2 NOSSOS CORPOS NOS PERTENCEM
2.1 A conjugalidade sob um novo equilíbrio de poder
equilíbrio de poder, no grau de porosidade ou fechamento nas relações sociais151, ou quanto à ampliação de oportunidades ou de constrangimentos são dimensões analisadas ao longo da exposição, permitindo mostrar como as estratificações de classe e gênero se fazem presentes, estáveis ou modificadas, na vida familiar cotidiana.
2.1 A conjugalidade sob um novo equilíbrio de poder
As mudanças nos processos de formação de família incluem as tendências de que as mulheres posterguem a união, mantenham-se solteira, saiam de uniões ou unam-se de maneira informal, experimentando mais flexibilidade em relação a um de seus mais antigos papéis, como sugeria o título do livro de Danda Prado (1979), “Esposa, a mais antiga profissão”. Se, historicamente, uma frequente condição para ser uma mulher independente era não se casar (FUKUI, 1979, p. 232, DURHAN, 1984, p. 66), a diversificação de arranjos e a possibilidade de ser mais independente mesmo casada evidenciam mudanças na condição das esposas e no equilíbrio de poder de gênero em que se encontram.
O declínio do “mandato matrimonial” e da dependência das mulheres do casamento para definir sua posição social e garantir-lhe a sobrevivência – dramatizada em diversos romances do início do século XIX da inglesa Jane Austen – foi acompanhado também de uma resignificação do vínculo conjugal, cujo caráter de escolha pessoal por razões afetivas ganhou força e legitimidade. Diante de novas concepções de casal (LERIDON, VILLENEUVE-GOKALP, 1988), o casamento formal deixa de ser uma etapa fundamental na vida das pessoas ou o eixo organizador da procriação, em benefício de outras trajetórias mais ou menos alternativas a este modelo: não casar, postergar ou não formalizar uma união; ter filhos sem se casar, postergá-los ou não tê-los, comportamentos cada vez mais diversos de um “modelo tradicional” de família.
Cherlin (2004, 2005) identifica duas transições no casamento contemporâneo. A primeira transição, definida originalmente por Burgess e Harvey (1945), é a passagem do casamento institucional – no qual as pessoas se mantinham juntas por força da lei, da tradição e de crenças religiosas – para o casamento de companheirismo, centrado na valorização dos laços afetivos, no ideal de companheirismo e no amor romântico, mas que mantinha a
151 Especialmente analisadas em aspectos como a posição relativa dos cônjuges nos casais e as taxas de endogamia.
segmentação de tarefas entre homem provedor e mulher dona de casa. A segunda transição foi a passagem para o casamento individualizado, com uma perspectiva mais individualista das recompensas do casamento, enfatizando a escolha pessoal e o autodesenvolvimento, com papéis conjugais mais flexíveis e negociáveis, inclusive com o trabalho de ambos os cônjuges.
Cherlin considera que as transformações no casamento envolvem fatores econômicos e culturais. Dentre os fatores econômicos, nota que as dificuldades de trabalho de homens com baixa escolaridade vêm tornando-os parceiros menos desejáveis, o que, por outro lado, está relacionado à preferência das mulheres por serem mães sem se unir ao invés de esperar indefinidamente por um cônjuge ideal. Por outro lado os fatores culturais vêm ganhando muita relevância nas análises das mudanças no casamento, em especial diante da tendência de crescimento da coabitação em diferentes grupos, o que desafia a expectativa de que a coabitação fosse um fenômeno permanente apenas entre os pobres. Se na explicação da coabitação a ênfase era na razão econômica, na falta de condições de se unir, ou na precariedade da vida, que faria com que as classes baixas sequer vislumbrassem a possibilidade de se casar, os fatores culturais ficam cada vez mais evidentes à medida que a prática se difunde.
As análises sobre as mudanças nas formas de conjugalidade, no entanto, em geral não consideram a diversidade de classes. Estas variações são visíveis na história brasileira onde o casamento, mais frequente nos estratos superiores, significava para as mulheres a entrada numa ordem de direitos que limitava seu poder de decisão, enquanto as uniões consensuais mais frequentes nas classes baixas não lhes davam garantias. No passado brasileiro recente, ser esposa em uma união formalizada implicava a perda de direitos, uma passagem da autoridade do pai para a do marido. A paridade plena de direitos entre os cônjuges é, na verdade, uma conquista recente, que incluiu sucessivas mudanças na legislação de família. Deere e León (2002) mostram que, no Brasil como em outros países da América Latina, a mulher casada experimentava restrições de direitos decorrentes da autoridade marital do homem sobre aspectos de administração de bens e decisões familiares (onde estabelecer domicílio, autorização para a esposa trabalhar etc.). A luta pelos direitos civis das mulheres, em especial pelos direitos das mulheres casadas de terem controle sobre suas questões econômicas, foi concomitante ao direito pelo voto, mas foi alcançada bem depois deste no Brasil. A aprovação do voto feminino foi em 1932152, mas apenas em 1962, com o Estatuto da
152 O Brasil foi um dos pioneiros na obtenção do voto feminino na América Latina, alcançado antes da Segunda Guerra Mundial apenas no Brasil, Equador, Uruguai e Cuba.
Mulher Casada, se reconhece a capacidade legal da mulher casada e seu direito de administrar os próprios bens.
Tentativas anteriores de fazer avançar os direitos das mulheres fracassaram153. Embora tivessem obtido sucesso em influenciar a constituinte de 1933-34, conseguindo garantir “o sufrágio de mulheres e a sua elegibilidade, a proibição da distinção de salário por sexo ou estado civil, e o acesso de mulheres a carreiras públicas” (MARQUES; MELO, 2008, p. 472), Bertha Lutz e outras feministas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) não tiveram sucesso em sua proposta de reformar o conjunto inteiro de direitos civis, penais e sociais das mulheres154. Posteriormente, obteve sucesso a iniciativa do deputado federal Nelson Carneiro – de reconhecida carreira em defesa dos direitos civis, destacando-se na aprovação do Estatuto da Mulher Casada e da Lei do Divórcio – que optou por tratar um assunto por projeto. A oposição aos direitos femininos e a defesa intransigente da família patriarcal era então levada a cabo por Arruda Câmara, que promovia uma “cruzada santa” contra os divorcistas155. Marques e Melo realçam a possibilidade do recém formado eleitorado feminino ter exercido apelo para que os parlamentares se mostrassem favoráveis ao projeto156, que finalmente se tornou lei assinada por João Goulart em 1962, trazendo avanços, mas mantendo o homem como chefe do lar.
Com a Lei do divórcio, de 1977157, rompeu-se, por sua vez, com o ideário católico da indissolubilidade do matrimônio, mas muito ainda faltava para uma completa liberdade de casar, separar e recasar conforme a vontade individual158. O Código Civil de 1916 continuou a
153 Marques e Melo alertam para o risco de ver a mudança na lei como consequência natural do processo social, realçando o processo político que existe na elaboração e aprovação de projetos de lei, no que determinadas escolhas políticas podem favorecer ou restringir as mudanças institucionais.
154 Não foi aprovado o projeto de Estatuto Jurídico da Mulher, debatido em 1937, que abolia qualquer discriminação contra as mulheres e, entre outras coisas, “garantia às mulheres o direito de ter uma atividade profissional sem a interferência dos maridos, proibia empregadores de despedir mulheres grávidas e permitia à concubina herdar bens ou estipêndios previdenciários de seu companheiro falecido” (p. 473).
155 A semelhança dos embates atuais de bancadas religiosas contra novos direitos na esfera familiar. Ver, por exemplo, Vital e Lopes (2012).
156
Documentos internacionais sobre os direitos civis e políticos das mulheres, com a Conferência Interamericana das Nações Unidas em Bogotá em 1948, já recomendavam que fossem garantidos às mulheres os mesmos direitos civis e políticos dos homens.
157 É possível que, como no caso da Argentina, onde o divórcio só foi aprovado em 1987, a sua proibição tenha estimulado a adesão à união consensual, o que pode explicar sua difusão nas classes médias e altas no Brasil. 158
Houve outras mudanças legais depois da lei 6.515 de 1977, que regula a dissolução dos casamentos. A possibilidade de separação consensual e divórcio consensual por via administrativa (lei nº 11.441, de 4 de janeiro de 2007, disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11441.htm>) acelera o processo para casais sem filhos em separação não litigiosa. Outra inovação foi a regulamentação da guarda compartilhada, através da lei nº 13.058, de 22 de dezembro de 2014 (disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13058.htm>). Em 5 de maio de 2011, Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por unanimidade, a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar.
valer sem reconhecer a igualdade entre marido e mulher, razão pela qual em 1984 o Brasil assinou com reservas a Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (ONU, 1979)159, que inclui, entre outras recomendações, não discriminar as mulheres na família e no casamento (BARSTED; GARCEZ, 1999, p. 11). Apenas com a Constituição de 1988 se reconheceu a igualdade de direitos de homens e mulheres na sociedade conjugal.
Já as mulheres em uniões informais enfrentavam o desafio da falta de direitos de propriedade dentro da união e de herança para seus filhos, ainda que, por serem legalmente solteiras, usufruíssem de maior liberdade, comparada à autoridade marital experimentada pelas mulheres legalmente casadas (DEERE; LEÓN, 2002, p. 64). Para as mulheres em uniões informais, os direitos de família vieram ainda mais tardiamente, com o reconhecimento das uniões estáveis como família na Constituição de 1988 e a regulamentação para que tivessem os mesmos direitos do casamento pelas leis 8.971 de 1994, referente aos direitos relativos a alimentos e matéria sucessória entre pessoas não casadas, e a Lei 9.278 de 1996, que regulamentou os direitos na união estável.
Esta é uma convergência de classe importante na nupcialidade e as implicações para a autonomia das mulheres merecem ser discutidas. Por um lado, a maior liberdade que as mulheres de classes baixas sempre gozaram de entrar e sair em uniões só foi conquistada tardiamente pelas mulheres inseridas no casamento legal, as quais a partir de 1962 tem seus direitos civis parcialmente garantidos e em 1977 alcançam o direito à dissolução conjugal com recasamento. Já as mulheres de classes baixas que frequentemente se inseriam em uniões informais – as quais careciam de direitos assegurados – têm seus direitos paulatinamente assegurados com a Constituição de 1988 e a legislação sobre união estável em 1994 e 1996. Não se pode ignorar a hipótese de que a difusão de uniões estáveis para as camadas superiores tenha favorecido a mobilização pelos direitos relativos à união estável, seja porque difundiu e legitimou sua existência na sociedade, seja porque engajou nesta causa pessoas com mais acesso ao poder político.
Crescentemente reconhece-se que o casamento não é a base da família e nem mesmo da procriação, a qual recentemente deixa de comportar a distinção legítimo-ilegítimo, que vigorou por muito tempo como se observa pela história da paternidade jurídica no Brasil:
159 Esta convenção é um importante marco na história dos direitos humanos das mulheres. Foi reforçada, em 1994, pela Convenção para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, assinada pelos membros da Organização dos Estados Americanos (OEA). Outras Conferências da ONU dos anos 1990, sobre direitos humanos (Viena, 1993), população (Cairo, 1994) e mulheres (Beijing, 1995) reiteraram ou ampliaram o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres.
o art. 358 do Código Civil Brasileiro de 1916 proibia o reconhecimento dos filhos incestuosos ou adulterinos, impedindo que, se assim desejasse, um homem casado pudesse reconhecer o filho havido fora do casamento. Houve uma série de leis que amenizaram este efeito160, mas apenas em 1989, a Lei n. 7.841 revogou expressamente o art. 358 do Código Civil Brasileiro, embora ele já estivesse tacitamente revogado por força da Constituição de 1988 que assegura (art. 227, parágrafo 6º) que “os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação”. Também a criação do teste de DNA ajudou a fortalecer as mulheres e as crianças contra as clássicas prerrogativas patriarcais161, favorecendo o compartilhamento de responsabilidades. Cláudia Fonseca nota que ciência e lei hoje colaboram como nunca antes para a responsabilização masculina pelos filhos.
É uma coincidência irônica que a tecnologia envolvida nos testes de DNA de paternidade se torne acessível quase ao mesmo tempo em que essas cláusulas constitucionais começam a surtir efeito. Não apenas a lei estipula, como nunca antes, obrigações do pai em relação aos seus filhos, como hoje a ciência fornece meios para identificar esse pai e, assim, atribuir tais obrigações a um indivíduo preciso (2002, p. 280).
Nota-se que os direitos das mulheres em uniões legais e em uniões informais não evoluem ao mesmo tempo. A ampliação dos direitos das mulheres casadas, com a
160 Em 1941, o Decreto-Lei n. 3.200 deu o primeiro passo para o reconhecimento ao determinar que não se fizesse menção nas certidões de registro civil sobre a forma de filiação. Em 1942, o Decreto-lei n. 4.735 estabeleceu que o filho havido pelo cônjuge fora do matrimônio pode, depois do desquite, ser reconhecido ou demandar que se declare sua filiação. Em 1943, o Decreto-lei n. 5.213 possibilita que o pai fique com a guarda do filho natural, se assim o tivesse reconhecido. Em 1949, a Lei n. 883 permite que os filhos havidos fora do matrimônio pudessem ser reconhecidos, após dissolvida a sociedade conjugal, e em seu artigo 4º permite a investigação da paternidade extramatrimonial, mas só para fins de alimento e em segredo de justiça, ou seja, o pai pode pagar alimentos, mas não pode registrar o filho. Em 1977, a lei n.6.515 permite o reconhecimento da paternidade ainda na constância do casamento, desde que em testamento cerrado. Em 1984, a Lei n.7.250 permitiu o reconhecimento de filho adulterino, se o pai estivesse separado de fato do seu cônjuge por mais de cinco anos. Nota-se que, no passado, o casamento legal é a base do exercício da procriação legítima, favorecendo os homens (em um contexto patriarcal, em que a assimetria das relações de gênero permite o seu envolvimento simultâneo com mais de uma família natural) e suas famílias legítimas, das quais resultariam os filhos legítimos. Como não há mais um parâmetro para definir quem é o pai (antes o homem casado era o responsável pelos filhos nascidos durante o casamento, sendo inclusive o adultério insuficiente para contestar tal paternidade), acabou-se por dar maior importância à dimensão biológica na definição da paternidade, o que se manifesta na valorização do teste de DNA.
161 Cláudia Fonseca, todavia, chama a atenção de que a confiança crescente nas verdades biológicas abre uma “caixa de Pandora”, cujos resultados estão indeterminados. Alguns juristas ainda usam evidência não genética e defendem que considerações sociais devem sobrepujar fatos biológicos. Há questões muito polêmicas, como o uso de DNA para crianças legítimas, revertendo uma dimensão importante da legislação de 1916 que (por prever um limite de dois meses após o nascimento da criança para negar a paternidade) dava à criança mais segurança quanto à sua identidade pessoal. Fonseca apresenta o contraponto do caso francês em que o resultado da legislação (1972) que em favor da “verdade biológica” reverteu a indisponibilité (caráter irrevogável de uma relação socialmente definida), teve por resultado uma fragilidade crescente dos laços familiares. A ideia de parentalidade sócio-afetiva (Bruno, 2001) também caminha no sentido de uma desbiologização dos laços familiares, evitando que, pela genética, a procriação seja retirada do âmbito dos laços sociais.
despatriarcalização do casamento, ocorre bem antes da extensão de direitos de família às pessoas em união estável e o pleno reconhecimento das formas de filiação. Esse descompasso reforçou historicamente as desigualdades de classe em matéria de direitos de família, uma vez que se observa que o casamento formal é mais frequente nas classes altas e o consensual nas classes baixas.
As desigualdades de classe no que diz respeito à experiência de conjugalidade abrangem, no entanto, muitos outros aspectos. Para tratar deles, este capítulo está organizado em mais três seções. Inicialmente, trata-se do processo de formação de famílias, considerando os diferenciais por classe em vários aspectos da nupcialidade como transição ou não do estado de solteira para casada e a idade ao casar, e refletindo sobre como as tendências observadas afetam as oportunidades de vida experimentadas pelas mulheres já que a formação de família é uma dimensão da vida que concorre com outros projetos pessoais e profissionais. Na segunda seção, aborda-se a composição dos casais, considerando as taxas de endogamia por classe e educação, bem como as características das mulheres comparadas a seus companheiros em aspectos como escolaridade, idade e renda, os quais podem afetar as relações de poder e autoridade nos casais. Por fim, aborda-se a questão da violência contra a mulher, a qual, como sugere a literatura, pode ser tanto expressão da vulnerabilidade de mulheres com baixo poder de barganha, quanto uma reação masculina última diante de sua perda relativa de poder frente ao empoderamento feminino em curso.
2.1.1 O processo de formação de família de uma perspectiva de classe e gênero
Nesta seção, observam-se algumas dimensões das mudanças em curso162 nos processos relativos à formação de união, analisando os diferenciais por classe e o possível
162 Na análise demográfica, as características de um regime nupcial, convencionalmente chamada nupcialidade, incluem a prevalência, o tipo e a idade de união. Outras características como prevalência de dissolução de união e o tempo de recasamentos não foram analisadas, devido a falta de informações. Além da maior liberdade de escolher quando e em que tipo de vínculo entrar, a possibilidade de sair de uma união insatisfatória é outro importante signo da emancipação feminina. O crescimento da união consensual torna mais difícil a análise da dissolução conjugal, pois são poucas as bases de dados que contemplam o tema da nupcialidade (LAZO, 2002) e não existem informações sobre a ruptura de uniões consensuais tal como existe para as formais. Os dados do registro civil, que se aplicam apenas às uniões formais, revelam que entre 1984 e 2010, a taxa geral de divórcios passou de 0,5 a 1,8 e a taxa geral de separações passou de 0,9 a 0,5. A evolução do divórcio e das separações é afetada por mudanças legais, como as alterações na exigência de prazos para solicitação do divórcio. Segundo o IBGE, “a taxa geral de separação é obtida pela divisão do número de separações concedidas ou escrituradas pela população e multiplicada por 1 000. O mesmo procedimento foi adotado para o cálculo da taxa geral de divórcio. Neste trabalho, foram considerados as separações e os divórcios concedidos sem recurso ou realizados nos Tabelionatos de pessoas de 20 anos ou mais de idade na data da sentença e a população da mesma faixa etária”.
impacto das tendências constatadas para a autonomia das mulheres. Na sequência, analisam- se o percentual de solteiras, a incidência de celibato, a idade da mulher ao casar, bem como os tipos de uniões que se formam.
Descrições de medidas agregadas para o Brasil demonstraram ter havido poucas mudanças no período de 1940 a 1970 (SILVA, N. V., 1979), caracterizando-se a nupcialidade brasileira por ser semelhante à europeia: casamento tardio e incidência relativamente alta de celibato, com base em medidas da idade média ao casar (26,21 para os homens e 22,96 anos para as mulheres) e da proporção de não casados aos 40-44 anos (8,8 para os homens e 9,7 para as mulheres) em 1970. Se até os anos 70 há uma certa estabilidade, é a partir daí que mudanças fundamentais na organização familiar começam a ocorrer. Berquó e Oliveira (1992) observam o crescimento no número de separações para afirmar que sua explicação ultrapassa um possível efeito depressor da crise econômica dos anos 80, revelando mudanças culturais e na posição da mulher na sociedade. Evidências sobre a nupcialidade coletadas por Lazo (1996) incluem, por sua vez, a tendência declinante nas diferenças de idade ao casar de homens e mulheres, o aumento na idade média da mulher por ocasião da união, e o aumento de uniões consensuais. Segundo Fussell e Palloni (2004), entre 1970 e 2000, a percentagem de mulheres de 20 a 29 anos em união consensual cresce de 5,4 para 18%, a idade média da união praticamente não varia, passando de 23 a 22,7 anos; enquanto o percentual de mulheres solteiras aos 45-49 anos cai de 8,8 para 5,2% no Brasil. Estes valores gerais, no entanto, escondem variações por classe, como será mostrado.