• Nenhum resultado encontrado

Escrita, representação e concepção de ciência do pesquisador

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Escrita, representação e concepção de ciência do pesquisador"

Copied!
205
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM

JOSÉ ANTÔNIO VIEIRA

ESCRITA, REPRESENTAÇÃO E CONCEPÇÃO DE CIÊNCIA DO PESQUISADOR

Natal / RN 2018

(2)

José Antônio Vieira

ESCRITA, REPRESENTAÇÃO E CONCEPÇÃO DE CIÊNCIA DO PESQUISADOR

Tese apresentada ao programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PPgEL), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) para obtenção do título de doutor em Estudos da Linguagem, com área de concentração em Estudos de Linguística Teórica e Descritiva.

Orientadora: Profa. Dra. Sulemi Fabiano Campos – UFRN

Coorientadora: Profa. Dra. Marinalva Vieira Barbosa – UFTM

Natal / RN 2018

(3)

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Sistema de Bibliotecas – SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN – Biblioteca Setorial do Centro de Ciência Humanas, Letras e Artes – CCHLA

Vieira, José Antônio.

Escrita, representação e concepção de ciência do pesquisador / José Antônio Vieira. - 2018.

204f.: il.

Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem. Natal, RN, 2018.

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Sulemi Fabiano Campos. Coorientadora: Prof.ª Dr.ª Marinalva Vieira Barbosa.

1. Escrita acadêmica. 2. Discurso outro. 3. Representação. I. Campos, Sulemi Fabiano. II. Barbosa, Marinalva Vieira. III. Título.

RN/UF/BS-CCHLA CDU 81'42

(4)

JOSÉ ANTONIO VIEIRA

ESCRITA, REPRESENTAÇÃO E CONCEPÇÃO DE CIÊNCIA DO PESQUISADOR

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN, para obtenção do título de doutor em Estudos da Linguagem, com área de concentração em Estudos de Linguística Teórica e Descritiva.

Aprovado em: 01 / 02 / 2018

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________________ Profa. Dra. Sulemi Fabiano Campos (Presidente)

Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN

____________________________________________________ Prof. Dr. Ernesto Sérgio Bertoldo (Examinador externo)

Departamento de Letras de Universidade Federal de Uberlândia / UFU

_______________________________________________________ Profa. Dra. Maria das Graças Rodrigues (Examinadora interna)

Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN

________________________________________________________ Profa. Dra. Adriana Santos Batista (Examinadora externa) Departamento de Letras da Universidade do Estado da Bahia/UNEB

________________________________________________________ Prof. Dr. Gilton Sampaio de Souza (Examinador externo)

Departamento de Letras Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN

Natal / RN 2018

(5)

À Mariana, minha esposa, por sempre compartilhar todos os momentos de felicidades e tristezas e continuar me apoiando sempre.

E à minha filha, que do ventre de minha esposa, já nos motiva a ser melhor sempre.

(6)

AGRADECIMENTOS

A Mariana Aparecida de Oliveira Ribeiro, esposa, amiga, amante e leitora, pelo companheirismo, incentivo e confiança. Por mostrar que os sonhos que construímos juntos são os melhores de serem vividos.

À Professora Sulemi Fabiano Campos pela orientação, compreensão, amizade, confiança e dedicação.

À Professora Marinalva Vieira Barbosa pela amizade e parceria que contribuiu, significantemente, com a produção deste trabalho.

A todos os professores que participaram do meu processo de formação do ensino médio à pós-graduação.

A todos os membros do Grupo de Estudos do Texto e do Discurso/GETED, pela cumplicidade, parceira e aprendizagem desenvolvida nos últimos 06 (seis) anos.

Ao GEPPEP, por contribuir enormemente com minha formação.

Aos meus pais e irmãos pelo amor e confiança que sempre me dedicaram.

Às minhas amigas, Maria Aparecida, Kátia, Claudiane, Janima, e ao meu amigo, Joil, companhias no processo de doutoramento que sempre me auxiliaram a perceber o quanto podemos ser melhores.

A Valnecy Corrêa e Emari Andrade pela contribuição especial dada a escrita deste trabalho.

A pessoas como Marco Martins, Maria das Graças Rodrigues e Luís Carlos Campos, que me acolheram em uma nova cidade.

(7)

Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é, à morte... A fidelidade reclamada não pode ser à universidade, e a ela não temos razão para ser fiéis. Nossa única fidelidade é com a ideia de universidade. E é a partir da ideia sempre renovada de universidade que julgamos as universidades concretas e sugerimos mudanças. De outro modo, compactuamos com equívocos e erros e acabamos, nós próprios, praticando equívocos e erros.

(8)

RESUMO

Este trabalho de doutoramento é fruto de nossa dissertação de mestrado (VIEIRA, 2014), quando analisamos as produções de sentidos desenvolvidos pelas formas de escrita de textos monográficos. Ao darmos continuidade à investigação, no doutorado, compreendemos que a produção do efeito de sentido de promoção, dentre tantos outros existentes, tem relação com a formação e a concepção de ciência daquele que escreve o trabalho, como também, do leitor que analisa a produção escrita. Por esta razão, compreendemos que a escrita científica se desenvolve a partir de diferentes relações. Por isso, vemos a necessidade de aprofundarmos os estudos sobre a relação que o sujeito estabelece com uma teoria. Nesse sentido, nossa investigação buscou respostas para os seguintes questionamentos: 1) Como as diferentes formas de uso do discurso outrem indiciam diferentes representações do pesquisador sobre teorias e conceitos teóricos? e, 2) Como a relação entre escrita e representação reflete a concepção de ciência do pesquisador? Na busca por respostas, analisamos a relação existente entre as formas de utilização de discursos de outros autores, a representação do pesquisador sobre conceitos, autores e teorias e as concepções de ciência presentes na universidade. Especificamente, tivemos como objetivos: 1) identificar as marcas de uso do discurso citado na produção escrita do texto acadêmico; 2) verificar, nas formas de uso do discurso do outro, a representação do pesquisador sobre conceitos, teorias e autores; e 3) analisar os reflexos da concepção de ciência do pesquisador em sua produção escrita. Para a investigação, coletamos dez teses de doutorado, das quais seis compuseram nosso corpus. Todos os trabalhos analisados são vinculados a Análise do Discurso e foram defendidos em programas de pós-graduação em Letras ou Linguística, avaliados com conceitos 4, 5, 6 e 7, e em um programa de doutorado interinstitucional. A fundamentação teórica foi dividida da seguinte maneira: 1) a reflexão sociológica sobre os paradigmas científicos de Sousa Santos (1993), para contextualizar a construção dos diferentes paradigmas científicos; 2) o conceito de heterogeneidade discursiva mostrada de Authier-Revuz (2004) e as formas de discurso citado de Bakhtin (2006), usados para analisar a materialização do discurso outro na escrita; 3) a noção de representação cultural de Chartier (2002), que nos auxiliou a observar e analisar as diversas formas de representações do pesquisador sobre uma fundamentação teórica (conceito, teoria e autor); 4) os conceitos de formação imaginária de Pêcheux (1997), como forma de demarcar a metodologia de seleção e análise do corpus; 5) o método indiciário de Ginzburg (1996) como prática teórico-metodológica para coleta e análises dos dados; e 6) as noções de espírito científico e obstáculos epistemológicos de Bachelard (1996), que contribuem com a análise da relação da representação e concepção de ciência do pesquisador.

(9)

ABSTRACT

This doctoral work is the continuity result of our master's thesis (VIEIRA, 2014), when we analyze meaning productions developed by the writing of monographic texts. In continuing the research, now in doctorate, we understand that the sense of promotion effect production, among many others, is related to the science conception and formation of the one who writes the work, as well as to the reader who analyzes the written production. For this reason, we perceive that scientific writing develops from different relations. Therefore, we see the need to deepen the studies on the relation that the subject establishes with a theory. In this sense, our research seeks answers to the following questions: 1) How do the different forms of use of the discourse other point to a representation of the researcher about a theory or theoretical concept? 2) How can the use of other authors' discourses influence the representation of the researcher on concepts, theories and authors? And, 3) How does the relation between writing and representation indicate a conception of science? In the search for answers, we intend to analyze a relation between the forms of use of other authors' discourses, the representation of the researcher on concepts, authors and theories and the conceptions of science present in the university. Specifically, we will: 1) identify the marks of use of the discourse quoted in the written production of the academic text; 2) verify, in the forms of use of the discourse other, the researcher representation on concepts, theories and authors; and 3) analyze the reflections of the researcher's conception of science in his written production. Our corpus has ten doctoral theses linked to Discourse Analysis and presented in graduate programs in Languages or Linguistics, evaluated with concepts 4, 5, 6, 7, in addition to an inter-institutional doctoral program. The theoretical foundation is divided as follows: 1) sociological reflection on the scientific paradigms of Sousa Santos (1993), to contextualize the construction of different scientific paradigms; 2) the concept of discursive heterogeneity shown by Authier-Revuz (2004) and the forms of quoted discourse from Bakhtin (2006), in the sense of analyzing the materialization of discourse other in writing; 3) the notion of cultural representation of Chartier (2002), which assists us to observe and analyze the diverse representation forms of the researcher on a theory basis (concept, theory and author); 4) the imaginary formation concepts of Pêcheux (1997), as a way of demarcating the selection methodology and corpus analysis; 5) Ginzburg's (1996) indicia method as a theoretical-methodological practice for data collection and analysis; and 6) the notions of scientific spirit and epistemological obstacles of Bachelard (1996), that contribute with the analysis of the representation relation and the researcher’s science conception.

(10)

RESUMEN

Este trabajo de doctorado es fruto de nuestra disertación de maestría (VIEIRA, 2014), cuando analizamos las producciones de sentidos desarrollados por las formas de escritura de textos monográficos. Al dar continuidad a la investigación, en el doctorado, comprendemos que la producción del efecto de sentido de promoción, entre tantos otros existentes, tiene relación con la formación y la concepción de ciencia de aquel que escribe el trabajo, como también, del lector que analiza la producción escrita. Por esta razón, comprendemos que la escritura científica se desarrolla a partir de diferentes relaciones. Por eso, vemos la necesidad de profundizar los estudios sobre la relación que el sujeto establece con una teoría. En este sentido, nuestra investigación buscó respuestas para los siguientes cuestionamientos: 1) ¿Cómo las diferentes formas de uso del discurso ajeno indican diferentes representaciones del investigador sobre teorías y conceptos teóricos?, y 2) ¿cómo la relación entre escritura y representación refleja la concepción de ciencia del investigador? En la búsqueda de respuestas, analizamos la relación existente entre las formas de utilización de discursos de otros autores, la representación del investigador sobre conceptos, autores y teorías y las concepciones de ciencia presentes en la universidad. Específicamente, tuvimos como objetivos: 1) identificar las marcas de uso del discurso citado en la producción escrita del texto académico; 2) verificar, en las formas de uso del discurso ajeno, la representación del investigador sobre conceptos, teorías y autores; y 3) analizar los reflejos de la concepción de ciencia del investigador en su producción escrita. Para la investigación, recopilamos diez tesis de doctorado, de las cuales seis compusieron nuestro corpus. Todos los trabajos analizados están vinculados con el Análisis del Discurso y fueron defendidos en programas de postgrado de Letras o Lingüística, evaluados con conceptos 4, 5, 6, 7, y de un programa de doctorado interinstitucional. La fundamentación teórica se dividió de la siguiente forma: 1) la reflexión sociológica sobre los paradigmas científicos de Sousa Santos (1993), para contextualizar la construcción de los diferentes paradigmas científicos; 2) el concepto de heterogeneidad discursiva mostrada de Authier-Revuz (2004) y las formas de discurso citado de Bakhtin (2006), usados para analizar la materialización del discurso ajeno en la escritura; 3) la noción de representación cultural de Chartier (2002), que nos ayudó a observar y analizar las diversas formas de representaciones del investigador sobre una fundamentación teórica (concepto, teoría y autor); los conceptos de formación imaginaria de Pêcheux (1997), como forma de delimitar la metodología de selección y análisis del corpus; el método indiciario de Ginzburg (1996) como práctica teórico-metodológica para la recolección y análisis de los datos; y 6) las nociones de espíritu científico y obstáculos epistemológicos de Bachelard (1996), que contribuyen con el análisis de la relación de la representación y concepción de ciencia del investigador.

(11)

LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Tese 01... 95 Quadro 2 – Tese 02... 96 Quadro 3 – Tese 03... 96 Quadro 4 – Tese 04... 97 Quadro 5 – Tese 05... 97 Quadro 6 – Tese 06... 97 Quadro 7 – Tese 07... 98 Quadro 8 – Tese 08... 98 Quadro 9 – Tese 09... 98 Quadro 10 – Tese 10... 99

(12)

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 13

1 PARADIGMAS E PRÁTICAS CIENTÍFICAS: uma reflexão sobre a produção acadêmica presente na universidade... 21

1.1 Os paradigmas científicos: um passado presente... 22

1.1.1 A construção de um império científico... 24

1.1.2 A desconstrução de um domínio e a ascensão das ciências sociais... 27

1.1.3 O desenvolvimento de um novo fazer científico... 30

1.1.3.1 A oposição de conhecimentos... 31

1.1.3.2 A relação de conhecimento e autoconhecimento... 33

1.2 A defesa de uma política científica social... 34

1.2.1 Uma posição revolucionária e pela mudança... 38

1.3 O fazer científico na universidade contemporânea... 39

1.3.1 A heteronomia presente na universidade... 40

1.3.2 Universidade, globalização e conhecimento... 43

1.3.3 Escrita acadêmica: relações entre produção científica e produção de conhecimento... 46

1.4 Os paradigmas científicos e as relações do discurso da ciência com o discurso de divulgação científica... 48

2 DISCURSO CITADO E REPRESENTAÇÃO DO PESQUISADOR: relações do processo de construção do texto acadêmico... 53

2.1 A relação do sujeito com a teoria: reflexos da utilização do discurso citado... 54

2.1.1 A heterogeneidade discursiva e a constituição do texto acadêmico... 67

2.2 Leitura e formação: a construção da representação do pesquisador... 69

2.2.1 Leitura e representação... 70

2.3 As modalidades de relação do pesquisador com a sociedade... 78

(13)

2.5 A heterogeneidade do discurso e a classificação de paráfrases... 83

3 METODOLOGIA, DESCRIÇÃO DO CORPUS E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE... 85

3.1 Recortando o dizer: um método discursivo... 86

3.2 Um grão para encher o papo: uma perspectiva indiciária... 88

3.3 Um sinal dedutivo?... 90

3.4 A quantidade e o sabor do que se faz: um processo de julgamento daquilo que é quantificável... 91

3.5 A seleção do corpus e seus critérios... 92

3.6 Com que milho se faz o bolo: a descrição do corpus... 93

3.6.1 As teses coletadas e a codificação do corpus... 94

3.7 Os dados analisados... 99

3.8 Os procedimentos de análise... 100

3.9 As lupas e lentes escolhidas: categorias e formas de análise... 101

3.10 O porquê fazer deste modo... 101

4 RELAÇÕES ENTRE AS FORMAS DO DISCURSO CITADO E A REPRESENTAÇÃO DO PESQUISADOR NA PRODUÇÃO ACADÊMICA... 103

4.1 O discurso citado e a produção acadêmica... 104

4.2 O processo de constituição da representação do sujeito... 105

4.3 O discurso citado e a representação do pesquisador... 105

4.3.1 A predeterminação da leitura: a responsabilização do interlocutor... 106

4.3.2 A equiparação de autores... 113

4.3.3 O encadeamento de conceitos... 116

4.3.4 Modos de citação e a representação do pesquisador... 121

4.3.5 Formas de recepção e o discurso esvaziado... 124

(14)

4.3.7 Discurso sobre discurso e as diferentes formas de apresentação do outro... 128

4.3.7.1 As diferenças de apresentação... 129

4.3.7.2 Discurso sobre discurso e a contação de história... 152

4.3.7.3 O discurso sobre o discurso: da referência à panfletagem... 157

4.3.8 A associação de uma representação deturpada: um problema de coenunciação... 159

4.3.9 A busca e o fracasso do compilador de textos... 164

4.4 Modos de uso do discurso citado: um reflexo da representação do pesquisador... 167

5 REPRESENTAÇÃO X ESCRITA ACADÊMICA: a construção da concepção de ciência do pesquisador... 168

5.1 Representação e Escrita: reflexos de uma concepção... 169

5.1.1 Primeira modalidade de relação: o afastamento de quem escreve... 170

5.1.2 A segunda relação e o sujeito com identidade social... 171

5.1.3 A terceira relação e apagamento do dizer de quem escreve... 173

5.2 O espírito científico e a concepção de ciência presente na universidade... 174

5.2.1 A experiência primeira... 177

5.2.2 O substancialismo... 179

5.2.3 O conhecimento geral... 181

5.2.4 O obstáculo verbal... 184

5.2.5 O conhecimento unitário e pragmático... 187

5.2.6 O realismo... 188

6 CONCLUSÃO... 192

(15)

INTRODUÇÃO

Este trabalho de doutoramento nasceu como desdobramento da dissertação de mestrado (VIEIRA, 2014), que teve como fundamentação inicial a descrição do funcionamento da ciência normal1, de Kuhn (1992) e uma discussão sobre escrita, que partiu de Coracini (1991). Na referida dissertação, analisamos 23 (vinte e três) monografias produzidas entre os anos de 2006-2012, por alunos do curso de Letras de uma universidade pública. O intuito foi observar os recursos linguísticos, tais como citações, ilhas textuais e conectivos, que apontavam para a participação do discurso de outros autores, na escrita acadêmica. Por isso, analisamos os efeitos de sentido produzidos pelos modos de utilização do dizer de outro autor, num texto acadêmico, considerando esses trabalhos como exemplos de produção científica de jovens pesquisadores e os modos de utilização do discurso de outros autores como formas de inclusão e de aceitação dessas produções e de seus pesquisadores em uma comunidade científica.

No decorrer da investigação, foi possível, por meio da análise de excertos de diferentes textos monográficos, percebermos que, dependendo das formas de utilização de outro discurso, na produção escrita do texto acadêmico, desenvolvem-se diferentes sentidos. Por isso, chegamos à conclusão de que haveria efeitos de sentido2 de promoção que se materializam de três formas diferentes: 1) a promoção de uma teoria – quando temos um modo de escrita que repete um mesmo dizer e remete a uma determinada teoria sem de fato relacionar a teoria com sua proposta de análise; 2) a promoção de um autor – quando há, por exemplo, textos acadêmicos que demarcam, por diversos momentos, o discurso de um mesmo autor reconhecido. Nesse caso, a escrita caracteriza-se pelo fato de que quem escreve funciona como um porta-voz de quem é citado, isto é, não vemos uma relação de inscrição de quem escreve na produção, pois seu trabalho exprime a repetição do dizer de um autor. Por fim, há 3) a promoção de um conceito teórico – a utilização de determinados conceitos teóricos de forma aleatória sem relação com as análises ou mesmo interlocução entre si.

1Kuhn (1992) define ciência normal como toda ciência vigente nos períodos desprovidos de uma revolução

científica.

2

Para a Análise do Discurso, o sentido não está diretamente ligado ao significante, pois uma produção escrita pode evidenciar vários sentidos. O sentido pode ser considerado um produto, resultado de um processo, uma produção cujos efeitos são efeitos de sentido. Conforme afirma Possenti (1997, p. 4): “O fundamental é enfatizar que, no que se refere ao sentido, não se trata mais de concebê-lo como uma mensagem codificada num texto, numa língua, como um conteúdo embutido num código. O que não significa, no entanto, excluir do discurso o material linguístico, verbal”.

(16)

Observamos que, dependendo da forma como desenvolvemos e caracterizamos a produção escrita, seja em relação aos modos de demarcar o discurso de outros autores, seja numa citação ou numa paráfrase, podemos construir o sentido de que a produção do trabalho em si tem como prioridade a repetição de outros discursos em detrimento da proposta de investigação que o trabalho apresente. Na análise realizada nas dissertações, pudemos constatar que há textos que são aceitos por outros pares, em razão da reprodução e exaltação do discurso de autores já consolidados na academia.

Verificamos que o efeito de sentido de promoção pode ocorrer, quando uma produção escrita ativa a percepção de que o discurso construído tem como objetivo prestigiar e dar visibilidade à voz citada. Acreditamos que esse processo se trata de um recurso para o pesquisador em formação se inserir, em uma comunidade científica, sem, necessariamente, demonstrar uma análise de dados articulada com os conceitos teóricos. Trata-se de uma situação na qual o trabalho não se consolida, necessariamente, como produção científica, visto que se limita a repetir conceitos produzidos por outros autores.

Para compreender a existência desse efeito de sentido, procuramos investigar a funcionalidade de uma teoria em produções escritas, o que nos permitiu perceber que os modos de utilização da fundamentação teórica, em textos acadêmicos, podem representar mecanismos de suporte para o dizer de quem escreve um texto científico. Verificamos um grande número de trabalhos de conclusão de curso embasados teoricamente em referências a outros discursos que não funcionam nem como mecanismo de análise nem como argumento de autoridade de quem escreve. A participação do autor referenciado é considerada válida apenas pelo reconhecimento do nome ou conceito.

É importante destacar que os diferentes modos de produção escrita são interligados às relações estabelecidas por aquele que escreve durante sua formação acadêmica. Dito de outro modo, os processos de escrita que desenvolvem efeitos de promoção não são construídos de maneira intencional, tampouco são frutos de uma escolha daquele que escreve, mas sim, resultados de uma formação acadêmica que não priorizou um ensino de escrita, entendido como produção, ou não permitiu a apropriação daquele que escreve dos pressupostos teóricos que propôs utilizar em sua investigação.

Ao falarmos do resultado de um processo de formação acadêmica, existem relações que devem ser consideradas, como a relação de orientação, as normas institucionais etc. Trata-se, a nosso ver, de relações que podem refletir sobre a qualidade e o conceito de ciência dos dias de hoje.

(17)

Nossa investigação também é fruto dos trabalhos que se caracterizam por tomar como objeto as especificidades da produção escrita e suas relações com a produção de conhecimento dentro da universidade. Trata-se de uma temática de grande parte das pesquisas desenvolvidas junto ao Grupo de Pesquisas e Estudos do Texto e do Discurso/GETED, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN.

Dentre as produções que nos auxiliaram e mantiveram grande relação com nossa investigação, é importante ressaltar a tese de doutoramento de Fabiano-Campos, intitulada A

prática da pesquisa como sustentação da apropriação do conhecimento na graduação em Letras, que foi defendida em 2007, na Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho,

Campus de Araraquara.

Essa tese de doutoramento, ao analisar como o processo de incorporação do discurso do “outro” se desenvolve na produção escrita, contribui com nossa investigação, por demonstrar que há um modo de produção acadêmica que sustenta a apropriação do conhecimento. É um trabalho que nos permite compreender que a escrita do texto acadêmico possui relação com a produção de conhecimento.

Em outras palavras, Fabiano-Campos (2007) aponta-nos que há textos acadêmicos que refletem, na escrita, a relação que aquele que escreve um texto científico mantém com uma teoria, um conceito ou um autor. É como se a investigação que citamos demonstrasse um primeiro passo para o que verificamos, isto é, nos dá indícios de que precisamos ou ao menos podemos questionar as produções acadêmicas, assim como, confirma a importância de se defender uma prática de pesquisa que promova a apropriação de saberes desde a graduação.

Outro processo investigativo desenvolvido junto a pesquisadores pares de nosso grupo de pesquisa que reflete como os trabalhos de produção científica possuem relação entre si é o trabalho de Ribeiro (2017). Essa pesquisa nos possibilitou perceber de forma categórica e mapeada como se desenvolve as diferentes formas de manifestação das vozes existentes de quem escreve e dos autores citados em um texto acadêmico.

Ao tomar como objeto os fenômenos da heterogeneidade mostrada apresentada por Authier-Revuz (2004), compreendendo-a como uma materialidade linguística que aponta para a negociação do sujeito que escreve com o outro que é citado em dissertações de mestrado da área de Letras, a investigação conseguiu nos auxiliar com a problematização das formas linguísticas que refletem a negociação da voz de quem produz com outras vozes presentes na escrita, bem como, das estratégias e dos sentidos desenvolvidos pelos pesquisadores em suas produções.

(18)

Com isso, ao identificar e descrever formas linguísticas, analisar as estratégias de pesquisadores para a construção de um texto, analisar os sentidos que a negociação de vozes da escrita possui e propor ações de intervenção, a investigação nos auxilia com o apontamento de que há uma relação entre as leituras de textos fontes e os modos que as leituras se materializam na escrita. Isto é, podemos partir do ponto de que há uma negociação de vozes, estruturada sintaticamente, na produção de um texto acadêmico, seja pela incorporação de trechos de enunciados seja pela alteração da sequência de enunciados.

A pesquisa demonstrou que a escrita pode descaracterizar a palavra dos pesquisadores que escrevem a partir da ausência de um distanciamento do dizer que é produzido com o discurso citado. Ribeiro (2017) verificou que há modos de escrita que “descaracterizam” a própria palavra dos pesquisadores. Desse modo, sugere que a escrita de textos acadêmicos, em especial aqueles desenvolvidos em ambiente de ensino, precisa se ater às diferentes maneiras de utilização da voz de outros autores, de forma que possa contribuir como sustentação do dizer que é produzido por aquele que escreve o texto.

Isso tudo é de grande valor, porque corrobora com nossa pressuposição de que há diferentes formas de se desenvolver uma escrita científica e de que essas formas constitutivamente refletem as relações que o pesquisador que escreve estabelece com sua fundamentação teórica, seja uma teoria, um conceito, seja mesmo a relação com um autor fonte ou comentador.

Silva de Sousa (2017), em sua investigação de mestrado, relacionou os diferentes modos de leitura com a noção de representação de Chartier (2002) para analisar como o processo de formação do leitor está ligado com a construção da representação do pesquisador. É uma pesquisa que trata sobre escrita acadêmica e que busca analisar a representação dada às leituras teóricas dos conceitos de Mikhail Bakhtin, utilizados por pesquisadores em formação.

Trata-se de uma investigação que, ao questionar a recorrência de determinados conceitos teóricos, as formas como as nomeações são demarcadas na escrita e, consequentemente, como as comunidades leitoras desenvolvidas na academia constituem as representações discursivas dos pesquisadores, nos auxilia a destacar que nosso trabalho caminha para uma direção por vezes questionada, mas que problematiza como outras, uma realidade da produção científica da universidade.

São investigações como essas citadas que, de forma conjunta, consolidam a relevância de diferentes propostas analisarem as características da produção escrita acadêmica e a relação do sujeito com a teoria presente na produção desse texto, isto é, os trabalhos com os

(19)

quais fazemos relação nos auxiliam a desenvolver um aprofundamento dos estudos sobre o efeito de sentido da promoção apresentado em Vieira (2014).

Por isso, compreendemos que a produção desse efeito, dentre tantos outros existentes, tem relação com a formação e a concepção de fazer científico daquele que escreve o trabalho, como também, com o leitor que analisa a produção escrita, observa os diferentes modos de escrita caracterizados pelas formas de uso do discurso de outros autores. A leitura do texto aponta para diferentes formas de representações, seja do trabalho científico, seja dos conceitos teóricos que fundamentam o trabalho, seja ainda dos autores reconhecidos na área de estudo a que o trabalho está filiado.

Assim, em nossa pesquisa, partimos da ideia de que a produção de textos científicos está condicionada por diferentes relações internas e externas. Compreendemos uma relação interna como as formas de marcação do discurso de outros autores, isto é, as maneiras que aquele que escreve faz remissão aos outros discursos para fundamentar o trabalho. Já as relações externas envolveriam as relações institucionais (orientador e orientando, pesquisador e agências de fomento, produtividade e financiamento), que promovem o desenvolvimento de pesquisas e investigações científicas, nas diversas áreas do conhecimento, que, consequentemente, interferem na formação da representação do pesquisador (CHARTIER, 2002).

Outra forma de influência externa que também podemos citar é a pressão às universidades feita por agências de fomento, que exigem critérios de produção pautados, por exemplo, na necessidade de se publicar, seja por questões curriculares, como as exigências de pontuação para se manter num programa de pós-graduação, seja para credenciamento institucional do docente. Tal ação, a nosso ver, contribui com uma política de publicação e produtividade que pode privilegiar produções, desenvolvendo sentidos como o da promoção. Por isso, entendemos que tais ações podem se refletir nas formas de se relacionar com a voz do outro, contribuindo com o desenvolvimento de um modo de escrita estruturado pela repetição do discurso do outro e na aceitação de trabalhos baseados numa concepção de ciência, calcada no discurso de autores comentadores.

Nesse sentido, vemos a relevância de uma tese como esta e a importância de seu objeto de pesquisa: a relação que um pesquisador estabelece com a teoria que embasa seu trabalho. Buscamos mostrar como são realizadas as menções aos autores, como essas menções indiciam uma representação sobre essa teoria e uma concepção de ciência. O trabalho busca responder a dois questionamentos: 1) Como as diferentes formas de uso do discurso outrem indiciam diferentes representações do pesquisador sobre teorias e conceitos

(20)

teóricos? e, 2) Como a relação entre escrita e representação reflete a concepção de ciência do pesquisador?

Temos como objetivo geral o propósito de analisar a relação existente entre as formas de utilização de discursos de outros autores, a representação do pesquisador sobre conceitos, autores e teorias e as concepções de ciência presentes na universidade. Os objetivos específicos são: 1) identificar as marcas de uso do discurso citado na produção escrita do texto acadêmico; 2) analisar, a partir das formas de uso do discurso do outro, como a representação do pesquisador sobre conceitos, teorias e autores reflete a concepção de fazer científico do pesquisador.

Para isso, compreendemos que um conceito teórico é diferente de uma teoria, sendo o primeiro a configuração de determinados termos já conceituados que pesquisadores desenvolvem, a fim de construir formas de analisar objetos de investigação. A teoria se configura como conjunto de noções e perspectivas que articulam determinados conceitos e consolidam diferentes conceitos e autores.

Desse modo, vemos que a discussão que fizemos é também sobre a funcionalidade científica dos trabalhos de doutoramento, problematizando o conceito de produção do conhecimento utilizado na academia e a necessidade de determinadas áreas não considerarem a produção do conhecimento como algo prioritário.

Consideramos que um dos lugares de produção científica, no país, são os programas de pós-graduação que tomam como produto científico as pesquisas desenvolvidas em seus respectivos cursos. Por essa razão, tomamos as teses de doutoramento como exemplos de trabalhos científicos. Ressaltamos que, na universidade, há diferenças nas formas de escrita dos textos acadêmicos. Podemos citar as diferenças entre as áreas de conhecimento, entre teorias e concepção do pesquisador a respeito da ciência. Consideramos que, nesse último caso, a concepção de ciência pode também interferir na aceitabilidade da forma de produção do trabalho científico.

Vemos que é de grande importância que a investigação tome como foco o impacto da concepção de ciência do pesquisador na sua forma de produção escrita do texto científico, isto é, consideramos que as características de escrita do texto de trabalhos acadêmicos, como teses de doutorado, podem indiciar elementos da representação que o pesquisador tem sobre conceitos, autores e teorias e, assim, desenvolver diferentes concepções de ciência.

A ideia é que seja possível, a partir do mapeamento dos modos de utilização da voz de autores na construção do texto acadêmico, analisar as relações existentes entre a representação do sujeito que escreve e as formas de citação utilizadas numa produção escrita.

(21)

Compreendendo que a forma dessas relações desenvolve os sentidos do leitor sobre o trabalho acadêmico, tomamos como hipótese a ideia de que podemos encontrar, nas formas de utilização do discurso de outros autores, reflexos das representações de quem escreve, seja sobre seu objeto de pesquisa, seja sobre a sua formação como pesquisador.

Para o desenvolvimento do trabalho, foram selecionados, inicialmente, dez teses de doutorado, vinculadas aos estudos da Análise do Discurso. Todos os textos foram defendidos em programas de pós-graduação em Letras ou Linguística. Como critério de equidade, coletamos dois trabalhos de programas com nota 4, 5, 6 e 7 e outros dois, de um programa de doutorado interinstitucional. Dentre essas teses que citamos, delimitamos 06 (seis) como

corpus de análise da investigação. Todos os trabalhos selecionados foram defendidos nos

últimos dez anos e pertencem a uma mesma área de estudo. A escolha considerou, ainda, a proximidade da fundamentação teórica dos trabalhos e as referências e bases teóricas que nossa investigação tomou como estrutura para análise de dados.

Utilizamos, como forma de equidade, as classificações determinadas pelo processo de avaliação da CAPES de programas de pós-graduação e a modalidade de pós a partir de programas interinstitucional, por compreender que isso nos permite ter uma amostragem de diferentes programas. Não equiparamos a classificação do Dinter como forma de avaliação, mas tomamos como diferença e modalidade de classificações por compreender que assim temos uma amostra de trabalhos referentes às principais formas de classificação de pós-graduação acadêmica do país, ou seja, uma forma de analisar trabalhos de programas com caráter especial, com avaliação diferenciada, ao mesmo tempo de cursos de pós já consolidados.

A fundamentação teórica da tese está dividida da seguinte maneira: 1) uma reflexão sobre a construção, fortalecimento e desenvolvimento de paradigmas científicos e as concepções de ciência nos últimos séculos, a partir de Sousa Santos (1993); 2) As formas de heterogeneidade discursiva mostrada de Authier-Revuz (2004) e as formas de discurso citado de Bakhtin (2006), para analisar a construção e materialização do discurso de outros autores na escrita de trabalhos acadêmicos; 3) As práticas de leitura e representação cultural de Chartier (2002), que nos possibilita analisar a relação entre a prática de leitura de quem escreve e a de quem é leitor do texto científico, observando as diferentes representações do pesquisador sobre os conceitos, autores e teorias utilizadas como fundamentação teórica em um trabalho acadêmico; 4) os conceitos de formação imaginária de Pêcheux (1997), para, a partir das noções de formação discursiva do sujeito, marcar uma posição metodológica em relação à seleção e análise do corpus; 4) Ginzburg (1996) no sentido de demarcarmos uma

(22)

fundamentação teórico-metodológica, baseada na análise de traços e detalhes que contribuam com a observação de todo o processo de escrita; e 5) as noções sobre a formação do espírito científico de Bachelard (1996), que parte da ideia de que a construção de um novo conhecimento se dá pela contrariedade a um conhecimento empírico e ao enfrentamento de obstáculos epistemológicos que contribuirão com a análise da construção da representação e concepção do pesquisador que escreve uma tese de doutoramento.

A tese está organizada em cinco capítulos. No primeiro, apresentamos uma discussão acerca da concepção de ciência, fazendo uma relação entre a crise do paradigma científico dominante, o emergente e a produção do trabalho acadêmico, bem como suas relações com o conhecimento nos dias de hoje. No segundo capítulo, desenvolvemos uma discussão a respeito da fundamentação que utilizamos para construir categorias de análise, partindo dos estudos sobre a heterogeneidade discursiva e das formas de citação da enunciação, passando pelas reflexões sobre leitura, representação e formação discursiva.

O terceiro capítulo é dedicado à descrição de nosso corpus e da metodologia que desenvolvemos como instrumento de investigação em nosso trabalho. O quarto é dedicado à análise das produções escritas, com o intuito de verificar os processos de relação das diferentes formas de utilização do discurso citado e a construção da representação do pesquisador sobre sua fundamentação teórica.

Por fim, no quinto capítulo, fazemos análises que visam observar a relação do enfrentamento dos obstáculos epistemológicos do pesquisador, elementos de formação do espirito científico, apresentados por Bachelard (1996), com a construção da concepção de ciência e/ou prática científica do pesquisador que escreve um texto acadêmico.

Ao final da conclusão, questionamos a existência de uma fetichização da produção acadêmica. Mais especificamente, refletimos acerca da relação das concepções de ciência, representação e produção escrita com o processo de formação do pesquisador, entendendo que não há possibilidade de dissociar uma discussão sobre produção de trabalhos científicos da que debate o processo formativo do pesquisador que, nesse caso, inicia-se na graduação e consolida-se no doutorado.

(23)

1 PARADIGMAS E PRÁTICAS CIENTÍFICAS: uma reflexão sobre a produção acadêmica presente na universidade

Como apresentamos na introdução, nesta investigação analisamos a relação entre o discurso citado, a representação do pesquisador sobre teorias, conceitos e autores e as diferentes concepções de ciência presentes na universidade. Dizendo de outro modo, verificamos, por meio da análise do discurso citado em teses de doutorado, quais são as representações de doutorandos sobre as teorias, conceitos e autores empregados na elaboração de uma tese de doutorado e como essas representações indiciam a concepção de ciência do pesquisador.

Tendo em vista a temática investigada, neste capítulo, fazemos uma discussão sobre a construção dos primeiros paradigmas científicos e as relações com as práticas científicas ainda existentes. Isto é, relacionamos a construção das primeiras epistemologias científicas (naturais e sociais) com as mais recentes, como a da ciência da linguagem, desenvolvendo um primeiro contato com as condições históricas e contemporâneas da produção dos trabalhos acadêmicos que são corpus dessa investigação.

Posteriormente, faremos uma leitura do momento atual, por meio de uma reflexão sobre o lugar da prática científica no país: as universidades e seus programas de pós-graduação. Para isso, consideramos a existência de uma discussão acerca da diversidade de práticas e influências que interferem e determinam diferentes concepções de produção acadêmica entre os pesquisadores/pós-graduandos.

Nesta reflexão proposta no capítulo, buscamos fundamentação nos trabalhos de Sousa Santos (1978; 1987), que apresenta um panorama de construção dos paradigmas dominante, emergente e da sociologia científica; de Bernheim e Chauí (2008), que contribuem com a apresentação de uma visão da universidade como local de produção de conhecimento; Chauí (1999) nos apresenta a noção de universidade operacional, que nos permite problematizar o modelo de universidade dos últimos anos. Por fim, recorremos ainda a Bauman (2014), que apresenta as formas de relações existentes numa universidade em decadência na modernidade líquida dos dias atuais, uma noção que corrobora com as discussões dos demais autores que referenciamos, como também, com a problemática destacada na pesquisa.

(24)

1.1 Os paradigmas científicos: um passado presente

Para tratarmos sobre as concepções de ciência que estruturam nossa prática científica, tomamos como um dos pontos de referência para discussão, a reflexão realizada por Sousa Santos (1978; 1987; 2002) que, ao analisar a situação das ciências no final do século XX, critica a postura dos métodos racionais e incide sobre uma sociologia da ciência, destaca a existência de uma crise dos processos científicos desenvolvida há praticamente trinta anos, mas que também pode não ser muito diversa do que ocorreu nos séculos precedentes e nos dias atuais.

Ao explicar a crise de paradigma, o pesquisador toma como base o domínio dos estudos das ciências naturais, à marginalização das ciências sociais e à inversão de posição entre as duas áreas. Por inversão, caracterizamos a ascensão das ciências sociais em detrimento da área de ciências da natureza, área que ditava qual era o paradigma científico dominante. Trata-se de um quadro que, como veremos mais adiante, aproxima, ao nosso ver, o passado e a realidade atual da universidade.

As considerações de Sousa Santos (1987) nos auxiliam a pensar sobre a produção científica e, consequentemente, sobre uma noção de ciência nos dias atuais, considerando que as transformações dos últimos trinta anos, mesmo que diferenciando as práticas, ainda nos deixam numa ordem dramática e distante do passado em que “grandes cientistas estabeleceram e mapearam o campo teórico” (SOUZA SANTOS, 1987, p. 05) e que, como apontou o autor, até os dias de hoje são aplicados.

Para este estudioso, um ponto comum entre todos os períodos de transição de paradigmas é o retorno às questões consideradas simples. Segundo ele, há uma necessidade de sempre voltarmos a essas questões, questões que “como Einstein costumava dizer, só uma criança pode fazer, mas que, depois de feitas, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade” (SOUSA SANTOS, 1987, p. 06).

Essas reflexões destacam ainda as perguntas herméticas que ocasionaram mudanças na racionalidade de pesquisadores e promoveram questionamentos sobre os critérios de uma cientificidade. Isso, considerando ainda a existência de uma diversidade de critérios que marcam mudanças de paradigmas e constroem critérios para classificação do que seja uma prática ou concepção de ciência. Processos que também buscamos desenvolver nesta investigação.

(25)

Por razões que alinho adiante, estamos de novo perplexos, perdemos a confiança epistemológica: instalou-se em nós uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não sabemos ao certo o que estamos em vias de perder: admitimos mesmo, noutros momentos, que essa sensação de perda seja apenas a cortina de medo atrás da qual se escondem as novas abundâncias da nossa vida individual e colectiva. Mas mesmo aí volta a perplexidade de não sabermos o que abundará em nós essa abundância.

O trecho anterior traz uma espécie de descrição da sensação do autor diante da crise pela qual as ciências passaram, no final dos anos 1950 até a década de 1980. Na concepção do autor, o que mais espanta não é só a crise, mas a falta de consciência da comunidade científica como um todo e da sociedade em geral sobre o que tal crise representa. Ao localizar a discussão numa perspectiva histórica, as considerações feitas pelo autor tornam-se, ao nosso ver, bastante atuais, uma vez que, ainda em nossos dias, parecemos passar pela crise epistemológica anunciada pelo sociólogo.

No século XXI, temos um momento de crise da universidade contemporânea, seja porque, em certa medida, a busca por uma produção baseada na quantidade é cada vez mais incentivada, sem relacioná-la com a discussão de critérios de avaliação ou de qualidade dessas produções, seja pelo avanço tecnológico ou pelo aprofundamento da relação do conhecimento com o mercado financeiro e o poder político social.

É por essa razão que, ao relacionarmos essas reflexões sobre a crise do paradigma e a produção acadêmica contemporânea, retomamos de Souza Santos (1987), a relevância das perguntas de Rousseau e da sua discussão sobre as relações entre ciência e virtude.

[...] perguntar pelas relações entre ciência e a virtude, pelo valor do conhecimento dito ordinário ou vulgar que nós, sujeitos individuais ou colectivos, criamos e usamos para dar sentido às nossas práticas e que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusório e falso; e temos finalmente de perguntar pelo papel de todo conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para a nossa felicidade (SOUSA SANTOS, 1987, p. 8-9).

Essa discussão sobre o fato de as perguntas de Rousseau estarem sempre presentes e não serem questionamentos apenas de uma determinada época ou século, mas uma atividade que determina e constitui toda atividade científica, nos faz vê-las como condições para a prática científica no passado e no presente em que vivemos. Ao mesmo tempo em que se articula com a afirmação anterior de Sousa Santos, quando o sociólogo diz que “o conhecimento científico é habitado pelo mais puro espirito universalista, a ruptura das

(26)

barreiras nacionais é feita em nome de uma comunidade universal onde não há dominadores nem dominados” (1978, p. 13).

Para tecer uma reflexão como esta sobre a ciência, retomamos as noções iniciais dos paradigmas dominante e emergente. Contextualizando a crise do primeiro, bem como o surgimento e desenvolvimento do segundo. É importante, porém, destacar o percurso que retoma a revalorização superficial das ciências sociais e humanidades, bem como, o rompimento dessa distinção e a constituição dos conhecimentos científico e vulgar.

1.1.1 A construção de um império científico

Para o desenvolvimento de uma reflexão sobre a concepção de ciência e as práticas científicas desenvolvidas no passado ou na contemporaneidade, apresentamos um panorama sobre as classificações dos paradigmas científicos que determinaram as características dos períodos que demarcaram especificidades e concepções sobre o fazer científico.

O paradigma iniciado no século XVI tomou como ordem a predominância dos estudos das ciências naturais e, de certa maneira, a marginalização dos campos vinculados às ciências sociais. Foi o paradigma dominante, uma perspectiva epistemológica que se manteve presente e com representatividade até a ascensão das ciências sociais, no século XIX.

Sousa Santos (1978, p. 14), afirma que este paradigma se configurou como:

[...] um modelo global de racionalidade científica que admite variedade interna, mas que se distingue e defende, por via de fronteiras ostensivas e ostensivamente policiadas, de duas formas de conhecimento não científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e as chamadas humanidades ou estudos humanísticos (em que se incluíram, entre outros, os estudos históricos, filológicos, jurídicos, filosóficos e teológicos.

O processo histórico traçado por Souza Santos (1987) se afasta da noção de ciência aristotélica, permitindo o desenvolvimento de questionamentos sobre nosso fazer científico. Uma posição de luta contra certas formas de doutrinamento teórico que combate o endeusamento de teorias, conceitos e autores, bem como, por uma produção própria. Seja em períodos anteriores, seja na contemporaneidade.

De acordo com o autor, após uma contextualização sobre a oposição de ideias, objetos de pesquisa e corpus, tivemos a aproximação das ciências naturais e sociais. Um processo que

(27)

desencadeou, inicialmente, a crise do paradigma dominante e, consequentemente, a ascensão das ciências sociais, ou seja, possibilitou e demarcou o início de uma mudança de paradigma.

Por isso, compreendemos que, ao realizarmos os mesmos procedimentos de oposições, verificamos como se dá a construção de investigações contemporâneas e percebemos que, toda ideia, independentemente de sua complexidade, pode, a partir de sua problemática, desenvolver um conhecimento mais profundo e rigoroso sobre o mundo.

O período organizado por um paradigma mais vinculado às ciências naturais, o rigor científico, não diferente dos dias atuais, também exercia um papel de destaque, isto é, era um requisito importante para toda produção científica. Está forma de empenho e pressão, porém, sempre estava associada a “medições” e “aferições”, ou seja, um dos primeiros requisitos era o de que conhecer, significava quantificar. Tomando como padrão a noção de que O que não

é quantificável é cientificamente irrelevante (Sousa Santos, 1987.p. 15).

Outro princípio observado foi a noção de que o método de investigação se caracteriza pela possibilidade de diminuir um problema, mais especificamente, de desenvolver uma diminuição da complexidade, considerando que “O mundo é complicado e a mente humana não o pode compreender completamente. Conhecer significa dividir e classificar para depois poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou” (Sousa Santos ,1987, p. 15).

O paradigma dominante se apoiou no método quantitativo e numa concepção de ciência cartesiana, em que o problema deveria ser decomposto para então ser analisado. Para que esses métodos ou esse ideal de ciência fossem colocados em prática, era preciso excluir a intencionalidade, descartar o subjetivo. Segundo essa lógica, é justamente a exclusão da subjetividade que dá a ciência esse estatuto e separa o conhecimento do senso comum (com forte indício subjetivo), do conhecimento científico (objetivo).

A explicação da dicotomia entre conhecimento do senso comum e conhecimento científico nos auxilia a problematizar o percurso dos paradigmas científicos, considerando que, independente do período histórico, é por meio de questões como as colocadas pelo autor sobre o fazer científico, que podemos intervir na vida social, isto é, por meio de questões como essas, apontamos para a possibilidade de, através da produção científica, desenvolver mudanças sociais.

A dicotomia que separa as ciências sociais e naturais promove também a separação de disciplinas. Do lado mecanicista das ciências naturais, com base empírica e estatuto próprio, estão as disciplinas orientadas pelas formas da lógica e da matemática. As disciplinas marginalizadas, sem referência, são atribuídas às ciências sociais. São aquelas que

(28)

possibilitam a construção de questionamentos sobre o domínio das ciências da natureza e, ao se fortalecerem, saem da marginalidade para construírem uma área científico-social.

Esse privilégio do objetivo em detrimento do subjetivo mostra uma característica que consiste em apresentar a produção de conhecimento como atividades funcionais e com valor de uso, quando o objetivo está mais associado à mudança do que a leitura e a explicação de ocorrência do processo. Trata-se de uma noção que nos afasta dos princípios das ciências sociais e nos aproxima do mecanicismo preponderante das ciências da natureza.

Não há, porém, possibilidade de o modo mecanicista responder a todas as demandas de transformações. As mudanças não param e não podem apenas ser quantificadas. É necessária uma leitura sobre a sociedade e os estudos da natureza, função que as ciências sociais se dispõem a realizar por meio de princípios epistemológicos e metodológicos, específicos e característicos de sua área.

O contexto histórico aponta para uma realidade próxima a que vivemos, não pela ausência de legitimidade das pesquisas sociais, que precisam sempre destacar ou justificar de forma mais complexa suas produções, mas pela necessidade de enfrentar obstáculos difíceis em relação à realidade de outras áreas científicas, seja pela perspectiva subjetiva, seja por reconhecimento social, cultural ou financeiro, as ciências sociais ainda se mantêm, em diversos momentos, marginalizadas e em resistência.

As oposições entre ciências sociais e naturais e seus conflitos durante o paradigma dominante podem ser relacionadas ao que vivenciamos ainda hoje, porém em relação às áreas até mais próximas ou em relação a campos e linhas dentro de uma mesma ciência que, por vezes, tomam posições irrefutáveis e se apresentam como detentores dos princípios de toda uma área ou temática de estudo.

Essas diferenças entre as duas formas de se fazer ciência, isto é, a dicotomia de estudos sociais e naturais garante a existência de posições que referendam a ideia de termos ciências diferentes. Já que, conforme Sousa Santos (1987. p. 22):

A ciência social será sempre uma ciência subjetiva e não objectiva como as ciências naturais; tem de compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas acções, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes dos correntes nas ciências naturais, métodos qualitativos em vez de quantitativos, com vista à obtenção de um conhecimento intersubjetivo, descrito e compreensivo, em vez de um conhecimento objetivo, explicativo e nomotético.

(29)

As diferentes visões sobre a ciência social evidenciam transformações conceituais que contribuem para um futuro que promove outro paradigma, questionando e destacando uma crise daquele dominante que se empenha, ainda hoje, em colocar em destaque as práticas científicas, mais vinculadas às ciências naturais.

1.1.2 A desconstrução de um domínio e a ascensão das ciências sociais

Os estudos presentes em Sousa Santos (1978; 1987) nos apontam para a necessidade de também inserirmos, na discussão, as crises que os paradigmas científicos sofreram, em especial, a crise da visão científica que se baseava nas ciências naturais. Trata-se de um fenômeno que ocorreu também em razão do fortalecimento das ciências sociais, mas que, mesmo se referindo a algo que é do passado, pode se fazer presente ainda nos dias de hoje, como a visível dicotomia entre as ciências sociais e naturais e a tendência de termos uma persistência de um estado de paradigma científico sempre em crise.

O fortalecimento das ciências sociais não só desencadeou sua ascensão mas também transformou o modelo da época ao trazer uma fragilização da visão racionalista da ciência, permitindo a construção de um discurso de crise do paradigma dominante. Para Sousa Santos (1987, p. 23-24), a crise do paradigma dominante evidenciou um período de revolução científica, iniciado nos tempos da mecânica quântica e de Einstein. Mais especificamente, o autor afirma que “dado o carácter pré-paradigmático das ciências sociais, a eclosão da crise ofereceu, no entanto aos cientistas sociais uma possibilidade que os cientistas físicos e naturais pensavam estar-lhes vedada, a possibilidade de se politizarem simultaneamente como cidadãos e como cientistas” (1978, p. 32).

Por isso, podemos dizer que todo paradigma está fadado a entrar em crise a qualquer momento, uma vez que um novo paradigma não é imune à complicação das condições sociais e teóricas que sustentam uma concepção científica. Desse modo, podemos considerar a revolução, ainda em movimento nos dias atuais, como se o resultado de toda crise ainda estivesse presente e não terminado no paradigma emergente; como se até os dias de hoje, três décadas após a leitura de Sousa Santos (1987), vivêssemos num paradigma científico em crise, com contornos de uma nova fase, configurada a partir da mercantilização do conhecimento e da vulgarização comercial da pesquisa científica.

Em sua investigação de doutoramento, Girotto (p. 27, 2014) explica, de forma didática, os impactos de uma visão técnica, quantitativa e financeira para a produção científica universitária:

(30)

Na produção do conhecimento nas universidades este processo de mercantilização também pode ser verificado. De diferentes maneiras, ele se instaura nas práticas cotidianas, trazendo importantes implicações ao trabalho docente e à construção do conhecimento, afetando as formas como a produção e a difusão do conhecimento ocorrem. Em nossa perspectiva, tais mudanças resultam no advento de uma nova lógica a nortear a pesquisa científica no Brasil e no Mundo denominado de Produtivismo.

Ao nosso ver, essas transformações são desenvolvidas em razão da aceitação e da construção de questionamentos sociais e teóricos, que sofrem intervenções do capital financeiro. Sendo que, temos uma maior influência desta parte do sistema determinando o rigor científico e a relevância das práticas científicas, independentemente, das condições teóricas e sociais de uma concepção, conceito ou teoria.

O paradigma emergente, fundamentado nas ciências sociais, se caracterizou por iniciar avaliações dos objetos de estudo, o que alterou, influenciou e interferiu nos procedimentos de análise e no fazer científico da época, uma vez que os procedimentos de análise e verificação de qualquer atividade científica, independente de princípios quantitativos ou qualitativos, altera o fenômeno que é analisado.

Uma constatação que traz consequência para toda e qualquer problematização é a de que a crise destacou distorções e falhas que as teorias exatas do paradigma dominante não reconheciam. Como exemplo, temos as complexidades da relação sujeito/objeto que, constantemente, eram tomados como distintos e passaram a ter uma concepção diferente, com um perfil mais contínuo, quando considerado as subjetividades das ciências sociais.

Conforme avançamos no resgate das discussões sobre os paradigmas científicos, percebemos detalhes importantes para uma reflexão contemporânea sobre a produção científica desenvolvida na universidade. Dentre todos, é importante reconhecermos o momento de rompimento do período com o paradigma dominante, quando temos não só a mudança em relação a contribuição e reconhecimento das ciências sociais, mas também o questionamento sobre o rigor das exatas, o rigor matemático, que pressupõe condições naturais e pré-estabelecidas. Tendo, a partir disso, a apresentação de outra forma de se pensar a própria estrutura e a natureza.

Sousa Santos (1987, p. 28) destaca o fato de termos uma fase que:

em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez do mecanicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a auto-organização; em vez da reversibilidade a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente.

(31)

Com isso, podemos dizer que o desenvolvimento de teorias não isoladas que são partes de um movimento em que converge noções das ciências da natureza e das ciências sociais traz inovações teóricas que contribuem com a crise do paradigma dominante e com o desenvolvimento de uma grande reflexão epistemológica sobre a produção científica e de conhecimento para a época, com diferentes vertentes, considerando as diversidades existentes na academia e nas comunidades científicas.

As discussões provenientes dessa nova perspectiva problematizam as práticas científicas, até então desenvolvidas, e aproximam as noções entre as ciências. Para as ciências sociais, essas discussões trouxeram algo importante, maior relevância e reconhecimento, alterando não só suas relações com as ciências naturais e o paradigma científico, mas também suas práticas e formas de desenvolvimento de pesquisas.

A crise do paradigma também tem a interferência nas condições sociais, conforme destaca Sousa Santos (1987. p. 34):

As ideias da autonomia da ciência e do desinteresse do conhecimento científico, que durante muito tempo constituíram a ideologia espontânea dos cientistas, colapsaram perante o fenômeno global da industrialização da ciência a partir sobretudo das décadas de trinta e quarenta.

A industrialização da ciência manifestou-se tanto ao nível das aplicações da ciência como ao nível da organização da investigação científica.

Essa situação também remete ao momento científico atual, controlado pelo mercado financeiro. Isso possibilita uma reflexão sobre a repetição ou continuidade da crise de um paradigma, ou, ainda mais especificamente, do aprofundamento da crise estabelecida no processo de industrialização. Os sintomas como generalizações, “conhecimento por encomenda” e o destaque dado ao objeto em relação ao sujeito, evidenciam não só aproximações, mas pontos comuns que podem explicar a construção de um rigor científico caracterizado pela relação financeira, mercadológica e de status.

Ao verificarmos a noção de proletarização das atividades de produção científica, durante a crise do paradigma dominante e próximo à constituição de um paradigma emergente, é impossível não relacionarmos com a atual relação mercadológica desenvolvida nas universidades brasileiras, seja no financiamento de projetos de pesquisa, seja na produção oriunda de pós-graduações, temos uma padronização que as agências de fomento pré-determinam através de níveis de produtividade.

Trata-se de uma relação que, consequentemente, se estende e também padroniza as relações interpessoais, conforme verificamos nas formas de orientação de pós-graduação,

(32)

pautadas na produtividade financeira que acaba por também tomar o status de orientando como funcionário, como empregado, ou seja, uma forma diferente, mas com os mesmos princípios de uma proletarização, seja na condição de subordinado, quando temos o pesquisador em relação aos agentes de fomento, seja na de empregador em relação aos seus orientandos.

Considerando as seguintes palavras de Sousa Santos (1987, p. 35),

[...] a crise do paradigma da ciência moderna não constitui um pântano cinzento de cepticismo ou de irracionalismo. É antes um retrato de uma família intelectual numerosa e instável, mas também criativa e fascinante, no momento de se despedir, com alguma dor, dos lugares conceituais, teóricos e epistemológicos, ancestrais e íntimos, mas não mais convincentes e securizantes, uma despedida em busca de uma vida melhor a caminho doutras paragens onde o optimismo seja mais fundado e a racionalidade mais plural e onde finalmente o conhecimento volte a ser uma aventura encantada. É importante percebermos que, ainda que estejamos num paradigma emergente ou no aprofundamento de sua crise, as palavras de três décadas atrás conseguem se fazer presente ainda hoje.

1.1.3 O desenvolvimento de um novo fazer científico

Conforme o percurso sobre a constituição e expansão do paradigma científico dominante, vemos como o paradigma das ciências da natureza consolidou-se, por muito tempo, como fundamento de toda atividade científica. Trata-se de uma situação que ainda mantém resquícios, quando analisamos as prioridades de financiamento das instituições públicas na atualidade.

Nesta seção, ao discorrer sobre a constituição de um novo paradigma (o paradigma emergente), buscamos compreender a relação entre os paradigmas anteriores e as formas de caracterização da produção científica atual. Por essa razão, fazemos um percurso panorâmico que descreve a ascensão das ciências sociais em relação às ciências da natureza que, durante um grande período, dominaram e preteriram as investigações que problematizavam os aspectos sociológicos da comunidade. Para isso, desenvolvemos esta reflexão com base na perspectiva de que a revolução científica, desenvolvida ao final do século XX, alterou o panorama do paradigma, influenciando a prática científica que temos no século XXI.

Um exemplo da alteração desse panorama é a relevância dada as pesquisas aplicadas e com pautas sociais. Esses fenômenos mostram a desmarginalização das ciências sociais, ocorrida durante a crise do paradigma dominante.

Referências

Documentos relacionados

Este cuidado contínuo com a qualidade de cada processo inerente à acção de formação é ainda reforçado com a garantia de repetição de qualquer acção de

O eletrodo proposto foi empregado com sucesso na determinação de ácido ascórbico em amostras comerciais; • Um eletrodo estável não enzimático, sensível e seletivo para a

As instruções sobre a atividade foram dadas por meio de apresentação em formato Microsoft PowerPoint e incluíam desde a orientação para baixar o CmapTools, a leitura de

A partir dos resultados numéricos e experimentais obtidos para o modelo físico da parede em consola, foi possível concluir que: − O valor do módulo de elasticidade que se obtém

 no caso da água fornecida a partir de uma rede de distribuição, no ponto em que, no interior de uma instalação ou estabelecimento, saí- das

F REQUÊNCIAS PRÓPRIAS E MODOS DE VIBRAÇÃO ( MÉTODO ANALÍTICO ) ... O RIENTAÇÃO PELAS EQUAÇÕES DE PROPAGAÇÃO DE VIBRAÇÕES ... P REVISÃO DOS VALORES MÁXIMOS DE PPV ...

Podemos então utilizar critérios tais como área, arredondamento e alongamento para classificar formas aparentadas a dolinas; no processamento digital de imagem, esses critérios

Jorge, Madalena, Maria, Miranda e Manuel de Sousa, entrando com vários Criados que o seguem, alguns com brandões acesos. Já, sem mais detença! Não apaguem esses brandões;