• Nenhum resultado encontrado

Acepções da coisa Julgada formal e material

LIÇÕES DE DIREITO PROCESSUAL CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL

1 COISA JULGADA E SENTENÇA NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 973

1.1 Acepções da coisa Julgada formal e material

Inicialmente, observa-se que a coisa julgada é um dos fundamentos da segurança jurídica, garantindo estabilidade às relações jurídicas por tornar definitiva a solução judicial no caso em análise7. Assim, nota-se que o direito fundamental à segurança jurídica é característico dos Estados Democráticos de Direito. Em que pese a previsão no art. 5, XXXVI da Constituição Federal, Teresa Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia afirmam que tal ligação seria tão notória que a previsão constitucional seria irrelevante8.

Desse modo, segundo Fredie Didier Jr, “a coisa julgada é a imutabilidade da norma jurídica individualizada contida na parte definitiva de uma decisão judicial9”. No entanto, pondera o mencionado autor, que a imutabilidade pode ocorrer no âmbito do processo em que a decisão foi proferida ou ir além desta. Fala-se, assim, em coisa julgada formal e material.

6 DIDIER JUNIOR; BRAGA; OLIVEIRA, 2013, p. 334.

7 DIDIER JUNIOR; BRAGA; OLIVEIRA, 2013, p. 467.

8 WAMBIER; MEDINA, 2003, p. 22.

99 Em relação à coisa julgada formal, entende-se que a decisão se torna imutável no âmbito do processo. Isso pode ocorrer por diversas razões, como a impossibilidade de impugnação recursal, do decurso de prazo ou do trânsito em julgado, por exemplo10.

Para Didier, a coisa julgada formal seria a preclusão máxima dentro de um processo. Apesar disso, Liebman e Ada Pellegrini Grinover entendem que preclusão e coisa julgada formal seriam institutos distintos. Liebman leciona que

A preclusão é, subjetivamente, a perda de uma faculdade processual e, objetivamente, um fato impeditivo; a coisa julgada formal é a qualidade da decisão, ou seja, sua imutabilidade, dentro do processo. Trata-se, assim, de institutos diversos, embora ligados entre si por uma relação lógica de antecedente-consequente11”.

Vale notar que com a coisa julgada formal não há impedimento para que seja ajuizada outra ação. Nesse sentido, Elpídio Donizetti cita Liebman, que explicava que “A coisa julgada formal constitui o primeiro degrau da coisa julgada material”. Elpídio Donizetti aduz que:

Os efeitos da sentença podem ficar tão-só nesse primeiro degrau, porque a sentença apenas extinguiu o processo, deixando intangível a relação de direito material – é a coisa julgada formal. Podem, todavia, passar pelo primeiro degrau (extinção do processo) e atingir o segundo, tornando imutável e indiscutível a relação jurídica acertada na sentença. Evidente que não se pode alcançar o segundo degrau sem passar pelo primeiro. Não existe coisa julgada material sem coisa julgada formal, embora coisa julgada formal possa se referir apenas a uma fase do processo12.

Verifica-se, portanto, que a coisa julgada formal é a primeira característica da coisa julgada material. Esta tem projeção para além do processo no qual a decisão foi proferida, pois torna indiscutível a decisão no processo em questão e em qualquer outro.

10 DIDIER JUNIOR; BRAGA; OLIVEIRA, 2013, p. 469.

11 LIEBMAN, 2006, p. 68.

100

1.1.1 Pressupostos e efeitos da coisa julgada material

Fredie Didier Jr leciona que a coisa julgada material possui os seguintes quatro pressupostos: (i) decisão jurisdicional, pois afirma que a coisa julgada é característica exclusiva dessa espécie de ato estatal; (ii) provimento sobre o mérito da causa; (iii) mérito analisado em cognição exauriente; (iv) ocorrência descoisa julgada fÕrmal13.

Vale no/ar que quando o objeto litigioso é analisado, considera-se que ocorreu a decisão de mérito. Este era o entendimento adotado no art. 468 do CPC de 1973 ao estabelecer que “a sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas”.

Ressalte-se, ainda, que a cognição exauriente está presente em decisões definitivas, o que viabiliza a ocorrência de coisa julgada material14. Assim, ocorre a coisa julgada em relação ao dispositivo e com efeito inter partes, como regra.

1.1.2 Sentença, coisa julgada material e Ações Constitucionais

Nos termos do art. 469 do CPC/1973, a coisa julgada material abrangeria somente o dispositivo analisado sem atingir os motivos, a verdade dos fatos e a decisão da questão prejudicial resolvida incidentalmente no processo15.

Apesar disso, no âmbito do controle concentrado de constitucionalidade, Daniel Amorim Assumpção Neves leciona que em razão da teoria da transcendência dos motivos determinantes ou de efeito transcendente de motivos determinantes, o efeito vinculante não estaria limitado ao dispositivo, mas atingiria também os fundamentos principais da decisão16.

13 DIDIER; BRAGA; OLIVEIRA, 2013, p. 470.

14 DIDIER JUNIOR; BRAGA, 2008, p. 297.

15 NEVES, 2013, P. 541.

101 Contudo, explica que o Supremo Tribunal Federal (STF) não adota a teoria, que estaria relacionada de forma não exclusiva aos limites objetivos da coisa julgada, pois também abrangeria a eficácia vinculante da decisão.

Vale notar que algumas manifestações de Ministros ocorreram em concordância com a referida teoria. No entanto, na Reclamação n. 11477 Agr/CE, noticiada no Informativo n. 668, o STF se manifestou de forma contrária à teoria da transcendência dos motivos determinantes.

O caso da mencionada Reclamação consistiu na aprovação das contas de um prefeito do interior do Ceará pela Câmara Municipal, porém posteriormente rejeitadas pelo Tribunal de Contas, o qual baseou sua decisão na Constituição Estadual do Ceará, que possuía previsão de que caberia ao Tribunal de Contas o julgamento das contas dos prefeitos.

Desse modo, o prefeito alegou em Reclamação que a previsão da Constituição Estadual do Ceará violaria a Constituição Federal, tendo em vista que esta estabelece que o Tribunal de Contas emite parecer prévio no caso de chefes do Poder Executivo, sem julgar as contas17.

Com a finalidade de embasar sua tese, o prefeito sustentou que o STF já teria se manifestado no sentido de que caberia às Câmaras Municipais o julgamento das contas dos prefeitos e não aos Tribunais de Contas, tendo como precedentes as ADIs 3715 MC/TO, 1779/PE e 849/MT.

Ocorre que, no julgamento dos referidos precedentes, apesar de o STF ter decidido que caberia ao Poder Legislativo o julgamento das contas dos chefes do Poder Executivo, de modo que o Tribunal de Contas deveria apenas emitir parecer prévio, tais conclusões foram expostas somente na fundamentação, pois o dispositivo da decisão consistiu nas normas das Constituições Estaduais de Tocantins, Pernambuco e Mato Grosso18.

17 Disponível em < http://www.dizerodireito.com.br/2012/06/o-stf-nao-admite-teoria-da.html>. Acesso em 9 mai 2016.

18 Disponível em < http://www.dizerodireito.com.br/2012/06/o-stf-nao-admite-teoria-da.html>. Acesso em 9 mai 2016.

102 Firmou-se, assim, o entendimento de que o STF adota a Teoria Restritiva19, de modo que o dispositivo analisado possui eficácia vinculante e erga omnes, porém a fundamentação não possui tais efeitos, de modo que os motivos na fundamentação ou decisão não são vinculantes20.

Pondera-se que a coisa julgada material possui relação com a eficácia vinculante das decisões. No entanto, como esta não consiste em objeto do presente trabalho, será abordado apenas o suficiente para melhor compreensão da coisa julgada material.

1.1.3 Funções Negativa e Positiva da Coisa Julgada

A coisa julgada material produz imutabilidade, de modo que novo processo não poderá versar sobre a mesma causa. Veda-se, dessa forma, que haja novo processo com as mesmas partes, a mesma causa de pedir e o mesmo pedido. Portanto, considera-se função negativa da coisa julgada como o impedimento de novo julgamento de mérito, seja qual for o seu teor, como leciona Daniel Amorim Assumpção Neves21. Nesse sentido, esclarece que:

Nessa análise entre diferentes processos, deve-se considerar a parte no sentido material, e não no sentido processual, de forma que, havendo substituição processual em hipótese de legitimação extraordinária concorrente, a propositura de novo processo com a mesma parte contrária, mesma causa de pedir e mesmo pedido, ainda que com outra parte processual defendendo o mesmo direito já defendido anteriormente, não afasta o efeito negativo da coisa julgada.

No âmbito das ações de controle concentrado de constitucionalidade, existirão dois processos com a mesma ação, caso propostas pelo Procurador Geral da República e pela Ordem dos Advogados do Brasil. Assim, ocorrerá o trânsito em julgado de qualquer dos processos em caso de julgamento, com

19 No mesmo sentido, Rcl 3294 AgR, Rcl 9778 AgR e Rcl 3014.

20 Disponível em < http://www.dizerodireito.com.br/2012/06/o-stf-nao-admite-teoria-da.html>. Acesso em 9 mai 2016.

103 consequente coisa julgada material e impedimento de novo julgamento de mérito em outro22.

Em relação à natureza dúplice das ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade, pode ocorrer identidade de pedidos, pois a análise do órgão jurisdicional pode ocorrer em sentido positivo ou negativo. Assim, não restaria impedimento para novo julgamento em caso de modificação de elementos da demanda, como em caso de novos fatos jurídicos que originassem nova demanda. Isso ocorre em razão da teoria da tríplice identidade, que somente quando aplicada ao caso concreto teria o condão de gerar a função negativa da coisa julgada23.

Contudo, vale notar que também há a função positiva da coisa julgada. Apesar da mencionada imutabilidade, em caso de propositura de segunda demanda, que tenha relação jurídica com o que foi decidido na primeira demanda, o juiz poderá julgar o mérito, entretanto vinculado ao que foi decidido em demanda anterior24.

Desse modo, Daniel Amorim Assumpção Neves explica que a função positiva da coisa julgada vincularia todos os juízes na análise incidental de constitucionalidade de norma legal que tenha sido declarada constitucional ou inconstitucional pelo STF25.

1.1.4 Efeitos da Inconstitucionalidade declarada pelo Supremo

Tribunal Federal em sentenças e na coisa julgada

Em relação ao processo civil, o art. 472 do CPC/73 estabelecia que a coisa julgada vinculava somente as partes, não atingindo terceiros, que não seriam beneficiados ou prejudicados.

No âmbito das ações constitucionais, sabe-se dos efeitos vinculante e erga omnes das decisões. Apesar disso, no julgamento do RE 730.462 definiu

22 NEVES, 2013. p. 541.

23 NEVES, 2013. p. 538.

24 NEVES, 2013. p. 539.

104 que o efeito vinculante não pode atingir a coisa julgada e os atos passados. Ainda que tais atos tenham sido embasados em dispositivo posteriormente declarado inconstitucional, continuariam abrangidos pela coisa julgada26.

Desse modo, a Reclamação não seria instrumento apto a questioná-los. Somente ação autônoma de impugnação ou a ação rescisória poderiam desconstituir a sentença de mérito transitada em julgado. Para isso, deve ser proposta no prazo decadencial previsto em lei. Após este prazo, não poderá ocorrer qualquer modificação ainda que o STF tenha declarado a norma como inconstitucional.

Vale notar, no entanto, que a ação rescisória caberá em situações que o STF não tenha se posicionado sobre o tema na época do trânsito em julgado27. Isso porque, caso o STF tenha determinado entendimento à época do julgamento e posteriormente mude de posicionamento, não ocorrerá violação literal de disposição de lei, de modo que a ação rescisória não será cabível28.

Além disso, a doutrina leciona que a imutabilidade da coisa julgada material pode ser afastada em caso de determinadas matérias, conforme previsão dos arts. 741, parágrafo único, e 475-L, § 1º, ambos do CPC/73. A alegação pode ocorrer em embargos e impugnações, por exemplo, defesa típica do executado a fim de que o título seja inexigível por estar relacionado à sentença fundada em lei ou ato normativo que o STF tenha declarado inconstitucional29.

2 DECISÕES DE CONCLUSÃO (SENTENÇA) DOS ÓRGÃOS