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CAPÍTULO 2: A PERSPECTIVA ORGANIZACIONAL

2.2 O Espaço da Sustentabilidade nas Organizações

Um pouco por conta de sua complexidade – mas em grande parte pelo grau de dificuldade para integrar-se a um cotidiano pontuado por interesses de fundo econômico - sustentabilidade permanece circunscrita, no nível das organizações, à periferia dos processos decisórios. A lógica econômica já está estabelecida, constituindo-se na natureza própria do ambiente organizacional. Trata-se então de enfeitá-la com linguagens de sustentabilidade que, no entanto, se mostram insuficientes para dar significado e relevância à ação organizacional. Não se pretende, em absoluto, nas organizações, abdicar de resultados econômicos, ainda que estes – e os processos para alcançá-los - se mostrem incompatíveis com as limitações do meio físico e com interesses do ambiente social. Nem mesmo se pretende abrir mão do relativo

conforto propiciado pela adoção de referências de uma já assimilada – e legitimada - produção teórica de base gerencialista, autoritária e sem tradição crítica. Em outras palavras, vai tudo muito bem enquanto se trata de pensar melhoria de eficiências; mas a conversa emperra quando se questionam abordagens, estratégias, insumos, objetivos e operações inteiras à luz de seus significados, impactos e responsabilidades sobre questões que ameaçam a vida e afligem a sociedade.

Em grande parte por não saberem mesmo como isso se viabilizaria – e se articularia com as certezas organizacionais de plantão - as pessoas que atuam no campo não parecem cogitar seriamente encarar sustentabilidade como oportunidade real de reavaliação da missão organizacional diante de um sentido social - ou papel social a ser exercido - para quem, efetivamente, participa e influencia a dinâmica social, para o bem e para o mal. Em outras palavras, sustentabilidade tem sido pensada perifericamente aos negócios a partir do umbigo organizacional, das demandas de lucro e não das demandas por equidade, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável cujo encaminhamento nos implique como protagonistas, não como coadjuvantes.

Questões objetivas de sustentabilidade, que apontam para responsabilidades da organização e de alguns de seus públicos, esbarram em pragmatismos convenientes e visões de mundo seletivas. Não parecem, assim, à primeira vista, factíveis – e podem derivar, à falta de melhor argumento, para serem consideradas como um tipo novo de ameaça comunista. A não ser que sejam introduzidas por grandes líderes, quando então soam como visão de futuro - nessa enorme capacidade do sistema capitalista de absorver, sem efeitos colaterais para a sua continuidade, a sua própria critica.

Algumas construtoras, por exemplo, já fazem o planejamento de um novo empreendimento imobiliário levando em conta a preservação de áreas verdes no entorno, economias de água e energia e mesmo a opção por projetos e materiais de construção com melhor perfil ambiental. Mas estranham se a conversa se ampliar para que sejam considerados impactos do empreendimento no trânsito e na qualidade de vida local; ou se o projeto for questionado quando ao dimensionamento dos espaços destinados ao viver cotidiano; ou se houver uma ponderação de que o trabalho previsto no empreendimento deva ser pensado de modo a criar condições para minimizar o risco do desemprego ao final do projeto. Criaria estranheza perguntar se toda a madeira a ser usada no empreendimento, desde as suas fundações, poderia ser certificada - proveniente de manejo florestal; ou se para a aprovação da

obra houve qualquer tipo de prevaricação ou corrupção, mesmo sob aparência legal. Nenhum desses pontos consegue ainda conversar, com um mínimo de intimidade, com a lógica econômica que determina os projetos de engenharia. A visão dominante é a da geração de lucro e todas as questões, independente de seus méritos intrínsecos, só se legitimam a partir dela.

O mesmo se dá em relação a instituições financeiras que não ligam para a relevância e conseqüências sociais e ambientais de seus empréstimos, desde que sejam rentáveis. E em relação a gráficas, que assumem que os impactos ambientais são inerentes e permanecem sem inovar, restritas a melhorias em circuitos fechados de benchmarkings. E em relação a empresas que trabalham com commodities, que não costumam pensar nos custos sociais e ambientais de suas operações internacionais, propondo, como ilusionistas, compensações que, no entanto, não compensam. Enfim, sustentabilidade – como proposta que permite reconhecer e buscar alternativas para conseqüências da busca de objetivos que implicam diferentes agentes – tem limites muito claros e bem delimitados nas organizações.

Uma outra maneira de olhar para a questão da insistência da ação no campo do permitido é assumir sustentabilidade como um ingrediente do imaginário organizacional moderno, como afirma Freitas (2005), para quem as organizações desenvolvem mensagens apropriadas e convenientes a um determinado momento histórico, incorporando as preocupações e demandas sociais latentes e manifestas. Estas mensagens ganham força de verdades, são repetidas à exaustão no piloto automático e, na maior parte das vezes, não logram evoluir para ações socialmente relevantes, ainda que, num contexto de cooptação e auto-proteção, assim sejam consideradas pelos agentes implicados. São desprovidas de alma, embora racionalmente estruturadas. Nesse sentido, a análise de Enriquez (1997) sobre o imaginário motor e o imaginário enganoso pode ser de grande valia para se compreender essa dinâmica, na medida em que admite a possibilidade real do discurso ser compatível com a prática, dando consistência a uma mudança social - ou ser apenas um mecanismo simbólico de gestão da imagem organizacional.

Há discursos que levam à prática de algo diferente – e a novas construções de realidades - e há discursos que apenas se mostram esquizofrênicos em relação à identidade manifesta da organização, sem que qualquer realidade se altere. No entanto, essa é apenas mais uma das dificuldades para se avaliar a qualidade da ação organizacional em relação à sustentabilidade. De fato, são tantas as possibilidades de se olhar o que as organizações estão

fazendo em termos de sustentabilidade que o sentido de coerência e legitimidade parece nos fugir a todo o momento. Olhando diretamente para uma organização haverá, em dado momento, esforços em direção à sustentabilidade e seus resultados convivendo com inúmeras insustentabilidades, de modo que qualquer afirmativa sobre a consistência e legitimidade da ação organizacional se mostra imediatamente vazia e desprovida de sentido. Poderemos dizer que uma determinada organização é sustentável – ou não é sustentável - diante da manifestação e convivência das contradições inerentes à sua ação no mundo? Talvez não se possa mesmo responder a essa pergunta usando uma lógica linear mas uma lógica da complexidade. Não se trata, assim, de ser ou não sustentável, mas de ser e não ser sustentável ao mesmo tempo. Nesse sentido, o único ancoramento mais sólido que uma organização poderá dispor para se envolver com sustentabilidade diz respeito à sua capacidade de ser com seus públicos e com o sentido de bem público. Apenas daí parece ser possível extrair legitimidade e consistência para escolhas que, entretanto, sempre serão as melhores nas circunstâncias.

No plano das organizações, no entanto, a ação que leva em conta sustentabilidade – apesar de manter mínima e convenientemente a referência do Relatório Brundtland – assume pressupostos, dimensões e conteúdos bem particulares. A premissa assumida neste trabalho é a de que sustentabilidade no plano organizacional se articula com as referências e o debate em curso no plano da sociedade ou não se realiza enquanto proposta. Uma sustentabilidade privada não tem relevância e se presta a interesses em geral de baixa transparência; não se abriga no mundo e, portanto, não tira dele um sentido válido que possa acomodá-la (BAUMAN, 2009).