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A Claudia Nina

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1.2 Entrevistas

1.2.8 A Claudia Nina

A entrevista à Claudia Nina foi publicada em Ideias, Jornal do Brasil no Rio de Janeiro em 24 de abril de 2003, sob o título Um poeta com forte senso crítico. Iniciam falando em poesia e crítica, elementos cruciais na obra de GMT. Ela afirma que essa dupla atividade tem com frequência estimulado a reação de muitos leitores que escrevem ou telefonam dizendo que na crítica, você é mais poeta e na poesia mais crítico. Então ela o indaga se a crítica não pode inibir o poeta, e Gilberto diz que o duplo exercício de poesia e de crítica e principalmente, a consciência de fazer destas atividades o seu projeto de vida, dando o melhor dele a cada uma delas, tem

lhe proporcionado situações às vezes cômica, como a que tentou expressar no poema “Crítica”.

altos seu livro tem &

baixos

os altos ideiais & os baixos princípios as altas qualidades & os baixos instintos a alta fidelidade & o baixo meretrício a alta frequência & o baixo contínuo o alto da cópula & o baixo da cúpula o alto cargo & o baixo calão o alto da boa vista & o baixo Leblon o ponto mais alto & o mais baixo relevo o alto falante & o baixo falido o que anda alto & o que pisa baixo o alto poder de & o baixo costume de altos

seu livro tem & baixos embora o tenha lido muito por alto

& em baixo astral

Para ele, o crítico (e não a crítica), ou melhor dizendo, a mídia, pela sua natureza rápida e exclusiva, não tolera duas formas de criação num mesmo escritor – ele terá de ser isso ou aquilo, para assim etiquetá-lo: poeta, romancista, contista, crítico, etc. E defende que a crítica não pode inibir o poeta na sua criação. Em seu caso, não consegue ver até que ponto o poeta anuncia o crítico e até que ponto o crítico des-anuncia o poeta, e diz mais que o crítico, compreenda-se, o lado crítico do escritor – a sua autocrítica, a sua consciência, o seu conhecimento artístico – ajusta os instrumentos da composição poética e afina a sensibilidade do poeta para a sua linguagem.

E diz que uma crítica de fora, de um especialista, quando se tem uma boa crítica neste sentido, o poeta acerta os ponteiros de seu relógio criado, e que o poeta-crítico é um grande auxiliar do crítico: é ele quem lhe dá aquele toque de penetração no “reino poético”. Sem o texto crítico, por mais lógico e bem escrito, carece algo mais, uma forma de emoção que atua na imaginação crítica e lhe dá feição de ser também um ser literário. Diz que pensa que se é a poesia que está em processo de manifestação, ela acaba impondo o seu lado interior, e se é a critica, os elementos da faculdade crítica se imporão naturalmente ou à custa de uma programada naturalidade. As formas da criação – a imaginação, a emoção, o conhecimento retorico, o bom gosto, os filtros gramaticais e éticos, enfim tudo o que

pode influir na linguagem poética – aparecem ou são “obrigadas” a aparecer no momento em que está sendo especialmente convocadas, e aí o critico se mostra como o grande auxiliar do poeta.

Então Claudia Nina lhe pergunta como a função de professor se adapta ao crítico e ao poeta, e GMT diz que há um triângulo perfeito, cujas relações é preciso aperfeiçoar ao longo da vida, a convivência vai depender da natureza da matéria que o professor ensina e que, supõe-se, deve estudar continuamente, a ponto de escrever sobre ela, e não resta duvida de que a imaginação, emoção do poeta ao crítico, do crítico ao professor e deste convívio com as literaturas, ao poeta e ao crítico, ambos criadores.

Falam sobre o livro que GMT projetou para divulgar os textos programáticos das vanguardas, trabalho que durou cerca de dez anos, e já está na sua 17ª edição.

Define a linguagem crítica como uma forma especial de criação, e assim, se o poeta cria com um olho na vida e no mundo e com outro na sua arte (no conhecimento de sua arte), procurando fazer o seu poema da melhor maneira possível, o crítico faz a mesma coisa, aspectos interessantes na compreensão da crítica na atualidade é o seu lugar, da sua antiga plenitude nos rodapés aos jornais e suplementos literários, a crítica literária hoje, no Brasil, vive um período de impasse para não dizer de estagnação. Em sua opinião o que mantem a tradição crítica são os raros suplementos que falam dos livros recém-lançados. É o melhor informativo para quem ainda acredita no livro.

Sobre as fases de sua poesia, ele diz que, lendo o que escreveram sobre seus livros de poemas, verificou que se podiam reunir todos eles sob o signo de três momentos da sua trajetória – de 1955 até agora – o Nome, a Sintaxe e o Sentido. E pensa que é importante repetir que a poesia é para ele uma linguagem artisticamente construída; é, também, um meio de comunicação, só que não lhe interessa comunicar o comunicável, os conteúdos comuns da fala comum. Ela se empenha em comunicar as marginalidades. Mas a poesia tangencia também o surreal, o mundo dos valores mágicos, sobrenaturais e põe, de repente, o homem dentro de uma realidade maior, absoluta, que o envolve ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro, abolindo-lhe o tempo, dando-lhe a condição de herói, herói da totalidade de seu cotidiano e de sua perplexidade. A poesia mostra ao homem outros sentidos da existência, integra-o na plenitude da sua cultura, dá ênfase ao visível e escancara as janelas do invisível, amplia, portanto, o seu

universo e lhe restitui a ilusão de sua divindade perdida, uma vez que lhe dá o poder de criação através da linguagem.

Nesta entrevista, cita vários autores que o ajudaram na sua formação critica e poética. Diz que aprendeu a metrificar com Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Olavo Bilac, Raimundo Correa, Cruz e Souza, Augusto dos Anjos e Raul de Leoni. Leu tudo o que era possível ler sobre critica literária, todas as nossas historias literárias. E o que mais aprendeu foi que, brincando e jogando com as palavras, o homem aprende a jogar com o mundo. É, sem dúvida, desse jogo que provém uma grande parcela de poesia. Através do jogo com a linguagem pode-se descobrir o outro lado do espelho das coisas.

Encerra a entrevista falando sobre os novos escritores e diz que é muito procurado por esses escritores novos. Geralmente, querem um prefácio, uma orelha, uma opinião escrita, como se isso fosse melhorar os poemas deles.

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