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A comunicação comunitária na formação do cidadão

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Ser cidadão significa ter direitos e deveres que a Lei Magna consagra, mas vale citar Peruzzo (1998, p. 287) quando diz que “ser cidadão é ter o direito de ver-se protegido legalmente, de locomover-se, de interferir na dinâmica política, de votar e ser votado, de expressar-se. É também o direito de morar numa casa digna, de comer bem, de poder estudar e trabalhar. É, por fim, ter o direito de participar com igualdade, na produção, na gestão e na fruição dos bens econômicos e culturais”, na luta em busca de um bem comum.

Isso nos leva a concordar também com o que Maria da Gloria Gohn (2003, p. 174) afirma ser a cidadania: “uma virtude a ser conquistada no exercício de práticas identitárias, é uma prática em busca do bem comum”.

De acordo com Roberto Vieira (2003, p. 19), citando o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD,

a sustentabilidade passa pela qualificação da cidadania. Ou seja, não apenas os agentes econômicos são responsáveis pelo desenvolvimento sustentável, mas a qualificação do cidadão, sua formação, sua educação é fator preponderante na garantia do desenvolvimento sustentável. E agora, a preocupação se estende além da preservação e conservação dos recursos naturais para as futuras gerações. Ela alcança o desenvolvimento sustentável do próprio cidadão.

Para Luiz Roberto Alves, citando Paulo Freire (2003, p., 203),

O futuro não está à nossa espera; ele se constrói a partir do que dizemos no presente. O educador progressista deve lutar pela Escola Pública, brigar para ocupar democraticamente esse espaço, pois não há contradição entre democracia e socialismo. Ocupar a Escola Pública por inteiro para chegar ao Estado socialista não

é um a - priori determinado para o ano 2002, quarta-feira às 10 horas. O processo

A partir das opiniões dos dois autores acima, importa-nos, portanto, refletirmos sobre o papel da comunicação comunitária na formação do cidadão para que possa, de forma consciente, ser participante ativo nas ações conducentes ao desenvolvimento da sua comunidade. Essa reflexão tem como ponto de partida analisar a relevância da participação comunitária.

1.1 A relevância da participação comunitária

A participação comunitária é um processo em que os membros da comunidade estão presentes de forma ativa e organizada na tomada de ações, na solução dos seus problemas, na mobilização dos recursos necessários, na execução e na avaliação das ações de um determinado programa que visa ao seu próprio desenvolvimento.

Pelo que verificamos, tanto as rádios tuteladas pelo Estado como as ligadas a associações ou instituições religiosas, são pertenças das próprias comunidades geográfica ou coletivamente definidas. Tais comunidades participam da programação, discutem os problemas enfrentados, participam da tomada de decisões e ajudam a angariar fundos para suas rádios.

No decorrer dos trabalhos realizados no campo e de acordo com a estrutura orgânica de cada rádio visitada, constatamos que a participação da comunidade na gestão é caracterizada, apenas, pelo envolvimento de colaboradores advindos das comunidades que, voluntariamente, trabalham na e para a estação. Em muitos casos, tais colaboradores são indicados em assembléia para representarem sua comunidade na gestão das rádios comunitárias, e esse tipo de participação é chamado de participação direta. Na participação indireta, a comunidade utiliza a rádio para veicular mensagens por meio de dedicatórias e anúncios diversos, os quais permitem a entrada de receitas para o funcionamento da rádio.

Contudo, a participação não se limita a isso: a nosso ver, a participação da comunidade deve integrar as estruturas internas da rádio, atuando nos comitês de gestão e de programação eleitos por todos.

A participação dos membros da comunidade nos negócios da rádio comunitária começa na Assembléia Geral onde todos fazem parte. De acordo com os estatutos orgânicos das rádios comunitárias que tivemos acesso, é na Assembléia Geral onde se toma decisões sobre os a vida da rádio, elegendo pessoas para constituírem o comitê de gestão, conselho fiscal e comitê de programação; delibera sobre vários aspectos de funcionamento da rádio comunitária.

Os comitês de gestão e de programação são constituídos por representantes das comunidades tais como líderes comunitários, representantes das associações locais, figuras influentes na região, etc. Em nenhuma das rádios com que tivemos contato sentimos esse envolvimento da comunidade nas estruturas internas das rádios. Imane Aly, presidente do Fórum das Rádios Comunitárias de Moçambique (Forcom)77, reconhece que “em algumas rádios, apesar de seus estatutos orgânicos contemplarem a constituição de comitês de gestão e de programação por elementos representantes de diversos intervenientes da comunidades, na prática, não se encontram envolvidos em nenhum elemento em representação de qualquer organização local”.

Nas rádios Voz Coop, Dondo, Nkomati e Homoine constatamos o envolvimento direto das comunidades e a participação de um número considerável de voluntários, e procuramos compreender suas motivações. Para tanto, recorremos à teoria de Bordenave (1994, p. 16) que nos diz que “se procurarmos a motivação dos participantes de uma atividade comunitária qualquer, notaremos neles uma satisfação pessoal e íntima que com freqüência vai muito além dos resultados úteis dessa participação. Daí que ocorre que a participação não é somente um instrumento para a solução dos problemas, mas, sobretudo, uma necessidade fundamental do ser humano, como o são a comida, o sono, a saúde, etc.”.

Essa teoria de Bordenave (1994, p. 16) nos faz pensar que se procurarmos nos participantes nas atividades de uma rádio comunitária sua verdadeira motivação, notaremos nestes dois aspectos complementares: o afetivo, de acordo com o qual os indivíduos participam porque sentem prazer em desenvolver alguma atividade coletiva, e o instrumental,

base da participação popular nas sociedades modernas de consumo, de acordo com o qual os indivíduos vêem mais eficiência e eficácia no trabalho coletivo do que no individual.

A participação cidadã é um direito humano, um dever político e um instrumento essencial de construção nacional (PERUZZO, 1998, p. 275), e está consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de1948. Segundo Peruzzo (1998, p. 275), essa declaração “estabelece, em seus artigos 27 e 29, que todos os homens têm o direito de participar livremente da vida da comunidade, na qual é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade”. A autora pretende, portanto, deixar claro o quanto os países respeitaram ao longo da história, os princípios fundamentais que caracterizam a vida humana, o que depende “da cultura de cada povo, das oportunidades, da conjugação de forças e dos interesses dominantes”.

Destacando o papel participativo do cidadão, Teixeira (2001, p. 30), sustenta que

a participação cidadã utiliza-se não apenas de mecanismos institucionais já disponíveis ou a serem criados, mas articula-os a outros mecanismos e canais que se legitimam pelo processo social. Não nega o sistema de representação, mas busca aperfeiçoá-lo, exigindo a responsabilização política e jurídica dos mandatários, o controle social e a transparência das decisões (prestação de contas, recall), tornando mais freqüentes e eficazes certos instrumentos de participação semidireta ...

De acordo com este autor, porque a participação cidadã “é o processo social em construção hoje, com demandas específicas de grupos sociais...”, é necessário que se requalifique a “participação popular nos termos de uma participação cidadã que interfere, interage e influencia na construção de um senso de ordem pública regida pelos critérios da equidade e justiça”. (TEIXEIRA. 2001, p. 32). Assim, podemos concordar com a com a Peruzzo (2003. p. 248) quando afirma que a participação é uma das dimensões essenciais da comunicação comunitária e ela pode ocorrer em níveis mais elevados nos quais a pessoa atua “como sujeito ativo, como protagonista da elaboração de mensagens, na produção de programas para o rádio e televisão, na confecção de boletins informativos e no planejamento e na gestão do canal de comunicação”. Segundo a autora, no nível mais elevado de participação, além de contribuir formulando conteúdos, o participante “tem poder de atuar no processo de decisões relativas aos conteúdos dos meios e à sua gestão” (PERUZZO. 2003 p. 248).

Nesse espírito, a Constituição da República de Moçambique, de 1990, abre espaço para a participação cidadã. No seu artigo 74 garante ao cidadão gozar de liberdade de expressão; de igualdade perante a lei no que concerne ao domínio sobre o seu corpo e sua vida; do direito à educação, à saúde, à habitação e ao lazer, isto é, a uma vida condigna; de liberdade religiosa, partidária e política; e do direito de lutar por seus valores e de participar do desenvolvimento da sua comunidade, da sua região e do seu país.

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