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A HORTA – CIDADE PORTUÁRIA E CAPITAL DE DISTRITO CRISES E SINAIS DE PROGRESSO (1880-1926)

Gravura 1: A cidade da Horta em

2.1. A cidade e urbanismo – enquadramento

A cidade da Horta, “pequena mas pitoresca”110, localiza-se na parte sudeste da

ilha, voltada a nascente. Entre as duas baías que a constituem – a homónima e a de Porto Pim – erguem-se os montes da Guia e Queimado e a ponta da Espalamaca que a protegem

dos ventos – norte e sul111. Apresenta-se em anfiteatro com o seu casario branco reclinado

fundando O Incentivo Faialense. Jornal de Comércio, Indústria e Agricultura. Sócio fundador da

Sociedade Humanitária de Literatura e Agricultura, em 1879. Da Sociedade de Regeneração da Infância,

em 1884. Presidente da Câmara da Horta (1882 -1886). Membro da loja maçónica “Regeneração”.

109 Maria Isabel João, Os Açores no século XIX. Economia, Sociedade e Movimentos Autonomistas, Lisboa,

Edições Cosmos, 1991, p.33.

110 Ernesto Rebelo, “Notas Açorianas [A cidade da Horta (Ilha do Faial], AA, vol. VII, edição fac-similada da

edição de 1885, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1982, p.75. Veja-se “A cidade da Horta [Descrição do Visconde Castilho], O Telégrafo, 1914, julho 25 (6 090), p.1.

111 Sobre a génese e expansão do conjunto urbano da Horta, veja-se Gabriel César Barreira, Um Olhar sobre a cidade da Horta, Horta, Núcleo Cultural, 1995, pp.75-145; AAVV, Arquitetura Popular dos Açores,

Lisboa, Ordem dos Arquitetos, 2000; José Manuel Fernandes, “Horta. Uma leitura da sua evolução Urbana”,

Por seu turno, o Padre Luís Maldonado35 não deixa de relevar a importância do

seu comércio em vinhos e aguardentes produzidos nos concelhos da Madalena e de São

Roque36 e de “todo este género que navega daquela Ilha, aos reinos do Norte, e

conquistas”, em particular da Inglaterra que fará da vila da Horta um ponto de escala dos seus barcos que ligavam a pátria mãe às suas colónias americanas. Além disso, e por via das excelências do vinho do Pico e de uma situação geográfica vantajosa – segurança da sua baía e proximidade da ilha do Pico –, o porto faialense, na centúria de seiscentos, transformar-se-á no primeiro dos Açores, como já foi referido, enquanto a ilha se tornará numa importante plataforma das rotas transatlânticas provenientes da América do Norte, Brasil, Oriente e costa ocidental africana. Por conseguinte, o século XVIII faialense corresponderá a um período importante em que o porto da Horta atinge uma “projeção

ímpar”37, graças à produção de vinho do Pico, à afirmação e à importância que a colónia

brasileira passa a ter no contexto do império colonial português e à supremacia ultramarina

em crescendo da nova senhora dos mares: a Inglaterra38.

Deste modo, conjugar-se-ão os interesses de ambas as partes. Os faialenses a troco do vinho do Pico, recebiam cereais, considerados “imprescindíveis à abolição da

tradicional insuficiência frumentária das ilhas do Faial e Pico”39, situação esta que se

prolongaria até ao século XX, como se pode ler, em 1920, no jornal O Telégrafo: “Continua a não aparecer à venda, um alqueire de milho, apesar da última colheita ter sido

abundantíssima. Que faz a autoridade competente?”40.

Em suma, o vinho tornar-se-ia, por um lado, na mais importante riqueza da ilha do Faial, a sua função dinamizadora; por outro, na exportação açoriana mais significativa, uma vez que saía da ilha montanha a quase totalidade da produção vinícola do arquipélago

35 Pe. Manuel Luís Maldonado, Fénix Angrense, vol. 2, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha

Terceira, 1990, pp.550-551.

36 Os locais de maior produção de vinho eram o Cachorro, Cais do Mourato, Calhau, Lajedo, Lajinha,

Madalena, Pé do Monte, Prainha Ruivo, Guindaste e Fogos (ambos na Candelária), São Mateus, cf. Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas [...], já cit., p.82.

37 Ricardo Madruga da Costa, “A propósito da Horta dos Cabos Submarinos. A relevância da ilha do Faial na

construção da ‘civilização atlântica’”, Atas do Colóquio O Tempo dos Cabos Submarinos. O Porto da Horta

na História do Atlântico, Horta, Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta/Museu da Horta, 2011,

pp.69-80 [74].

38 Cf. Avelino de Freitas de Meneses, Estudos de [...], vol. II, já cit., pp.43-64. Em Os Açores nas […], já

cit., vol. II, p.97, chama a atenção para o facto da “historiografia tradicional” não dar destaque à importância do vinho na economia dos Açores. Justifica referindo que “a convergência da investigação nas ilhas de S. Miguel e Terceira eclipsa a importância da viticultura, considerando a contingente insuficiência micaelense e o tardio incremento terceirense. Contudo, particularmente no século XVIII, o vinho sustenta a tradicional inserção das ilhas nos preponderantes circuitos do comércio internacional, sobretudo do Atlântico Norte e Brasil, e ampara a emergência económica da vila da Horta, que garante o escoamento do produto picoense”.

sobre a baía como a querer saudar os visitantes que a ela arribam112. Mas esta excelente

visão sobre a cidade alia-se à noção de vizinhança de ilhas que o mar ora afasta ora aproxima, e que corre entre as duas margens do (canal) Faial-Pico ou a “Comunidade do Canal”113.

Em frente a “muralha” vulcânica do Pico114, a “montanha soberba, a mais gentil do

mundo”115, releva que a pequena cidade do oeste parece um camarote perante aquele palco

não apenas de todo o ano mas de sempre; mais além a ilha de São Jorge – que constituem

as chamadas ilhas do triângulo116, ou na feliz intuição do poeta faialense José Osório

Goulart que, ao descrever a cidade, salienta, assim, a particular e pitoresca posição geográfica da Horta: “Ao sul a Guia, ao norte a Espalamaca, / O Pico ali, São Jorge mais

além, / e quanto neste quadro se destaca / É graça e luz que a minha Terra tem //”117; o que

significa que a cidade soube sempre conviver com a paisagem envolvente, daí se escrever

que “o que cada ilha tem de mais belo é a ilha que lhe está em frente”118.

Sobre esta constante relação da cidade com o canal, com a baía e com o porto, Pedro Garcia chama a atenção para o facto de à Horta a “metáfora da frente marítima” corresponder “a de toda a cidade como espaço de estar aberto ao mar”. A cidade constitui-se como uma frente de mar em si, e não apenas como uma frente marítima enquanto pedra de soleira da cidade. Por isso, a frente de mar hortense tornou-se na porta

in AAVV, Horta Faial. Inventário do Património Imóvel dos Açores, 1.ª ed., s. l., Direção Regional da Cultura/Instituto Açoriano de Cultura/Câmara Municipal da Horta, 2003, pp.35-41; Pedro Nunes Garcia, “A Frente de Mar na cidade da Horta. Reflexão em torno de uma estratégia de intervenção”, in A Cidade e o

Porto. A frente de Mar na cidade da Horta, Horta, Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, 2007,

pp.15-25.

112 “O Faial”, O Telégrafo, 1914, agosto 13 (6 106), p.1.

113 Tomás Duarte Jr., A Comunidade do Canal, Madalena, Câmara Municipal da Madalena, 2004.

114 Mas a proximidade do Pico reveste-se também de grande importância meteorológica – meteorologia

caseira – isto é, as nuvens que o cobrem, muitas vezes sob a forma de capelo – significam sinais do tempo que há de vir, cf. M.M. Sarmento Rodrigues, Ancoradouros das Ilhas dos Açores, 2.ª ed., Lisboa, Ministério da Marinha, 1960, pp.29-36.

115 Manuel de Arriaga, Canto ao Pico, edição fac-similada da ed. de 1887, [Ponta Delgada], Presidência do

Governo Regional dos Açores/Direção Regional da Cultura, 2010, p.1. Apêndice – Capítulo I, Gravura 4.

116 Ricardo Manuel Madruga da Costa, Açores, Western Islands. Um contributo para o estudo do Turismo nos Açores, Horta, Secretaria Regional do Turismo e Ambiente/Direção Regional de Turismo, 1989, p.25.

117“Osório Goulart”, Boletim da Câmara Municipal da Horta, 1989, janeiro (49), p.5. José Osório Goulart (Horta, 1868; Idem, 1960). Sacerdote (1892). Capelão Régio (1901). Depois solicitou a dispensa de todas as funções sacerdotais. Professor do Liceu da Horta e da Escola Normal da Horta. Poeta e escritor. Um dos fundadores do Núcleo Cultural da Horta (1955), e seu primeiro presidente Fundador e primeiro diretor do jornal Correio da Horta (1930). Presidente da Câmara da Horta (1918 e 1926) e da Junta Geral (1933 a 2936). Autor, entre outras, das seguintes: Poemas da Ilha Azul, Murmúrios, Pastorinhos de Judá, Os Magos do Oriente, Polifonias, Um Lusíada, Figuras de Bronze, Nove Estrelas, Horta Florida na Ilha da Ventura e Obras Solenes.

118 Raul Brandão, Ilhas Desconhecidas, já cit., pp.57 e 68.

Por seu turno, o Padre Luís Maldonado35 não deixa de relevar a importância do

seu comércio em vinhos e aguardentes produzidos nos concelhos da Madalena e de São

Roque36 e de “todo este género que navega daquela Ilha, aos reinos do Norte, e

conquistas”, em particular da Inglaterra que fará da vila da Horta um ponto de escala dos seus barcos que ligavam a pátria mãe às suas colónias americanas. Além disso, e por via das excelências do vinho do Pico e de uma situação geográfica vantajosa – segurança da sua baía e proximidade da ilha do Pico –, o porto faialense, na centúria de seiscentos, transformar-se-á no primeiro dos Açores, como já foi referido, enquanto a ilha se tornará numa importante plataforma das rotas transatlânticas provenientes da América do Norte, Brasil, Oriente e costa ocidental africana. Por conseguinte, o século XVIII faialense corresponderá a um período importante em que o porto da Horta atinge uma “projeção

ímpar”37, graças à produção de vinho do Pico, à afirmação e à importância que a colónia

brasileira passa a ter no contexto do império colonial português e à supremacia ultramarina

em crescendo da nova senhora dos mares: a Inglaterra38.

Deste modo, conjugar-se-ão os interesses de ambas as partes. Os faialenses a troco do vinho do Pico, recebiam cereais, considerados “imprescindíveis à abolição da

tradicional insuficiência frumentária das ilhas do Faial e Pico”39, situação esta que se

prolongaria até ao século XX, como se pode ler, em 1920, no jornal O Telégrafo: “Continua a não aparecer à venda, um alqueire de milho, apesar da última colheita ter sido

abundantíssima. Que faz a autoridade competente?”40.

Em suma, o vinho tornar-se-ia, por um lado, na mais importante riqueza da ilha do Faial, a sua função dinamizadora; por outro, na exportação açoriana mais significativa, uma vez que saía da ilha montanha a quase totalidade da produção vinícola do arquipélago

35 Pe. Manuel Luís Maldonado, Fénix Angrense, vol. 2, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha

Terceira, 1990, pp.550-551.

36 Os locais de maior produção de vinho eram o Cachorro, Cais do Mourato, Calhau, Lajedo, Lajinha,

Madalena, Pé do Monte, Prainha Ruivo, Guindaste e Fogos (ambos na Candelária), São Mateus, cf. Avelino de Freitas de Meneses, Os Açores nas [...], já cit., p.82.

37 Ricardo Madruga da Costa, “A propósito da Horta dos Cabos Submarinos. A relevância da ilha do Faial na

construção da ‘civilização atlântica’”, Atas do Colóquio O Tempo dos Cabos Submarinos. O Porto da Horta

na História do Atlântico, Horta, Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta/Museu da Horta, 2011,

pp.69-80 [74].

38 Cf. Avelino de Freitas de Meneses, Estudos de [...], vol. II, já cit., pp.43-64. Em Os Açores nas […], já

cit., vol. II, p.97, chama a atenção para o facto da “historiografia tradicional” não dar destaque à importância do vinho na economia dos Açores. Justifica referindo que “a convergência da investigação nas ilhas de S. Miguel e Terceira eclipsa a importância da viticultura, considerando a contingente insuficiência micaelense e o tardio incremento terceirense. Contudo, particularmente no século XVIII, o vinho sustenta a tradicional inserção das ilhas nos preponderantes circuitos do comércio internacional, sobretudo do Atlântico Norte e Brasil, e ampara a emergência económica da vila da Horta, que garante o escoamento do produto picoense”.

39 Id., p.47.

principal de entrada da ilha, equivalente mesmo à importância que assumem as estradas

que ligam a cidade à sua “periferia terrestre”119.

Ao dar-se relevo à sua geografia e à sua posição geográfica, especialmente ao estabelecer-se a dualidade terra/mar, reforça-se a importância do fator marítimo na história da ilha, porque como refere Schmitt “a dinâmica da história vai da Terra em direção ao mar. A Terra é o elemento a que o homem está destinado, mas o Mar é o elemento da liberdade, da sua possibilidade de um renascimento. Toda a civilização humana necessita

de água para subsistir”120.

O corpo principal da cidade da Horta corresponde ao modelo de cidade insular de raiz portuguesa – de traçado medievo-renascentista – junto à orla marítima, atlântica por isso aberto ao mar. O conjunto urbano teve a sua génese numa fonte de água a norte – a ribeira da Conceição – e a sul numa ermidinha – a de Santa Cruz – unidas pela enseada da baía, cujo crescimento se firmará “nas edificações robustas dos séculos XV ao XVIII, com a graciosidade que as arquiteturas dos séculos seguintes, do romantismo polícromo de

Oitocentos ao modernismo inovador século XX, lhe souberam acrescentar”121.

Por isso, a Horta seria fundada numa zona ao mesmo tempo de condições geográficas privilegiadas tanto em relação ao mar quanto em relação aos montes que a circundam, que separam o litoral do interior, o que significa que, ao percorrermos a cidade, confrontamo-nos com uma paisagem plena de símbolos e significados, de um conjunto de tempos desiguais.

Deste modo, a partir da leitura dos textos dos visitantes estrangeiros e portugueses que ao longo dos séculos visitaram as ilhas na condição de simples turistas, cientistas, jornalistas e escritores, verificamos que a descrição da malha urbana, no geral, não era muito diferente da atualidade, acentuando-se nessa descrição a cidade com uma baía limitada por dois morros – o monte Queimado e a Espalamaca – e de uma só rua, “que é

sempre estrada –‘estreita passadeira de pedra’– direita” ou do meio122. Embora longilínea

119 Pedro Nunes Garcia, “A Frente de Mar [...], já cit., in A Cidade e o Porto. [...], pp.17-18.

120 Ap. Viriato Soromenho Marques, “Pensar a Paisagem. Da aventura interior ao campo da História”, Finisterra, vol. XXXVI (72), 2001, pp.154-155 [149-156]. N’ O Faialense, 1882,agosto 13 (2), p.1, pode

ler-se a propósito: “Exulta, oh! marítima cidade, porque a natureza para contigo foi pródiga. Salve, oh! Senhora do Atlântico. O nauta que conduz seu batel lá parece dizer-lhe hospitalidade. [...]. Faz e parte desta bacia um belo porto”.

121 José Manuel Fernandes, História Ilustrada da Arquitetura dos Açores, Angra do Heroísmo, Instituto

Açoriano de Cultura, 2008, p.36.

122 Jean Gustave Hebbe, “Descrição das Ilhas dos Açores”, AA, vol. X, edição fac-similada da ed. de 1888,

não se apresenta em linha reta123. Todavia, ao dar a sensação de ser a rua principal, numa

observação mais cuidada, conclui-se que se articula com outras ruas perpendiculares e oblíquas, e outros espaços públicos (largos, jardins, praças e travessas) e respetivos edifícios.

No entanto, o arquiteto José Manuel Fernandes chama a atenção para algumas “nuances” e diferenças em relação a esta primeira imagem, da Horta ficcionada e descrita pelos diferentes autores. Em sua opinião, a Horta é mais do que uma só rua. Por isso, contrapõe que a Horta se desenvolveu a “partir de um conjunto de dez arruamentos fundadores”, cinco no sentido nordeste-sudoeste e cinco no sentido noroeste-sudeste entre

a ribeira da Conceição e o centro da cidade124. Apesar desta realidade, podemos adiantar

que a rua Direita tornar-se-ia, com o tempo, não só a rua principal como o eixo fundamental da cidade situação corroborada por Enrico d’ Albertis, em 1882 (“a longa rua

de S. Francisco, a qual seguindo a curva da baía, forma a principal artéria da cidade”)125 e

por Raul Brandão, em 1924, (“é uma cidade de uma só rua, como eles dizem, a branco e

cinzento. […] Em frente da Horta, o Pico formidável”)126.

Com o passar do tempo, a cidade foi crescendo, primeiro, em direção ao mar com a construção da doca; depois, em direção à sua área rural com a edificação de novas áreas habitacionais, de equipamentos e de serviços.

Sem a exuberância arquitetónica de outras cidades, a Horta vale sobretudo pelo seu conjunto espacial urbano, que conjuga um vasto, mas modesto, património constituído por solares, igrejas, edificações militares, casas e prédios de habitação além das suas praças e jardins e de alguma estatuária.

Assim, na orla marítima, que era protegida por uma (débil) muralha, como mais à frente de referirá, impunha-se a presença dos fortes de São Sebastião a sul, junto à entrada da baía de Porto Pim, da Greta, no monte da Guia, de Santa Cruz, na baía homónima, e a norte o Castelo Novo ou do Bom Jesus. Na baía de Porto Pim destacavam-se ainda a guarita, o Reduto da Patrulha e a bombardeira.

123 Nesse percurso pode-se identificar as seguintes extensões: do largo do Bispo ao largo Duque de Ávila e

Bolama, e deste a São Francisco, e daqui ao Forte de Santa Cruz e às Angústias.

124 José Manuel Fernandes, op. cit., pp.36-38.

125 Enrico Alberto D’Albertis, “Horta: Cidade Cosmopolita”, in José Manuel Cabral Leite, Estrangeiros nos Açores no Século XIX, Ponta Delgada, Signo, 1991, p.117.

126 Raul Brandão, Ilhas [...], já cit., p.57. “Do Pico vejo o Faial / e do Faial vejo o Pico / dois irmãos e cada

qual/ tem seu feitio desigual,/ um é raso outro é comprido //”, Osório Goulart, Névoa Dourada, Horta, 1955, p.36.

Ao longo da rua Direita127, constituída pelas ruas Serpa Pinto, Walter Bensaúde,

Conselheiro Medeiros, Vasco da Gama e Conde de Ávila, no sentido norte-sul, além do casario que se foi construindo, emergem pela sua imponência os conventos de São Francisco, do Carmo e dos Jesuítas, com as suas fachadas desafiando o mar, como se quisessem ver e ser vistos por quem aportava à Horta. Esta presença do edifício religioso distribuído pelas três freguesias citadinas é surpreendente em número de conventos, igrejas, ermidas e impérios do Espírito Santo.

Disseminadas por várias zonas da cidade, destacavam-se alguns solares, hoje transformados para diversos fins, nas ruas Ernesto Rebelo, Dr. Neves e Conceição; as casas residenciais da família Dabney, depois adquiridas pelas companhias de cabo e por particulares, com os seus então magníficos jardins, construídas em locais proeminentes viradas ao canal (The Cedars, Bagatelle e Fredónia); as casas comerciais das firmas Bensaúde e Fayal Coal, além do conjunto de edifícios que constituíam as instalações das companhias de cabo submarino – conhecido por estação central de cabos – que se foram implantando na cidade da Horta a partir de 1893. Na área do porto da Horta e envolvências, predomina uma série de edifícios de vocação marítima: Obras Públicas com os seus armazéns e oficinas e a garagem da locomotiva; os armazéns do carvão; o edifício, hoje desaparecido, da primeira central elétrica (1910).

Ainda neste âmbito de vocação portuária da cidade, destacavam-se as casas, consideradas as mais bonitas e as melhores da zona, que albergavam as diferentes representações consulares, consulados, vice-consulados e agentes consulares, estabelecidas com finalidades várias, e que se distinguiam pela bandeira hasteada num poste e, em alguns casos, pelo brasão da nação, pintado ou esculpido em madeira, como ainda hoje se pode ver no edifício da representação consular da França na Horta, na rua Conde de Ávila128.

As ruas, devidamente assinaladas, em cada esquina, são pavimentadas com pequenos paralelepípedos de pedra, sendo os passeios ou ladrilhos em lajes de pedra e em calçada à portuguesa.

Esse assinalar o nome das ruas, largos, praças, jardins e estabelecimentos públicos ao longo do período em estudo, significa que também na cidade da Horta descerrar uma placa era entendida como uma resposta, em cada momento considerado, a determinados

127 Apêndice – Capítulo I, Gravura 5.

condicionalismos históricos – mudanças políticas ou de acontecimentos pontuais – no sentido de um reconhecimento público digno de ser perpetuado. Neste âmbito, podemos afirmar que, na segunda metade do séc XIX, a consagração de figuras públicas na toponímia faialense levada a efeito pela respetiva edilidade é um exemplo predileto dessas intenções, isto é, localmente projetava-se, nos nomes escolhidos para identificação dos diferentes espaços, aspetos da sua realidade social, histórica e cultural, o que leva João Medina a escrever a propósito: ”A autarquia, através da toponímia, une e socializa valores,

recordações, datas, mitos e vivências comuns. Em suma, rememora e ‘comemora’”129.

Com a implantação da República, verificamos que esta postularia, por um lado, a rejeição de algumas reminiscências monárquicas e, por outro, a consagração de alguns dos seus heróis (locais) e do novo regime. Pode-se adiantar que na Horta não se verificou o revisonismo da toponímia citadina, tendo-se ficado apenas por algumas renomeações, casos do largo de Santa Cruz que passou a denominar-se largo Manuel de Arriaga e da praça D. Carlos I depois da República.

Estas denominações toponímicas conjugam, primeiro, nomes próprios de pessoas ligadas à igreja, na maioria santos: ladeira de Santo António...; à política: largo duque de Ávila...; à benemerência: rua cônsul Dabney; à realeza: largo D. Luís; à mitologia: largo Neptuno; depois, nomes não humanos que indicam lugares geográficos: rua das Angústias...; elementos concretos: lugar do Monte Carneiro...; que designam edifícios: