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O Poema visual

No documento Download/Open (páginas 120-123)

No poema visual, o conceito de poesia é um conceito mais abstrato do que prático, podendo ser uma qualidade inerente a qualquer obra de arte. A definição de texto é ampliada para qualquer trama de signos com sentido simbólico, ou seja, neste sentido, bastando que exista uma informação organizada artisticamente através de elementos gráficos ou visuais.

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Professor Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Presidente da Academia Brasileira de Filologia. Autor de inúmeras obras de literatura e de filologia, como a monumental edição crítica de Lírica de Camões. Estudo publicado em A Plumagem dos Nomes de Eliane Vasconcellos – 2007 – p. 439 a 449 sob o título UM POETA E SUA LINGUAGEM.

Admitindo o uso simultâneo de signos verbais e não verbais como recurso na poesia visual, e considerando que tal recurso foi usado na poesia de qualquer época, admite-se também que a poesia visual é antes da mensagem passada pela imagem, quase sempre sem necessitar do recurso da palavra.

A poesia visual pode ser interpretada como uma tentativa de romper com a ditadura da forma discursiva do poema, de vencer o domínio da gramatica com formatos que se impuseram nas expressões líricas, heróicas e dramáticas, condicionando sua produção e uso público.

Os estudos sobre o assunto nos afirma que poema visual caracteriza-se por valorizar a imagem como identidade universal. A palavra, no caso, é um apêndice muito explorado e colocado. A imagem atrai, o poema visual reflete a imagem poética da existência do homem no mundo, o poema fotografa o que está à volta do poeta; é a mensagem passada pelo arranjo do poeta.

Em seu livro, O poema visual (1996), José Fernandes declara que o poema visual não é uma arte recente, que remonta ao final do século passado e inicio deste, como sugerem os concretistas, e que não podemos confundir com o poema concreto, que apenas conforma um objeto, sem se preocupar com a densidade metafísica dos signos, nem com a construtura simbólica, responsável pela instalação de semias.

Declara ainda, a beleza do poema reside na capacidade de, mediante a arte de nominar e de multiplicar a criação na e pela palavra, conter a universalidade dos seres, de tal maneira que tenhamos um todo sem que as partes padeçam qualquer ameaça à sua constituição física e antológica. O poema é a palavra acontecendo no tempo e no texto, desde as origens, tanto pelas mãos dos deuses quanto pelas dos homens, configurando uma síntese do universo, porquanto encerra todas as possibilidades da linguagem no transcurso do tempo.

Segundo o pesquisador, a elaboração do texto visual não constitui um jogo aleatório em que as peças se encaixam segundo as leis do acaso. Segue ela um ordenamento pautado por princípios filosóficos, que propiciam a instauração do belo ou, em terminologia mais atual, a instalação da literalidade. Às normas filosóficas seguem-se preceitos fundados na cabala. Como resultados os textos se tornavam essencialmente herméticos, uma vez que a leitura implica conhecimentos metalinguísticos. Os poemas, normalmente, se convertem em enigmas.

O que interessa, todavia, é que à semelhança dos poemas greco-latinos e hebraicos, antes de ser uma forma de praticar a magia ou a religião, os poemas são práxis e exercício de engenho de arte, em que as imagens se conjugam à expressão verbal para produzir um texto que é linguagem e objeto.

Assegura que o texto visual caminha dentro e fora do silêncio, porque é enigma, mistério e revelação.

Garante que o poema visual não é uma mera arquitetura de letras e de palavras jogadas no espaço da folha, mas uma engenhosa composição de signos e de símbolos em que todos os elementos semioticamente dispostos no espaço empreendem uma aventura semiótico-semântico. Ainda afirma que não é uma aventura no vazio, mas na plenitude dos signos, dos símbolos e da cultura, cristalizada no tempo e pelo tempo. O poema visual, sem a coparticipação de componentes aritmosóficos e mandálicos, conjugados à composição semiótica, transforma-se em um amontoado de palavras e de imagens que nada mais é que a conformação de um objeto. O verdadeiro poema visual, além de configurar o objeto, o transcende, porque significa além do meramente visualizado.

Em sua concepção, Gilberto Mendonça Teles apresenta que poesia vem comunicar o incomunicável. José Fernandes reconhece que o poema precisa ultrapassar os limites do homem, e da linguagem, e revelar um indizível que se encontra na confluência do ser e do cosmos; na poesia visual esta verdade se torna ainda mais subterrânea, uma vez que é encoberta pelas fendas de signos diversos e variados que compreendem a palavra, o aspecto gráfico e o simbolismo dos números e das figuras.

Em estudo sobre os poemas visuais de Gilberto Mendonça Teles, o também poeta José Fernandes compôs a obra O Selo do Poeta (2005), em que há o texto “Os signos do poeta”, onde certifica:

O sentido e a existência de um poema visual não reside unicamente na imagem em si como se constituísse um objeto ou uma palavra que revelasse a totalidade das coisas. Ele significa e se organiza além da imagem e do nome, no que eles abarcam de símbolos e, sobretudo, de componentes esotéricos incorporados em longas caminhadas pelos labirintos do tempo e da cultura. Acreditamos, mesmos, que se forem desprezados só consórcios da mandala, da cabala e da alquimia dificilmente poderemos penetrar na estrutura dos poemas visuais, inclusive aqueles produzidos na atualidade, como “Greenwich Meridian Time”, de Gilberto Mendonça Teles. O bom poema visual é antes de qualquer coisa uma mandala, com todos os mistérios que as figuras geométricos- mandálicas encerram. (FERNANDES.2005-p. 265)

Segundo José Fernandes, é preciso entender o poema visual muito além das palavras que aparecem na imagem formada pelo poeta, tem que desvendar o mistério da linguagem, a representação da ideia manifestada através da personalidade poética, formular, organizar, estruturar toda a estrutura do poema visual é para quem realmente conhece a linguagem e todos os seus signos. Diz ainda que se a poesia, em si, é a arte de dizer o indizível, na poesia visual esta verdade se torna ainda mais subterrânea, uma vez que é encoberta pelas fendas de signos diversos e variados que compreendem a palavra, o aspecto gráfico e o simbolismo dos números e das figuras.

Assim sendo, a poesia visual é a arte de usar a imagem para construir graficamente em uma estrutura abstrata que foge a regras do poema usual, pois sua primeira mensagem vem através da imagem e depois da palavra.

Portanto, definimos poema visual como o novo na poesia, que usa imagens e linguagem, que não é apenas pra ser lida, mas sentida, pois assim desvendaremos seus mistérios. Esse é o prazer do poema visual.

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