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A HORTA – CIDADE PORTUÁRIA E CAPITAL DE DISTRITO CRISES E SINAIS DE PROGRESSO (1880-1926)

Gravura 2. Instalação do cabo submarino cerca de

4. Conjunturas de crise e de progresso

4.1. A luta contra as adversidades (catástrofes naturais)

4.2.1. Das crises de subsistência à emigração

4.2.1.3. Emigração do concelho da Horta entre 1880 e

A partir dos dados disponíveis nos livros de registo de passaportes do governo civil do distrito da Horta, apresentam-se os traços caraterísticos do movimento emigratório do concelho da Horta. Foram recolhidos e analisados os dados que se seguem: sexo, estado civil, idade, estado de alfabetização, destino, freguesias de residência, profissão e tipo de saída (individual e acompanhada)381.

No entanto, temos consciência que se levanta a questão da fiabilidade dos números uma vez que se põe o problema dos clandestinos382. Mas entendemos que não é

só, porque, e de acordo com um ofício remetido pelo diretor-geral de Estatística ao governador do civil em 1913, concluímos que os dados estatísticos sobre emigração do distrito da Horta remetidos revelavam lacunas, devido ao seu incorreto preenchimento. Por isso, aquele diretor chamava a atenção para tal facto “a fim de obviar a tão grande inconveniente”383.

O universo dos indivíduos que emigraram entre 1880 e 1926, como se pode ver no no mapa n.º 4384 e no gráfico 2, era constituído por um total de 12 231 indivíduos,

distribuídos pelas treze freguesias do concelho da Horta, sendo 6 013 masculinos (49,1%) e 6 218 femininos (50,9%). Quanto ao estado civil, 8 592 são solteiros (70,2%), valor que ultrapassa em muito o somatório dos outros elementos considerados: casados (2 992), viúvos (634), divorciados (oito) e sem qualquer referência (cinco). Quanto aos grupos etários, predomina a faixa comprendida entre os 15-64 anos (74,8%).

Mapa n.º 4: Mapa da emigração do concelho da Horta entre 1880 e 1926 - distribuição total por sexo, por estado civil e por idade

Sexo Estado Civil Idade

Ano Mas. Fem. Total Casado Solteiro Viúvo Divorciado S/R 0-14 1 5-65 65+ S/R

Total 6 013 6 218 12 231 2992 8 592 634 8 5 2 782 9 137 263 49

Fontes: BPARJJG, Governo Civil do distrito da Horta, Passaportes, Livros de Registo, 1876-1889 (7); 1889-1908 (8); 1908-1920 (9); 1920-1933 (10).

381 BPARJJG, Governo Civil do distrito da Horta, Passaportes, Livros de Registo,1876-1889 (7); 1889-1908

(8); 1908-1920 (9); 1920-1933 (10).

382 Cf. J. Costa Leite, “Emigração Portuguesa: a lei e os números (1855-1914)”, Análise Social, vol. XXIII,

1987 (97), pp.463-480.

383 BPARJJG, PORTUGAL, Ministério das Finanças, “Ofício, n.º 423, de 18 de abril de 1913, ao governador

civil do distrito da Horta”[d.a.].

Gráfico 2 - Emigração do concelho da Horta entre 1880 e 1926

Fontes: BPARJJG, Governo Civil do distrito da Horta, Passaportes, Livros de Registo, 1876-1889 (7); 1889-1908 (8); 1908-1920 (9); 1920-1933 (10).

Se compararmos os grupos etários com a sua distribuição por ramos de atividade, verificamos que é muito expressiva a percentagem de jovens quando comparada com a de idosos, ao mesmo tempo que é significativa a componente de ativos.

Em atenção aos dados dos livros compulsados, muitas vezes se atribui com profissão – trabalhador ou doméstica –, consoante o sexo, os que têm idades compreendidas entre os 10 e 14 anos. Notámos ainda, embora de forma residual, que são referenciadas com atividade crianças, de ambos os sexos, com 8 e 9 anos de idade, situação normal se tivermos em atenção, como mais à frente se referirá, o absentismo escolar, uma vez que para muitos pais as crianças são mais úteis nas tarefas “do dedal e da agulha” ou agrícolas. Por isso, os ativos ligados às atividades domésticas e agrícolas predominam, atingido, em conjunto, uma percentagem próxima dos 72%, logo seguidos pelos sem idade de trabalho (13,4%) e pelos sem qualquer referência (7,6%)385.

Quanto às freguesias de residência, como se pode ver no gráfico 3, estão todas representadas, sendo notório que cinco delas ultrapassam os mil indivíduos, a saber por ordem crescente: Pedro Miguel (1 000), Matriz (1 079), Flamengos (1 102), Feteira (1 258)

385Apêndice – Capítulo I, Mapa n.º 5.

0 100 200 300 400 500 600 700 1880 1882 1884 1886 1888 1890 1892 1894 1896 1898 1900 1902 1904 1906 1908 1910 1912 1914 1916 1918 1920 1922 1924 1926

e Cedros (1 968)386. Por outro lado, estão representadas as duas freguesias mais populosas

da ilha, como anteriormente já se fez referência, Cedros e Matriz, enquanto o menor contingente é representado pela freguesia da Praia do Norte, também ela a menos populosa da ilha.

Gráfico 3: Emigração do concelho da Horta entre 1880 e 1926 - distribuição total por freguesias de residência

Fontes: BPARJJG, Governo Civil do distrito da Horta, Passaportes, Livros de Registo, 1876-1889 (7); 1889-1908 (8); 1908-1920 (9); 1920-1933 (10).

Quanto aos países de destino, como se pode ver no gráfico 4, é notório que os Estados Unidos constituem o destino prioritário, com 90,8 % dos indivíduos. O que confirma que, a partir da década de 1880, e particularmente na seguinte, o destino dos habitantes do concelho da Horta era o país “do tio Sam”, destronando assim o destino tradicional: o Brasil. Todavia, verificamos que em 1881, o número de saídas para o Brasil (121) é superior ao somatório dos outros três destinos – Estados Unidos, França e Uruguai, com um total de 110 indivíduos387.

Quanto a outros destinos, identificados no gráfico 4, estes dizem respeito a países da América do Sul (Argentina388 e Uruguai) e Central (Cuba), ao arquipélago do Havai 389

386 Apêndice – Capítulo I, Mapa n.º 6. 387 Apêndice – Capítulo I, Mapa n.º 7.

388 “Emigração para a República Argentina”, O Açoriano, 1889, outubro 6 (30), p.3.

389 Sobre a emigração para o arquipélago do Havai, verificamos pela leitura de um ofício do governador civil

do distrito da Horta ao diretor-geral da Administração da Política e Civil, que aquele, depois de informar que dera publicidade à circular sobre o assunto, confirmava que a emigração com aquele destino não só era nula como constava que nunca se fizera qualquer diligência para “angariar emigrantes para ali, cf. BPARJJG,

Governo Civil do distrito da Horta, Livro de Ofícios do Ministério do Reino [1.ª Repartição], 1909-1916,

fls.49- 50: “Ofício n.º 9, de 9 de dezembro de 1910, do governador civil do distrito da Horta ao diretor-geral da Administração Política e Civil”. Veja-se Joaquim Palminha Silva, Portugueses no Havai. Sécs. XIX e XX

(Da emigração à Aculturação), Ponta Delgada, Presidência do Governo Regional do Açores/Gabinete de

0 200 400 600 800 1000 1200 1400 1600 1800 2000 1079 728 953 1258 931 846 392 1968 656 605 1000 704 1102 9

(Ilhas Sandwich) e a territórios portugueses na África (Moçambique)390 e na Ásia (Macau).

No caso da Europa – Espanha, Inglaterra, França, Alemanha e Malta –, as saídas dizem respeito a viagens de “recreio e turismo”, negócios e assuntos diplomático ou consulares.

Gráfico 4: Emigração do concelho da Horta entre 1880 e 1926 - distribuição total por países de destino

Fontes: BPARJJG, Governo Civil do distrito da Horta, Passaportes, Livros de Registo, 1876-1889 (7);1889-1908 (8); 1908-1920 (9); 1920-1933 (10).

Quanto à distribuição de acordo com o estado de alfabetização, como se pode ver

no mapa n.º 3, 49,7% dos indivíduos são analfabetos391; 38,6 %, sabem ler e escrever.

Quanto aos que não tem idade escolar – 0-5 anos –, essa percentagem fica-se pelos 8,2%. Realça-se ainda o facto de as mulheres apresentarem um estado de alfabetização superior ao dos homens.

Mapa n.º 5: Mapa da emigração do concelho da Horta entre 1880 e 1926 - distribuição total de acordo com o estado de alfabetização

Sabe ler / escrever Não Sabe ler / escrever Sem idade escolar S/R

Sexo Masc. Fem. Total Masc. Fem. Total Masc. Fem. Total Masc. Fem. Total Total Total 2 135 2 588 4 723 3 239 2 850 6 089 526 530 1 055 113 250 363 12 231

Fontes: BPARJJG, Governo Civil do distrito da Horta, Passaportes, Livros de Registo, 1876-1889 (7); 1889-1908 (8); 1908-1920 (9); 1920-1933 (10).

Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas, 1996. No tempo em estudo, apenas dez indivíduos saíram para o Havai.

390 Sobre o desejo de canalizar colonos para a África, em particular para Angola, veja-se Carlos Lobão, A Geração […], já cit, p.18; Cláudia Castelo, Passagens para África. O Povoamento de Angola e Moçambique com naturais da Metrópole (1920-1974), Lisboa, Edições Afrontamento, 2007.

391 Sobre a questão do analfabetismo da maioria dos emigrantes faialenses, veja-se J. de L.[acerda], “Os

emigrantes”, O Telégrafo, 1903, março 13 (2 781), p.1; abril 3 (2 793), p.1; abril 18 (2 307), p.1. Apêndice – Capítulo I, Mapa n.º 8. 962 11198 39 23 9 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000

Finalmente, enquanto a emigração clandestina continuava a ser um fenómeno tipicamente masculino, incidindo sobre uma população jovem e apta para o trabalho, o movimento de emigrantes, no período em estudo, é constituído na sua maioria por saídas individuais de ambos os sexos, tanto casados como solteiros (6 091: 3 480 masculinos e 2

611 femininos392); quanto aos acompanhados, ou são constituídos por famílias inteiras ou

por, geralmente, mulheres casadas com o objetivo de se juntarem aos maridos, levando, em ambos os casos, filhos e outros familiares e parentes dependentes – pais irmãos, avós, sogros –, o que confirma o desejo de uma fixação familiar mais duradoura ou definitiva. Adianta-se ainda que, por vezes, na identificação da naturalidade dos filhos estes ou são nascidos no Brasil ou nos EUA, o que poderá significar que o desejado regresso à terra natal não trouxe a melhoria de vida desejada.

Em síntese, se os Açores à data da sua origem foram ilhas de imigrantes, desde logo passaram a ilhas de emigrantes. Estes em atenção às limitações e contingências sociais e económicas do ambiente açoriano rumaram aos mais variados destinos à procura de um futuro que parecia arredado do meio insular.

Na realidade, a própria geografia do arquipélago dos Açores permitia essa mobilidade ao propiciar a emigração para diferentes destinos. À emigração controlada e contabilizada deverá juntar-se as saídas clandestinas que, pela maneira furtiva como se processavam, são difíceis tanto de contabilizar como de conhecer com precisão. Todavia, perante esta imprecisão, fazia-se eco de que se não excedesse a legal, ao menos não lhe era muito inferior.

Quanto à caraterização dos emigrantes, a investigação pemitiu apurar que saíram de ambos os sexos, não existindo o predomínio de um sexo sobre outro. No entanto, o contingente feminino é superior ao masculino, sendo o grupo etário predominante constituído por emigrantes em idade ativa com profissão ou ocupação (domésticas seguidas de trabalhadores agrícolas). Apurou-se ainda que a maioria dos emigrantes era solteira e que a maioria, de acordo com o tipo de saída, saiu sozinha, tendo o maior contingente saído da freguesia dos Cedros. Quanto ao estatudo de alfabetização, a maioria era analfabeta e os Estados Unidos afirmam-se como o destino preferencial da esmagadora maioria dos emigrantes faialenses.

Por outro lado, se tivermos em atenção os dois anos em que saíram os maiores contingentes, 1903 (545) e 1920 (597), verificamos que em ambos os casos o número de

saídas femininas é superior às masculinas, sendo o grupo etário predominante composto por gente com idade ativa. O maior contingente saiu da freguesia dos Cedros e quanto ao estado civil os solteiros são em larga maioria. Se em 1903, o número de mulheres apresenta uma escolaridade superior à dos homens, o mesmo já não se verifica em 1920. Se tivermos em atenção o número de navios que frequentaram o porto da Horta, notamos que 1920 apresenta o maior número, enquanto 1903, fica logo atrás dos anos de 1916,

1917, 1919, 1921, 1924 e 1926393. O ano 1918 representa, certamente na decorrência da I

Guerra Mundial, apenas três saídas para os Estados Unidos.

Por fim, esta mobilidade foi a principal responsável no evoluir (decréscimo) da população do concelho da Horta.

4.3. Sinais de progresso: doca, estradas e caminhos, iluminação pública, água potável