4. DESVELANDO AS NARRATIVAS RADIOFÔNICAS
4.4 ANÁLISE DAS NARRATIVAS
4.4.1. Narrativa 1: Instabilidade climática
4.4.1.1 A composição da intriga, episódios e conflitos
Apesar de concentrarmos nossa análise na narrativa configurada no Gaúcha Atualidade do dia 14 de julho, é importante ampliarmos nosso olhar para os dias anteriores, posto que as questões climáticas foram pauta dos principais programas jornalísticos da Rádio Gaúcha ao longo de toda aquela semana. Dessa forma, torna-se possível compreendermos o contexto do qual a narrativa foi extraída.
Desde o fim de semana, nos dias 9 e 10 de julho, um sistema de instabilidade estava instalado sobre o Rio Grande do Sul provocando chuvas, temporais e queda de granizo em diferentes regiões. Na madrugada de segunda-feira, 11 de julho, as chuvas fortes e o granizo danificaram mais de 2,3 mil residências, em municípios das Regiões Metropolitana e Noroeste.
Com a continuidade da chuva e a previsão de novas precipitações ao longo da semana, na terça-feira, dia 12 de julho, a elevação no nível dos rios tornou-se o principal foco de atenção das autoridades e da mídia. No município de São Sebastião do Caí, distante 60
quilômetros de Porto Alegre, o nível do Rio Caí subiu quase 11 metros, provocando alagamentos.
No dia seguinte, 13 de julho, a previsão dos meteorologistas mantinha a população em alerta, enquanto órgãos, como a Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Prefeituras, davam suporte aos moradores que tiveram suas casas danificadas pelo granizo do fim de semana. Na noite de quarta-feira, contudo, as pedras de gelo voltaram a provocar estragos. Não-Me- Toque, na Região Noroeste, foi um dos municípios mais atingidos. O temporal com chuva, ventos fortes e novamente granizo, destelhou casas e deixou ruas cobertas com grossas camadas de gelo.
Diante dos estragos provocados por mais um temporal e da previsão do tempo indicando novas precipitações, o programa Gaúcha Atualidade deu destaque ao assunto em sua edição de quinta-feira, 14 de julho. “Estragos”, “noite assustadora” e “chance de retorno dos temporais” foram algumas das expressões utilizadas pelo âncora Daniel Scola na abertura do programa, ao introduzir a principal pauta do dia. A narrativa sobre a instabilidade climática no Estado ao longo do Gaúcha Atualidade, foi construída por meio de 27 sequências narrativas, que ocuparam 25 minutos e 3 segundos do programa, e foram classificadas conforme mostra a Tabela 1.
Tabela 1 – Narrativa 1: Classificação das Sequências Narrativas
Categoria Quantidade de SNs Tempo
Participação do ouvinte 11 7’42s Manchete 4 43s Teaser 3 27s Comentário 3 1’46s Previsão do Tempo 2 7’42s Entrevista 2 5’37s Abertura/Encerramento do programa 2 1’06s Total 27 25’03s
Fonte: Elaboração da autora.
A intriga central desta narrativa é a instabilidade climática. Podemos perceber, porém, duas diferentes abordagens para a temática, que compreendemos como episódios: o relato sobre a queda de granizo, ocorrida durante a madrugada, e a cobertura em tempo real do temporal que se aproximava de diferentes regiões do Estado. Ambos os episódios são mesclados ao longo de toda a narrativa e nenhum deles chega a ser, de fato, encerrado. A
narrativa foi construída de modo linear, ou seja, não houve significativos pontos de virada ou momentos de clímax. Por outro lado, identificamos quatro conflitos secundários:
Conflito secundário 1: Os estragos em Não-Me-Toque, cidade mais atingida pelas intempéries.
Conflito secundário 2: A previsão de mais instabilidade e novos temporais para o Rio Grande do Sul.
Conflito secundário 3: Condições de trafegabilidade nas estradas, agravadas pelas chuvas.
Conflito secundário 4: Estragos provocados pelos temporais nas lavouras.
Compreendemos estas temáticas como conflitos secundários, pois são abordagens que decorrem da intriga central, gerando um breve desvio temático, sem, contudo, fecharem-se em si.
Sob o ponto de vista jornalístico, a cobertura concentrou-se em descrever e mapear as ocorrências de tempestades e granizo, tendo como principal valor-notícia o caráter sensacional do fenômeno, considerando o volume e o tamanho das pedras de gelo que caíram em determinadas regiões – o projeto dramático adotado para esta narrativa baseou-se, fundamentalmente, nestes fatores. As consequências dos temporais, o impacto na economia e as medidas tomadas pelas autoridades para contornar os estragos, também são abordadas, porém com menor ênfase.
De modo sintético, o ordenamento da narrativa se dá da seguinte forma:
Abertura Participação dos ouvintes Previsão do tempo Entrevista com Prefeita de Não-Me-Toque (Conflito secundário 1) Participação dos ouvintes Entrevista com coordenador da Defesa Civil Participação dos ouvintes Previsão do Tempo Encerramento
Como podemos observar, a participação dos ouvintes teve um papel fundamental na estruturação da narrativa. Em contrapartida, não registramos SNs de Reportagem. As mensagens enviadas pela audiência e selecionadas para compor a narrativa, neste caso, tinham caráter informativo: tratavam-se de relatos, muitos deles acompanhados de fotografias (que foram descritas pelos apresentadores), vindos de diferentes regiões e que colaboraram significativamente com a cobertura realizada pela rádio, substituindo, inclusive, a ação da reportagem móvel. O tempo dispensado aos ouvintes (7’42s), equivalente ao espaço ocupado
pela Previsão do Tempo e superior ao das Entrevistas (5’37s), reforça a importância que a participação da audiência teve nesta cobertura.
É importante observarmos que esta é uma narrativa sobre um acontecimento disperso geograficamente, ou seja, que atingiu diversas regiões do Rio Grande do Sul, muitas delas fora da área de alcance da emissora. Dessa forma, a ação da reportagem revelou-se limitada: não era viável à rádio, principalmente do ponto de vista econômico, deslocar um repórter até Não-Me-Toque, por exemplo, distante mais de 280 quilômetros de Porto Alegre, para checar
in loco os efeitos da chuva de granizo. Em seu lugar, a rádio explorou a interação com seus
ouvintes (em outras narrativas que analisamos, Rosane de Oliveira chega a se referir aos ouvintes como “repórteres amadores”). Ao contar com a colaboração da audiência, enviando informações desde suas localidades, a rádio pode construir uma narrativa mais completa, ampliando seu raio de cobertura para além do alcance da antena.
Ainda sobre a estrutura da narrativa, as duas entrevistas e as duas participações do meteorologista Cléo Kuhn, responsável pela Previsão do Tempo, também tiveram um caráter estruturante, funcionando como pontos de ancoragem. Enquanto as participações dos ouvintes subsidiaram os apresentadores no mapeamento dos estragos e das ocorrências de novos temporais, a Previsão do Tempo e as Entrevistas aprofundaram o debate.
Já os outros tipos de sequências narrativas identificadas – Teasers, Manchetes e Comentários – funcionaram como elementos de coesão. Como vimos no Capítulo 3, as narrativas jornalísticas radiofônicas caracterizam-se pela fragmentação. O Gaúcha Atualidade de 14 de julho, ao abordar, além das intempéries, também outras três grandes pautas (novo presidente da Câmara dos Deputados, greves no Detran e na Receita Federal e regulamentação de aplicativos), é um exemplo disso. As narrativas sobre as quatro pautas predominantes não foram apresentadas em blocos, mas fragmentadas ao longo do programa. Nesse sentido, teasers, manchetes e comentários auxiliaram na conexão entre as sequências narrativas dispersas ao longo do programa, situando e contextualizando o ouvinte.