Em Summer Stock21, dirigido por Charles Walters, Gene Kelly interpreta Joe D. Ross, um coreógrafo e diretor em processo de montagem de um musical. Sem ter onde ensaiar, instala-se com a trupe na fazenda de Jane Falbury, papel de Judy Garland, por intermédio de sua irmã Abigail Falbury, interpretada por Gloria de Heaven. Os atores precisam ajudar na fazenda e Jane acaba por ensaiar o papel da irmã, que teve um chilique de estrela e abandonou o grupo. Por fim, Jane se mostra melhor atriz e cantora que Abigail, e estreia o espetáculo na Broadway ao lado de Joe.
Porém, antes de ceder ao poder da arte, Jane era uma mulher que só pensava em trabalho, era ácida e mal humorada. Numa reunião social no celeiro, que Jane ofereceu a seu grupo de amigos, os jovens atores do musical mudam o clima do evento, tomando os instrumentos, tocando e dançando animadamente. Joe tenta dançar com Jane, que resiste por algum tempo até que entra em uma disputa de sapateado com ele, revelando seu talento. A
21 SUMMER STOCK. Direção: Charles Walters, 109 min, 1950.
dança vai mudando, crescendo, Jane diverte-se e sorri feliz. Ao final, Jane não é a mesma:
experimentou um processo de catarse da arte.
Ainda que não se saiba precisamente de que maneira, através da arte, seja por meio do fazer ou do apreciar uma obra artística, é possível alcançar alguma melhora na saúde de pessoas acometidas das mais diversas enfermidades. Segundo as pesquisas em DMT e outras áreas da saúde anteriormente citadas, dentre as duas opções – fazer ou apreciar – é possível haver diferenças, dependendo da linguagem artística, nos efeitos que geram nas pessoas. Por exemplo, não é necessário saber tocar um instrumento para que ocorra o efeito terapêutico, com a música acontece pelo ouvir. Quanto ao teatro, à dança e às artes visuais, o efeito mais forte sobre a saúde parece ocorrer no fazer. O que importa é que todas as artes, consideradas essas diferenças, possibilitam uma reorganização interna no ser humano que pode atingi-lo integralmente, ou seja, psíquica e fisicamente.
Em que consiste tal reorganização, como acontece e por quê? Um dos aspectos da arte que contribui para tal reorganização é o afetivo: a possibilidade de expressão de forças inconscientes através do desenho, de expressar os sentimentos pela dança e de ser emocionado por um filme, uma poesia ou uma música. Essa concepção corresponde de certa forma à ideia de catarse
Catarse é um termo originário do grego katharé-o que significa purgar, e foi primeiramente usado no campo da medicina. Segundo o tratado hipocrático, a causa de todas as doenças seria a desarmonia dos humores, os fluidos corporais que também definiam os temperamentos, em um organismo. A catarse do excesso (hiper) ou o acréscimo à falta (hipo) reconduziriam o organismo ao equilíbrio humoral, restaurando sua saúde. Aristóteles (2008) introduziu a ideia de catarse como expurgação de sentimentos provocados no espectador ao assistir a uma tragédia. Os excessos contidos no interior do organismo teriam a possibilidade de vazão através da apreciação da obra artística.
Para o STAA, a catarse pode ser experimentada tanto no fazer quanto no apreciar artístico. Trazendo também a ideia de depuração, para esta teoria a reação estética limpa o caldo emocional saturado pelos conflitos das interações fora de ordem, permitindo o
"(re)equilíbrio interacional necessário à homeostase" (CEBULSKI, 2014, p. 169). A catarse possibilita a restauração da ordem nas interações da pessoa com o meio.
Para Vygotsky (2001) a reação estética causada pela arte é um fenômeno especial e de grande importância para o ser humano; é uma reação a uma obra de arte que, comparada a qualquer reação gerada por uma atividade não artística, envolve intensa complexificação e
exige um enorme gasto de energia psíquica. Isto confere à arte uma função biológica, pois
“resolve e elabora aspirações extremamente complexas do organismo” (VIGOTSKI, 2001, p.
309).
Segundo o autor russo, o organismo humano, recebendo estímulos do meio em número extremamente superior ao que seu sistema nervoso pode processar, precisa eliminar essa parte de vida não realizada. A arte é uma válvula que permite descarregar essa energia nervosa e reequilibrar o organismo, complementando a vida e ampliando suas possibilidades.
Para o autor, “a arte é a mais importante concentração de todos os processos biológicos e sociais do indivíduo na sociedade” (VIGOTSKI, 2001, p. 328).
Vygotsky (2001) sugere, já naquele momento, uma diferença entre uma arte
“verdadeira" que produz a reação estética e a cultura de massas, que não realiza esse efeito de fato. Ao criticar o ponto de vista da função e papel da arte na teoria psicanalítica, que situa a criação e apreciação da arte entre o sonho e a fantasia, fundamentados no princípio do prazer e no inconsciente, diz:
Não é por acaso que, quando Freud fala das semelhanças entre os romances e as fantasias, acaba tomando por modelo romances francamente ruins, cujos autores satisfazem um gosto de massa muito pouco exigente, fornecendo alimento não tanto para emoções estéticas quanto para a franca superação de aspirações recônditas. (VIGOTSKI, 2001, p. 91).
Para o autor, portanto, a arte produz no ser humano mais que realizações de desejos ocultos. As emoções suscitadas pela arte não são simples prazer e sua apreciação não é apenas passiva. É necessária uma atividade interna complexa de atribuição de significado por parte do observador. Como produto simbólico em que a forma e o conteúdo compõem uma unidade, a arte tem seu efeito psicológico pela superação dessa forma. A arte é ainda uma “técnica social de sentimento”: sistematiza o sentimento do homem, que é socialmente condicionado.
O principal papel e aspecto da arte é precisamente a organização de emoções e sentimentos.
Com Hennequin, consideramos a obra de arte como um "conjunto de signos estéticos, destinados a suscitar emoções nas pessoas”, e com base na análise desses signos tentamos recriar as emoções que lhe correspondem.
(VIGOTSKI, 2001, p. 3).
Essas emoções não surgem ao acaso, não são aquelas funções psicológicas primárias necessárias à sobrevivência. São emoções superiores, construídas a partir dos significados compartilhados na vida social. As linguagens artísticas, ainda que sistemas de signos próprios,
são mediadas por outros, como a matemática, a linguagem oral e a escrita. A construção social do sentimento é mediado pela fala, mas a reação estética não é racional.
Se Goethe tem razão ao dizer que ‘quanto mais inacessível à razão, mais elevada a obra’22, elucidá-la, torná-la acessível à razão significa rebaixá-la.
Oscar Wilde diz: ‘Existem dois meios de não amar a arte. Um é simplesmente não amá-la. O outro é amá-la racionalmente’23. […] se até o pensamento… se turva ao passar pela expressão, como é dito em As noites russas de Odoiévski (belo livro, integralmente baseado nesse tema), então não existem palavras capazes de transmitir aquela “sensação comovida” que, sozinha, se constitui na verdadeira compreensão da obra de arte.
(VYGOTSKY, 1999b, p. XXV).
Esta citação é explicada também em Psicologia da Arte (VIGOTSKI, 2001), quando Vygotsky diz que os estudos críticos de arte na escola destroem o efeito da arte. Uma obra, se racionalmente explicada, tem aniquilado o seu poder, a sua ação estética. A experiência artística é afetiva, intuitiva. Ainda que o autor não use diretamente esse termo, ele cita James24, que relaciona a “sensação comovida” às vivências místicas, inefáveis, e diz que “na medida em que somos dotados dessa intuição para o místico ou a perdemos, existem ou não existem para nós as eternas revelações em arte.” (VYGOTSKY, 1999b, p. XXVI). Diz ainda que “o ato artístico é um ato criador e não pode ser recriado por meio de operações puramente conscientes.” (VIGOTSKI, 2001, p. 325).
Em arte um bloco de pedra torna-se um David; uma tela plana de canvas torna-se a Mona Lisa; um punhado de barro torna-se Lampião e Maria Bonita. A base da reação estética é a contradição entre os elementos da forma, da qual o material é parte, e seu conteúdo, bem como da contradição das emoções que o objeto de arte suscita. Com essa, ideia o autor contrapõe-se àquela de harmonia entre forma e conteúdo preconizada pelas teorias estéticas que o antecederam. "[…] de repente descobrimos que isto é o maior dos equívocos, que a forma combate o conteúdo, luta com ele, supera-o, e que nessa contradição dialética entre conteúdo e forma parece resumir-se o verdadeiro sentido psicológico da nossa reação estética.” (VIGOTSKI, 2001, p. 199).
Não é a forma em si, portanto, nem seu material, nem seu conteúdo que diferenciam a arte de outras criações humanas ou que realizam o efeito estético; não são as rimas da poesia,
22 Extraído de: JIRMUNSKI, V. Vopróssi teórii literaturi. (Questões de teoria da literatura). Stati (Artigos) 1916-1926. Ed. Academia, 1928. (citado como em Vygotsky, 1999b).
23WILDE apud RANK, O.; SACHS, N. Znatchênie psikhoanáliza v náukakh o dukhe (A importância da psicanálise na ciência da alma). Spb, 1913.
24JAMES apud LALO, C. Vediênie v estétiku (Introdução à estética). M., Ed. Trud, 1915.
nem as notas da música, nem o cisne do balé; é toda a organização específica de um objeto artístico que engendra a contradição emocional. O material parece resistir, opor-se com suas propriedades àquilo que o artista quer exprimir. Quanto maior a incompatibilidade interna entre o material e a forma, com mais força o conteúdo da obra age sobre o leitor. As propriedades formais não desvelam o conteúdo, ao contrário, faz necessário superá-las.
Uma poesia que fala sobre a miséria humana não produz simplesmente tristeza; é na contradição entre as emoções propiciadas pela organização das palavras no poema e do horror que nos causa a condição da miséria que o organismo realiza a reação estética. A comédia produz seu efeito na contradição entre a forma que o dramaturgo utiliza para mostrar as desgraças humanas, seu conteúdo, fazendo-nos rir de nossas próprias fraquezas, quando, em uma situação real, choraríamos ou nos desesperaríamos. O mesmo ocorre com a tragédia, como mostra Vygotsky (1999b; 2001) a respeito de Hamlet de Shakespeare.
Ao falar sobre a fábula, o autor explica que a reação estética é levada a cabo desenvolvendo-se em dois planos contraditórios – matéria-forma, forma-conteúdo – que intensificam-se; mas ambos os planos estão reunidos numa mesma ação, ainda que permaneçam duais. As emoções suscitadas pela forma-material estão em permanente antagonismo com as emoções causadas pelo conteúdo. É a prevalência da contradição emocional suscitada pelos dois planos que constitui o fundamento psicológico da reação estética. Os sentimentos opostos necessariamente gerados pela obra de arte são solucionados por um curto-circuito que destrói a energia nervosa produzida pela elevada atividade do psiquismo e resolve, assim, o conflito interno:
Poderíamos dizer que a base da reação estética são as emoções suscitadas pela arte e por nós vivenciadas com toda realidade e força, mas encontram a sua descarga naquela atividade da fantasia que sempre requer de nós a percepção da arte. Graças a esta descarga central, retém-se e recalca-se extraordinariamente o aspecto motor externo da emoção, e começa a nos parecer que experimentamos apenas sentimentos ilusórios. É nessa unidade de sentimento e fantasia que se baseia qualquer arte. Sua peculiaridade imediata consiste em que, ao nos suscitar emoções voltadas para sentidos opostos, só pelo princípio da antítese retêm a expressão motora das emoções e, ao pôr em choque impulsos contrários, destrói as emoções do conteúdo, as emoções da forma, acarretando a explosão e a descarga da energia nervosa.
É nessa transformação das emoções, nessa sua autocombustão, nessa reação explosiva que acarreta a descarga das emoções imediatamente suscitadas, que consiste a catarse da reação estética. (VIGOTSKI, 2001, p. 272).
A catarse é, portanto, o resultado de um processo dialético: dois opostos geram uma síntese, ideia central da teoria de Vygotsky tanto para a reação psicológica à arte como para
todas as funções psicológicas do ser humano desenvolvidas ao longo da vida. Os sentimentos contraditórios realizam uma ação mútua, mas ao final chegam a uma bifurcação: ou são eliminados ou dão lugar a um novo sentimento.
Quando a reação estética é um novo sentimento, Valsiner (2015), partindo de Vygotsky, o define como uma abstração afetiva ou generalização em forma de sentimento, obtida pela construção de um complexo de significado; esse sentimento generalizado propicia novas bases para os sentimentos no mundo.
Para Valsiner (2015), a analogia do curto-circuito é inadequada na ideia de desenvolvimento como processo dialético de Vygotsky. Todo o desenvolvimento das funções psicológicas superiores passa por esse processo. Uma função menos desenvolvida, diante das exigências do meio, passa por uma transformação por meio da atividade do sujeito.
Concordo parcialmente com a posição de Valsiner: a analogia é provavelmente inadequada por que nunca há destruição dos sentimentos. Sempre há um novo sentimento ao final do processo com a arte. Porém, ao meu ver a síntese não é apenas uma resolução de opostos; a síntese é uma nova criação; criada, sim, a partir das contradições contidas na obra.
O novo produto, a nova obra resultante do processo de apreciação, traz a síntese das emoções e sentimentos. A obra de origem é, em si, uma síntese produzida pelo artista; assim é a recriação interna dessa mesma obra, feita pelo apreciador.
O artista também experimenta um processo de catarse ao criar sua obra, mas ele culmina com o término da obra. Na apreciação a catarse renova-se a cada vez que revisito a obra e outra vez a recrio para mim: a cada releitura de um livro eu recrio um todo novo, diferente do anterior. Como a arte é historicamente situada, pode ocorrer de uma obra perder o sentido pessoal e deixar de me afetar.
Então, é possível que o processo de apreciação da arte ocorra como Vygotsky o explica; mas que a reação estética, o “prazer" propiciado pela arte não seja a aniquilação dos sentimentos, nem apenas um novo sentimento generalizado. A reação estética ocorre quando recriamos o objeto internamente, suprindo a necessidade da imaginação criativa apontada por Vygotsky (2014) e desse produto surge a síntese, a abstração afetiva. Entendo que esta é a atividade-e-resultado da apreciação estética.
Por esse motivo, não são todas as obras que nos afetam esteticamente; por isso dizemos eventualmente que “a obra não nos diz nada”, não gostamos. Tal obra não fecha o círculo da criação imaginativa em nós, não supre nossa necessidade de realização. Porque seus elementos estão muito distantes de nossas vivências, não fazem sentido para nós e não
conseguimos reelaborá-los, não possibilitando a criação da síntese. É possível, assim, que determinados artistas nos afetem mais que outros.
2.8 ARTISTAS E ARTISTAS OU QUANDO A REAÇÃO ESTÉTICA DEPENDE DO