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A compreensão das professoras sobre a Prova Brasil

3 A PROVA BRASIL NO CONTEXTO ESCOLAR

3.4 A compreensão das professoras sobre a Prova Brasil

Durante a entrevista, quando questionadas sobre o que pensavam sobre a Prova Brasil, as professoras responderam que:

Eu caracterizo em duas colunas. O que tem de bom e o que poderia ser melhorado. É bom saber, é um indicador, precisa ter um indicador [9] Tem a necessidade porque eu percebo que os conteúdos eles não tem um monitoramento. Essa planilha que existe é X. Aquele que escreve, escreve o que? Aquele que lê, lê o quê? Quanto? Fluente? Soquinho? Complexa? Simples?[9] E porque não tem planilha de história, geografia e ciências? Não é importante saber onde se está?[9] Não é importante saber de onde você veio e pra onde vai? Importante é você saber ler, escrever e fazer conta?[9] Então eu acho que a Prova Brasil é um indicador da área de português e matemática [9] ela não deixa ninguém pensar. (Professora 1) Ela vem dizer que a educação tá uma vergonha, sinceramente. Eu falei no conselho, quando dizem pra nós que somos professores que antigamente se aprendia o que a gente entende disso? Entende que os professores não ensinam. Não é verdade? O que eu falei que eu não concordo com essa aprovação que eles tão fazendo. Entra a criança na primeira série, não aprende a ler, passa para a segunda, vai para a 3ª, não sabe ler, chega ao 5º ano a criança repete aí no ano seguinte ela não pode repetir mais e nós continuamos jogando essas crianças para o ensino médio, pro fundamental. Eu não concordo. Ainda falei pra diretora porque eu vou ter que passar essas crianças que não são alfabetizadas pra um 6º ano? Está na hora de se acordar no Brasil. (Professora 2)

Para acrescentar não vejo uma coisa assim tão9, chega a atrapalhar um pouco o trabalho porque a criança tem muita dificuldade nesse negócio de gabarito. Então quando a gente mais rala é agora em agosto pra dar conta da Prova Brasil. Mas as habilidades tão dentro também. Eu acho pros alunos depois pra fazer um vestibular é bom. (Professora 3)

Francamente falando, como tudo que as pessoas colocam, ela9 ela9 deixa eu ver como que eu posso colocar, eu não gosto desses métodos de aferição da maneira como eles são colocados porque da maneira como é colocado é muito superficial, não contempla as realidades de uma avaliação. Aí você tem que fazer treinamentos que eu sou contra. [9] Eu acredito que é mais um instrumento de aferição pra colocar uma nuvem nos olhos das pessoas. (Professora 4)

Podemos perceber que as professoras têm consciência do que é a Prova Brasil no que se refere a ser apenas um indicador de algumas habilidades dos alunos, com exceção da Professora 2, que se mostrou mais preocupada com a aprovação dos alunos sem terem as habilidades mínimas de leitura e escrita. É importante salientar que na Rede Municipal de educação de Jacareí não há progressão continuada. Mas a preocupação com a defasagem na aprendizagem também aparece nas falas das outras professoras.

“Eu tenho 27 alunos, 07 sabem ler e escrever e as quatro operações, olha lá.” (Professora 1)

“Aqueles que não estão com dificuldades em português e matemática entendem melhor. Os outros não conseguem resolver operações, alguns não sabem ler. E a gente sente que a maior dificuldade em resolver a Prova Brasil o que é? Eles não conseguem ler, aí não conseguem fazer nada.”

“Tem criança no 5° ano que não sabe ler e escrever, infelizmente.”

(Professora 3)

“A dificuldade que eu tenho é trabalhar o conteúdo de 5º ano nessa turma, porque os alunos estão chegando muito fracos.” (Professora 4)

Como um dos modos de obtenção do IDEB é o fluxo escolar, pode-se questionar se a passagem dos alunos pelas séries não estaria acontecendo de forma indiscriminada para que os índices não abaixem.

Os modelos de responsabilização adoptados tenderão também a condicionar as modalidades de avaliação que servirão para verificar os resultados dos sistemas educativos. Assim, por exemplo, a preparação que os alunos deverão efectuar, tendo em conta a exigência de uma comprovação bem sucedida das suas aquisições acadêmicas e do seu nível de conhecimentos, não significa, necessariamente, que essa preparação resulte numa aprendizagem real e efectiva. (AFONSO, 2005, p. 47)

Portanto, percebe-se que o Ideb não induz à equidade dentro de uma mesma escola e apesar de ser o indutor da comparação entre escolas e sistemas, as professoras entrevistadas não sabiam qual era o IDEB da escola pesquisada e que, naquele espaço educativo, não havia a divulgação dos resultados pela gestão, Secretaria de Educação do município ou pelos próprios professores.

Numa avaliação sistêmica, como a Prova Brasil, o protagonismo é do governo, que informa e constrói suas políticas, porém, as escolas devem interpretar os dados para assim se reorganizarem e construírem estratégias que façam sentido para sua comunidade.

Um dos objetivos da Prova Brasil, segundo o discurso oficial, é o de apontar os problemas da educação básica, para o direcionamento na formulação de políticas públicas educacionais e consequentemente para a melhoria do sistema público educacional brasileiro. Contudo, a realidade apresentada é de que os avanços esperados em termos da aprendizagem escolar encontram-se estagnados.

A Secretaria de Educação de Jacareí organizou encontros de formação para os professores de 5º ano sobre a Prova Brasil. Esses foram organizados em quatro encontros para Língua Portuguesa e sete encontros para Matemática. Segundo o Memorando (2013) enviado às escolas (ANEXO I) o objetivo desses encontros é

(...) oferecer subsídios aos professores para que reflitam sobre os descritores da Prova Brasil que apresentam maior complexidade, através do

conhecimento dos mesmos e da possibilidade da elaboração de situações didáticas que levem os alunos a desenvolverem as habilidades relacionadas ou consolidarem o domínio das mesmas (p. 67).

A equipe de formadoras se utilizam da palavra “reflitam” para dizer que é preciso que as professoras conheçam os descritores mais complexos para desenvolverem atividades referentes a estes descritores com seus alunos.

Analisando as Pautas das Reuniões (ANEXO II) percebe-se que a cada encontro um grupo de descritores era apresentado, fundamentados com atividades pedagógicas. A expressão “discussão reflexiva” aparece várias vezes nas pautas dos encontros mas, sempre relacionadas aos descritores que estavam postos naquele momento. Em momento algum nas pautas há a menção de uma reflexão sobre a Prova Brasil e seus aspectos sejam eles positivos ou negativos.

Sobre essas formações as professoras respondem que:

Não fui participar, eu faltei, mas as meninas estavam reclamando que o Barreto tá sonhando, ele tá fora da sala de aula assim como a Luciane. Eu acho que eles estão no papel deles, eles têm que pedir isso pra ver se conseguem isso e dentro da sala eu consigo isso, entendeu? Então a Luciane diz: Vamos fazer uma revisão de texto. A criança não sabe escrever. Eu tenho aluno na minha sala, chegou final de abril pra mim, e ele não conhece as vogais a, e i, o, u. Não sabe número. Então eles não tem noção da clientela que nós temos. (Professora 1)

Ainda não fui. (Professora 2)

Comecei agora. Já fui em 2 encontros de matemática e um de português na secretaria. Coisa que não tinha antes, agora é pra Prova Brasil que nós estamos estudando. A gente deixa de fazer um HA aqui por semana e vai na secretaria, eu e a outra professora pra ter a formação. Uma segunda de matemática e na outra língua portuguesa. O de matemática eu não gostei muito porque tinha muita informação que não dá pra dar pra criançada em relação à geometria principalmente. Eu que tenho problema sério com geometria porque eu fui muito mal ensinada e o que estão me ensinando eu não estou gostando porque não vou conseguir passar pra criançada. Então a gente vem com tarefa pra aplicar em sala de aula, depois a gente debate como foi. O legal é que elas tão aceitando nossa opinião. Porque de repente jogaram a geometria mas a criançada não sabe o que é 2x2 no 5º ano. Tem criança no 5º ano que não sabe ler e escrever, infelizmente a realidade é diferente. Na Prova Brasil e no Saresp, geralmente a gente faz um acordo, a gente não pode pedir pra faltar, mas também não precisa entrar na sala, porque daí não vai subir nunca, né, não sabe ler, não sabe escrever, não sabe nada. Aquele aluno não participa, fica em outra sala. (Professora 3) Começou agora uma formação na secretaria. Como ta começando é difícil dizer pra você o que eu acho. No ano passado não teve porque não teve Prova Brasil. Eu não gostei no sentido de como foi iniciado matemática. Eu acho que o conceito de formação da Prova Brasil, devia ser pensado lá atrás. Vamos formar os professores a partir do 1º ano de maneira bem suave, com foco na Prova Brasil, então eu trabalho aqui em 2013 com foco em 2015 a Prova Brasil, aí sim eu colho os resultados. De maneira como

você pegar junho começar uma formação pra novembro aplicar a prova. O primeiro momento da matemática não gostei. O último que teve achei bom, mas o tempo é curto pra se pensar daquela maneira a Prova Brasil. Não é o momento agora, devia ter se pensado lá atrás. (Professora 4)

Nota-se que as estratégias utilizadas não contrariam o que as professoras precisam para melhorar ou aperfeiçoar seu trabalho pedagógico, mas a preocupação com as Matrizes de Referência da Prova Brasil deixam em segundo plano questões urgentes a serem resolvidas como, por exemplo, a defasagem na aprendizagem dos alunos, que parece ser a grande aflição das professoras.

Outra questão que surge a esse respeito, segundo os depoimentos das professoras, é o fato de que em ano em que não há a realização da Prova Brasil, as professoras não recebem formação por parte da SME.

“Não tem. Porque o empenho, a solicitação, as orientações, as cobranças, eu acho que nenhuma escola quer dar um mal índice em nenhum tipo de avaliação. Eu acho que o que mais interessa é o que o aluno sabe, porque senão eles estariam promovendo a aprendizagem sempre e não só de ano em ano. Por quê então não tem uma preocupação maior desde fevereiro? Por quê nós recebemos professor de reforço só em junho? Por quê eu tenho 13 alunos para o reforço e só consegui colocar 3?” (Professora 1) “Não.” (Professora 2)

“Não.” (Professora 3) “Não.” (Professora 4)

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