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NAS RUAS

2.2.1.3 “CONTAR UMA TRISTE”: A PRODUÇÃO DA SENSIBILIZAÇÃO

2.2.2 TRABALHO E CUIDADO DE CARROS

2.2.2.2 A CONQUISTA DO PONTO

Os pontos (também chamados de vaga), assim como o de Vanderlei, são disputados entre os diferentes cuidadores, os quais, depois de conseguirem domínio sobre um espaço, passam a ter direito sobre ele. Conseguir um ponto não é algo fácil. Principalmente os melhores podem ser objetos de conflitos, disputas, compra, venda, empréstimo e mesmo de aluguel. A cidade é mapeada, classificada, valorada. Pontos são definidos e ocupados. Os mais fortes ou prestigiosos asseguram os melhores. Boa estratégia é ocupá-lo pelo maior tempo possível, evitando que outros se aproximem e tomem conta dele. O valor do ponto é definido pela quantidade de veículos que por ali circulam. Negociações são feitas entre os cuidadores, os quais eventualmente vendem ou alugam seus pontos ou ainda emprestam para outra pessoa. Alguns pontos foram herdados de conhecidos que morreram.

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No caso de Vanderlei, o ponto não era exatamente de propriedade dele. Pertencia ao Mário, o senhor que cuidava de carro no outro lado da avenida. Este, vendo a impossibilidade de cuidar apropriadamente das duas partes da rua, emprestou a Vanderlei uma delas. Evidentemente, a parte menos movimentada. Acompanhar a atividade de Mário permite entender um pouco a lógica do cuidado de carros e alguns elementos da disputa que cercam a definição de um ponto. Certa manhã, fui ao encontro do Vanderlei, mas não o encontrei. Tive boa interação, todavia, com Mário:

Ele orientava os motoristas de um lado e de outro da rua. Pedia para cuidar dos carros. As pessoas aceitavam. [...] Se movimentava bastante, estava preocupado, disse que estava desatento e as pessoas estavam saindo sem pagar. [...] Depois chegou um rapaz vendendo doces, gomas de mascar. [...] Perguntou ao Mário se ele não podia cuidar dos carros naquele ponto quando o primeiro não estivesse. O Mário disse que poderia com as seguintes condições: ele poderia cuidar, mas a hora que o Mário chegasse o “menor” tinha que ir embora. E que os carros que ele tinha pedido para cuidar, mas os donos ainda não tivessem voltado, pagariam ao Mário e não ao garoto. Mário salientou que na vaga dele outra pessoa não ia ganhar dinheiro com ele estando ali. Disse também que se o garoto não saísse a hora que chegasse, haveria briga e só o mais forte ficaria vivo. Ele ofereceu ao garoto o outro lado da rua para cuidar [...] Mário falou-me que se o Vanderlei não aparecer até amanhã ele daria a vaga para outro, pois as vagas ali são dele. Afirmou que faz dezenove anos que está neste ponto e que ele coloca quem ele quiser. Se alguém tentar tomar dele há briga e só fica vivo o mais forte. (Diário de Campo, 01 de abril de 2015).

Mário é o dono do ponto há 19 anos. Herdou de um sapateiro, antigo dono. Tem longa história no local e é muito conhecido. Magro, alto, barba e cabelo longos e brancos, defende com unhas e dentes o seu ponto e se impõe como titular do local. Outras pessoas até podem utilizá-lo, desde que ele não esteja ali. Assim que ele chegar, é preciso partir. Daquele momento em diante ele que vai receber, inclusive dos carros pegos por outro. Mário tem um dos melhores pontos da cidade. A circulação de veículos é alta. Inúmeros prédios comerciais, estabelecimentos, escritórios, bancos, financiadoras, livrarias, sorveterias, restaurantes estão localizados no entorno de seu ponto, o que o torna também cobiçado. Mário, no entanto, garante, caso alguém tente tomar o controle terá que enfrentá-lo em uma batalha em que o mais forte prevalecerá. A luta, no entanto, não era necessária, ele se impunha com firmeza. Sua autoridade, realçada pelas longas e brancas madeixa e barba, inspirava temor.

A experiência de Beto também joga luz nos modos como são definidos os pontos. Ele fazia dinheiro cuidando de automóveis em frente ao Fórum Estadual de Maringá. Algumas vezes o vi trabalhando em baixo de chuva e outras, depois de cuidar de carro, o dia inteiro naquele ponto, depois das 18 horas, estava se dirigindo para outra vaga para continuar o

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trabalho. O único dia de folga era o sábado94. Contou-me que fazia em média oitenta reais por dia. Tratava-se de um espaço de alto fluxo de veículos. Seu ponto, portanto, era muito valioso. Em entrevista, Beto me contou um pouco da dinâmica do seu ponto, como o obteve e quanto ganhava em média:

[eu tiro] uns oitenta [por dia], aquele lá tira [apontando para Augusto, seu irmão e atual dono do ponto] uns cento e oitenta, mas esse é o dia pior. É que ele é mais velho aqui, eu estou com um ano aqui, ele é mais mensalista, quinzenal, entendeu95? Por que quando ele começou aqui, tinha um outro que já fazia muito tempo que estava ali. [...] A primeira vez ele foi e ofendeu uma senhora que não tinha uma moedinha para dar para ele, mulher de um sargento aí de dentro [do fórum]. Dois por dois, saiu para catar o cara. O cara voltou, depois de uma semana começou a voltar, volta daqui, volta dali, voltou. Na segunda vez o que que ele fez? Uma oficial de justiça, de lá do outro lado, foi e deu vinte e cinco centavos para ele, ele pegou o vinte e cinco centavos e jogou na cara dela e falou: “fica de esmola para você”. Pronto [...] a terceira juíza ali, uma pequeninha, desse tamanho assim, mas imagina A JUIZA, não que ela seja ruim, ela é certa, ela é correta, (“valeu fera, vai com Deus” diz se dirigindo a um motorista que sai) a promotora chegou lá e explicou a situação para ela, [...] aí, a juizinha pegou essa promotora e desceu, desceu que desceu fumando, chegou perto – porque a primeira vez meu irmão foi e ainda ajudou a passar um pano para ele – a juizinha chegou perto dele [...] chegou perto dele e falou: “ó, te dou um minuto para você sumir daqui, eu nunca mais quero te ver aqui”. [...] Saiu o sargento aí de dentro e dois seguranças para catar o cara, porque o cara tá com mandato de prisão. Aquele lá ainda foi querer passar um pano na hora, a juíza olhou para a cara do meu irmão e falou: “ó, você volta para o seu serviço porque senão nem você não fica aqui” (Beto, Entrevista, 2015).

Neste caso específico, a definição do ponto tem a participação de um agente externo, a juíza do fórum. Localizado em frente à sede do poder judiciário, é um ponto muito rentável. Beto tem consciência que a abordagem aos motoristas é o segredo do trabalho de cuidador. Também reconhece que a rua é pública e que ninguém é obrigado a pagar por deixar o carro nela. Deste modo, se vale do tato, do respeito, da educação e de palavras corteses. Como é notável no comentário de Beto, a grosseria com os motoristas domiciliados é vista de forma bastante negativa pelos próprios cuidadores e, neste caso, foi punida pela Juíza. Reconhecida como portadora de autoridade, a qual se materializa nas ordens que daria aos sargentos e segurança, faz com que o “dono” do ponto seja expulso do local. Ele tenta voltar, mas novamente pisa na bola e vai para o ostracismo. O irmão de Beto, apesar de participar dos circuitos da vida nas ruas, está domiciliado, herdou o ponto e passou a gerir o local. Concedeu um espaço para Beto e passou a controlar o mercado de guardadores de carros no fórum. Segundo Beto, no dia que ele faz menos, ganha quase duzentos reais. Além das quantias

94 “sábado eu não trabalho, o único dia que eu não trabalho é no sábado, porque no domingo aí eu já tenho que

pegar seis horas da manhã, não, sete horas da manhã aqui na catedral” (Beto, Entrevista, 2015).

95 Refere-se aos clientes fixos de seu irmão, que lhe pagavam por semana, quinzena ou mês para cuidar de seus

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espontâneas que recebe, o rapaz também possui fregueses quinzenais e mensalistas que lhe pagam quantias fixas.