Após a derrota na emenda constitucional que convocava o Congresso Constituinte, grande parte dos ativistas que haviam participavam dos Plenários Pró- Participação Popular e do Movimento Nacional pela Constituinte passou a se dedicar às campanhas de candidatos progressistas em 1986. Outra parte dos ativistas optou por se dedicar à elaboração das “Propostas do Povo para o Brasil” – documento entregue aos candidatos a deputado e senadores, que propunha o apoio dos movimentos àqueles que aderissem a uma plataforma mínima de 53 propostas, muitas das quais relativas à participação popular111.
Este conjunto de “propostas populares” foi o fruto de um longo processo de debate coletivo cujo ápice aconteceu em 7 de setembro de 1986, no intitulado “1º Dia Nacional Constituinte. Os inúmeros comícios, assembleias e festas, organizados em várias cidades, recolheram os resultados das discussões acerca da futura Constituição. Somente em São Paulo, três mil pessoas se reuniram em um comício na Praça da Sé que contou com a presença de lideranças dos movimentos sociais, políticos e candidatos constituintes.
Outra iniciativa relevante para estimular a participação da sociedade veio não dos movimentos sociais, mas sim do próprio Senado, mostrando que a interação entre as duas esferas podia, por vezes, ser de mão dupla. Em 1986, o Senado distribuiu milhões de formulários às agências de correio de todo o Brasil com o objetivo de convidar a sociedade a enviar sugestões para a Assembleia Nacional Constituinte que começaria a funcionar no ano seguinte. A resposta não tardou, 72.719 formulários foram preenchidos e passaram a integrar o banco de dados do Senado112.
111
Entre 24 e 26 de maio de 1986, 150 ativistas de 10 Estados se reuniram (muitos enquanto representantes de outros movimentos) no Rio de Janeiro e criaram o projeto “O povo discute o Brasil”. (Cf. Michiles, opus cit, p. 49).
112
SAIC – Sugestões da População para a Assembleia Nacional Constituinte de 1988. (Cf. MONCLAIRE, Stéphane (coord.). A Constituição Desejada: SAIC: as 72.719 sugestões enviadas pelos cidadãos brasileiros à Assembleia Nacional Constituinte. Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1991. Assim como PAULA, Renata de. Cartas ao País dos Sonhos. Documentário. Brasília: TV Senado, 2007).
Entretanto, a correlação de forças entre os deputados constituintes que saiu das urnas não oferecia grandes perspectivas ao movimentos e sindicatos. De fato, diversas pesquisas demonstraram o perfil centrista que saiu das urnas em 1986113. O Prof. David Fleischer (UnB) realizou uma pesquisa sobre os constituintes, publicada inicialmente em um Boletim do CEAC (Centro de Estudos e Acompanhamento da Constituinte) da Universidade de Brasília e exposta também no livreto do Movimento de Participação Popular na Constituinte, Participação Popular: como chegar lá?, na qual analisou a biografia dos constituintes:
a) Entre os 559 constituintes, 274 (49%) eram estreantes nos trabalhos legislativos federais.
b) O perfil econômico dos constituintes apontou que 37,7% deles recebem a maior parte de sua renda de investimentos e propriedades. O setor comercial é o mais bem representado (21,6%), depois o setor ligado à agricultura (16,34%), onde 91 parlamentares são proprietários. Entre os constituintes, 12,9% são funcionários públicos. O capital, tanto agrário quanto urbano é reconhecidamente representado em cerca de 45% dos constituintes.
c) Politicamente, dos 559 constituintes, 217 (38,82%) tiveram passagem pela extinta ARENA (Aliança Renovadora Nacional).”114
Em seu livro Quem é quem na Constituinte: uma análise sócio-política dos
partidos e deputados, Leôncio Martins Rodrigues traz diferentes pesquisas sobre o
perfil dos parlamentares. A do Prof. David Fleischer chegou aos mesmos resultados de outra classificação efetuada pelo Departamento de Pesquisa da Folha de São Paulo, com a direita e a centro-direita com 36% dos deputados contra 32% da esquerda e centro-esquerda:
113
Para uma autoclassificação ideológica dos deputados, ver RODRIGUES, Leôncio Martins. Quem é Quem na Constituinte. [S.l.]: Oesp / Malterese, 1987. Para a visão dos militantes do Plenário Pró- Participação Popular na Constituinte, ver Michiles et al., opus cit., p. 50.
114
Movimento de Participação Popular na Constituinte. Participação Popular: como chegar lá?. Curitiba, nº 10, abril de 1987, p. 19. Fonte: Arquivo Nacional. Arquivos do Conselho de Segurança Nacional: Caixa 46D, p. 340.
Tabela 3 - Tendências e/ou Perfil Ideológico dos Constituintes de 1987/88 – Folha de São Paulo e D. Fleischer 115
Tendência/Perfil
Classificação da Folha de S. Paulo e classificação de D. Fleischer Esquerda 9% Centro Esquerda 23% Centro 32% Centro-Direita 24% Direita 12%
Já a classificação de Said Farhat separou os deputados entre esquerda, centro e direita, focalizando a ampla maioria (quase 60%) dos deputados de centro e, desta vez, com uma pequena vantagem da esquerda sobre a direita:
Tabela 4 - Tendências e/ou Perfil Ideológico dos Constituintes de 1987/88 – Said Farhat 116
Tendência/Perfil Classificação de Said Farhat
Esquerda 22%
Centro 59%
Direita 19%
Em uma autoclassificação dos constituintes, os parlamentares se afastaram dos extremos (direita e esquerda radical, nos termos da pesquisa) e a maioria (52%) se classificou como esquerda moderada ou centro-esquerda:
Tabela 5 - Tendências e/ou Perfil Ideológico dos Constituintes de 1987/88 – Autodefinição Política dos Deputados 117
Tendência/Perfil
Autodefinição política dos deputados (parcial – 428 constituintes)
Esquerda radical 5%
Esquerda moderada ou
Centro Esquerda 52%
Centro 37%
Direita moderada ou Centro-
Direita 6%
Direita radical 0%
115
RODRIGUES, Leôncio Martins. Quem é Quem na Constituinte. São Paulo: Oesp / Malterese, 1987, p. 98.
116
Idem, ibidem, p. 98.
117
Em suma, o que há de comum entre todas essas pesquisas é o predomínio do centro e a fuga dos extremos, especialmente quando a pesquisa é autoclassificatória. Esta última pesquisa aponta também para o clima político brasileiro, no qual (ao menos naquela época) a classificação de “direita” era considerada pejorativa.
Apesar da sua diversidade interna, o peso do PMDB era central: além dos 22 governadores, seus 260 deputados e 42 senadores representavam a maioria (54%) dos constituintes. Já o PFL, segunda maior força no Congresso, reuniu 24,15% dos constituintes.
Tabela 6 - Situação dos Partidos no Congresso
Partidos PMDB PFL PDS PDT PTB PT PL PDC PCB PCdoB PSB PSC PMB TOTAL
Congresso 302 135 40 25 18 16 7 6 3 3 2 1 1 559
Fonte: 1ª Subchefia da Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional. Análise do Rompimento do PFL com o Governo e sua Base de Sustentação Política. Memória Nº 050/1ª SC/87, 25 de Setembro de 1987, p. 2.
A participação dos senadores eleitos em 1982 (incluindo os biônicos) foi questionada na segunda sessão da Constituinte pelo o deputado Plínio de Arruda Sampaio (PT-SP): “Convocada apenas no ano de 1985, não pode a Constituinte contar com a participação de membros que não receberam delegação expressa do povo para elaborar a nova Constituição do Brasil. A participação dos senadores eleitos em 1982 constitui afronta brutal ao princípio da legítima representatividade constituinte (...)”118. O então presidente provisório da Constituinte, José Carlos Moreira Alves (presidente do Supremo Tribunal Federal), decidiu de forma contrária à questão de ordem do deputado petista (mantendo, portanto, a participação dos senadores citados).
Fábio Lucena (PMDB-GO), um dos senadores eleitos em 1982, defendeu a participação dos seus pares, afirmando que “Colocar fora da Constituinte os senadores eleitos em 1982 será colocar fora da Constituinte a Constituição que convocou a própria Constituinte119. Nelson Jobim, então deputado pelo PMDB do Rio Grande do Sul, também defendeu anos mais tarde o entendimento do então presidente do STF, isto por que o texto da emenda convocatória da ANC (nº26/85) afirmava que os
118
Anais da Assembleia Nacional Constituinte. Brasília, Senado Federal, 1994, p. 10 – sessão de 02/02/87. Apud LOPES, Júlio Aurélio Vianna. A Carta da Democracia: o processo constituinte da ordem pública de 1988. Rio de Janeiro: Topbooks, 2008, p. 27.
119
deputados e senadores se reuniram em 1987; assim, “Os senadores eleitos em 1982 eram Senadores de 1987, portanto, integrariam a Assembleia Constituinte”120.
Após recurso à decisão de José Carlos Moreira Alves, a Assembleia Nacional Constituinte realizou a sua primeira votação, optando – por 394 favoráveis contra 124 contrários e 17 abstenções – por manter os senadores de 1982. Logo em seguida, o deputado Ulysses Guimarães (PMDB-SP) foi eleito presidente da ANC com 425 votos; Lysâneas Maciel (PDT-RJ) obteve 69 votos e 28 parlamentares votarem em branco. A ampla votação na figura daquele que, além de presidente da ANC, também seria simultaneamente presidente da Câmara dos Deputados e presidente do Diretório Nacional do PMDB, mostrou logo no início a força de Ulysses Guimarães, único capaz de unificar o PMDB e ser um contrapeso ao então presidente da República, José Sarney.
O cenário, para os movimentos sociais com agendas mais progressivas era desanimador, mas o poder do PMDB e do centro abria a perspectiva de negociações. O investimento de alguns movimentos na defesa de mecanismos de participação direta já no processo constituinte alterou de forma substantiva a correlação de forças e a estrutura de oportunidades políticas, a começar por inserir na mesa de negociações um conjunto de atores extraparlamentares.
120
Cf. JOBIM, Nelson de Azevedo. A constituinte vista por dentro – vicissitudes, superação e efetividade de uma história real. In: SAMPAIO, José Adércio Leite (org.) 15 anos de Constituição: história e vicissitudes. Belo Horizonte; Del Rey, 2004, p. 10. Apud CARDOSO, Rodrigo Mendes. A iniciativa popular legislativa da Assembleia Nacional Constituinte ao regime da Constituição de 1988: um balanço. 2010. Dissertação (Mestrado em Direito). Departamento de Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, p. 48.