Nesta parte de Cantando na Chuva, Kelly e O'Connor estão em uma aula de dicção.
O rígido professor se ocupa em fazer os personagens realizarem os exercícios mecânicos com a língua, atendo-se estritamente à pronúncia. Don e Cosmo começam a brincar com as frases do exercício, o que logo se transforma em uma extraordinária cena de canto e sapateado. Os personagens interagem em uma sincronia afinada de som e movimento e tentam inserir o professor na ação. A flexibilidade dos dançarinos se opõe à rigidez do professor, que acaba sendo colocado de lado. O professor não consegue perceber as possibilidades da situação ou o ponto de vista dos dançarinos. Simplesmente não consegue ver o motivo para a ação, a diversão que os outros experimentam ao brincar com a linguagem.
Na psicologia histórico-cultural de Vygotsky a linguagem oral desempenha um papel crucial no desenvolvimento do ser humano, uma vez que impulsiona a formação de novas estruturas psicológicas, estrutura o pensamento e é a forma essencial de comunicação nas interações. A linguagem pressupõe sentido e significado, que também pressupõem alteridade e interação.
Sendo a linguagem mediadora do pensamento, é a base para a formação do pensamento abstrato e da imaginação, vontade, memória, percepção, atenção e emoção superiores. A relação é bidirecional: ambos, linguagem oral e pensamento, influenciam-se
reciprocamente. Pode-se entender que o maior domínio da linguagem permite maior domínio do pensamento e vice-versa.
Uma criança pequena encontra-se em processo de desenvolvimento e domínio da linguagem. Vygotsky (1994b) explica como, através das várias etapas de desenvolvimento, ela chegará à compreensão de um conceito. Tratando-se de um conceito científico, a escola tem uma função determinante. De qualquer modo, o objetivo da linguagem oral ou escrita é propiciar a comunicação entre os seres, de modo que o pensamento de um enunciador possa ser expresso e um receptor possa compreendê-lo. A comunicação exige a existência de, pelo menos, dois sujeitos.
Em um diálogo, para que alguma comunicação possa ser estabelecida é necessário que aquele que ouve consiga perceber e compreender o ponto de vista do outro, o que fala.
Alternando dinamicamente as posições entre falante e ouvinte, a comunicação possibilita aos participantes enxergar o mundo com novos olhos. O que não significa que alguém deva abandonar seu próprio ponto de vista para tomar como seu o do outro; conhecer mais o outro permite conhecer mais a mim mesmo.
A relação dialógica já está presente no processo de aquisição da linguagem e na construção do sentido e do significado. Antes mesmo de falar, a criança apropria-se do ritmo e da acentuação da língua (BUHLER apud PONTY, 2006). Aos seis meses um bebê chama a atenção dos adultos com vocalizações e movimentos; aos onze já é capaz de realizar atividades e brincadeiras organizadas e responder às vocalizações de outros bebês. A comunicação, portanto, começa muito cedo, inclusive pelo uso de gestos. A criança movimenta seu próprio corpo com a finalidade de afetar seu entorno, como se o meio fosse parte dela. As primeiras palavras da criança têm uma função indicativa, e acompanham ou substituem o gesto. A fala torna-se o meio para afetar os outros, para afetar o mundo, o que antes era feito pelo movimento (VYGOTSKY, 1997e).
Os objetos, as palavras que os representam e seus significados entram em interação com a criança pequena por meio das pessoas à sua volta, com quem também interage.
Aprendendo a falar, a criança imita o som da fala dos adultos, como diz Guillaume (apud PONTY, 2006), não por causa dos sons em si, mas pelo objetivo estabelecido pelo exterior. O que a criança reproduz é o uso das possibilidades fonéticas disperso no meio. Ao tentar repetir a palavra “água", ela deseja obter um recipiente contendo o líquido: o signo interpõe-se entre o reflexo, a sede, e sua satisfação; o som que a criança pronuncia de forma incipiente já tem para ela um significado.
O signo tem um significante e traz em si um significado. Quando digo a palavra (signo) "árvore" (significante), o significado é de um vegetal lenhoso com raiz, tronco e folhas, por exemplo. Já o sentido da palavra árvore é estabelecido a partir das experiências afetivas com esse vegetal.
Assim, o sentido é construído nas experiências afetivas da interação com o mundo.
Gonzalez-Rey (2004) define o sentido como uma unidade que integra os significados e os processos simbólicos aos processos afetivos presentes nas interações. Ele é subjetivo e muito mais amplo que o significado. Na inserção do ser humano no mundo, no relacionamento com o outro, o sentido é formado a partir da emocionalidade dos contextos em que os produtos simbólicos são utilizados.
A criança começa utilizando a linguagem em sua função comunicativa. Se ela usa as palavras para atingir fins, como propôs Guillaume, talvez sejam os sentidos que acompanham a linguagem em todas as experiências afetivas vividas por ela, que possibilitam sua aquisição.
Depois, com o processo de internalização, a criança passa a utilizá-la como meio do pensamento. Na idade escolar ela já desenvolveu a fala interna, que nesse momento passa a ser o principal instrumento do pensamento.
Se no estágio do brinquedo a criança pensa e age em uma maneira mista e o pensar em alguma atividade incorporada em signos conduz diretamente à dramatização, ou seja, a levar de fato a atividade a termo, o pensar e agir da criança na idade escolar estão mais ou menos separados um do outro. No brinquedo vemos uma forma singular do uso de signos: para a criança, o processo de brincar em si, ou seja, o uso de signos em si, ainda está intimamente ligado ao entrar no significado desses signos, na atividade imaginária; neste caso, a criança usa o signo não como meio, mas como um objetivo em si mesmo. (VYGOTSKY, 1997e, p.250, tradução minha).
Para explicar melhor as mudanças que ocorrem na criança em relação à linguagem e ao pensamento, Vygotsky (1997e) recorre a Piaget. Em geral, a atividade da criança pequena é impulsiva, reativa e não consciente. Na fase escolar ela já tem consciência de suas ações e as planeja por meio da linguagem, mas ainda não tem consciência dos próprios pensamentos, não os leva em conta nem os controla, não reage a eles. O pensamento flui na criança reativamente, ou seja, como antes fluíam as ações em seu corpo. No processo de desenvolvimento a criança aprende a controlar seus pensamentos, assim como aprendeu a controlar suas ações.
Apenas na idade de transição, a puberdade, os processos do pensamento são dominados. É nesse momento que a pessoa descobre seu “eu”, que são formadas sua
personalidade e sua visão de mundo. A visão de mundo é o que caracteriza o comportamento da pessoa como um todo, a sua relação cultural com o mundo exterior, é a personalidade no plano subjetivo. Estes dois processos são centrais no desenvolvimento cultural. O adolescente torna-se consciente de seu mundo interior e suas possibilidades (VYGOTSKY, 1997e):
[…] o processo de desenvolvimento cultural pode ser caracterizado como o desenvolvimento da personalidade e da visão de mundo da criança. […]
Personalidade é entendida aqui com um sentido mais estreito que o sentido usual da palavra. Não incluiremos aqui todos os traços da individualidade que a distinguem de um número de outras individualidades, que identificam sua singularidade ou a relaciona com um ou outro tipo específico. Estamos inclinados a colocar um sinal de igualdade entre a personalidade de uma criança e seu desenvolvimento cultural. Assim, a personalidade é um conceito social; ela engloba o que é sobrenatural e histórico na humanidade.
Não é inata, mas surge como um resultado cultural do desenvolvimento porque “personalidade” é um conceito histórico. (VYGOTSKY, 1997e, p.
242).
Segundo Vygotsky (1997e), o momento decisivo do desenvolvimento da personalidade ocorre quando a criança reconhece seu “eu”. A concepção do “eu” é desenvolvida a partir da sua concepção sobre os outros ao seu redor, aplicando a si mesma os aparelhos adaptativos que ela aplica em relação aos outros. Por isso, para esse autor, é pelo outro que cada um pode conhecer a si mesmo. O domínio de um comportamento que a criança alcança é formado a partir do comportamento dos adultos com os quais interage. Interagindo com a cultura, através de outras pessoas, a criança adquire a capacidade de se expressar pela linguagem. Na interação e pela linguagem ela constrói o pensamento e a si mesma.
Do desenvolvimento da personalidade como um todo deriva o desenvolvimento de cada função psicológica, porque as funções são interativas e interdependentes. A personalidade é o pré-requisito para que o ser humano domine os processos de seu comportamento e tem alguma relação com a aquisição da fala.
[...] a fala, o principal meio de desenvolvimento da personalidade, [...]
aparece como o meio básico do pensamento e está conectada ao desenvolvimento do gesto, do desenho, brinquedo e escrita. (VYGOTSKY, 1997e, p. 243, grifo meu).
A compreensão de que as coisas têm nomes e significados começa pelo gesto, pelo movimento dos corpos em interação. A linguagem escrita e a matemática já são mediadas pela
linguagem verbal. Outras linguagens, como a música, a dança, a gráfica podem passar pela mediação da linguagem verbal.
O gesto parte de um significado afetivo para depois “receber” um equivalente linguístico. Um abraço tem um significado afetivo; o signo linguístico que o traduz é conhecido em momento posterior pelo bebê. Toda a compreensão que pode ter do seu mundo antes de entender a fala é dada pelos significados afetivos dos corpos que se acham ao seu redor. O tom e modulação das vozes, as expressões dos rostos, os gestos e atitudes dos corpos revelam significados e sentidos. Assim, a construção de sentido e significado começa antes da fala, pelo gesto, e a linguagem do corpo como um todo precede a linguagem oral.
Amparado em Stern, Gil (2004) usa o termo “afeto de vitalidade” para designar um acesso à qualidade do que é sentido na execução de uma ação ou gesto. Distinto dos “afetos categoriais”, macroscópicos, como a alegria, a tristeza ou o medo, os “afetos de vitalidade”
são microscópicos mas percebidos nas ações mesmo que não haja qualquer “afeto categorial”
observável. “O afeto exprime uma potência e uma força que transportam com elas imediatamente seu sentido.” (GIL, 2004, p.88).
Posteriormente, mesmo dominando a linguagem oral, o gesto continua sendo utilizado e cumpre sua função significativa nas interações entre as pessoas:
[...] os gestos funcionam como sinais ou sintomas de nossos desejos, intenções, expectativas, exigências e sentimentos. Porque é possível controlá-los conscientemente, também podem ser elaborados, exatamente como sons vocais, em um sistema de símbolos atribuídos e combináveis, uma genuína linguagem discursiva. (LANGER14 apud MOTTA, 2006, p.
177).
Motta (2006) diz que o gesto, quando organizado em forma de código, passa a ser linguagem. Os movimentos significativos comunicam e expressam o verbo, um conjunto de significados. O sentido do verbo é uma exposição "de planos, pensamentos, intenções e impulsos que pode ser expresso através de uma variedade de formas" (MOTTA, 2006 ,p. 174).
Para a autora, o pensamento pode ser comunicado por várias linguagens, quando uma se mostra insuficiente para exprimi-lo de maneira plena ou satisfatória.
De acordo com Gil (2004), por sua vez, não é possível descrever o movimento dançado em palavras. Seu nexo é dito de um modo diferente. Se o gesto não extrai seu sentido
14LANGER, Suzane K. Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva, 1980.
de algum signo preconcebido, é um “movimento em direção a significações” (GIL, 2004, p.
90).
Podemos dizer que o conteúdo do pensamento e dos afetos pode ser expresso, então, por meio de várias linguagens: matemática, musical, gestual ou outra. O pensamento por conceitos, o mais alto nível da capacidade de abstração iniciada quando a criança aprendeu a falar, é alcançado somente na adolescência. É o climax de um processo iniciado no momento em que o bebé foi exposto ao mundo da cultura, ao mundo real criado pelos seres humanos (VYGOTSKY, 1994b).
Somente na adolescência o conceito “arte” é compreendido e a pessoa passa a realmente produzi-la e apreciá-la (VYGOTSKY, 2014). Enquanto a linguagem oral organiza o pensamento do falante, para Vygotsky a arte é um “conjunto de signos estéticos, destinados a suscitar emoções nas pessoas.”(VIGOTSKI, 2001, p. 3), o que a faz contribuir para que se organize o sistema afetivo-cognitivo como um todo.
Sendo cada modalidade de arte uma linguagem específica, com forma e conteúdo próprios, assim como a língua oral e a matemática, também podem desempenhar papéis específicos no desenvolvimento de um indivíduo (MARQUES; BRAZIL, 2014). A apropriação das diferentes linguagens, inclusive as artísticas, amplia as possibilidades de integração do ser contemporâneo fragmentado e seu desenvolvimento (SANT’ANA-LOOS, 2013b).
Todas as linguagens são produtos da cultura que impõem à pessoa a aquisição dos instrumentos psicológicos apropriados para que possa dominá-las. E, sendo esses instrumentos sistemas internos, modificam aquele que deles se apropria. Porém, mais uma vez, o “meio não é algo absoluto, exterior ao homem. Não se consegue nem sequer definir onde terminam as influências do meio e começam as influências do próprio corpo.” (VIGOTSKI, 2004, p. 71).
Quando o autor fala em “influências do próprio corpo”, não está se referindo apenas à parte física da pessoa, pois estaria contrariando sua própria ideia de unidade complexa. As influências que partem do corpo incluem movimentos, pensamentos, discursos, emoções, reações fisiológicas.
O corpo é uma unidade que expressa uma pessoa singular. Ele não apenas contém uma mente; o corpo é mente, é matéria, é energia. O corpo é um sistema unificado. Cada corpo é uma pessoa e não há pessoas sem corpos. Ainda que se imagine um cérebro independente do corpo, e o cinema já concretizou tal ideia, aquele não subsiste sem
oxigenação provida pelo sangue, coração, pulmões, rins. Ou seja, o imaterial e o material são um e completamente interdependentes.
A partir disso tudo, podemos dizer que o domínio do corpo, em especial o domínio motor especializado, tem consequências no desenvolvimento e na formação humanas. É sobre o corpo mais propriamente que será tratado a seguir.