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A conquista do Brasil e o Nordeste colonial

3. A COLONIZAÇÃO DAS AMÉRICAS E A POSSE DO BRASIL

3.4. O Brasil descoberto?

3.4.1. A conquista do Brasil e o Nordeste colonial

A divisão e distribuição das terras do Nordeste desde o início da colonização da região estão longe de serem homogêneas. Ao contrário, as formas de rateio do recém- ocupado território deram-se de várias formas: fidalgos ou não recebiam terras com missões diferentes a cumprirem. O importante é que todos tinham em objetivo comum: fazerem-nas dar lucro:

Variavam os privilégios segundo o caso e a pessoa beneficiada: uns recebiam as terras como capitanias para uso de uma vida, ou de determinado tempo; outros ficavam favorecidos com extensões hereditárias; uns apenas podiam usar pequenas e relativas cessões de direito, enquanto outros ficavam ajudados com poderes discricionários. Umas eram chamadas capitanias da coroa, e as outras capitanias hereditárias (GUERRA, 1963: 11).

Assim nascia a primeira e importante forma de divisão e administração territorial da jovem colônia portuguesa. Nascia, também, a primeira forma de expropriação e domínios daqueles que aqui viviam, há milhares de anos, em bom convívio com o meio ambiente18.

A colonização portuguesa de suas possessões, no Novo Mundo, foi um processo que fez parte da estrutura capitalista do período. Foi a pressão francesa (Gommeville, Honfleur e Dieppe) dentre outros corsários, que já frequentavam o Litoral, inclusive a região do rio Paraíba colocavam em perigo o domínio luso na região.

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O sistema de Donataria surge em 1504, quando D. Manuel doa a ilha de São João a um certo Fernão de Noronha, Cristão Novo de Lisboa, sogro de Pedro Álvares cabral. A partir de então inúmeras outras capitanias são criadas, inclusive paralelo a instalação do sistema de governancia geral.

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Paralelo a esses acontecimentos, o comércio com o Oriente entra em declínio. Vê-se a necessidade em tomar posse, em definitivo, das terras do Brasil ou correr o risco de perdê-las para os Mair (franceses).

Por volta de 1530, os próprios Perós (portugueses) ainda tinham dúvidas se o Brasil lhes pertenceria ou se seria dos franceses, tal eram as incursões que estes faziam constantemente, na região, em busca de madeiras, drogas e outras coisas da terra.

O ano de 1527 pode ser visto como sendo o início da decisão definitiva dos portugueses em tomar realmente posse do Litoral leste do Brasil. Cristovão Jacques, que já estivera antes em Itamaracá e deixara alguns poucos colonos, talvez numa feitoria, foi o grande encarregado de organizar o início do processo de ocupação, limpando a costa do Brasil dos corsários franceses, especialmente a região que hoje se estende de Pernambuco, passando pela Paraíba até o Rio Grande do Norte.

A Capitania de Pernambuco doada em Carta Régia de 10 de março de 1534, em regime de Capitania hereditária, ao fidalgo português Duarte Coelho, filho de Gonçalo Pires Coelho, neto de Martim Coelho, duque de Coimbra e de grande prestígio entre os nobres da corte do infante D. Pedro, passou a ser o centro de “irradiação colonizadora e historiografia da região” (GUERRA, 1963: 15).

A colonização, em definitivo, da região tem início por Igarassú (Igara – Açu - barco grande, segundo o Tupi); depois fundou-se Olinda que durante várias décadas foi a capital da capitania da Nova Lusitânia, depois Pernambuco.

Duarte Coelho pode ser visto como o primeiro grande conquistador de terras no recém criado Brasil. Foi este fidalgo que estabeleceu contatos e acordos com alguns índios e fez guerra brutal contra aqueles que não se dobraram ao seu mandonismo. Para o outro (o índio) as opções eram poucas: o aliar-se para sobreviver ou negar-se a ser súdito do rei emissário, fazer-lhe guerra e sucumbir. Em ambas as escolhas via-se o fim de muitos grupos indígenas, fosse pelo extermínio, fosse pelo aniquilamento de suas culturas.

Flávio Guerra (1963) vê como normal as ações dos colonos sobre os índios, pois era preciso aniquilar as hordas hostis de índios selvagens, tangê-los para longe; agora

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era preciso organizar a ordem civil/religiosa. Os índios foram “ um adversário terrível e persistente, defendendo bravamente a terra e seus costumes” (GUERRA, 1963: 17). Aqueles que defendiam suas terras bravamente foram vistos como ferozes, antropófagos e selvagens ao extremo, como os Caetés, influenciados “negativamente” pelos franceses. Nem os Peró nem os Mair tinham objetivos práticos de não alienação, extermínio dos índios e domínios de suas terras. Todos, sem exceção, tinham um único objetivo: o lucro.

Foi, portanto, a partir de Pernambuco que teve início um primeiro e grande processo de consolidação da área conquistada. É possível, també, que já em 1501, tenha havido os primeiros contatos e combates entre portugueses e Tarairiús, na praia dos Marcos (PEREIRA, 1984). A partir de 1549, quando a Bahia foi elevada a categoria de sede do governo, partem outras frentes de conquista do território. A essa altura, já estava praticamente mantido o domínio luso no Brasil. Eliminar os índios hostis, “selvagens”, era agora uma questão de tempo, mesmo com uma forte reação daqueles que por uma questão histórica eram os verdadeiros donos das terras: os índios.

Na primeira e grande divisão do território brasileiro em Capitanias não existia uma denominada de Paraíba. João de Barros, feitor da costa da Índia, recebeu o quinhão de D. João III, de cem léguas de cumprimento no Litoral leste do Brasil, de acordo com carta de doação e foral de 11 de março de 1535, que tinha começo na Baía da Traição (limite Norte) indo até Igarassú: tratava-se da Capitania de Itamaracá.

A partir de Itamaracá até o Maranhão, nesse início de colonização, tudo era desconhecido, e só alguns poucos navios se aventuraram nessas plagas, ora para coletar drogas e madeiras nas poucas feitorias instaladas, ora para dar combate aos contrabandistas franceses e ingleses especialmente.

Fosse por falta de recursos, desleixos de seus donatários ou hostilidades dos índios, a Capitania de Itamaracá não obteve sucesso em sua tentativa de dar lucros aos seus proprietários, o abandono colocava em risco o já tão duramente consolidado território pernambucano. As coroas portuguesa e espanhola veem-se obrigadas a juntar esforços com o objetivo de darem início a colonização da parte mais a Norte do Nordeste, começando com a foz do rio São Domingos (ou Paraíba). Esta área estava, há muito, praticamente sob domínio dos franceses, aliados dos índios Potiguaras que

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tinham sido expulsos da região mais a Sul do Nordeste. Ou Portugal colonizava a região ou haveria fortes indícios desta cair, em definitivo, nas mãos dos franceses.

A conquista das terras do Norte de Pernambuco não parou com a consolidação do Litoral da Paraíba pelos luso e espanhóis. Entre 1583 e 1588, D. Felipe de Moura, lugar-tenente do donatário de Pernambuco, Jorge de Albuquerque, iniciou uma fase aguda de expansão territorial rumo ao Norte. A conquista dessa parte do Brasil, especialmente da Paraíba, foi vista por alguns cronistas como “a mais formosa força que nunca Pernambuco viu, nem sei se verá” (GUERRA, 1963 :29). Sobre a marca definitiva dos “aguerridos colonos” rumo a conquista das terras hostis do Norte, mais uma vez fazemos uso do discurso assustador de Flávio Guerra para percebermos como a crônica oficial via a conquista do território:

A marcha foi trabalhosa, árdua, interior a dentro, mas de absoluto sucesso: erraram pelos matos, abrindo picadas, incendiando aldeias indígenas que iam buscando, destruindo plantações, e assolando todo o país indígena até o Norte. De modo que só a presença de tão forte exército bastou para afugentar o gentio e os traficantes do litoral (GUERRA, 1963 : 29).

Como vê, a conquista da Paraíba foi realmente de absoluto sucesso, para os brancos. Para o gentio, o outro, só restou a expropriação de suas terras, a morte, a servidão e a aliança forçada com os conquistadores que não deixou de ser uma forma de resistência/sobrevivência a um preço muito elevado, pois a partir de então, pelo menos entre os índios do Litoral, estava quebrada qualquer forma de resistência, restando-lhes a acultaração. Com isso, Pernambuco consegue a paz na sua fronteira Norte e a coroa luso/espanhola conquista a segunda capitania real no Nordeste brasileiro.

O Rio Grande do Norte surge em decorrência do processo de conquista e consolidação do litoral Norte da região.

Flávio Guerra mais uma vez assumindo uma postura de relator oficial da história do processo de conquista do Norte, assim, descreve a situação em que se encontrava a região:

O gentio não se aquietara, porém, com as rudes lições recebidas das lutas com as forças de penetração partidas de Pernambuco, voltaram teimosamente a pressionar em outros trechos da colônia, conluiados, como sempre, com os franceses, que não perdiam esperanças de ainda se afirmar no Nordeste brasileiro e agora fazendo, próximo à foz do rio Potenjí, seu quartel e asilo,

133 núcleo irradiante, ameaçando novamente o forte Cabedelo19 e outras povoações nascentes da Paraíba (GUERRA, 1963: 30).

Vê-se uma tomada radical na postura pró-português por parte do autor analisado. Em momento algum, o autor percebe que a reação indígena e a aliança com os franceses seriam uma forma de reação frente ao processo expansionista luso/espanhol. A visão do outro é totalmente apagada, cabendo-nos observar que o gentio em momento algum aceitou pacificamente a colonização branca e a expropriação de suas terras.

E continua o autor: “os índios teimavam em expulsar os portugueses. Vibravam de feracidade, em contínuos ataques”. Finalmente, o autor na sua saga demagoga sobre a boa índole do branco colonizador e a má índole do índio selvagem, quando aparece “Francisco Dias de Paiva, vindo em auxílio com um barco cheio de boa artilharia, muita munição e provimento...”, dando, portanto, prosseguimento a destruição dos índios e expropriação de suas terras, realizando a limpa do terreno para o processo “civilizatório” (GUERRA, 1963: 32).

Interessante notar que alguns relatos mostram que alguns dos comandantes dessas empreitadas para consolidar o terreno tinham “sangue” indígena, sendo o caso de Jerônimo de Albuquerque, que tinha sua genitora como índia; eram esses indivíduos acaboclados, conhecedores quase sempre das táticas de guerra dos gentios, bem como do terreno, contratados para combaterem seus parênteses indígenas. Em meados de 1599, surge a terceira capitania da coroa, a do Rio Grande, assegurando cada vez mais o domínio ibérico sobre a região.

Em 1603, um certo Pedro Coelho de Souza, inovador da Paraíba, leva a proposta ao governador geral D. Diogo Botelho para explorar além Rio Grande. Em junho daquele ano, parte de Cabedelo com cerca de oitenta homens brancos e o mesmo número de índios “domesticados”. Pedro Coelho além de buscar ajuda junto a tribos de índios mansos/domesticados, prática bastante comum entre aqueles que lideravam entradas e/ou bandeiras, buscou auxílio junto a um francês que conhecia bem aquelas plagas.

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Em janeiro de 1604, depois de penetrar no Ceará pelos Sertões do Rio Grande, chega a serra da Ibiapaba às custas de inúmeros combates com os Tapuias da região, provavelmente pertencentes a nação dos Cariris, que na região tinha como principal chefe Mel Redondo. Além dos índios, franceses que se encontravam instalados no Ceará ofereceram, juntamente com aliados indígenas, tenaz resistência a penetração de Pedro Coelho de Souza.

Mel Redondo e os franceses, depois dessa primeira grande derrota, firmam acordo com o chefe Tapuia Juripariguassú (Grande demônio) até que conseguiram expulsar as tropas de Pedro Coelho da região. Outra tentativa de conquista do Ceará deu-se através dos Padres Jesuítas Francisco Pinto (que foi morto pelos Tapuias da Ibiapaba) e Luís Figueira, que conseguiu fugir e relatar o ocorrido ao sargento-mor Diego Campos Moreno, no Rio Grande.

Em 1608, Martim Soares Moreno recebe ordens reais para conquistar a qualquer preço o restante do litoral Norte/Leste do Brasil e expulsar definitivamente os franceses da região. Martim Soares recebe o título de Capitão-mor do Ceará. Existem relatos que este partiu para o Ceará com poucos homens em armas, alguns religiosos e índios, a frente o Cacique Jacaúna, intermediador de acordo entre estes e os índios hostis do Ceará. Só em 1609, com a chegada de um contingente militar é que se consolida o poder luso/espanhol na região e tem-se fim a conquista do que poderia se considerar o último redutor do Nordeste do Brasil, já que Piauí e principalmente Maranhão tornam- se regiões completamente independentes do restante do Brasil.