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5 REPRESENTAÇÃO X ESCRITA ACADÊMICA: a construção da

5.2 O espírito científico e a concepção de ciência presente na universidade

5.2.3 O conhecimento geral

Ao retomarmos os estudos de Bachelard (1996), também buscamos aproximação de nossas análises com o obstáculo epistemológico do conhecimento geral. Para o autor francês, essa forma de obstáculo é desenvolvida pela falta de explicações ocorrida no obstáculo de experiência primeira, considerando a qualificação anterior tínhamos uma característica de apego a determinadas imagens e não ideias.

Com isso, temos como consequência a promoção de uma generalização de conteúdo que imobiliza o desenvolvimento do pensamento. Nesse caso, vemos a presença de conhecimentos vagos na produção, que assim, se sustenta pela associação de respostas iguais para diferentes perguntas. Podemos explicar casos como esse, como a tentativa inicial de uma grande quantidade de pesquisadores utilizarem durante anos de pesquisa, uma única resposta para diferentes perguntas.

A partir disso, retomando as noções de discurso citado e representação, podemos utilizar, como exemplo, os textos que se estruturam a partir de repetições de conceitos, utilizados como fundamentação teórica. Além disso, entendemos que o sentido gerado pela leitura do texto evidencia uma característica de tentar responder todas as perguntas de pesquisa com uma única resposta.

Assim, compreendemos que o processo de generalização é consequência do não enfrentamento dos obstáculos epistemológicos, especialmente, daquele que Bachelard (1996) nomeia como o substancialismo, conforme vimos nos casos de trabalhos que desenvolvem a atribuição de autoria para uma área de estudo. Porém, para os casos de conhecimento geral, percebemos um procedimento mais especifico que desenvolve uma ideia de que uma área, além de proprietária de várias respostas, também tem seus conceitos sempre aplicados e compreendidos a partir do mesmo lugar.

Excerto 23 – Tese 08 – conceito CAPES 4

O excerto que selecionamos também foi retirado da parte do trabalho dedicada à reflexão teórica que apresenta a base conceitual que sustenta o trabalho de investigação e pontua a área de estudo em que a pesquisa realizada está inserida. O excerto possui sete linhas e foi selecionado em razão das diversas repetições de um mesmo conceito que o pesquisador marca em seu trabalho. Um fato que compreendemos como exemplo do obstáculo epistemológico que aponta a relação de uma modalidade de relação com o mundo social e a constituição de uma concepção de ciência pelo pesquisador.

1 – 2 – 3 – 4 – 5 – 6 – 7 –

Pêcheux (2009) propõe uma teoria não subjetiva da subjetividade, isto é, o sujeito é constituído pela exterioridade discursiva, pelas ideologias, pelo mundo social. O sujeito não é totalmente o dono do seu dizer, e apesar de ser um sujeito cindido, heterogêneo, é constituído por e pelas ideologias e pelos esquecimentos. Esse jogo de ilusão é condição para a existência do sujeito, uma contradição necessária também para o funcionamento do discurso; é o que possibilita o posicionamento do sujeito a partir de valores ideológicos, políticos, sociais e culturais (grifo nosso).

O excerto acima, em uma primeira leitura, não desenvolve sentidos que despertam inquietudes sobre problemas ou equívocos, mas, ao nos dedicarmos uma análise mais profunda, percebemos a marcação do conceito “sujeito”, por cinco vezes, conforme visualizamos nas linhas 1, 2, 3, 5 e 6. As diferentes retomadas ao conceito de sujeito nos chamaram atenção por perceber que temos por mais de uma vez um dos principais termos conceituais da teoria da Análise do Discurso apresentado de diferentes formas, mas que, se interpretados e observados, evidenciam processos de conceituação correspondentes e iguais.

Vejamos que, na linha 2, sujeito é conceituado como elemento “constituído pela exterioridade discursiva, pelas ideologias, pelo mundo social”. Ao mesmo tempo, na linha 4, é dito “é constituído por e pelas ideologias e pelos esquecimentos”. Por fim, entre as linhas 6 e 7 temos o dizer “é o que possibilita o posicionamento do sujeito a partir de valores ideológicos, políticos, sociais e culturais”.

Assim, mesmo que os processos tenham a inclusão de algumas informações, em especial, a conceituação presente na linha 4, que demarca o conceito teórico de “esquecimentos”, as explicações sobre sujeito retomam, por três vezes, uma mesma resposta sobre “sujeito”. Considerando que todos mantêm a associação do termo a questões externas da língua, ideológicas e sociais, não há acréscimos substanciais, as construções são versões de paráfrases sinonímicas que aquele que escreve utiliza como forma de repetir diversas vezes.

De certa forma, compreendemos que é uma prática que também auxilia a explicar a noção conceitual e a compreensão do leitor, porém, é uma forma de produção que evidencia o que chamamos de generalização, em razão de acreditar que explicar sujeito por diversas vezes resolveria ou faz parte do processo de investigação. É um exemplo de escrita que encontramos e compreendemos como reflexo do obstáculo de conhecimento geral. Procedimento em que a produção toma conceitos como formas e elementos que resolvem diferentes problemas, ou ainda que explicando, por diversas vezes, o mesmo termo se terá a resolução de problemáticas. Isso é também um obstáculo que o pesquisador desenvolve e não enfrenta o que evidencia, novamente, a primeira forma de relação com o mundo social. Aquela que tem o pesquisador baseado no processo de apego a imagens, que, nesse caso, é concentrada em

conceitos e que, por vezes, também pode ser reflexo da construção de formações que tomam teorias e seus conceitos como formas de responder ou resolver todos os problemas e processos de investigação de uma determinada área.

Dessa forma, vemos novamente uma relação entre representação do pesquisador que repete dizeres e hierarquiza conceitos através do apagamento do dizer de quem escreve e da exaltação de uma forma conceitual para desenvolver uma investigação científica que é aceita e representa a produção científica da área, ou seja, é resultado de uma concepção do que seja produzir na academia.