavam fora da origem da crise, como foi o caso de algumas empresas do setor automobilístico.

Essa discussão, inesgotável, leva inevitavelmente à questão de se o capitalismo tem - ou deveria ter - a preservar alguma moralidade. Compte-Sponville (2005) defende que a economia – que diz respeito à produção, consumo e troca de bens - não é mais imoral do que uma tempestade que inunda vilas e aldeias. Por mais que todos pudessem desejar um dia de sol, ou que não existissem recessões, os fatores que levam à essas realidades não seguem nenhum tipo de moral. Na medida em que não são de natureza moral, não podem ser imorais. A economia, como a metereologia, seriam amorais: os resultados que decorrem da interação dos agentes na economia não respondem a desejos ou inclinações pessoais, em sua totalidade, mas às regras e ao funcionamento da própria economia. Nesse sentido, “o capitalismo não é moral; mas também não é imoral; ele é – e é total, radical, definitivamente – amoral.” (COMPTE-SPONVILLE, 2005, pg. 79). Na medida em que os indivíduos se mostram egoístas, ao colocarem seus interesses particulares à frente de interesses coletivos, também o comunismo – que se propunha a introduzir uma moral na economia - acabou por demonstrar a amoralidade das forças econômicas: tornou-se totalitário, como resposta ao fato do coletivo vir sempre em segundo plano em relação ao individual, buscando “impor pela coerção o que a moral logo se mostrou incapaz de obter” (COMPTE-SPONVILLE, 2005, pg. 81).

O capitalismo não exige moral para funcionar. As exigências que apresenta aos indivíduos são muito baixas: sejam exatamente o que são, auto-interessados, que tudo sairá bem. “De um ponto de vista estrutural o capitalismo é um sistema econômico baseado na

propriedade privada dos meios de produção e de troca, na liberdade do mercado e no trabalho assalariado.” (COMPTE-SPONVILLE, 2005, pg.85). Trata-se de um sistema que busca acumular riquezas. Não seria correto, no entanto, afirmar que isso basta à civilização para que esta se torne humanamente aceitável. Por esse motivo “precisamos também do direito e da política. E como a política e o direito também não bastam, é necessário além disso a moral, o amor, a espiritualidade.” Mas, “não peçamos à economia para fazer as vezes deles!” (COMPTE-SPONVILLE, 2005, pg.85).

Olhando de uma outra perspectiva, Brom (2006), citando Touraine, afirma:

Racionalidade e libertação são duas partes indissociáveis e interdependentes da modernidade [...]: a primeira pressupõe objetivação, a segunda subjetivação. É precisamente no desequilíbrio dessa relação [...] que a proposta (de modernidade) incorre em falha retumbante” (TOURAINE apud BROM, 2006, pg. 14).

De fato, a tensão social e ambiental provocadas pela afirmação intransigente dos interesses econômicos privados tem se prolongado demais, degenerando ecossistemas, sistemas de valores e aprendizagens sociais que talvez não possam mais ser restabelecidos. Cabe indagar, no entanto, se estaria em nossa natureza agir contra tudo isso ou se, mesmo conscientes das ameaças, daremos seqüência à vida como ela é, deixando para o futuro o desconto das duplicatas sociais e ambientais que estamos emitindo a descoberto.

Nas palavras firmes de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia de 2001, em artigo no The Guardian (STIGLITZ, 2008): “a crise financeira é fruto de um padrão de desonestidade por parte das instituições financeiras e de incompetência por parte dos que fazem políticas públicas”. Anteriormente, Stiglitz já havia feito a crítica da globalização e sinalizado que o seu gerenciamento não estava funcionando para os mais pobres, estava comprometendo o meio ambiente e não estava contribuindo para a estabilidade da economia global (STIGLITZ, 2002). A referência era, em especial, às instituições encarregadas desse gerenciamento: o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio. Há, na avaliação atual feita no artigo do The Guardian, uma outra sinalização, desta vez implícita: a necessidade de serem rediscutidos valores e interesses sociais, limites e responsabilidades dos agentes sociais, públicos e privados – por meio da manifestação social direta ou por representação política.

Paul Krugman (2008), prêmio Nobel de Economia de 2008, aponta que a crise financeira atual teve o seu epicentro no sistema bancário paralelo - que vinha se movimentando com muito maior desenvoltura do que os bancos tradicionais uma vez que não estava sujeito a certos regulamentos e suas despesas, oferecendo assim aos investidores condições financeiras mais vantajosas ancoradas em imagens de solidez institucional, porém, com muito menor proteção caso algo saísse errado. Os chamados investimento de risco, vendidos em roupagem vistosa e oferecendo retornos atraentes para uma elite de investidores corajosos. De certo modo, uma versão anglo-saxã do tão alardeado jeitinho brasileiro para ignorar limites, contornar regulamentos, prevenir despesas, distorcer valores e criar artifícios para obter ganhos acima da legalidade e da capacidade da economia. Uma espécie de globalização da chamada Lei de Gerson.

No entanto, firmando uma posição, pondera que num mundo cada vez mais globalizado a ideologia de livre mercado se estenderá a economias abertas, com empresas gigantes levantando suas unidades produtivas onde lhes for circunstancialmente mais favorável. Com relação às conseqüências sobre economias em desenvolvimento, no entanto, considera que:

Esses avanços não resultaram de qualquer tipo de ajuda de pessoas bem intencionadas no Ocidente [...]. Tampouco foram conseqüências de políticas benignas de governos nacionais, que [...] continuavam tão insensíveis e corruptos como sempre. Na verdade, suas causas foram as iniciativas indiretas e não intencionais das desalmadas empresas multinacionais e dos vorazes empreendedores locais, cujo interesse exclusivo consistia em aproveitar as oportunidades de lucro oferecidas pela mão-de-obra barata. Não foi um espetáculo edificante; mas, não importa a torpeza dos motivos, o desfecho foi o deslocamento de centenas de milhões de pessoas da pobreza abjeta para algo que, em muitos casos, ainda era terrível, mas, mesmo assim, substancialmente melhor (KRUGMAN, 2008, pg. 28).

Impossível não notar a consciência oblíqua em relação ao preço a ser pago por aumentos marginais – e aleatórios - de qualidade de vida.