Billy Elliot é filho de um operário inglês; este espera que o garoto goste de atividades
“masculinas”. Mas Billy, para desespero do pai, ama dançar. Antes de deixar a sala da audição para entrar na escola do Royal Ballet de Londres, uma integrante da banca pergunta a Billy Elliot o que ele sente quando dança.
Eu não sei… É meio uma sensação boa… É meio duro e tal, mas uma vez que eu começo, aí eu como que esqueço tudo e… meio que desaparece. Tipo
eu sinto uma mudança em todo meu corpo, Como se tivesse fogo no meu corpo. Eu só ali, voando, como um pássaro. Como eletricidade… É, eletricidade. (BILLY ELLIOT, 2000)13
Nesse filme dirigido por Stephen Daldry, Billy, interpretado por Jamie Bell, é aceito na escola do Royal Ballet e se torna solista da famosa companhia inglesa. Para chegar lá, experimentou as dores e alegrias de pertencer à classe trabalhadora, de enfrentar preconceitos e de finalmente fazer o que gostava: dançar balé. Tudo o que vive leva-o a concretizar seu sonho – ser bailarino – e sua paixão – dançar. E na dança Billy encontra sua fonte de felicidade e de desenvolvimento pessoal.
No processo de transformação do ser humano ao longo da vida, do desenvolvimento das funções biológicas e das funções psicológicas superiores, a afetividade constitui como que uma base, sem a qual o desenvolvimento não acontece. Valsiner diz que a "psicologia não é uma ciência do comportamento, ou da cognição, mas dos processos afetivos que conduzem à abstração funcional.” (VALSINER, 2015, p. 100, tradução minha).
A emoção perpassa praticamente todas as experiências humanas. Sobre a relação entre afeto e intelecto, diz Vygotsky (2003):
A sua separação enquanto objeto de estudo é uma das principais deficiências da psicologia tradicional, uma vez que esta apresenta o processo de pensamento como um fluxo autônomo de "pensamentos que pensam a si próprios", dissociado da plecitude da vida, das necessidades e dos interesses pessoais, das inclinações e dos impulsos daquele que pensa. (VIGOTSKI, 2003, p. 9).
Para Vygotsky (1994a) todo o processo de apropriação da cultura depende da situação afetiva presente na unidade pessoa-meio no momento da vivência. O termo perezhivanjia, usado pelo autor, explica o modo como uma pessoa percebe, vivencia emocionalmente, se apropria, internaliza e compreende as interações em seu meio.
Perezhivanjia representa a indivisibilidade da unidade formada pelas características da pessoa e do ambiente com suas características situacionais, de forma que a personalidade modela as relações sociais e, ao mesmo tempo, as relações sociais modelam a personalidade.
O conceito enfatiza a totalidade e a unicidade do desenvolvimento psicológico (MAHN, 2003).
Nas palavras de Vygotsky:
13 BILLY ELLIOT. Direção: Stephen Daldry, 110 min., 2000.
A experiência emocional {perezhivanjia} desencadeada de qualquer situação ou de qualquer aspecto de seu meio determina que tipo de influência essa situação ou esse meio terá sobre a criança. Contudo, não é nenhum fator por si (se tomado sem referência à criança) que determina como eles influenciarão o curso futuro de seu desenvolvimento, mas os mesmos fatores refratados através do prisma da experiência emocional da criança {perezhivanjia}. (VYGOTSKY, 1994a, p. 339-340, tradução minha).
Para saber que influência o meio tem sobre a criança é preciso conhecer sua consciência sobre a situação vivida, como ela a interpreta, como é emocionalmente afetada.
O autor fala sobre o desenvolvimento infantil, mas o mesmo ocorre com pessoas em qualquer fase da vida, pois o desenvolvimento é contínuo e histórico. Bozhovich (1969), colaboradora de Vygotsky, explica que a influência do meio é mediada pelas características já desenvolvidas da personalidade, o que determina a atitude afetiva da criança em relação à experiência.
Para Vygotsky (1994a), a compreensão de determinada situação orienta o desenvolvimento e, para a criança, não depende de explicações racionais que se possa dar sobre ela, mas da atitude afetiva. Porém, para Bozhovich (1969), a ideia de compreensão é incorreta; a influência da situação depende de sua relação com as necessidades da criança.
Trazendo o mesmo exemplo de Vygotsky (1994a), a autora explica que para um adolescente, uma mãe doente que dependa dele pode privá-lo de satisfazer sua necessidade de independência e realização pessoal; já para uma criança pequena, a condição da mãe pode gerar sentimentos de solidão e rejeição, que afetam a formação de seu caráter. As experiências negativas podem gerar comportamentos igualmente negativos, que dificultam a inserção social da pessoa.
As interações que uma pessoa vivencia durante sua vida, em seu contínuo processo de desenvolvimento, a afetam de forma complexa e integrada (LOOS-SANT'ANA;
SANT'ANA-LOOS, 2013). Ao mesmo tempo, a situação vivida, e consequentemente as interações, são refratadas pelo prisma do indivíduo que as experimenta (VYGOTSKY, 1994a).
Levando essas questões para o âmbito da dança, se algum tipo de dança tem lugar em algum dos ambientes em que uma pessoa, criança, jovem, adulta, idosa, vive, o desenvolvimento dessa pessoa será, positiva ou negativamente, em maior ou menor grau, de acordo com as circunstâncias, de algum modo afetado pela interação com este produto cultural chamado dança bem como pelas outras interações concorrentes.
Há adultos que não conseguem acompanhar um ritmo musical com movimentos corporais. Para dançar é preciso sentir a batida, perceber o ritmo e, coordenando os movimentos, controlar sua amplitude e velocidade para seguir a música. Não conseguir realizar essa coordenação não parece uma incapacidade inata. Seria uma dificuldade produzida pelo meio, durante o crescimento e processo de desenvolvimento? Teria sido causada pela falta de experiências de movimento em seus próprios corpos quando crianças?
Seria uma lacuna no desenvolvimento coordenado das funções sensoriais e motoras, afetivas e cognitivas?
O ritmo é um elemento próprio da linguagem da dança, da música e da linguagem falada. É incomum as pessoas não conseguirem ritmar a própria fala, isso normalmente acontece quando há algum fator neurológico ou afetivo que dificulte a articulação oral.
A linguagem é um produto da cultura fundamental nos processos interacionais e é discutida no próximo tópico.