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4. DESVELANDO AS NARRATIVAS RADIOFÔNICAS

4.3 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE: MOVIMENTOS E CATEGORIAS

Retomando a discussão iniciada no Capítulo 2 acerca dos procedimentos metodológicos da pesquisa, detalhamos, neste subtópico, nossos movimentos e operadores analíticos. Tomando como ponto de partida a Análise Crítica da Narrativa, com base em Motta (2013b), reconstruímos o método de acordo com as especificidades do nosso objeto e nossos objetivos de pesquisa. Assim, realizamos, em nossa análise das narrativas selecionadas, quatros movimentos principais.

O primeiro movimento consistiu na reconstrução da narrativa. Nesta etapa buscamos identificar e registrar todos os trechos do programa analisado que abordavam a temática central, ou seja, relacionados à intriga da narrativa. Cada um destes trechos foi denominado de Sequência Narrativa (SN), equivalendo ao que Motta (2013b), fundamentando-se nas Análises Estruturais da Narrativa, denominou de Sequências-Tipo. Cada SN foi cronometrada e classificada em categorias construídas a partir do referencial teórico sobre linguagem radiofônica. A fim de facilitar a posterior mensuração do tempo destinado às diferentes SNs, cada uma delas foi classificada em apenas uma categoria, considerando-se, para isso, o tipo de conteúdo prevalente. As categorias empregadas nesta etapa estão descritas no Quadro 1 a seguir:

Quadro 1 – Categorias para classificação das Sequências Narrativas (SNs)

Categoria Definição

Abertura/Encerramento do programa Locução de abertura ou encerramento do

programa, em que os apresentadores saúdam ou despedem-se dos ouvintes, destacando, de modo breve, as pautas que serão ou foram abordadas no programa.

Comentário Participação de comentaristas fixos do

programa ou blocos opinativos

protagonizados pelos próprios apresentadores.

Entrevista Entrevistas conduzidas pelos apresentadores

do programa, de modo presencial ou via telefone.

Manchete Frase sintética, geralmente contendo verbo de

ação, que introduz reportagem, geralmente veiculada no início do programa.

Participação do ouvinte Registros da participação dos ouvintes, com

leitura das mensagens enviadas pela audiência.

Previsão do Tempo Participação do meteorologista Cléo Kuhn,

colaborador fixo do programa.

Reportagem Atuação da equipe de reportagem da rádio,

com entradas ao vivo.

Teaser Breve chamada ou atualização de notícia que será abordada em seguida na programação, geralmente veiculada no encerramento de blocos.

Fonte: Elaboração da autora.

O segundo movimento de análise buscou compreender o paradigma narrativo. Seguindo as orientações de Motta (2013b), nesta etapa delimitamos a intriga central da narrativa e o projeto dramático adotado pelos narradores. Aqui também identificamos episódios, pontos de virada e conflitos secundários.

A identificação das personagens foi o foco do terceiro movimento, quando analisamos as vozes que compõem a narrativa, classificando-as em primeiro, segundo e terceiro-narradores, a partir de Genette (1998) e Motta (2013b). Registramos a quem pertencem as vozes da narrativa, qual o tempo destinado a cada uma delas, como são identificadas e de que modo sua enunciação é inserida na narrativa.

Por fim, o quarto e último movimento consistiu na identificação dos critérios de

Narrativas Participativas.52 Em cada SN, então, isolamos e quantificamos as mensagens e o número de ouvintes-enunciadores mencionados, registramos o modo de enunciação dos ouvintes e a forma como estes foram identificados.

Ainda nesta etapa, identificamos, em cada SN participativa, os diferentes critérios responsáveis por influenciar os jornalistas no processo de convocação dos ouvintes como personagens da narrativa.53 Em nossas análises preliminares observamos a variação destes critérios, ora pendendo para o conteúdo da mensagem, ora associando as características do sujeito enunciador. Desta forma, elaboramos três categorias de análise, tomando como referência as reflexões de Charaudeau (2013):54 os atributos dos ouvintes-enunciadores, os atributos das mensagens e os efeitos valorativos gerados pela associação entre ambos os atributos.

Para a análise dos atributos dos ouvintes-enunciadores, nos fundamentamos nas características do sujeito informador. Segundo Charaudeau (2013),

o crédito que se pode dar a uma informação depende tanto da posição social do informador, do papel que ele desempenha na situação de troca, de sua

representatividade para com o grupo de que é porta-voz, quanto do grau de engajamento que manifesta com relação à informação transmitida (p. 52).

Com base nas reflexões do autor, tomamos como referência os quatro diferentes status dos sujeitos informadores: notoriedade, testemunha, plural e organismo especializado (CHARAUDEAU, 2013, p. 53). A estes, acrescentamos dois outros atributos emanados da análise do próprio objeto: a localização geográfica, que reconhece o lugar desde onde falam os ouvintes-enunciadores como fator de distinção em determinadas narrativas, e o reconhecimento do sujeito comum que, destituído dos demais atributos, tem seu acionamento determinado essencialmente pelo conteúdo e o efeito provocado por sua mensagem.

52 Em razão da limitação metodológica de atribuição de uma única categoria à cada SN, algumas Sequências em

que identificamos intervenções dos ouvintes (quantitativamente menos relevantes que o restante do conteúdo da SN) foram classificadas em outras categorias que não a de Participação do Ouvinte. Estas SNs, contudo, foram consideradas dentro do corpus específico de análise, como veremos adiante.

53

É importante frisar que outras contribuições de ouvintes podem ter influenciado a configuração das narrativas. Sem serem mencionados pelos apresentadores, contudo, esses ouvintes não deixam marcas perceptíveis na narrativa veiculada e, em razão da metodologia adotada nesta pesquisa, não puderam ser considerados na análise.

54 Nesta etapa da pesquisa recorremos à via discursiva como forma de complementar nosso percurso

metodológico. À medida que os movimentos da Análise Crítica da Narrativa não se mostraram suficientes para que pudéssemos atingir nossos objetivos, encontramos nas sistematizações propostas por Charaudeau (2013) os conceitos necessários para a construção de nossas categorias de análise.

Quadro 2 – Atributos do ouvinte-enunciador

Atributo Definição

Ouvinte-enunciador tem notoriedade O ouvinte-enunciador é uma pessoa pública e/ou ocupa posição social distinta, o que torna sua fala digna de fé.

Ouvinte-enunciador é uma testemunha

O ouvinte-enunciador é uma pessoa comum que, aparentemente sem intencionalidades outras, apenas relata o que viu e ouviu. Sua fala tem o caráter de “prova de verdade”.

Ouvinte-enunciador é um sujeito- comum

Aplica-se às situações em que o ouvinte-enunciador é um homo quotidianus, conforme Charaudeau (2013), que não apresenta nenhum dos outros atributos. Diferencia-se da testemunha por

contribuir com a narrativa de outras formas que não pelo relato de suas experiências (com mensagens opinativas e elucidativas, por exemplo).

Ouvinte-enunciador representa uma coletividade55

Representa um coletivo de ouvintes, sendo identificado sempre de modo genérico e no plural. Aplica-se aos casos em que diferentes ouvintes- enunciadores expressam opiniões ou relatam fatos de modo semelhante. A saturação de uma mesma informação ou ponto de vista, pela repetição das mensagens, atribui-lhes efeitos de verdade e consenso.

Ouvinte-enunciador detém um saber especializado

O ouvinte-enunciador é reconhecido por possuir algum tipo de conhecimento especializado em relação ao fato narrado, seja por titulação acadêmica ou exercício profissional. Ouvinte-enunciador encontra-se bem

localizado

O ouvinte-enunciador encontra-se em localização geográfica privilegiada em relação ao fato narrado.

Fonte: Elaboração da autora, com base em Charaudeau (2013, p. 52-53).

Seguimos com Charaudeau (2013) para a construção dos operadores de análise dos

atributos da mensagem. Aqui, tomamos como ponto de partida a discussão do autor acerca

das provas de verdade de uma informação: Autenticidade, Verossimilhança e Explicação.56 Considerando que o conteúdo das mensagens enviadas pelos ouvintes e incorporadas às narrativas não são apenas informativas, mas também opinativas e interpretativas, acrescentamos às provas de verdade indicadas pelo autor atributos outros, novamente advindos da própria análise. Desta forma, consideramos também: a atualidade das mensagens, destacando os relatos fatuais enviados de modo simultâneo às ocorrências

55 Nesta categoria, preferimos substituir o termo “plural”, originalmente empregado por Charaudeau (2013), por

“coletividade”, a fim de evitar possíveis conflitos conceituais.

56 A fim de adequar o referencial teórico a nosso objeto, optamos por utilizar os termos Reconstituição e

narradas; a avaliação, que abarca as contribuições de cunho opinativo; e o relacionamento, atributo presente em mensagens por meio das quais o ouvinte busca estabelecer um vínculo pessoal com a emissora.

Quadro 3 – Atributos da mensagem

Atributo Definição

Atualidade Relato factual que contribui para as narrativas configuradas de forma simultânea ou imediata à ocorrência dos acontecimentos. Presente na narrativa em mensagens de cunho informativo, distingue-se dos demais atributos pela proximidade temporal entre o envio da mensagem e o fato narrado.

Autenticidade A mensagem, geralmente de cunho informativo, contém provas concretas de verdade, atestando a autenticidade do dito relatado. Na narrativa, pode se manifestar por meio do envio de vídeos, fotografias ou mensagens de áudio.

Avaliação De caráter opinativo, este atributo está presente em mensagens que

contenham a expressão de pontos de vista ou juízos de valor acerca do fato narrado. Na narrativa, surge em mensagens com críticas, opiniões, elogios e também em determinadas perguntas, dirigidas tanto à emissora e seus profissionais quanto a outros narradores, em que o posicionamento do ouvinte-enunciador seja perceptível.

Elucidação Baseada em saberes especializados, a mensagem explica ou

interpreta o fato narrado, trazendo elementos relacionados às causas, consequências, finalidades ou intenções. É observado em mensagens explicativas ou que contenham correções.

Reconstituição Relato de cunho informativo que auxilia na construção discursiva do fato narrado. Diferencia-se da autenticidade por não conter recursos audiovisuais que comprovem sua veracidade. Aparece, na narrativa, em mensagens que contenham relatos e testemunhos. Relacionamento Mensagem por meio da qual o ouvinte busca estabelecer um

diálogo com a emissora e seus profissionais, evocando o caráter “companheiro” e interativo do rádio. Manifesta-se em mensagens que contenham interpelações, apelos ou simples registros de audiência.

Fonte: Elaboração da autora, com base em Charaudeau (2013, p. 55-56).

Por fim, a análise cruzada dos atributos do ouvinte-enunciador e da mensagem, nos levaram a identificar os efeitos valorativos atrelados às mensagem. Estes efeitos incidem sobre o jornalista durante o processo produtivo da narração, ou seja, influenciam no acionamento e no modo de inserção das mensagens e dos ouvintes na narrativa.

Para a definição destes operadores, novamente recorremos a Charaudeau (2013). Apropriamo-nos dos quatro valores indicados pelo autor como fatores que incidem sobre o processo de seleção dos ditos relatados. Cabe esclarecermos que, alinhados a Amaral (2015),

optamos por utilizar a designação Efeito de Descrição e Veracidade em substituição à Efeito de Testemunho, haja vista que o termo original foi empregado, a nosso ver, de modo mais adequado, como um dos possíveis atributos do ouvinte-enunciador (Quadro 2). Aos efeitos propostos por Charaudeau (2013), também aqui acrescentamos uma quinta categoria, que denominamos Efeito de Interação.

Quadro 4 – Efeito valorativo das mensagens

Efeito Definição

Efeito de Decisão É provocado quando a mensagem provém de um ouvinte-

enunciador que tem o poder de decisão, geralmente uma pessoa pública ou detentora de certa autoridade. A declaração tem caráter de ação (pelo viés da Pragmática, podemos afirmar que se trata de uma mensagem performativa).

Efeito de Saber Emana de mensagem remetida por ouvinte-enunciador detentor de

determinado saber especializado. A fala tem caráter explicativo ou elucidativo.

Efeito de Opinião Gerado por mensagens em que o ouvinte-enunciador, seja ele um sujeito com notoriedade, uma pessoa comum ou mesmo anônimo, emite um julgamento ou exprime seu posicionamento ou ponto de vista em relação ao fato narrado.

Efeito de Descrição e Veracidade

Equivalente ao Efeito de Testemunho, é produzido, geralmente, por mensagens enviadas por pessoas comuns, contendo relatos ou descrições de caráter informativo sobre um determinado fato, baseados na experiência do sujeito interagente, naquilo que este viu ou ouviu.

Efeito de Interação É percebido em mensagens de caráter relacional, quando o ouvinte-enunciador, seja ele pessoa notória ou sujeito comum, busca tão somente estabelecer um diálogo com a emissora ou seus

profissionais, sem demonstrar nenhum outro tipo de

intencionalidade (não deseja informar, relatar, opinar ou criticar, por exemplo).

Fonte: Elaboração da autora, com base em Charaudeau (2013, p. 169).

Neste quarto e último movimento de análise, permitimos a identificação de mais de um atributo em cada SN participativa. Os efeitos valorativos, em contrapartida, por resultarem do cruzamento entre os atributos do ouvinte-enunciador e da mensagem, tiveram uma única associação permitida.