bifurcações temporárias no predicado das cidades: bricolagem de arquiteturas móveis
nos ecos polifônicos irradiados pela multidão. (GALVÃO, 2005: 147)
Ao acompanhar o caminhante-fotógrafo na sua aventura por Teresina, nesse momento, ele está embrenhado na cidade, se misturando aos acontecimentos e ações que o rodeiam. Ele está consumindo e fabricando uma cidade que é ocupada por pessoas, diferentemente das ocasiões anteriores. Essas pessoas estão na posição de agentes que interferem e participam na construção do espaço físico e visível da cidade. Essas pessoas comuns e anônimas estão praticando o espaço urbano, ocupando-os com barracas de camelôs, bancas de verduras e com panos que expõem artesanatos – é a captura de uma cidade que vibra.
A essas movimentações e possibilidades, Félix Guattari comenta que “as cidades são imensas máquinas – megamáquinas, para retomar uma experiência de Lewis Mumford – produtoras de subjetividade individual e coletiva” (1992:172). Assim, diferentemente das séries anteriores, que ora apresenta uma cidade fria e
estática, e em outro instante, uma cidade dual e limitada em suas alternativas. Essa é uma cidade híbrida, polifônica e que aponta para contra-usos, nos quais,
diria que as “táticas”, quando associadas à dimensão espacial do lugar, que as torna vernaculares, se constituem em um contra-uso capaz não apenas de subverter os usos esperados de um espaço regulado como de possibilitar que o espaço que resulta das “estratégias” se cinda, para dar origem a diferentes lugares, a partir da demarcação socioespacial da diferença e das ressignificações que esses contra-usos realizam (LEITE, 2004: 215).
O que se vê a seguir são táticas subversivas que delinqüem as orientações dos códigos de posturas e os planejamentos urbanísticos, traçados em gabinetes e escritórios do prédio da prefeitura que dá a ver a Praça Marechal Deodoro da Fonseca. Desse modo, as lentes do caminhante-fotógrafo capturam os sujeitos que participam do universo microscópico das práticas cotidianas, insinuando que os corpos dessas pessoas, enquanto arquiteturas móveis contrastam com aquelas das séries anteriores móveis e estáticas. A montagem desta série obedeceu além do tema, o ângulo e enquadramento das fotografias, de tal modo que proporcionasse a sensação de que a cada novo instante o caminhante-fotógrafo estivesse aproximando, por meio do zoom, a realidade capturada. Até que se percebesse as marcas do corpo de um desses sujeitos.
Fotografia 1 - II Salão de 1996 – Fotógrafo: Darci Junior, Título: sem título, Categoria: profissional.
Na primeira fotografia da série, o alvo do caminhante-fotógrafo são as barracas de camelôs, o seu colorido e sua disposição linear. A sua posição é de quem está do alto, mas não muito distante, e consegue produzir uma visão macroscópica em que o ângulo da imagem proporciona a idéia de profundidade e seqüência das barracas ao longo do Calçadão da Rua Simplício Mendes e de pessoas que transitam e consomem produtos sem nota fiscal. Uma ação duplamente subversiva, tendo em vista que estes camelôs ocupam com barracas um lugar de passagem de pedestres, configurando uma deformação do espaço. Essa rua, como muitas outras do centro da cidade, que no passado se configuravam como vias de trânsito de automóveis, hoje estão ocupadas por barracas de camelôs, contrariando o projeto funcionalista que deu origem a Teresina. O que me fez lembrar de um poema do Pablo Neruda:
Contarei que na cidade vivi/ em certa rua com nome de capitão,/ e essa rua tinha multidão/ sapateiros, venda de licores,/ armazém repletos de rubis./ Não se podia ir ou ouvir,/ havia tanta gente/ comento ou cuspindo ou respirando,/ comprando e vendendo trajes./ Tudo me pareceu brilhante,/ tudo estava acesso/ e tudo era sonoro/ como para cegar ou ensurdecer (1997: 26).
Assim como no poema as práticas neste espaço, efetivadas pelos camelôs e transeuntes, o transformaram em um lugar, com produções de sentidos e referências que identificam e territorializam esta rua do centro da cidade, tornando- se um marco de reconhecimento para a população de Teresina. Um cartão-postal às avessas, marcada não pelo uso “devido” da cidade, mas por diferentes e variados contra-usos.
Na mesma fotografia, comporta o letreiro e as vitrines das lojas do comércio “legal” da cidade, e as dinâmicas das barracas do comércio “ilegal”, que vendem produtos contrabandeados sem nota fiscal. Essa é uma oportunidade de observar as linhas e fluxos que compõe a cidade e que a efetivam como tal. Tendo em vista que uma de suas condições primordiais é a diversidade de usos, de práticas e de ocupações do espaço. Contrastando com as séries anteriores, nessa cidade-híbrida ou dos contra-usos, o conflito existente permeia os movimentos de territorialização e de desterritorialização, de captura e escape. Não se funda na dualidade de dois opostos, ao passo que aponta para misturas e para polifonia. Para a condição de um Baú de Miudezas, cheio de situações e movimentos que se
combinam, se repelem, que passam ao lado, tecendo uma trama sofisticada de micro-poderes que desenha a geografia informacional e o visível da cidade, como na próxima fotografia.
Fotografia 2 – IX Salão de 2003, Fotógrafo: Francisco das Chagas Viana Veloso, Título: verdureira na calçada, Categoria: Amador
Observando a cidade de Teresina para além da perspectiva geométrica de um tabuleiro de xadrez17, é possível perceber que ela se apresenta como um labirinto, com passagens secretas, atalhos e vários andares recheados de significados e ambigüidades. Nesse momento, a cidade está sendo percebida a partir de Michel de Certeau, ao pontuar que ela se inventa nas práticas de seus caminhantes, para além da disciplina do olhar panóptico do poder, realizando-se nas curvas da ordem disciplinar,
mais “embaixo” (down), a partir dos limiares onde cessa a visibilidade, vivem os praticantes ordinários da cidade. Forma elementar dessa experiência, eles são caminhantes, pedestres, cujo corpo obedece aos cheiros e vazios de um “texto” urbano que escrevem sem poder lê-lo. Esses praticantes jogam com espaços que não se vêem (CERTEAU, 1988: 171).
17 A discussão entorno do traçado das cidades conhecido como tabuleiro de xadez diz respeito a uma
proposta de planejamento urbano retilíneo e objetivista, que emergiu na história das cidades, no período da administração de Haussmam na França no século XIX. Essa imagem da cidade de Teresina pode ser percebida em mapas que datam da década de 1920 (NASCIMENTO, 2002).
Desse modo, na segunda fotografia, o caminhante-fotógrafo está ao nível do chão, olhando diretamente às mulheres que ocupam uma calçada com verduras e frutas. O olhar do fotógrafo se detêm em um ângulo curto e com pouca profundidade, diferentemente da anterior. O colorido das frutas e verduras saltam aos olhos. No uso deste espaço as pessoas não estão fincadas no chão, podem hoje estar em um lugar, o da fotografia, e amanhã em outro, migram para onde acreditam ser os melhores lugares para a venda de seus produtos. Efetivam-se como uma arquitetura móvel, ao mesmo tempo que precária e provisória. Essas pessoas realizam práticas espaciais que driblam os mecanismos da Cidade-
conceito, reinventam a cidade-cenográfica que se constrói em um entre que escapa
das ciladas da cidade-binária.
Fotografia 3 - IX Salão de 2003, Fotógrafo: Marcelo C. Braz, Título: arte na praça, Categoria: amador.
A terceira fotografia é um recorte bastante específico, neste caso o foco da máquina captura especificamente um sujeito que está trabalhando na Praça Rio Branco, fazendo suas bijuterias e expondo-as em um mostruário para quem passa, já que esse é um lugar de passagem e onde as pessoas param para sentar nos
bancos e descansar. Curioso que atrás do hippie que trabalha de modo independente e alternativo, não paga impostos e nem tem nenhum direito trabalhista e vínculo empregatício, existe o letreiro de uma das maiores lojas do comércio de Teresina. Na mesma fotografia coexistem os elementos do universo do trabalho “legal” e do que tangencia, fugindo a norma.
Essa fotografia é um amálgama de elementos contraditórios, ambivalentes e distintos, que se agrupam fugazmente, apenas por alguns instantes e através do olhar e das lentes do caminhante-fotógrafo. É uma colagem de elementos da geografia urbana – o letreiro da loja, ao fundo, que representa o capital e o hippie, figura símbolo dos movimentos alternativos de contestação nas décadas de 1960 e 1970 – na construção de uma imagem híbrida.
A opção de colocar as três imagens nesta seqüência é para dar a idéia de mergulho, descer do alto e se misturar com o que está em baixo, ao ponto de perceber o artesanato do hippie e suas tatuagens gravadas em seu corpo, que dizem sobre sua existência singular.
Desse modo, os camelôs, as verdureiras e os hippies, demonstram práticas dos habitantes desta cidade e formas de ocupação que deformam seus espaços, dando a eles vida ao invés de um aspecto cenográfico. Assim, onde seria um passeio público, se tornou um tumultuado corredor de barracas coloridas; onde seria uma calçada para o trânsito de pedestres, tomou a forma de um mercado a céu aberto; e onde seria uma praça, lugar usado para o lazer e a contemplação, se transformou em espaço de trabalho de algumas pessoas.
Segundo Michel de Certeau, essas práticas constituem uma retórica. Assim, “a arte de “moldar” frases tem como equivalente uma arte de moldar percursos. Tal como a linguagem ordinária, esta arte implica e combina estilos e usos” (CERTEAU, 1994: 179). Da mesma forma, também ocorre com as fotografias. Uma seqüência ou séries fotográficas indicam percursos e modos de consumos dos espaços registrados, bem como o lugar ocupado pelo caminhante-fotógrafo no ato de fotografar, se do chão, do alto ou se de outra circunstância. Assim como, o de sua subjetividade.
A seqüência dessas fotografias leva a um mergulho nas práticas cotidianas de pessoas que usam a cidade como suporte para suas práticas de caminhadas, para se expressar, para consumir, para viver e sobrevivência. logo, as fotografias dessa série apresentam uma Teresina em que os usos dos seus
espaços, ou contra-usos, produzem um amalgama de vozes, formas e práticas cotidianas. Demonstram também um conflito entre a organização cartesiana e a apropriação que seus habitantes realizam, tornando-a potente em sua condição polifônica, através dos sons e do burdurinho das vozes que através dos relatos a (re)inventam, que a capturam como campo de interlocução e de experiências sensíveis e sensitivas. Ou seja, em seu caráter babélico, de misturas e de diversidade, que fissura a rigidez da cidade dos prédios e dos mapas.
E talvez não seja exagerado dizer que Babel expressa também a ruína de todos os arrogantes projetos modernos e ilustrados, com os quais o homem ocidental quis construir um mundo ordenado à sua imagem e semelhança, à medida de seu saber, de seu poder e de sua vontade, por meio de sua expansão racionalizadora, civilizadora e colonizadora (LARROSA & SKLIAR, 2001: 8-9).
Essas práticas babélicas inventam passagens e caminhos, constroem percursos de usos, configuram um conjunto de vozes e sons, tais como os do musico Hermeto Pascoal. Um experimentalismo que se processa por intermédio do fazer diário, em que os sujeitos são interpelados pelas subjetividades que permeiam as maquinarias da cidade. E é necessariamente dessas práticas, que o caminhante- fotógrafo e os demais habitantes da cidade, constroem seus modos de existência, mediados pela condição da pluralidade, que “deriva do fato de que o que há são muitos homens, muitas histórias, muitos modos de racionalidade, muitas línguas e, seguramente, muitos mundos e muitas realidades” (LARROSA & SKLIAR, 2001: 17). Bem como, cidades.
As fotografias dessa série demonstram que das três cidades apresentadas esta é a única que mostra Teresina em sua porção de movimento e mistura, processos híbridos e apropriações, no fervilhar e pulsar da vida. Desses usos, consumos e ocupações espaciais, a cidade em sua condição polifônica fissura qualquer cidade do tipo panorâmica ou dual, sobre a qual se pode domesticar e calcular os passos a serem seguidos ou às práticas a serem realizadas. Em uma cidade-híbrida a sua realização é criadora, os seus caminhos inventados e as apropriações dos seus habitantes dão vida ao teatro dos fragmentos.
Desse modo, a cidade-híbrida não é um texto inerte. Ela não é um panorama totalizante a ser lido unilateralmente, mas antes, e também, ser praticada, vivida, usada, como demonstra as fotografias – um texto móvel, com a potência de
suas futuras inscrições. Assim, “a nova grande cidade, com seus incessantes fluxos comunicativos, modela e reproduz a fragmentação e a justaposição dos cenários contemporâneos pós-modernos” (CANEVACCI, 1993: 81)
A cidade em seus fragmentos-protozoários, micrologias que só são percebidas da posição de quem se coloca no chão, apresenta um espetáculo em que muitos pápeis são representados. Nessa cidade pós-moderna, a verticalização visual e material dos prédios, contrasta com a dissolução das práticas sociais urbanas que se estendem como um rizoma: uma aparente desordem a reinventar a decrépita ordem hierarquizada e modelada em escritórios. Lugar de onde não se enxerga os mapas de intensidade, os passos desconcertantes, os becos, assim como, a vida e as produções de sentidos que vibram nesses entremeios. Desse modo, a cidade
só existe em função de uma circulação e de circuitos; ela é um ponto assinalável sobre os circuitos que à criam ou que ela cria. Ela se define por entradas e saídas. É preciso que alguma coisa aí entre e daí saia. Ela impõe uma freqüência. Ela opera uma polarização de matéria, inerte, vivente ou humana; ela faz com que o phylum, os fluxos passem aqui ou ali, sobre as linhas horizontais (DELEUZE & GUATTARI, 1997: 122).
Essa cidade caótica do cotidiano, da desordem das calçadas, da ocupação das praças por hippies, artesões e desempregados apresenta-se distinta daquelas outras, das paisagens acépticas ou da existência binária. Diferencia-se dos mapas que indicam lugares fixos, nomes próprios e dimensões geométricas exatas. A cidade-híbrida ou dos contra-usos, aponta para uma possibilidade de existência em que a cidade é consumida antropofagicamente, na qual, seus habitantes- caminhantes deformam sua exatidão, sua higiene, invadindo os espaços intocados, mudando o curso das calçadas e interrompendo ruas.
Assim, a cidade apresentada como um campo de flutuação semântica se fabrica nas práticas de seus habitantes, ao produzirem um variado repertório de sentidos, que não são outra coisa “senão o inesgotável do significado, o disperso, confuso e infinito do significado, ou dito de outra forma, o movimento vertiginoso do intercâmbio, do transporte e da pluralidade do significado” (LARROSA & SKLIAR, 2001: 8). São essas produções de sentido no cotidiano que caracterizam a cidade- híbrida como palco de estilos de vida, de modos de existência e de que as
subjetividades existentes nessa cidade diferem das que permeiam as cidades apresentadas nas séries anteriores.
Relacionando essa série a outras experiências do universo fotográfico teresinense, o livro Teresina de Paulo Gutemberg de Carvalho Sousa (2004) é um inventário imagético de Teresina, que mescla fragmentos de sua arquitetura e das pessoas que ocupam os seus espaços. O autor brinca com as imagens que são possíveis de serem fabricadas pela cidade, através de recortes que exploram o amalgama de informações e as misturas proporcionadas pela diversidade da linguagem urbana. Existe aqui, uma subjetividade que escapa a dos livros Teresina
Ontem e Hoje e Therezina/ Teresina e que é semelhante a da série discutida.
Desse modo, a perspectiva do autor-fotógrafo do livro Teresina, é da multiplicidade que a cidade oferece aos olhos de seus caminhantes, tais como, recortes obtusos da paisagem cotidiana. Um consumo diversificado que aponta para a cidade enquanto potência de informação e de riquezas ao olhar que circula e passeia por suas nuances, seus reflexos e suas formas.
Logo, as séries apresentadas são itinerários fotográficos capturados por olhares que passearam e circularam consumindo o tecido visível de Teresina. São elementos do Baú de Miudezas que dão corpo ao campo de flutuação semântica de que pertencem às produções de sentidos dos seus habitantes, realizadas nos entres do cotidiano. O movimento como condição primordial das cidades provoca misturas, processos heterogêneos através da montagem e colagem das línguas envolvidas no universo urbano – fabricam elementos híbridos e engendra processos de subjetivação, pondo em circulação Teresinas.
Após percorrer esse percurso de imagens e palavras é possível observar que o conhecimento sobre o presente, ou seja, suas práticas e subjetividades, não se da apenas através de experiências diretas e pessoais. As Teresinas discutidas aqui foram construídas através de informações advindas de caminhadas, fotografias, leituras e relatos orais de um universo que sutura um universo contemporâneo com o passado, não constituindo-se o resultado em nenhuma das duas margens do rio, mas sim na terceira margem como diriam Durval Muniz de Albuquerque Jr (2007) através de Guimarães Rosa, ou seja, o meio de uma experiência, de uma prática como explica Michel Foucault ao se referir a história.
O acervo do Salão Municipal de Fotografias e as demais fotografias consultadas, tais como: publicações de álbuns de vistas urbanas, álbuns
comparativos e cartões-postais, apontam para um universo citadino que misturam experiências da ordem empírica das caminhadas, da visitação de exposições e da consultas de livros. Instâncias que fabricam as experiências coletivas diante de uma cidade, que fazem conhecer as possibilidades do vim a ser de suas histórias.