Capítulo I Antecedentes históricos do Tribunal Penal Internacional e o processo de
1.3. O Estatuto de Roma e o Tribunal Penal Internacional
1.3.2 A competência do Tribunal Penal Internacional
No período de criação do TPI as definições dos crimes que fariam parte da
competência causaram inúmeras discussões.
95Vários crimes que fazem parte da competência do TPI sofreram adaptações em
seu conceito para serem introduzidos no Tribunal Penal e, para outros crimes, tiveram que ser
criados novos conceitos que antes inexistiam. Cabe ressaltar que, em alguns casos, foi
necessário adaptar as definições ao contexto desejado, ou mesmo inovar, como foi o caso dos
crimes de natureza sexual.
96Os crimes estabelecidos no Estatuto de Roma são bem restritos e não
acompanharam a evolução que sofreu o CDI desde sua criação na Segunda Guerra Mundial.
Desta forma vários crimes ficaram de fora, como, por exemplo, o tráfico de drogas.
97Por outro lado, a criação do TPI ocorreu em oposição a interesses de vários
participantes da convenção de Roma, já que esses participantes contrários tentaram reduzir o
espaço de atuação do Tribunal Penal Internacional.
98Um grupo de participantes tentou introduzir ao Estatuto definições mais
detalhadas com relação os crimes, baseadas em princípios solidificados no âmbito do direito
Internacional. Todavia, um segundo grupo esforçou-se para introduzir crimes já largamente
reconhecidos na legislação do direito internacional possibilitando a ampliação da quantidade
de países signatários ao Tratado de Roma.
99Muitos crimes de elevada importância foram deixados de fora, mas cabe salientar
que estes podem ser incluídos posteriormente ao Estatuto de Roma.
10094 Ibid., p.239. 95 Ibid., p.191. 96 MAIA, 200, p.85. 97 CHOUKR, 2000, p.193. 98 Ibid.,p.193. 99 Ibid.,p.194. 100 MAIA.op.cit.p.86.
No final das negociações foram determinados como crimes de competência do
TPI, de acordo com o artigo 5º: o crime de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de
guerra e o crime de agressão.
1013.2.1 Crime de Genocídio
Em relação a este crime os autores entraram em debate à sua introdução no TPI.
Enquanto alguns descrevem como pacífica a sua entrada, outros autores como a última
discussão entre as delegações.
O conceito de genocídio foi baseado nos tribunais ad hoc e assim foi definido:
Matar membros do grupo, causar prejuízos à saúde física ou mental dos membros do grupo; deliberadamente afligir as condições de vida de um grupo de modo calculado,visando a causar sua destruição total ou parcial; impor medidas tendentes a evitar nascimento dentro de grupo; realizar transferência forçada de crianças de um grupo para outro.102
Outro fator que causou dúvida em relação ao crime de genocídio é apresentado
por Choukr:
Em termos de ambigüidade, o art.6 deixa ainda em aberto a questão perene que é a de saber quantas pessoas devem ser mortas para que se tipifique o crime como genocídio?103
No final dos debates chegou-se à conclusão de que não havia a necessidade de
uma morte para configurar o crime de genocídio, mas, apenas um procedimento para que este
seja cometido, como anteriormente determinava a convenção sobre o genocídio.
1043.2.2 Crime contra a Humanidade
Estes crimes já faziam parte de Tribunais internacionais na Segunda Guerra
Mundial. Mesmo assim, não tornaram as discussões mais simples para a introdução ao
Estatuto de Roma.
105Pela quantidade de opiniões e de interesses todos temiam pela dificuldade que
seria chegar a um denominador comum sobre estes crimes.
106Mas o Estatuto representou uma evolução no âmbito do direito internacional com
relação aos crimes contra a humanidade, pois além de incluir crimes já definidos, também
101 Ibid., p.84. 102 CHOUKR, 2000, p.199. 103 Ibid.,p.199. 104 Ibid.,p.199. 105 Ibid.,p.201. 106 MAIA, 2001, p.87.
G/
ampliou a competência com crimes de atos de violência sexual e contra as mulheres, inéditas
à legislação penal internacional.
107No Estatuto de Roma o crime de tortura está defendido no artigo 7º, alínea “f”,
determinando que o Tribunal pode atuar, também, com relação a este crime.
3.2.3 Crime de Guerra
Mesmo com as inúmeras codificações existentes sobre o tema, este causou
inúmeras discussões. De um lado um grupo influenciado pelo Estados Unidos, tentava
introduzir uma visão mais tradicional sobre o tema; todavia, o Comitê Internacional da Cruz
Vermelha buscou influenciar as delegações a uma visão mais ampla com relação a este
crime.
108As definições destes crimes não causaram controvérsia, no entanto, a
problemática estava com relação a este crime nos conflitos internos e, ao final, também foram
incluídos. No entanto, somente será da competência do TPI quando estes crimes fizerem parte
de um plano ou política do Estado, esta ressalva foi utilizada como mecanismo para
resguardar a soberania dos Estados.
109Este crime ainda possui a particularidade de que um Estado possa deixar de
respeitar as definições deste crime por um prazo de sete anos após sua ratificação do Tratado
de Roma, ou sete anos após a sua ratificação do estatuto.
1103.2.4 Crime de Agressão
Dos crimes incluídos no Estatuto de Roma este foi o causador das maiores
controvérsias, chegando a ponto de algumas delegações pensarem em sua exclusão do
Estatuto de Roma.
111A dificuldade relativa a ele nasceu desde o projeto do CDI, existindo este
problema pela ausência de um conceito estabelecido. Este crime gera a dificuldade na
introdução da responsabilidade individual, visto que ocorre um conflito deste crime de
agressão com a idéia de guerra de agressão ligado à responsabilidade do Estado, e ainda mais
por este crime já figurar anteriormente na Carta das Nações Unidas.
112107 Ibid.,p.89. 108 MAIA, 2001,p.89. 109 Ibid.,p.89. 110 Ibid.,p 91. 111 Ibid.,p.92. 112 MAIA, 2001, p.92.
G0
Em torno destas inúmeras discussões a competência do TPI relacionada a este
crime ficou condicionada a uma futura emenda ao Estatuto para a definição de um conceito e,
também, prever o papel do Conselho de Segurança da ONU no julgamento deste crime.
113G.