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O OUTRO LADO DA RUA: SOFRIMENTO, VIOLÊNCIA E PRAZER

NAS RUAS

2.1 O OUTRO LADO DA RUA: SOFRIMENTO, VIOLÊNCIA E PRAZER

2.1.1 DIFICULDADES, HUMILHAÇÃO E VIOLÊNCIA

Estar na rua torna o sujeito vulnerável a vários tipos de humilhação, sofrimento e violência. Sejam aquelas dos conflitos internos, sejam os ataques físicos frequentes, por exemplo, de policiais, a expulsão dos lugares onde se encontram ou ainda a violência silenciosa das inúmeras barreiras enfrentadas para atender necessidades cotidianas, como atendimento médico, higiene e abrigo. Haveria que se considerar ainda a violência estrutural, cujas bases encontram-se na produção das desigualdades sociais, da pobreza e sua intersecção com a racialização. A bibliografia tem salientado os processos sociais e raciais mais amplos que produzem uma população às margens do social. Pessoas que vivem nas ruas, são, em sua maioria, sujeitos cujo processo de espoliação social70 – do trabalho, da moradia, da saúde, da educação, dos serviços sociais – chegou a níveis extremos de tal modo que a rua apresentou- se como a única ou, pelo menos, a mais viável alternativa de vida. Com fortes contornos raciais, a pobreza brasileira possui cor claramente definida, o que é expresso na predominância de pretos e pardos vivendo nas ruas, mesmo em uma cidade predominantemente branca, como é o caso de Maringá71, conforme demonstrado no item 1.3.2 do capítulo anterior.

Os processos sociais que produzem a vida nas ruas não são uniformemente interpretados por todos que vivem nas ruas. As inúmeras experiências e os percursos sociais de cada sujeito incidem sobre como tal condição é pensada. Por exemplo, aqueles que realizam uma adesão evangélica mais devota tendem a associar a vida nas ruas a causas

70 Ver Kowarick (2000).

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espirituais e individuais. O que é possível dizer, porém, é que mesmo nas diferentes trajetórias e inscrições sociais, o processo de violação não deixa de ser notado. É o caso, por exemplo, de Carlos72, um rapaz pardo e evangélico, que, durante a visita de um grupo de voluntários, afirmou: “eu sou o reflexo da sociedade”. Ele estava sugerindo que a situação em que se encontrava decorria de processos sociais que o tinha forçado a se estabelecer nas ruas.

Edivaldo, por sua vez, demonstrou ao longo de nossa interação, um tom crítico contra várias instituições. Foi ele quem questionou a afirmativa de que uma mãe que vivia nas ruas drogaria seu filho e quem também pediu mais espaços de fala e de audiências públicas. Não passava despercebido de sua fala também as contradições do sistema político brasileiro, tampouco as falhas dos serviços socioassistenciais. Sua crítica voltava-se especialmente para o albergue e para as comunidades terapêuticas, as quais eram identificadas como voltadas apenas para o lucro. A entrevista com ele possibilitou observar como a experiência de vida nas ruas compreende os processos sociais que os criam. Ele relata uma série de situações de humilhação, de violência e de dificuldades vivenciadas por quem está nas ruas.

Segundo Edivaldo, é comum o sujeito que vive nas ruas estar andando em uma calçada e, ao deparar-se, por exemplo, com uma pessoa varrendo a calçada, esta pessoa imediatamente entrar para o interior do quintal e trancar o portão. Haveria, de acordo com ele, uma generalização feita por algumas pessoas, as quais leriam todos que estão na rua da mesma forma, associando-os ao perigo e tratando-os como “bichos” e “usuários de drogas”. Por outro lado, ele destaca que nem todos se portam de tal maneira. Se há aqueles que os discriminam, também há os que os acolhem com atenção. Ele exemplifica relatando conhecer vários empresários que, sempre que procurados por ele, o tratam muito bem e até o põem para comer à mesa com eles. Então, conclui: “tem aqueles que veem com mais preconceito e outros com mais respeito” (Entrevista, 2015).

A violência física é uma experiência frequente na vida de quem vive nas ruas. Na introdução desta tese trouxe o receio de Wilson em participar da audiência pública em temor de futuras represálias polícias. Tratava-se de uma violência política cuja expectativa de acontecer já produzia certo silenciamento. Além dela, é possível observar uma violência pré- política, que acomete e naturaliza a agressão dos corpos e no limite desqualifica a própria vida

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Carlos foi umas das pessoas vivendo nas ruas com quem tive contato que faleceu. Ele era cadeirante e foi morto queimado quando o local em que estava foi incendiado. Morreu próximo a sua cadeira, sem poder se locomover.

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das pessoas que estão nas ruas, muitas vezes tida, para usar a expressão de Melo, como “indigna de ser vivida” (2017, f. 128)73

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Se há processos de violência, há também saberes desenvolvidos para os enfrentarem, os quais os retiram de uma condição de submissão e passividade. Ao ser indagado se já sofreu violência física, Edivaldo responde que: “pela polícia sim, por morador de rua não, porque se o cara bater ele vai levar também, então é automático, é toma lá dá cá” (Entrevista, 2015). Ele identifica um modus operandi de quem pratica violência, que não seria realizada indiscriminadamente contra todos que vivem nas ruas. Segundo Edivaldo, tanto a violência cometida por grupos de perseguição às pessoas que vivem nas ruas, quanto por policiais são feitas seletivamente, focando especialmente os mais frágeis. Edivaldo, assim como outros interlocutores, garantem “que não é todos que eles pegam, eles veem onde eles entram” (Entrevista, 2015) e acabam se aproveitando dos mais fracos, por isso, um adjetivo muito recorrente para se referir aos policiais é o de covarde. Segundo Edivaldo, eles visam “os mais humildes” e “não saem batendo em qualquer um pela rua, ce tá entendendo, eles sabem quem é quem. Ele fala assim, „se eu bato nesse cara, amanhã ele pode querer meter uma bala na minha cabeça‟. E é fácil demais matar um polícia74” (Edivaldo, Entrevista, 2015).

Seu relato elucida parte da vulnerabilidade de quem vive nas ruas e está sujeito a ser agredido. Tal experiência impulsiona um saber que o guia nas escolhas dos abrigos, de modo que evita dormir nos chamados mocós e praças. Com sono leve, herança do período que passou na cadeia, busca ser bastante criterioso na escolha e prefere lugares em que passa gente, mas que não o vejam. Rejeita casas abandonadas porque tais lugares não têm por onde sair em caso de emergência:

Porque se entra vagabundo você sai no braço com o cara, mete a faca para cima, mete a paulada, vai de tudo aí. Mas agora a polícia é covarde, parceiro. [...] Estava dormindo dentro dum [mocó], lá no posto mil e quinhentos, a polícia entrou lá dentro, pegou o Marquinho, o cara trabalhando, ele estava na rua, ele arrumou um serviço lá na INCOR, trabalhando na COCAMAR pela INCOR, registrado, com

73 A desumanização da vida de pessoas que vivem nas ruas ganha contornos explícitos em situações como a do

assassinato do índio Galdino. Um dos assassinos teria justificado o ato com a alegação de que não sabia se tratar de um indígena, mas de um “mendigo qualquer” (MELO, 2017, f. 129). Outro caso em que o descarte da vida de pessoas vivendo nas ruas ficou evidente foi o Massacre da praça da Sé ocorrido entre os dias 19 e 22 de agosto de 2004. Quinze pessoas foram golpeadas na cabeça e sete delas morreram. Este massacre é apontado como um marco para a constituição do Movimento Nacional da População de Rua. Segundo Melo, “O Massacre da Praça da Sé é representado pelos porta-vozes do MNPR como um evento traumático, considerado terrível, que deixa marcas na memória e transforma a identidade de maneira irrevogável. Fato através do qual o coletivo emerge e insufla o estabelecimento de relações de solidariedade entre os indivíduos, instigados a compartilhar esse sofrimento em comum, constantemente atualizado frente os desafios políticos do presente.” (2017, f. 114).

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Ele exemplifica: “meu sobrinho entrou lá em Umuarama lá, entrou dentro da casa do sargento e matou ele deitado, matou ele dentro da casa, na cama, entendeu, pegou ele de costa deu um tiro na nuca. Então não é difícil matar, entendeu?” (Edivaldo, entrevista, 2015).

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camisa da firma, crachá e tudo, e a polícia quebrou dois cabos de vassoura no lombo dele, entendeu? (Entrevista, 2016).

Embora Edivaldo atribua peso importante para a violência policial, outras formas de agressão corporal estão presentes no cotidiano da vida nas ruas, em muitos casos custando a própria vida, como foi o caso de Josivaldo, que foi morto incendiado. Não cheguei a conhecê- lo, mas meus interlocutores me garantiram tratar-se de um andarilho75 que estava na região da catedral há dezenove anos. O descreveram como uma “pessoa simples”, que “não mexia com ninguém” e que foi atacado covardemente. Segundo Beto, o falecido era “[...] gente boa para caramba, não enchia o saco de ninguém” (Beto, Entrevista, 2015). Ele explica as circunstâncias:

E o pior da coisa que eu conhecia o moleque, o rapaz, que matou ele, que tacou fogo, um negão, grandão [...]. Aí ele foi na biqueira76 pegar uma droga. Aí o dono da droga falou: “te dou tanto para você ir e tocar fogo em tal fulano” [...]. Aí ele foi, está feito, veio no centro, inclusive ele descobriu [...] a cara de um, viu que não era – mas não era o Josivaldo também que era para ele ter queimado – aí descobriu, cobriu de novo, não, não é. Aí desceu, no que desceu viu o outro, que era o Josivaldo, tacou gasolina e álcool e puff, tocou fogo. No que ele tacou fogo, ele voltou na biqueira para pegar o dele, pegou o dele. Aí no outro dia saiu o comentário, tinha tocado fogo, papapabababa. Aí o dono da biqueira ficou sabendo que tinham tocado fogo, mas tocaram fogo no cara errado. Quer dizer, o cara que pagou para o cara tocar fogo quer pegar ele porque ele, peraí, tacou fogo no cara errado e veio aqui e pegou o dinheiro (Beto, Entrevista, 2015).

Esta foi a única morte na rua que tive contato durante o período que permaneci em campo, porém, logo após o encerramento do trabalho de campo, soube das mortes de Vilmar e Gustavo. Suas mortes, juntamente com a do marido de Nara e mais recentemente a de Carlos, me causaram muita surpresa, dor e inquietação. Vilmar morreu em decorrência das complicações de uma pneumonia, certamente favorecida pelas condições de vida e salubridade precárias das ruas. Gustavo foi assassinado em uma cidade próxima a Maringá. O marido de Nara sofreu um mal súbito e morreu nas ruas de Maringá antes de ser atendido. Carlos morreu em um incêndio. A violência, seja aquela do ataque físico, seja aquela da humilhação, do desprezo, das expulsões e das precárias condições, atravessam a vida dos meus interlocutores. Seja pelas agressões por membros de circuitos marginalizados, como traficantes, seja por pessoas domiciliadas ou policiais, a violência acompanha suas vidas e, como destacado acima, é necessário desenvolver formas de viver e resistir a ela. Além disso, barreiras são enfrentadas no acesso aos serviços socioassistenciais. O preconceito e

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Andarilho e trecheiro são expressões utilizadas para designar aqueles que circulam pelo mundo. Mas não se tratando de categorias muito rígidas, também eram atribuídas àqueles moradores de rua fixados em Maringá.

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discriminação que estigmatiza pessoas que vivem nas ruas, associando-as ao perigo, ao uso de

drogas, à indigência e à desumanização77, são causas de sofrimento.