As mudanças trazidas pelas legislações no Processo Civil Brasileiro e as mudanças na forma de julgar levam a uma nova visão do Superior Tribunal de Justiça como Corte Suprema juntamente com o Supremo Tribunal Federal. Essa Corte está capacitada a atribuir sentido aos textos legai federais, bem ºomo desenvolvê-Ùo de acordo com as alterações de valores e contextos sociais25.
24 MARINONI. Luiz Guilherme. Precedentes Obrigatórios. Os precedentes no Superior Tribunal de Justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 499.
25 MARINONI, Luiz Guilherme. O STJ enquanto Corte de Precedentes. Recompreensão do Sistema Processual da Corte Suprema. 2 ed. rev. atual e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, ,2014, p.173.
175 Para o implemento dessa função é necessária uma teoria de precedentes no Direito Brasileiro, com uma releitura dos conceitos e dos institutos que fazem parte de sua atividade26.
Dessa forma o Superior Tribunal de Justiça passa a cristalizar o sentido do direito federal infraconstitucional, participando, ao lado do legislativo, da concretização do direito, da formação de normas jurídicas que estipularam a melhor interpretação para o caso presente e para os futuros27.
Essa norma jurídica que constitui a melhor interpretação do direito federal infraconstitucional será proclamada pela Corte Suprema incumbida para tanto. Essa proclamação será feita mediante uma decisão que deve, por meio de uma argumentação racional, expressar as razões apropriadas capazes de adUquadamente delinear a ratio decidendi do precedente com uma pretensão universal, válida para todos os casos com características similares28.
Para que fique ainda mais claro, o precedente para tanto, é a parte da decisão a qual se faz referência, pois dela deriva a regra de julgamento para o caso sucessivo. A razão jurídica efetiva (ratiodecindendi) é que torna eficaz o precedente29.
Com base nesses critérios, verifica-se a necessidade de mudança de visão nos sistemas jurídicos. A referência ao precedente, conforme demonstrado acima, não é mais uma característica peculiar aos ordenamentos de common
26 MARINONI, Luiz Guilherme. O STJ enquanto Corte de Precedentes. Recompreensão do Sistema Processual da Corte Suprema. 2 ed. rev. atual e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, ,2014. p.173.
27 MARINONI, Luiz Guilherme. O STJ enquanto Corte de Precedentes. Recompreensão do Sistema Processual da Corte Suprema. 2 ed. rev. atual e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, ,2014, p.174.
28 MARINONI, Luiz Guilherme. O STJ enquanto Corte de Precedentes. Recompreensão do Sistema Processual da Corte Suprema. 2 ed. rev. atual e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, ,2014, p. 174.
29 TARUFFO, Michele. Precedente e jurisprudência. Trad. Chara de Teffé. Civilistica.com. Rio de Janeiro, a. 3, n.2, jul-dez/2014. Disponível em http://civilistica.com/precedente-e-jurisprudencia/. Data de acesso em 29/05/2016.
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law, estando presente em quase todos os sistemas, inclusive nos de civil law30 como o sistema brasileiro.
De fato, existe uma aproximação das tradições do civil law e do common law. A globalização está aproximando os sistemas e as sociedades, criando valores e questões globais a serem decididas. Com isso, é preciso uma complementação de ambos os sistemas. O common law está utilizando cada vez mais de codificações e legislações e, o civil law se preocupa em assegurar a vigência do princípio da liberdade e igualdade de todos perante o direito, trabalhando com uma noção dinâmica do princípio da segurança jurídica que postula a necessidade do Poder Judiciário trabalhar em conjunto com o Poder Legislativo na criação de uma norma jurídica a ser aplicada a todos os casos similares31.
O Novo Código de Processo Civil corrobora essas mudanças e passa a ter como preocupação central o jurisdicionado. Por isso, opta por um modelo publicista, com bases nos princípios constitucionais, que cumpra sua função social. Assim, desfaz a visão antiga de que a jurisdição se resume à mera aplicação mecânica da lei, na qual o legislador é sábio e prevê todos os litígios futuros e suas respectivas soluções32.
O Novo Código de Processo Civil estabelece, nesse novo modelo publicista, a eficácia vinculante dos precedentes judiciais, conforme o disposto no artigo 926: “os Tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente33”. Ainda, estabelece uma uniformização da jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores pelos órgãos inferiores
30TARUFFO, Michele. Precedente e jurisprudência. Trad. Chara de Teffé. Civilistica.com. Rio de Janeiro, a. 3, n.2, jul-dez/2014. Disponível em. Disponível em http://civilistica.com/precedente-e-jurisprudencia/. Data de acesso em 29/05/2016.
31 MARINONI, Luiz Guilherme. Novo curso de processo civil: tutela dos direitos mediante procedimento comum, volume II/ Luiz Guilherme Marinoni, Sérgio Cruz Arenhart, Daniel Mitidiero – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p.605.
32 FUX, Luiz. Novas tendências do Processo Civil. O projeto do Novo Código de processo civil. Revista CEJ, Brasília, Ano XVII, n.61, p.133.
177 para que seja alcançada a coerência, estabilidade e segurança do sistema jurisdiciona34l.
O Tribunal Superior passa a realizar uma interpretação construtiva, para encontrar uma melhor justificativa, servindo o processo judicial para a concretização da norma. A resposta emanada pela Corte em questão deverá levar em conta toda a história institucional das decisões anteriores que tratam de uma mesma temática, respeitando-se a coerência e integridade do Direito. O precedente é visto como ponto de partida para as discussões e todo o Tribunal será chamado a decidir um caso, cuja matéria já tenha sido decidida em outros julgados35.
7 A ABSTRATIVIZAÇÃO NO CONTROLE CONCRETO E A
RESPECTIVA REPERCUSSÃO NOS RECURSOS
CONSTITUCIONAIS: ANÁLISE E PERSPECTIVAS
Impossível refletir sobre a sistemática recursal nas ações constitucionais sem abordar a abstrativização no controle concreto de constitucionalidade. É que ambos os temas inexoravelmente atrelados estão, na medida em que o exercício da jurisdição de forma definitiva pelo Supremo Tribunal Federal sobre um determinado assunto, ainda que levado adiante em sede de controle difuso, termina por desconstituir a pretensão do jurisdicionado que, doravante, deseja discutir este mesmo assunto, seja nas Cortes de Apelação, seja nos Tribunais Superiores.
O que se busca ilustrar, em outras palavras, é a imediata repercussão que uma decisão do Supremo Tribunal Federal importa aos interesses processuais daquele que deseja recorrer em um processo específico do qual se afigura como litigante, desde que haja identidade temática entre ambos, isto é, desde que a
34 SILVA, Narda Roberta da. A eficácia dos precedentes no novo CPC. Uma reflexão à luz da Teoria de Michele Taruffo. Revista de Processo: RePro, v. 39,n.228, fev.2014.
35 NUNES. Dierle; LADEIRA, Aline Hadad. Aspectos da dinâmica do direito jurisprudencial no Brasil versus a busca da coerência e integridade – Uma primeira impressão das premissas dos precedentes no Novo Código de Processo Civil. R. bras. Dir. Proc – RBDPro: Belo Horizonte, ano 22,n.87,p.77-99, jul/set.2014.
178 pretensão recursal verse acerca de uma questão já debatida pela Excelsa Corte Constitucional, muitíssimo embora esta o tenha realizado via controle difuso.
É de crucial sabença, no ponto, que o Supremo Tribunal Federal vocacionado está a velar pelo respeito da Constituição da República36, enquanto norma fundamental na qual todas as demais legislações infraconstitucionais se abeberam, dada a supremacia formal por ela ostentada de acordo com a hierarquia kelseniana das normas. E ele o faz, de ordinário, por meio do controle concentrado e abstrato, expediente jurídico em que a atuação da Corte cumpre o seu ofício sem se debruçar sobre um caso concreto para tanto. A Suprema Corte o cumpre, também e embora extraordinariamente, por meio do controle concentrado e difuso de constitucionalidade, ocasião em que exerce o papel de guardião da Constituição da República com fulcro em uma demanda subjetiva.
Em tempo e, apenas a título de revisão, trata-se o controle abstrato de um pleito objetivo, deflagrado por legitimados especificamente catalogados, sem qualquer vínculo com um caso concreto, realizado por via de ação, em que o requerimento declaratório consta do pedido imediato e cuja decisão importa em efeitos que extravasam os lindes objetivos do processo. O controle concreto, por sua vez, ilustra uma demanda subjetiva, detonada por qualquer jurisdicionado que tenha tido o seu direito lesado por outrem, exercido sobre um caso concreto, concluído por via de exceção, na qual o provimento judicial é
36 Neste sentido, inclusive, a abalizada doutrina que, ainda no ensejo, deixa bem claro a importância do recurso extraordinário no direito nacional, como adiante rabiscaremos. Transcrevemos o que interessa: “Porque tem a função de guarda da Constituição Federal, ao STF cabe conferir interpretação às normas constitucionais, fazendo-o por meio de controle abstrato de constitucionalidade ou por meio do controle concreto, sendo este último, como se sabe, realizado usualmente por meio do recurso extraordinário. Daí se infere que: ‘o recurso extraordinário, portanto, sempre teve como finalidade, entre outras, a de assegurar a inteireza do sistema jurídico, que deve ser submisso à Constituição Federal’. Enfim, o papel do recurso extraordinário, no quadro dos recursos cíveis, é o de resguardar a interpretação dada pelo STF aos dispositivos constitucionais, garantindo a inteireza do sistema jurídico constitucional federal e assegurando-lhe validade e uniformidade de entendimento. ” (JÚNIOR, Fredie Didier; CUNHA, Leonardo José Carneiro. Curso de Direito Processual Civil. 3º vol. 5ª ed., Salvador: Jus Podivm, 2008, p. 306-307)
179 postulado na causa de pedir e cuja decisão implica em efeitos apenas e tão somente entre os envolvidos na lide37.
Curioso notar, de mais a mais, que o legislador constituinte originário previu a atuação do Senador Federal no controle concentrado difuso38, então operado pela Excelsa Corte em demandas subjetivas, pois cônscio da impossibilidade fático-jurídica de ela própria e sem ofensa à independência e harmonia dos poderes39, elastecer a interpretação extra autos àqueles que destes não participaram.