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A coisa julgada material e a coisa julgada formal

3 A COISA JULGADA NO CPC/2015

3.2 A coisa julgada material e a coisa julgada formal

O art. 502 do CPC/2015 manteve na legislação processual brasileira a distinção entre os conceitos de coisa julgada formal e material.

Como visto em capítulo anterior, majoritariamente, a coisa julgada formal ou preclusão máxima é entendida como a impossibilidade de modificação da decisão por qualquer meio processual dentro do mesmo processo em que foi proferida. Trata-se de fenômeno endoprocessual que se faz presente em todo e qualquer processo (conhecimento, execução, cautelar), seja a sentença (ou decisão) terminativa ou definitiva, a partir do trânsito em julgado.64

A coisa julgada material, por sua vez, atingiria apenas as decisões de mérito proferidas mediante cognição exauriente e projeta-se para fora do processo em que proferida a decisão, pois, ela impede que a decisão seja alterada ou desconsiderada em outros processos.65

Noutro diapasão, deve-se atentar que, embora majoritários, esses conceitos sofriam severas criticas desde o CPC/1973 e o debate deverá se intensificar com o advento do CPC/2015.

Sem embargos, ao comentar o art. 502 do CPC/2015, Eduardo Talamini, com razão, afirmou ser equívoco querer vincular a coisa julgada à decisão de mérito, pois, segundo ele, “a coisa julgada consiste sempre na imutabilidade e indiscutibilidade do comando da decisão sobre o qual ela recai. O atributo de formal ou material é do comando, e não da coisa julgada”. 66

Neste diapasão, coisa julgada formal é a autoridade que torna indiscutível e imutável as decisões de conteúdo processual, enquanto a coisa

63 WAMBIER et al., 2015, p. 1.280.

64 NEVES, 2016, p. 795.

65 NEVES, 2016, p. 796.

120 julgada material torna indiscutível e imutável decisões de conteúdo meritório.

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Assim, nos termos dessa teoria: “coisa julgada formal e coisa julgada material projetam-se para fora do processo em que a decisão fora proferida; não haveria distinção entre elas; a distinção seria entre os respectivos objetos”.68

Ao que parece, o preceito previsto no §1º do art. 486 do CPC/2015 deverá dar combustível novo para os que defendem a reconceituação da coisa julgada formal e da própria coisa julgada.

A redação do dispositivo é o seguinte: “No caso de extinção em razão de litispendência e nos casos dos incisos I, IV, VI e VII do art. 485, a propositura da nova ação depende da correção do vício que levou à sentença sem resolução do mérito”.

Sem embargos, o texto enumera as hipóteses em que o processo é extinto sem resolução do mérito por alguma invalidade69 e, não teria sentido permitir a repropositura da ação sem que o defeito tenha sido corrigido.

Com efeito,

Se a petição foi reconhecida como inepta por falta de pedido (art. 485, I, c/c art. 330, §1°, I, CPC), a repropositura da demanda somente será aceita se agora o pedido vier formulado; se à parte autora faltava legitimidade extraordinária (art. 485, VI, CPC), a repropositura somente será admitida se sobrevier a legitimidade que faltava; se a extinção se dera por falta de autorização conjugal ou de comprovação da representação judicial (procuração), a renovação da demanda somente será viável com a prova do consentimento do cônjuge ou com a juntada do instrumento de representação judicial.70

Neste diapasão, verifica-se que o legislador conferiu em algumas hipóteses de decisão que extingue o processo sem resolução do mérito,

67 DIDIER JUNIOR; BRAGA; OLIVEIRA, 2015, p. 518.

68 DIDIER JUNIOR; BRAGA; OLIVEIRA, 2015, p. 518.

69 As outras hipóteses de extinção sem resolução do mérito são por: abandono, desistência ou morte, não havendo, portanto, vício nenhum que gere invalidade e precise ser corrigido.

121 estabilidade que extrapola o processo em que foi proferida, de modo que, reproposta a demanda, o juiz do segundo processo ficará vinculado à decisão de conteúdo processual.

Com razão, afirmam Fredie Didier Jr, Paula Sarno Braga e Rafael Alexandria de Oliveira71 que “se a decisão se torna indiscutível e se essa indiscutibilidade opera-se também para fora do processo, não há razão para não chamá-la de coisa julgada”.

De outra banda, cumpre salientar, que mesmo na ausência de disposição expressa do CPC/1973 nesse sentido72, o Superior Tribunal de Justiça já vinha decidindo que nos casos de extinção do processo sem resolução do mérito por invalidade, para se admitir a repropositura da ação, o vício deveria ser corrigido.

Neste sentido, a decisão tomada nos Embargos de Divergência no Recurso Especial - EREsp 160.850/SP, opostos pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – IDEC em litígio com o Banco do Brasil S.A., contra Acórdão da Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça.

Na oportunidade, o IDEC tentava modificar decisão no Recurso Especial, que extinguiu o processo, impedindo-o de repropor uma ação, cujo conteúdo da decisão transitada em julgado no processo anterior havia sido de extinção por ilegitimidade da parte, sob o fundamento de que:

A sentença que indefere a petição inicial e julga extinto o processo, sem o julgamento de mérito, pela falta de legitimidade passiva para a causa, faz trânsito em julgado material, se a parte deixar transcorrer em branco o prazo para a interposição do recurso cabível, sendo impossível o novo ajuizamento de ação idêntica.

A embargante alegou que a extinção do primeiro processo sem julgamento de mérito, em razão da ilegitimidade, não seria obstáculo à

71 DIDIER JUNIOR; BRAGA; OLIVEIRA, 2015, p. 518.

72 O dispositivo do CPC/1973 correspondente é o art. 268, que veda a renovação da ação apenas na extinção por litispendência, coisa julgada ou perempção. A redação do CPC/2015 não mais menciona a perempção e a coisa julgada, mas inclui o indeferimento da inicial, a falta de condições da ação ou de pressupostos processuais, a existência de convenção de arbitragem.

122 propositura de nova ação, vez que, a decisão fez coisa julgada formal, e não material, apontando julgados paradigmas que corroboravam a tese.73

No voto vencedor do Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, ficou firmado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça que a extinção do processo sem julgamento de mérito, por falta de legitimidade ad causam, forma coisa julgada formal, e não coisa julgada material, o que impede a discussão da questão no mesmo processo e não em outro. Conquanto, malgrado não se poder excluir, prima facie, a possibilidade de o autor repropor a ação, ele terá que sanar a falta da condição anteriormente ausente:

Tendo sido o processo extinto por falta de legitimidade do réu, não se permite ao autor repetir a petição inicial sem indicar a parte legítima, por força da preclusão consumativa, prevista nos arts. 471 e 473, CPC, que impede rediscutir questão já decidida.

Assim, verifica-se que, aparentemente, os Ministros resistiram em fazer mudanças nos paradigmas conceituais estabelecidos para coisa julgada, mas, na prática, estenderam para outro processo, a estabilidade de uma decisão que fez apenas coisa julgada formal, ou seja, cuja vocação seria para produzir apenas efeitos endoprocessuais.

Talvez em reforço a ideia de que a coisa julgada estabiliza o conteúdo da decisão, qualquer que seja ela, o CPC/2015 traz também a previsão expressa do cabimento de ação rescisória para rescindir a decisão transitada em julgado que, embora não seja de mérito, impeça nova propositura da demanda ou a admissibilidade do recurso correspondente (art. 966, § 2º).

Conquanto, autorizada doutrina74 discorda de que o fato do CPC/2015 possibilitar a ação rescisória signifique necessariamente que haja coisa julgada, sob o argumento de que mesmo não se tratando res judicata o Estado não está obrigado a agasalhar pretensões manifestamente inviáveis, quando essa ausência de condições mínimas para um julgamento da postulação de direito

73 AgRg 232205/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, DJ em 26/06/2000 - REsp 281711/MG, Rel. Min. Edson Vidigal, DJ em 18/12/2000.

123 material não é corrigida e o autor reitera a mesma petição inicial, com o mesmo defeito.

Por fim, cumpre ressaltar o magistério de Antônio do Passo Cabral75, segundo o qual, malgrado discorde do posicionamento adotado pelo legislador no CPC-15, reconhece que ele fez subsistir e talvez até tenha realçado a distinção entre coisa julgada formal e material, uma vez que, enquanto o art. 467 do CPC/1973 mencionava genericamente “sentença”, sem afirmar peremptoriamente que a coisa julgada material só atingia as sentenças “de mérito”, na novel legislação o art. 502, substituiu a palavra “sentença” pela expressão “decisão de mérito”.