5. O BRINCANTE E A FESTA: TRAJETÓRIAS E CORRESPONDÊNCIAS
5.9 A Caninha Verde e o carnaval de Vassouras
Além das diferenças do espaço festivo e da forma de dançar a Caninha Verde, retomando a análise de Antônio Cândido (2006, p. 43), a relação entre os participantes também se modifica. Como vimos, nos bailes na fazenda não havia uma distinção entre os
“artistas e os receptores” e todos os que tomassem parte na festa poderiam dançar e cantar, inclusive as mulheres. Não havia um ensaio prévio, pois o aprendizado se dava de maneira mais espontânea, mediante o interesse de cada um e com a frequência nos bailes. Além disso, a prática festiva não era destinada a um público expectador, mas para uma coletividade que se divertia conjuntamente.
O Bloco da Caninha Verde representa a diferenciação entre artistas foliões e o público, ou entre os participantes diretos e indiretos. Com um público diversificado, a brincadeira não se realizava mais por códigos, gestos e habilidades de domínio da coletividade. Ao sair do âmbito privado, as mulheres nesse período não participavam do Bloco da Caninha Verde no carnaval. Nos ensaios era elaborada uma coreografia bem sincronizada entre as batidas do porrete e a toada, sendo comandada por um dos integrantes através de toques de apito, que conduzia a precisão da movimentação. Nas trajetórias e evoluções do bloco havia uma ocupação do espaço definida: como se deslocar, onde e quando
60 Entrevista concedida por Elisa Maria da Silva Conceição e Maria de Fátima da Silva Conceição a André Jacques Martins Monteiro em 23/07/2011.
61 Jogo que consiste em lançar, rente ao chão, chapas ou discos de metal a fim de derrubar pequenas estacas (20) colocadas a uma distância convencionada (CNFCP, 2010b).
parar para fazer a coreografia. Além disso, de maneira menos específica por conta das variações, pode-se incluir a própria uniformização das roupas para o desfile, as quais Seu Filhinho não reconhecia como fantasia.
No desfile da Caninha Verde havia uma exibição de habilidades desenvolvidas no treinamento em grupo, reconhecida inclusive no noticiário carnavalesco: “Foi motivo de grande atracção o bloco ‘Jogo de Pau’ estylo portuguez, que percorreu as ruas da cidade, sob a direcção do folião Alberto José da Motta (Bingue), pela precisão que executaram este difícil jogo” .(Correio de Vassouras, 26 mar. 1940, p. 5). Em certa medida, pode-se considerar a incorporação e hibridação de elementos ideais de um comportamento urbano, com referências adaptadas dos modelos de ordem vigentes, expressos na elaboração e precisão da movimentação e dos gestos em grupo. Guardando as devidas proporções do contexto vassourense, para Stanley Parker (1978, p. 33), na sociedade industrial, “o lazer tende a exibir as mesmas feições e relações sociais que caracterizam o mundo do trabalho industrial”, como a padronização.
Em torno da década de 1940 a Caninha Verde integrava a diversidade de brincadeiras, de práticas festivas e de bailes próprios da festa do carnaval, que expressavam as formas de divertimento dos diferentes segmentos sociais de Vassouras. Os periódicos difundiam a ideia de que o carnaval “é a festa em que os preconceitos não teem acção”, pois
“para os ricos é a continuação da vida de opulência, para os remediados é a recordação dos dias felizes e para os pobres é o esquecimento momentaneo das crises e adversidades da vida”. (Correio de Vassouras, 23 fev. 1938, p. 1). Em uma sociedade que incorporava à sua maneira a industrialização, tornavam-se cada vez mais definidos e distintos os espaços do trabalho e do divertimento (PARKER, 1978), diferenciando-se neste aspecto do meio rural, como também fomentando a utopia da festa em contraposição à dureza da vida.
Dentro de pouco tempo estaremos em pleno imperio de Momo. Breve estarão conosco esses tres dias loucos, verdadeiros oasis de alegria, no infindável dos trezentos de sessenta e dois dias de lutas, de apprehensões, de tristeza e, não raro,de muita dor physica e moral. (Correio de Vassouras, 16 fev. 1938, p. 1).
Nesse período já não existiam mais as sociedades carnavalescas e as escolas de samba ainda não haviam se estruturado em Vassouras. Os periódicos não registram os carros alegóricos pelas ruas do centro da cidade, que muitas vezes desfilavam fazendo críticas políticas. As elites locais ocupavam os espaços de bailes específicos: segundo Seu Ismar, no Clube Fluminense não entravam negros e pobres. Além do Zé Pereira, dos mascarados e
outras diversas práticas festivas, havia uma profusão de blocos ocupando as ruas. Os operários da fábrica de tecidos São Luiz organizavam um dos mais prestigiados blocos, como também um baile popular no salão da prefeitura municipal, no antigo prédio de câmara e cadeia.
A inexistência de uma vila operária permitiu que os trabalhadores se unissem em torno da fábrica, com a formação do bloco, do clube de carnaval e do time de futebol, usando o mesmo aparato que lhes impunha ordem como ponto de partida para sua própria organicidade externa. (RICCI, 2000, p.
119).
Figura 7 – Seu Aristides e foliões – fazenda Monte Alegre Fonte: Acervo Arlene de Souza (s/d)
Figura 8 – Seu Aristides e foliões – Praça Barão de Campo Belo Fonte: Acervo Arlene de Souza (s/d)
Dentre as brincadeiras de carnaval, Seu Ismar lembra também de uma “Vaquinha”, que era feita de uma armação de madeira para dar o formato, recoberto com couro bovino e uma cabeça de vaca empalhada em uma das extremidades, com espaço para duas pessoas
manipularem o brinquedo, os quais “iam sambando e correndo atrás das pessoas”. Há um registro dessa brincadeira em um jornal local:
Constituiu grande successo na cidade, a sahida á rua, de um bloco de foliões, com Zé Pereira e Escola de Samba, tendo à frente a famosa e endiabrada vacca “Tulipa”, que todos os annos vem animar o Carnaval vassourense. E ella estava indiabrada mesmo, completamente indignada com a falta de animo do povo vassourense, logo agora que os dias consagrados a folia estão se aproximando cada vez mais. (Correio de Vassouras, 18 jan. 1939, p.
1)
Seu Ismar descreve também o Seu Juvenil, que comandava a Vaquinha. Segundo ele, tratava-se de “um senhor idoso, que vinha com um ‘chapelão’ que era uma coisa medonha”.
Ele dobrava a calça em alturas diferentes e com uma vara de bambu vinha “tocando” a vaca.
Lembra Seu Ismar, que ela “deitava no chão e ele gritava com a vaca pra ela levantar”. Em dias de muito calor era necessário revezar os manipuladores da Vaquinha, pois o revestimento de couro causava um abafamento excessivo. O jornal Correio de Vassouras (18 jan. 1939, p.
1). – não sendo possível confirmar se se tratava da mesma pessoa – faz referência ao “celebre toureador Zico”, que “cortou uma volta com a ‘bicha’, sendo obrigado a fazer continuadas
‘pegadas’ para que Ella não tomasse de assalto o Bar do Mandaro, onde forçosamente iria fazer innumeras tropelias, tal a ‘sêde’ que alimentava”.
Há um registro em Danças dramáticas no Brasil, de Mário de Andrade (1959) sobre Bumba-Meu-Boi em Vassouras. Esse registro foi realizado em torno da década de 30 por Luiz Seabra, músico que compôs o Hino de Vassouras e integrou durante muitos anos o Clube Recreio Vassourense (SILVA, 1998). Não há nenhuma referência na obra de Mário de Andrade que contextualize esta prática festiva e atualmente não foi possível encontrar nenhum registro ou relatos sobre esta brincadeira. Também não foi possível confirmar se a brincadeira da Vaquinha relatada pelo Seu Ismar correspondia ao registro do maestro Luiz Seabra.