CAPÍTULO II A COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E COTIDIANO
1. A comunicação como processo de pertencimento e a incomunicabilidade como
Comunicação é convivência; está na raiz de comunidade, agrupamento caracterizado por forte coesão, baseada no consenso espontâneo dos indivíduos. Consenso quer dizer acordo, consentimento, e essa acepção supõe a existência de um fator decisivo na comunicação humana: a compreensão que ela exige, para que se possam colocar, em ―comum‖ ideias, imagens e experiências (PENTEADO, 1976, P. 1).
O pequeno lavrador de Ribeirão Grande município do Estado de São Paulo, assim como a maioria dos pequenos lavradores vêm de origens humildes. Em sua maioria são oriundos de famílias com poucos recursos econômicos e financeiros, porém não por falta de esforço e trabalho. Sua produção e seu empenho é pouco reconhecido e valorizado, muitas vezes não obtém um retorno justo por sua lavoura. Quando não recupera os valores investidos coloca em risco o seu próprio sustento e da sua família. Além disso, nestas condições garantir a educação e a saúde dos filhos é uma de muitas dificuldades que encontra na sua rotina.
Nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa – IBGP - 80,7% da população rural possui na sua condição de vida um grau de dificuldade. Na tabela a seguir o grau de dificuldade foi definido em (6) escalas: muita dificuldade, dificuldade, alguma dificuldade, alguma facilidade, facilidade ou muita facilidade as (3) últimas escalas são 19,3% da população rural.
Os dados indicam a condição de como esse segmento chega ao fim do mês com o seu rendimento familiar. Os dados apresentados a seguir foram extraídos das tabelas que compõem o acervo da Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF - (anos 1987, 1995, 2002, 2008) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE - e representam uma amostra dos dados disponíveis.
Tabela 1 - Condição de Vida Características das
famílias Aquisição alimentar Condição de vida Despesa Rendimento Antropometria
Condição de vida
Distribuição das famílias - (%) - Brasil - 2008
Situação
Avaliação do grau de dificuldade para chegar ao fim do mês com o rendimento monetário familiar
TotaldificuldadeMuita DificuldadedificuldadeAlguma facilidadeAlguma FacilidadefacilidadeMuita
Total 100,0 17,9 21,4 35,9 14,3 9,5 1,0
Urbana 100,0 17,1 20,7 36,3 14,7 10,1 1,1
Rural 100,0 22,1 24,8 33,8 12,2 6,5 0,6
Nota: 1 - O termo família está sendo utilizado para indicar a unidade de investigação da pesquisa: Unidade de Consumo.
2 - As informações foram prestadas por um único membro indicado pela família. 3 - Na categoria Total não estão incluídas as famílias sem declaração do grau de dificuldade para chegar ao fim do mês.
Fonte: www.sidra.ibge.gov.br/bda/orcfam/default.asp?t=3&z=t&o=23&u1=1&u2=1&u3=1&u4=1&u5=1&u6=1. O trabalho no campo do pequeno lavrador e de sua família na história recente atual é marcado por muitas limitações. Essas dificuldades impossibilitam seu crescimento econômico e sua qualidade de vida. Nesta cadeia de circunstâncias que parecem imutáveis o pequeno lavrador, de um modo geral se viu e se vê sem perspectivas. Com um modelo econômico que pouco investe em pequenas propriedades e no qual o agricultor se encontra inserido, temos uma realidade complexa que inicia na dificuldade de custear o próprio sustento.
A atividade da lavoura familiar exige muito esforço e risco e impõe muito trabalho diário para que sua lavoura prospere. O lavrador para manter seu sustento investe sua vida, a de sua família e a própria terra no ato de cultivar. A maioria dos lavradores possui como seu maior patrimônio a terra, e por acreditar em sua capacidade de trabalho e na sua fé aposta suas economias nesta tarefa.
Na realidade, ele não possui uma segurança financeira onde possa apoiar-se e para essa rotina precisa e necessita de credores para suprir as necessidades básicas, como exemplo a compra do mês, o alimento que sustenta a si mesmo e à sua família, e muitas
vezes o crédito que precisa para trabalhar e cultivar a terra. A lavoura exige conhecimento, tempo, clima adequado, experiência e dedicação diária para que o resultado seja satisfatório. A partir dai inicia outra batalha pelo preço de sua lavoura, que dependerá dos preços que pagaram por seus produtos, nesta atividade quando se paga as dividas contraídas para o cultivo já é uma vitória. Em função desta condição muitos abandonam as terras e a prática do cultivo da lavoura. Os que continuam nessa luta podem se considerar heróis, pois as dificuldades não mudaram, ampliaram-se. Luta que muitos abandonaram e não acreditam mais.
Dados do IBGE sobre a mudança do campo para cidade:
Em 1960, 8 753 161 indivíduos foram recenseados em Unidades da Federação diferentes daquela em que nasceram, em 1970, este valor foi de 13 180 750 pessoas, crescimento médio anual de 4,2%. O Censo Demográfico 1980 registrou 18 201 806 movimentos, volume 38% maior do que o anterior, com um crescimento de 3,3% ao ano. Durante a década de 1980 observa-se uma redução dos movimentos migratórios, principalmente os de longa distância. Em 1991, este contingente foi de 21 622 102 migrantes, acréscimo de 19% em relação ao censo anterior, a uma taxa de 1,6% ao ano. Em 2000, foram recenseados 26 056 925 indivíduos em Unidades da Federação diferentes da de nascimentos, aumento de aproximadamente 21% em relação a 1991 (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE)7.
Os que continuam acreditando, quando se saem bem, já organizam e planejam novos cultivos, dentro de uma rotina como a noite e o dia ou as estações, esta atividade não possui 13º salário e nem férias remuneradas. Não é raro saber que o produto de seu cultivo chegou ao consumidor com valores muito superiores aos que recebeu por unidade ou quilo sobre o cultivo realizado.
A realidade do pequeno lavrador de Ribeirão Grande é muito parecida com a maioria dos pequenos agricultores brasileiros. Muitos para cultivar a terra utilizam tração animal para arar a terra, as tecnologias já existentes são inacessíveis em função dos valores. O método arcaico que praticam demonstra a falta de planejamento e de apoio do Estado Brasileiro. Sabe-se que muitas pequenas propriedades podem realizar a mesma produção que um grande latifúndio com uma maior diversidade de cultivos. Além disso, poderia haver um conjunto de respostas aos problemas atuais: como a permanência do
7Fonte: Censo Demográfico 2000 Migração e deslocamento, 2000, p.30. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/migracao/censo2000_migracao.pdf
homem do campo, diversidade de produção, equilíbrio ambiental, proteção aos mananciais e rios, etc.
Para isso, a escola deveria ser parte constituinte do desenvolvimento científico dessa atividade e substância de coesão na formação de comunidades.
Entretanto, a educação dos pequenos lavradores da região de Ribeirão Grande dependeu basicamente do conhecimento e dos ensinamentos que recebeu dos pais. Ensinamentos que se fundamentam na experiência de vida e de seu cotidiano e que hoje sofrem com a desestruturação da própria família, em função da frustração percebida pelos filhos sobre a atividade do lavrador de pequenas propriedades, sua realidade de limitações estabelece o conceito sobre a sua realidade.
A outra maneira de aprender com a realidade se fundamentou na troca de experiência com vizinhos e amigos. Esta forma de educação é secular e foi transmitida no convívio com os pais, no cotidiano do cultivo de sua lavoura. Apreender por meio dessa experiência sempre foi a condição e o florescimento de uma educação. Educação que adquiriu em seu cotidiano, em sua convivência e manifestou na sua forma de comunicar. Através dessa relação acumulou experiências e conhecimento de como agir e o que fazer para obter boas ou más colheitas. A realidade familiar e social ao qual estiveram imersos formou e forjou a educação.
A rotina do seu trabalho exige dedicação plena, muito esforço físico para lavrar, capinar, plantar, regar, combater o mato e pragas, além dos enfrentamentos com as condições do clima, situação com a qual nada podem fazer. O trabalho é complexo e árduo e exige conhecimento e ciência para se obter melhores resultados. Sua obstinação apoia-se na crença de uma boa lavoura e nos benefícios que essa lavoura pode trazer. No entanto, como já foi descrito, o retorno financeiro não é suficiente para garantir que os credores sejam pagos, isso ocorre na região de Ribeirão Grande e na maioria das regiões do Brasil.
Na realização desta atividade, além das dificuldades mencionadas, o pequeno lavrador enfrenta ainda o atravessador ou o intermediário que possui papel às vezes de algoz e outras de salvador. Algoz quando oferece pela produção um valor menor do que vale e salvador quando compra mesmo que haja uma produção excedente, sabendo que pagou muito menos do que o lavrador precisa para quitar suas dívidas. O lavrador necessita cumprir os compromissos assumidos, sem crédito sua falência está decretada. Assim o
lavrador necessita e ao mesmo tempo fica a mercê dessa realidade e do papel que o atravessador possui nestas condições sociais. Papel que infelizmente se faz necessário nessa realidade.
Acredito que até a função do intermediário poderia ser fundamental se houvesse uma reformulação nesse papel, que além de negócios, fosse preparada para avaliar necessidades regionais, propor regulamentações junto com os lavradores, estabelecer cultivos, planejar e produzir para atender as necessidades sociais ou de interesses econômicos para o país. Um conjunto de estratégias com o objetivo de melhorar o desenvolvimento das regiões atendendo as principais necessidades dos indivíduos, famílias e objetivos comuns de uma nação.
Os intermediários atuam com fundamentos estabelecidos por uma prática de oportunidades e circunstâncias, bem como pelo poder do dinheiro e da necessidade. Assim pode-se afirmar que o lavrador apesar de seu importante papel se encontra sem muita escolha. O pequeno produtor sabe que o tempo curto para vender a sua produção pode resultar na perda do crédito, e em consequência disso a perda da sua propriedade. Sustentar e ser sustentável é urgente, e continuar com esse modelo de manter essa atividade e seus protagonistas em condições sub-humanas é uma característica de crueldade social. Por isso, se faz necessário pensar nas questões de diversidades de plantios como parte de uma estratégia de pais.
Para o pequeno lavrador a terra é meio pelo qual tira seu sustento e também posso dizer que sua dignidade e de sua família. Esta circunstância de se aproveitar dessas dificuldades é um fato aceito como lei imutável.
A realidade atual ainda não obteve transformações e avanços nestes últimos séculos para os pequenos lavradores. O modelo de organização política para essa atividade é cruel, e precisa de mudanças nas políticas de desenvolvimento e nas metodologias de produção.
O lavrador nas condições atuais não consegue permanecer na terra em função das políticas inerciais que são asfixiantes.
Nessa forma inercial de política, o lavrador entrega sua lavoura por valores mínimos para poder pagar as dívidas. Essa estrutura caótica continua como método e procedimento operativo entre agricultores, intermediários e atacadistas. A realidade dessa lógica perversa, e desta cadeia de negócios é um dos fatores do declínio dos pequenos
agricultores que abandonam suas terras por verem seus esforços perdidos nesta batalha, que está resumida a trabalhar sem prosperar com seu trabalho. Aqui nesta realidade dura e insensível, ilógica o lavrador por meio de sua manifestação oral reflete seu desgosto com as dificuldades. Aceita que sua força não é suficiente para obter a dignidade esperada e desejada. O objetivo de viver da lavoura passa a ser negócio de grandes fazendeiros e só deles.
E assim, torna-se irrealizável essa atividade na realidade atual e como ela se estabelece. Desta maneira, a lavoura e o cultivo da terra para as pequenas propriedades passam a ser uma atividade insustentável. Nesta trajetória o resultado e o caminho comum é abandonar sua terra e arriscar-se nos centros urbanos, como se as cidades resolvessem com mais eficiência os problemas de emprego e de distribuição de riquezas por meio de salários justos. Os dados do IBGE apontam grandes deslocamentos de grupos humanos nas ultimas décadas.
O maior crescimento relativo de população não-natural entre as duas pesquisas ocorreu no Amapá (108%). Este estado tem experimentado um aumento substancial no número de imigrantes nos últimos anos (Gráfico 1), o Censo 2000, registrou 153 980 não naturais do estado contra 74 053 indivíduos em 1991, 71% deste acréscimo foi proveniente de migrantes oriundos do Pará e 18% de maranhenses. O menor aumento relativo observado ocorreu no Estado do Maranhão (0,8%), refletindo claramente a característica de um estado que apresenta forte evasão populacional. São Paulo, situando-se em nível intermediário de crescimento relativo (25%) em relação aos demais estados, contabilizou em 2000 o maior volume de população não-natural, 8 821 030 indivíduos, e 2 145 631 de paulistas em outras Unidades da Federação. No período intercensitário a população não-natural do estado aumentou em 1 744 964 indivíduos, sendo que os migrantes provenientes da Bahia aumentaram em 536 325 indivíduos, os de Pernambuco 258 407 e os do Paraná 174 331 pessoas, representando em conjunto mais da metade do acréscimo observado (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE, CENSO DEMOGRÁFICO 2000 MIGRAÇÃO E DESLOCAMENTO, 2000, P.32).
O arranjo econômico, social, político e educativo que faz parte da trama que envolve e constitui esse indivíduo, limita o que auxilia a capacidade desses trabalhadores rurais atingirem um resultado satisfatório que garanta qualidade de vida. Quando o modelo econômico, político e social é discriminador fragiliza os indivíduos. O meio determina, influência e afeta o individuo. Assim Thomas Piketty observa no livro - O capital no século XXI - a influência do capital nas estruturas sociais e políticas.
A desigualdade socioeconômica e as disparidades de renda e de fortunas entre grupos sociais sempre foram causa e consequência de outros fatos e esferas: todas essas dimensões são inextricavelmente relacionadas entre si (PIKETTY, 2014, P. 268).
A responsabilidade do Estado é importantíssima na modificação dessa realidade, mas o Estado se apresenta como? E com quais interesses?
O Estado é capaz de exercer seu papel mediador sobre um território determinado e sobre o conjunto da população correspondente, pois se manifesta simultaneamente na objetividade (sob a forma de maquina burocrática e administrativa) e na subjetividade (sob forma de democracia formal e de ideologia burguesa correspondente). Como gestor de objetos sociais mediadores das contradições do capitalismo, o governo é o resultado de um longo processo que o constitui, ao mesmo tempo, nos aparelhos e na legitimação do estado. Uma vez que este processo torna um aspecto acabado, faz esquecer que resulta, na sua essência, da evolução da divisão capitalista do trabalho e da luta de classes correspondente. Trata-se de um esquecimento em proveito de uma conformidade com a falsa aparência de Estado, caso em que tem por tarefa geral representar o interesse geral, sob a forma da reificação (coisificação) como da personificação do Estado. Correspondendo, respectivamente, a uma instituição administrativa, que emerge naturalmente da especialização do trabalho entre os cidadãos ou uma burocracia... (FARIAS, 1999, P 31).
Então a pergunta: como se constitui um cidadão? A quem pertence essa responsabilidade? Como tratar desse tema fundamental a todos? Se a formação do indivíduo se constitui na convivência, a construção dessa obrigação pertence ao Estado e as suas instituições. Estado que declara em sua carta máxima como fundamento constituir cidadania, essa é a obrigação de todo o poder público em toda parte do país. Se o significado de cidadania não possui coesão e sensu comum entre os indivíduos de um país a convivência de todos fica ameaçada.
A educação de um indivíduo e sua comunicação são formas de manifestar seus interesses e suas intenções são processos essenciais ao pertencimento. Uma comunicação que sabe manifestar seus valores e princípios, que fortalece a importância do respeito ao próximo possibilita e projeta o fortalecimento da cidadania com convenção social.
O inverso dessas relações compromete a cidadania, o indivÍduo, a família e o sentido de pertencimento.
Há dois séculos Kant afirmava em seus tratados de Pedagogia que não se deve educar as crianças pensando no presente, e sim em uma situação melhor, possível no futuro. A profecia que se cumpre a si mesma deveria
ser mencionada aqui, porque não há melhor maneira de materializar um ideal que educar para alcançá-lo, ajudando a convertê-lo em realidade (CORTINA, 2011, P.199).
Os lavradores como todos os indivíduos de uma nação reproduzem na sua ação os valores que o meio promove e constitui. Quando o pacto entre os indivíduos não é o respeito a si e ao próximo a convivência torna-se fragilizada. No mundo atual o pequeno lavrador vê a possibilidade de acesso a infraestruturas básicas como saneamento, luz elétrica, saúde, educação e direito civis, limitadas por uma realidade violenta e excludente. E imerso nesta realidade não se constitui como cidadão e neste desenrolar não se estabelece a cidadania com um bem para todos. Será que a cidadania que atualmente se pratica é uma cidadania para todos? Nos dados que se apresentam para as escolas da zona rural parece que a cidadania não é para todos.
Além da dificuldade de acesso, os alunos da zona rural sofrem com a má infraestrutura. Dados do Censo Escolar de 2009 revelam que 90% das escolas do campo não possuem biblioteca. Pouco mais de 8% têm laboratório de informática. Os laboratórios de ciências estão presentes em menos de 1% dos estabelecimentos de ensino. Além disso, quase 20% não possuem energia elétrica. O censo escolar de 2009 mostra que no Brasil 42,5 mil escolas possuem até 30 alunos matriculados, a maioria delas no campo.8
O acesso do agricultor à escola sempre foi cheio de obstáculos. Um deles é a distância entre a escola e a casa do lavrador, outra necessidade é que o filho trabalhe para melhorar a produção e, portanto, o sustento do ano. Todos dependem da lavoura para o sustento básico. Atualmente os filhos não querem trabalhar na lavoura, filhos que não possuem uma escola que lhes dê perspectivas para o futuro. Jovens que sofrem de dependência alcoólica ou química.
Ontem e hoje as escolas da região são distantes da realidade do lavrador, de seu contexto e não retratam sua realidade. A comunicação que recebe por meio de TVs abertas também não representa sua necessidade diária e nem tratam dos problemas do seu cotidiano e de seu contexto social. A escola perdeu importância e força ao não refletir a realidade e também por não saber traçar trajetórias de ensino aprendizagem que fortaleça os indivíduos. Fazer a escola para uma realidade que interesse a todos.
A fala do poder que constitui a educação no país propõe o exercício de uma prática idealizada. A fala dos praticantes da educação, os educadores, faz então a crítica da distância entre a promessa e a realidade. Faz mais, denuncia a alteração para pior das próprias leis que dizem o que é e como deve ser a Educação no Brasil.
Não há apenas ideias opostas ou ideais diferentes a respeito da Educação, sua essência e seus fins. Há interesses econômicos, políticos que se projetam também sobre a Educação. Não é raro que aqui, como em toda parte, a fala que idealiza a educação esconda, no silencio do que não diz, os interesses que pessoas e grupos têm para os seus usos. Pois, do ponto de vista de quem a controla, muitas vezes definir a educação e legislar sobre ela implica justamente ocultar a parcialidade destes interesses, ou seja, a realidade de que eles servem a grupos, a classes sociais determinadas, e não tanto ―a todos‖, ―à nação‖, ―aos brasileiros‖ (BRANDÃO, 1995, P. 60).
Os que possuem e possuíam responsabilidade pela educação reproduzem processos pedagógicos distantes da realidade, e com este modelo repetitivo amplia-se o abismo entre os indivíduos e as escolas e também reforça as desigualdades.
A existência do pequeno lavrador e sua educação ficaram exclusivamente dependente da sua convivência e das trocas pessoais com amigos e vizinhos, essa é ainda uma realidade em Ribeirão Grande. Uma direção norteadora para constituir um indivíduo é oferecer uma vida digna, mas infelizmente ainda é distante da maioria das pessoas do campo.
No exercício de constituir uma cidadania, a educação e a escola são processos essenciais para promover e potencializar as capacidades humanas. A comunicação pessoal e interpessoal são reflexos dessas essências. Como atingir esse objetivo em uma sociedade fundamentada em diferenças, que se apoia no individualismo, onde eu, e os interesses pessoais de pequenos grupos, estão acima do valor a vida?
O verso do sertanejo Patativa do Assaré retrata a essência, a realidade e o cotidiano do sertanejo e do lavrador brasileiro.
Vida Sertaneja (Patativa do Assaré) Sou matuto sertanejo,
Daquele matuto pobre
Que não tem gado nem queijo Nem oro, prata, nem cobre Sou sertanejo rocêro, Eu trabalho o dia intero, Que seja inverno ou verão
Minha mão é calejada, Minha péia é bronzeada Da quintura do sertão
(ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA)
Esta é a realidade do pequeno lavrador em Ribeirão Grande e possivelmente a realidade da maioria dos pequenos lavradores no Brasil no século XXI. Os recursos que os