4 RELAÇÕES ENTRE AS FORMAS DO DISCURSO CITADO E A
4.3 O discurso citado e a representação do pesquisador
4.3.9 A busca e o fracasso do compilador de textos
Chartier (2002), ao conceituar representação cultural, explica que o processo de construção de imagem sobre o mundo é realizado por modos de relação do sujeito com a sociedade e que isso desenvolve diferentes realidades. O historiador explica, ainda, que, na segunda relação do pesquisador com o mundo social, há uma identidade social que classifica a figura de um compilador de textos.
A partir disso, considerando nossa proposta de relacionar os diferentes modos de escrita acadêmica com a formação da representação do pesquisador, tomamos essa imagem do compilador como aquele que desenvolve um trabalho acadêmico estruturado por uma articulação entre o dizer do pesquisador e os dizeres que são citados.
Nossa classificação, porém, visa demonstrar exemplos de textos que iniciam um processo de compilação, mas não demonstram consolidar essa característica, não enfrentando as dificuldades do uso da palavra do outro e consequentemente, fracassando enquanto compilador.
O nosso excerto é um recorte da escrita do primeiro capítulo da tese 01. O trecho que selecionamos da tese apresenta seu dispositivo teórico e o que pretende desenvolver no trabalho a partir da relação entre ideologia e inconsciente.
Excerto 20 – Tese 01 - Conceito CAPES 07
1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 – 8 – 9 – 10 – 11 – 12 – 13 – 14 – 15 –
O nosso dispositivo teórico busca ler o material, o relato dos brasileiros deportados, através do referente entre a ideologia e o inconsciente, a saber, o mecanismo da identificação. Com isso, propomo-nos realizar aquilo que Michel Pêcheux destaca em Les
Vérités de la Palice (Semântica e Discurso): que a ideologia que não deve ser pensada sem referência ao registro do inconsciente.
Para nós, o mecanismo da identificação é o referente (bedeutung) que produz o lugar de
contradição entre o terreno da ideologia e o terreno do inconsciente. A identificação como o referente daquilo que pertence ao mesmo tempo à ideologia e ao
inconsciente, permite explorar a ordem que sustenta os jogos do mesmo no diferente. Esse referente, no entanto, não constrói o mesmo sentido (sinn), já que o terreno da ideologia não é o mesmo do inconsciente.
A psicanálise trabalha o saber disjunto da verdade e análise de discurso a evidência do sentido disjunta do ser. Nomeamos, assim, o primeiro capítulo do trabalho como identificações, articulando aquilo que é bedeutung para os terrenos, buscando encontrar o nosso sinn. O referencial é também da ordem do nome próprio.
O excerto inicia, na linha 1, uma explicação de como pretende relacionar os conceitos aos quais faz referência e sua proposta de investigar o "relato dos brasileiros deportados", linha 1, porém é interessante verificar que, novamente, são destacados os conceitos teóricos fundamentais para a pesquisa, "ideologia e o inconsciente", linha 2, novamente sem explicações, conceituações e mesmo explicação de como os termos serão utilizados. Na realidade, a proposta é apresentada como realização de um procedimento que o autor referenciado destaca em uma de suas obras "Michel Pêcheux destaca em Les Vérites de La Palice (semântica e Discurso)", linhas 3 e 4.
Essa forma de retomar toda a obra do autor citado evidencia uma tentativa de explicar o que realmente é a proposta de trabalhar com os conceitos que são citados no excerto, porém, vemos que a proposta do pesquisador está muito colada a dos autores que ele faz referência, conforme verificamos nas linhas 4 e 5.
A continuidade do excerto é importante, porque destaca um momento de escrita em que verificamos uma implicação maior do pesquisador ao demarcar a expressão "Para nós" na linha 6, um procedimento que desenvolve o sentido de aproximação do pesquisador de seu trabalho e apresenta uma nova tentativa de quem escreve explicar os conceitos que faz referências no texto.
Com isso, observamos que há uma tentativa de se impor junto ao texto, mas que não transcende ainda o nível de paráfrases sinonímicas e de equivalência10. Além de retomar conceitos não explicados e citá-los novamente sem contextualização, como o caso de "referente", "sentido", "ideologia e "inconsciente" (nas linhas 9 a 11).
Após a paráfrase desenvolvida entre as linhas 9 a 11, aquele que escreve apresenta outra perspectiva teórica, a psicanálise, descrevendo a área de atuação dessa área de estudo em relação ao "saber disjunto da verdade", linha 12, um conceito que novamente não é explicado e tem apenas sua referência associada à área sem vinculação há algum autor.
Nesse parágrafo do excerto, o pesquisador faz uma diferenciação entre o trabalho da psicanálise com o "saber disjunto da verdade" e a característica da análise do discurso em evidenciar o "sentido disjunto do ser". Como o excerto é o início do primeiro capítulo, vemos, na apresentação da proposta do capítulo da tese, nas linhas 13 e 15, expressa a ideia de justificar a nomeação do capítulo em "identificações", o que explica, de certa forma, qual é o objetivo do capítulo.
O excerto, porém, evidencia uma característica de escrita que não esclarece a necessidade de apresentar diferentes conceitos e abordagens dos conceitos de "identificação", "ideologia" e "inconsciente", bem como retoma conceitos de áreas, aos quais não são relacionadas com autores, como no caso da psicanálise, e que se estrutura, conforme verificamos, nas últimas linhas (14-15) do excerto, com a demarcação do dizer "buscando encontrar o nosso sinn", sem explicar o que é realmente “sinn”, considerando que, mesmo traduzido para "sentido", não há filiação a uma vertente ou concepção e apresentação de uma proposta de utilização desse conceito. Há, de forma geral, a descrição de diversos conceitos de duas áreas de estudos e demonstrações de como elas se opõem.
Por fim, a análise evidencia, novamente, que as formas de utilização e demarcação do discurso outro, no processo de escrita, estão relacionadas com a formação da representação que o pesquisador desenvolve sobre os discursos que faz remissão em sua investigação, seja para reflexões teóricas, seja para análises, seja, ainda, para processos de categorização.
Desenvolvemos, no próximo tópico, uma reflexão sobre essa relação de discurso citado e representação, antes de apresentar as consequências disso e desenvolvermos nosso último objetivo de relacionar esses processos com a construção da concepção do sujeito sobre ciência e/prática científica presente na universidade.
10Para Fuchs (1985), as paráfrases são divididas em: a) a paráfrase como equivalência formal, toma como base os
postulados lógicos e a condição de verdade; b) a paráfrase sinonímica, que se estabelece por critérios semânticos quanto ao primeiro e o enunciado segundo e c) a paráfrase por reformulação, é destacada como uma atividade de reformulativa que varia conforme os sujeitos e as condições de sua produção.