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CAPÍTULO 1. CONTEXTO GERADOR DE MUDANÇAS

2.2 A Concepção de Educação Transformadora na Obra de Paulo Freire

A fim de tratar especificamente da Educação, utilizaremos a obra de Freire (1921-1997) a partir da perspectiva de Educação transformadora, na qual a Educação do Campo se ancora. Destacamos na obra de Freire os conceitos de indignação e esperança.

O conceito de indignação desenvolvido em toda a obra de Freire, é aprofundado no livro Pedagogia da Indignação (2000). Conforme descrito na apresentação, por Ana Maria Araújo Freire, a indignação na obra de Freire traz à tona um “sentimento de raiva imbricado da generosidade de amar” (p.9). Por mais contraditória que essa afirmação possa parecer, percebe- se em todas as cartas pedagógicas e artigos que compõem o livro a presença de questionamentos imbricados de raiva e indignação política e também com a forte presença do desejo de transformação.

Freire (2000) destaca a indignação como um sentimento necessário para a construção de reflexões sobre a educação, em uma perspectiva diretamente vinculada à sociedade. “A

11 Partimos da compreensão do MHD a partir de Marx e Engels (1846) filosofia que nos permite a análise da

sociedade a partir da relação dialética. Tal visão nos permite notar que as relações entre o ambiente, os seres humanos, os animais e a sociedade são marcadas por características históricas e partem de uma dimensão concreta do materialismo.

94 leitura crítica do mundo é um que-fazer pedagógico- político indicotomizável do que-fazer- político-pedagógico, isto é, da ação política que envolve a organização dos grupos e das classes populares para intervir na reinvenção da sociedade.” (FREIRE, 2000, p.21). Percebe-se dessa forma, que, ao analisar a educação, Paulo Freire a considera como uma parte do processo de constituição da sociedade e de seus sujeitos.

A indignação é vista na obra de Freire (2000) como prática imbricada de um olhar crítico, chamando-nos a atenção a respeito da necessidade de consciência sobre a mudança do sujeito. Esta indignação serve como um motor para a busca pela liberdade das situações de opressão. Ao falar sobre a negação do sonho de um Brasil liberal, Freire (2000) discorre sobre a necessidade de sonhar com transformações, não a partir de um ponto de vista utópico, mas reconhecendo as indignações presentes em um contexto social.

Luta contra o desrespeito à coisa pública, contra a mentira, contra a falta de escrúpulo. E tudo isso, com momentos, apenas, de desencanto, mas sem jamais perder a esperança. Não importa em que sociedade estejamos e a que sociedade pertençamos, urge lutar com esperança e denodo. (FREIRE, 2000, p. 29).

Nota-se, assim, que a busca por um posicionamento de indignação é diferenciada do posicionamento fatalista. Paulo Freire destaca a necessidade dessa indignação reunir forças para sonhar com um mundo melhor, partindo do concreto e da realidade proposta nele para mobilizar tal mudança. “O sonho de um mundo melhor nasce das entranhas de seu contrário. Por isso corremos o risco de tanto idealizarmos o mundo melhor, desgarrando-nos do nosso concreto, quanto o de, demasiado “aderidos” ao mundo concreto, submergirmo-nos no imobilismo fatalista.” (FREIRE, 2000, p.61). Assim, Paulo Freire destaca que a indignação move a mudança a partir de uma tomada de consciência em busca dela. Essa reflexão ainda aponta o fatalismo como uma perspectiva que se aproxima de uma análise neoliberal, que coloca os problemas sob determinações mercadológicas. Desse modo, ele destaca a necessidade de fugir desse fatalismo, uma vez que o raciocínio não aponta a solução do problema e os sujeitos não exercem controle da sociedade e das propostas educativas a qual fazem parte.

Diante de tal perspectiva indignante, Freire propõe ao educador progressista a tarefa de “estimular e possibilitar, nas circunstâncias mais diferentes, a capacidade de intervenção no mundo, jamais seu contrário, o cruzamento de dados em face dos desafios.” (FREIRE, 2000, p.28). No entanto, o autor chama a atenção para que essa ação seja dotada de crítica, evitando- se assim o que ele chama de “voluntarismo inconsequente”, que embora exista a recusa pelos

fatores determinantes, o sujeito ainda é condicionado e não se dá conta disso. Esse posicionamento crítico de Paulo Freire é claramente ilustrado no artigo em que ele tece reflexões a respeito do descobrimento da América.

Minha posição hoje, decorridos 500 ano da conquista, não sendo a de quem se deixe possuir pelo ódio aos europeus, é a de quem não se acomoda diante da malvadeza intrínseca a qualquer forma de colonialismo, de invasão, de espoliação. É a de quem recusa encontrar positividades em um processo por natureza perverso. [...] Eu comemoro não a invasão mas a rebelião contra a invasão. Esse tivesse de falar dos principais ensinamentos que a trágica experiência colonial nos dá, eu diria que o primeiro e mais fundamental deles é o que deve fundar a nossa decisão de recusar a espoliação, a invasão de classe também como invasores ou invadidos. [...] A questão fundamental não está em que o passado passe ou não passe, mas na maneira crítica, desperta, com que entendamos a presença do passado em procedimentos do presente. (FREIRE, 2000, p. 34).

Podemos perceber que o posicionamento crítico necessário para a prática de uma Pedagogia da indignação é apontado por Freire como um convite a pensar no presente, considerando-se a historicidade que construiu as principais questões hoje vivenciadas pelos povos. Diante da exemplificação da presença do posicionamento crítico na indignação, vemo- nos diante das possibilidades de mudança apresentadas no conceito de Esperança. Assim como o conceito de indignação, a esperança também perpassa toda obra de Freire, mas é aprofundada no livro “Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido”, publicado no ano de 1992. O conceito de esperança é para Freire uma forma de considerar as possibilidades de modificação da sociedade e da educação por consequência, o que traz para o cenário educacional uma postura que abandona a neutralidade e requer posicionamento político e ideológico.

Por isso é que toda prática educativa libertadora, valorizando o exercício da vontade, da decisão, da resistência, da escolha; o papel das emoções, dos sentimentos, dos desejos, dos limites; a importância da consciência na história, o sentido ético da presença humana no mundo, a compreensão da história como possibilidade jamais como determinação, é substantivamente esperançosa e, por isso mesmo, provocadora da esperança. (FREIRE, 2000, p.26).

Neste trecho Freire faz um convite a uma prática de esperança que ilustra a inter-relação entre indignação e esperança, que se faz presente até no conteúdo das obras, prova disso é o fato de que a citação acima foi retirada da obra Pedagogia da Indignação. Essa esperança é, para

96 Freire (1992), uma necessidade concreta e ontológica, uma vez que move o sonho do sujeito. Porém o autor destaca:

Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão. Prescindir da esperança que se funda também na verdade como na qualidade ética da luta é negar a ela um dos seus suportes fundamentais. O essencial [...] é que ela enquanto necessidade ontológica, precisa ancorar-se na prática. (FREIRE, 1992, p.5).

Notamos assim que a esperança destacada por Freire não é desprovida de uma constituição ética, nem de cientificidade, mas parte essencialmente de uma prática cotidiana, crítica e coletiva, pois, desse modo, pode-se partir dela para se construir as ações de transformação. Essa transformação só ocorre para o Freire (1992) diante do reconhecimento da situação de opressão em que o sujeito encontra-se. “Alcançar a compreensão mais crítica da situação de opressão não liberta ainda os oprimidos. Ao desvelá-la, contudo, ao um passo para superá-la desde que se engajem na luta política pela transformação das condições concretas em que se dá a opressão.” (FREIRE, 1992, p.16). A partir desta citação percebemos que a esperança não se faz enquanto um mecanismo puramente motivacional esvaziado de crítica, essa crítica apontada nos elementos da pedagogia do oprimido aparece para o reconhecimento do sujeito em sua condição de oprimido.

Ao relacionar a esperança às práticas educativas, Paulo Freire nos aponta mais uma vez a necessidade de um posicionamento progressista e de escuta com as realidades dos sujeitos, a fim de poder centrar a prática educativa no educando e também nos métodos, materiais, técnicas e conteúdos a serem desenvolvidos. Essa escuta propõe que o educador posicione-se diante das práticas pedagógicas, uma vez que destaca a impossibilidade do desenvolvimento de uma Educação Neutra. “É por isso também que não me parece possível nem aceitável a posição ingênua ou, pior, astutamente neutra de quem estuda, seja o físico, o biólogo, o sociólogo, o matemático, ou o pensador da educação.” (FREIRE, 2000, p.37). Diante dessa questão buscamos compreender como se desenvolvem os processos de indignação e esperança na construção das representações sociais dos educandos com relação às práticas artísticas.

Dessa maneira, vamos esforçar-nos para que os sujeitos desse estudo não sejam analisados enquanto objetos de pesquisa, mas sim enquanto sujeitos históricos, sociais, pertencentes a uma luta por um projeto de educação, por um projeto de campo e por um projeto de sociedade, assumidos também por esta pesquisadora neste processo de pesquisa e escrita.

“Aproveitar essa tradição de luta, de resistência, e trabalhá-la é uma tarefa nossa, de educadoras e educadores progressistas.” (FREIRE, 1992, p. 56).