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O eventual desrespeito à coisa julgada material

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Capítulo III A inserção do Estatuto de Roma no direito brasileiro e os questionamentos

3.3. Os conflitos aparentes entre o Estatuto de Roma e a Constituição da

3.3.1 O eventual desrespeito à coisa julgada material

É certo que a jurisdição do Tribunal Penal Internacional é complementar a dos

Estados Partes. Em respeito a esse princípio, bem como ao ne bis in idem, preceitua o art. 20

do Estatuto que a pessoa absolvida ou condenada em um Estado por atos criminosos de

competência do Tribunal

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não poderá ser julgada novamente pelo referido Tribunal. Tem-se,

portanto, que a formação da coisa julgada material pelo Poder Judiciário Estatal faz cessar a

prerrogativa do Tribunal relativamente à matéria subjudice.

Entretanto, o mesmo artigo excepciona hipóteses de manutenção da competência

do Tribunal, mesmo quando da iminência de um julgamento ou da concretização do processo

por um Estado signatário. Tais hipóteses referem-se ao julgamento local que tenha por

objetivo a impunidade do acusado ou quando a condução processual e o provimento

jurisdicional não tenham sido conduzidos de forma imparcial ou independente.

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Por coisa julgada material entende-se a qualidade do pronunciamento final de

mérito, proferido pelo magistrado, do qual não caiba mais recurso, tornando-o imutável e

indiscutível.

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Mais uma vez, a Constituição intitula o instituto como um direito

177 Assim, no dia 7 de fevereiro de 2000, o Brasil procedeu à assinatura do tratado constitutivo do TPI e, em 20 de junho de 2002, depositou o instrumento de ratificação perante o Secretário-Geral das Nações Unidas. O texto do Estatuto, submetido à apreciação do Congresso Nacional em 10 de outubro de 2001, foi aprovado por meio do Decreto Legislativo 112, de 6 de junho de 2002. E, foi no dia 25 de setembro de 2002, foi promulgado pelo Decreto Presidencial 4.388.

178 Atos constantes dos arts. 6, 7 e 8 do Estatuto do TPI.

179 Art. 20 (3) do Estatuto: “O Tribunal não poderá julgar uma pessoa que já tenha sido julgada por outro

tribunal, por atos também punidos pelos artigos 6, 7 ou 8, a menos que o processo nesse outro tribunal: (a) Tenha tido por objetivo subtrair o acusado à sua responsabilidade criminal por crimes da competência do Tribunal; ou (b) Não tenha sido conduzido de forma independente ou imparcial, em conformidade com as garantias de um processo equitativo reconhecido pelo direito internacional, ou tenha sido conduzido de uma maneira que, no caso concreto, se revele incompatível com a intenção de submeter a pessoa à ação da justiça”. Já o art. 17 (2) do Estatuto especifica as circunstâncias em que se considere a existência, ou não, de vontade de agir e as garantias para um processo eqüitativo.

180 Art. 467 do Código de Processo Civil brasileiro: “Denomina-se coisa julgada material a eficácia, que

HH

individual,

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exatamente por resguardar a paz e a segurança jurídica nas relações sociais,

evitando a perpetuação dos litígios com a consagração da definitividade das sentenças.

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Nesse particular, a Corte ofenderia uma garantia constitucional por possibilitar sua atuação,

mesmo em questões previamente decididas.

Ocorre que o ordenamento brasileiro, ao assegurar o status de coisa julgada das

decisões judiciais, em princípio, não a coloca como absoluta, uma vez que permite meio

impugnativo próprio tendente a desconstituí-la. E certo que esse meio, denominado ação

rescisória, é restrito aos casos taxativamente previstos pela legislação e só poderá ser

manejado dentro do prazo decadencial estipulado,

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que, se decorrido, impera a coisa

soberanamente julgada. Mas, ainda assim, para alguns doutrinadores, seria possível relativizar

a coisa julgada, uma vez que a busca pela segurança jurídica não pode suplantar princípios

expressos na Lei Maior,

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como a prevalência dos direitos humanos, princípio gualmente

norteador do Tribunal Penal Internacional. E como o Direito Internacional objetiva alcançar

um julgamento equânime, justo e imparcial, bem como uma punição efetiva, a qualidade da

coisa julgada não abrange decisões obtidas em virtude de simulação ou fraude à lei. Aceitá-las

importaria em uma flagrante violação ao cerne central do sistema constitucional: os

princípios. É por esse motivo que se autoriza o processo internacional movido pelo

Tribunal.

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181 Art. 5º, XXXVI, da Constituição: “A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada”.

182 André de Carvalho Ramos lembra, em seu artigo, que a coisa julgada (princípio do no bis in idem) pode

ser arguida por meio de exceção, nos termos do art. 95, V, do Código de Processo Penal Brasileiro. RAMOS, André de Carvalho. O Estatuto do Tribunal Penal Internacional e a Constituição brasileira. In: CHOUKR, Fauzi Hassan; AMBOS, Kai (Org.). Tribunal Penal Internacional. São Paulo: RT, 2000, p. 275.

183 A Ação Rescisória tem seu procedimento estabelecido no Capítulo IV (arts. 485 a 495) do Código de

Processo Civil brasileiro.

184 Algumas posições quanto à matéria: Cândido Rangel Dinamarco dita que “o valor da segurança das

relações jurídicas não é absoluto no sistema, nem o é, portanto, a garantia da coisa julgada, porque ambos devem conviver com outro valor de primeiríssima grandeza, que é o da justiça das decisões judiciais, constitucionalmente prometido mediante a garantia do acesso à justiça”. Para isso, cita os princípios da razoabilidade, proporcionalidade e da dignidade da pessoa humana como implicantes no resultado do processo. DINAMARCO, Cândido Rangel. Relativizar a coisa julgada material. Revista da Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, São Paulo, n. 55/56, p. 29-77, 1999. Fabrício dos Reis Brandão admite a relativização da coisa julgada quando a sentença infringir normas ou princípios constitucionais, ou mesmo quando não aplicá-los. BRANDÃO, Fabrício dos Reis. Coisa julgada. São Paulo: MP Editora, 2005. Para Tereza Arruda Alvim Wambier e José Miguel Garcia Medina “'a relativização da coisa julgada se faz necessária para evitar a estabilização de situações indesejáveis, imposta por decisões definitivas do judiciário ao caso concreto”. WAMBIER, Tereza Arruda Alvim; MEDINA, José Miguel Garcia. O dogma da coisa julgada: hipóteses de relativização. São Paulo: RT, 2003. In: BRANDÃO, Fabrício dos Reis. Coisa julgada, p. 80. Para Humberto Theodoro Júnior: “O Poder Judiciário é o defensor máximo dos direitos e garantias assegurados no ordenamento jurídico e, por conseguinte, na própria Constituição”, nessa perspectiva, a sentença contrária à Constituição seria inadmissível. THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. 43. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005.

185 RAMOS, André de Carvalho. O Estatuto do Tribunal Penal Internacional e a Constituição brasileira, p. 276.

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Outro ponto que merece ser colocado é o fato de o Estatuto permitir, em seu art.

17, ao Tribunal analisar as condições de admissibilidade do processo, determinando se há ou

não capacidade ou vontade do Estado competente em proceder ao inquérito ou ao julgamento.

O receio gerado por essa disposição era de se estabelecer um Tribunal de Apelação que

pudesse interferir nas questões já deliberadas pelo Judiciário nacional. Sem razão. Não existe

hierarquia entre os tribunais estatais e o Tribunal Internacional. O que se tem é uma relação de

cooperação, uma vez que os Estados, deliberadamente, anuem com a implementação de uma

jurisdição internacional permanente e a ela submetam-se.

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Daí o caráter universal da

instituição, pois derivado do consentimento dos Estados em adotar regras supranacionais.

É possível, portanto, verificar que o Tribunal Penal Internacional representa

valores compartidos por toda a sociedade internacional e eleitos como primordiais para a

segurança, paz e bem-estar da humanidade. Cumpre, ainda, sublinhar que a Carta Política

brasileira endossa a criação de um Tribunal Internacional de Direitos Humanos. Além disso, é

de costume do direito interno destacar o Direito Internacional como garantia de justiça. Por

isso, as regras constitucionais devem se compatibilizar à sistemática criada pelo Estatuto de

Roma, assegurando tanto a adaptação de medidas internas quanto o reforço da colaboração

internacional.

Feitas essas explanações, considerar-se-á os principais aspectos da determinação

das penas no Estatuto do Tribunal Penal Internacional.

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