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A Capoeira é do Brasil? A Capoeira no contexto da

Globalização

José Luiz Cirqueira Falcão*

Introdução

Este texto analisa o processo de globalização da capoeira no contexto da reestruturação produtiva do capitalismo.

Embora a mídia em geral ainda não tenha devidamente evidenciado esse fenômeno, é importante afirmar que ao longo dos últimos anos, a capoeira vem se inserindo vertiginosamen- te nos mais diferentes espaços institucionais das médias e gran- des cidades do Brasil e em vários países do exterior, consoli- dando um avanço histórico controvertido. Se, por um lado a capoeira, na época da escravidão, era associada com as lutas de negros escravizados em busca da liberdade, por outro, atu- almente, ela tem sido vinculada majoritariamente com a lógi- ca do mercado.

A capoeira, criada pelos negros africanos escravizados no Brasil, a partir do Século XVII desenvolveu-se como um misto de jogo, luta e dança praticada ao som de instrumentos musi-

* Professor Adjunto III da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutor em Educação pela

Universidade Federal da Bahia. Coordenador do Núcleo da Rede CEDES da UFSC. Sócio Pesquisador do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. Mestre de Capoeira do Grupo Beribazu. [email protected].

cais criados com elementos da natureza pelos próprios negros, com auxílio de suas palmas e cantos, que eram praticamente os únicos recursos disponíveis naquela situação de cativeiro.

Apesar de conter lógica própria, a capoeira apresenta tra- ços de conformismo e resistência muito próprios do campo das culturas populares. Ao mesmo tempo em que incorporou códi- gos e valores dominantes da sociedade, ela foi capaz de simul- taneamente negá-los com sutileza, a partir de alguns compo- nentes, como o exercício do lúdico, a irreverência gestual e as suas cantigas, que ao reatualizarem fatos históricos, aguçam a necessidade de reflexão crítica sobre eles.

Em seu desenvolvimento no Brasil, a capoeira consolidou, a partir do Estado da Bahia, duas vertentes distintas, mas inter- relacionadas: a Capoeira Angola e a Capoeira Regional. Se- gundo Vieira (1995), a Capoeira Regional insere-se numa lógi- ca metódica e racional com vistas ao incremento da eficiência, em oposição à Capoeira Angola, cujos princípios estão calca- dos no improviso e na irreverência.

Se para Mestre Bimba1, o criador da Regional, a capoeira

surgiu na região do Recôncavo Baiano (daí a denominação Regional), portanto, brasileira, para Mestre Pastinha2 – o prin-

cipal representante da Capoeira Angola –, ela teria suas raízes em terras angolanas, a partir de uma dança-luta africana de iniciação sexual chamada N’golo, portanto, africana. A partir dessas diferentes visões dos principais líderes acerca da origem

1 Mestre Bimba - Manuel dos Reis Machado (1899 - 1974) era filho de Maria Martinho do Bonfim e Luiz

Cândido Machado. Foi iniciado na capoeira aos 12 anos, pelo africano Bentinho, capitão da Companhia de Navegação Baiana. Fundou na década de 1930, em Salvador, a primeira academia de capoeira do Brasil.

2 Mestre Pastinha - Vicente Ferreira Pastinha (1889 - 1981) era filho de José Pastiña, um mascate espanhol,

e Raimunda dos Santos, uma negra. Foi iniciado na capoeira aos 10 anos de idade pelo africano Benedito, natural de Angola. Aos 12 anos de idade, entrou para a Escola de aprendizes de Marinheiro onde permaneceu até os 20 anos. Fundou em 1941, em Salvador, o Centro Esportivo de Capoeira Angola e tornou-se o principal guardião da Capoeira Angola.

da capoeira, perfilam outras tantas tentativas de diferenciação que demarcaram profundamente os códigos simbólicos de uma e de outra3. Essas diferentes visões, que não são apenas de

conteúdo, mas também ideológicas, demarcam o debate entre uma capoeira, cujos praticantes a definem como mais popular e de resistência, a Angola, e outra mais sintonizada com os valores dominantes, a Regional.

É importante considerar que essa divisão e suas diferentes defesas apresentam conflitos e ambiguidades, pois no contex- to contemporâneo, a dinâmica cultural transforma cada capo- eira praticante em um mosaico de códigos indecifráveis, dissol- vendo identidades estáveis e criando produtores de identidades múltiplas. Isso pode ser facilmente verificado no próprio movi- mento dos grupos de capoeira. Tais grupos vêm demonstrando que, a despeito de cultivarem a “mesma” capoeira, produzem “múltiplas” capoeiras, evidenciando, assim, que identidade não é uma entidade absoluta, uma essência que tenha sentido iso- ladamente. A chamada “crise de identidade”, presente tam- bém nos grupos de capoeira, está abalando os quadros de re- ferência que davam uma ancoragem estável ao mundo social. As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identi- dades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. É nesse cenário fragmentado que a capo- eira se insere.

O desenvolvimento da capoeira apresenta contradições importantes que se expressam pela visível expansão e desloca- mentos que ela vem operando no contexto nacional e interna- cional. Nos últimos anos, constata-se a saída de expressivo

3 Para saber mais a respeito da Capoeira Angola e Regional, ver, por exemplo: Abreu (1999; 2003); Moura

número de praticantes (mestres e discípulos), para o exterior, em busca de melhores condições de sobrevivência que, além de contribuírem, efetivamente, com o seu processo de expan- são no mundo, influenciam também na inversão dos fluxos migratórios, ou seja, se no início do Século XX europeus vie- ram em massa para o Brasil, neste início de Século XXI, é possível perceber um considerável número de brasileiros diri- gindo-se ao continente Europeu. Exemplo disso é que somente para Portugal, na década de 1990, cerca de 110 mil brasileiros migraram para aquele país. Em relação à capoeira, são 35 professores, dentre eles 20 mestres, trabalhando com essa arte- luta em terras lusitanas.

O principal objetivo deste artigo é analisar o processo de internacionalização da capoeira, conforme trabalho de pesqui- sa realizado a partir do estágio de doutoramento em 2003, no Instituto de Ciências Sociais (ICS), da Universidade de Lisboa. Os dados relatados foram obtidos das pesquisas realizadas em seis países da Europa (Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e Noruega), e, também, a partir de dados da capoeira em outros países do capitalismo central, como os Estados Uni- dos da América e a França.

Foram observadas aulas práticas e teóricas, intercâmbios, comemorações, exibições e confraternizações. Foram também entrevistados líderes de grupos que já desenvolvem trabalhos sistematizados no exterior há mais de três anos.

A Internacionalização da Capoeira: de símbolo