3 HERMENÊUTICA CIVIL CONSTITUCIONAL DA FAMÍLIA
3.1 Histórico da família nas Constituições brasileiras
3.1.6 A Constituição de 1967 e a Emenda Constitucional n.1, de
A despeito de várias crises políticas, a Constituição de 1946 perdurou até 1961, ano em que passou a sofrer várias emendas. Foram 21 delas e 37 atos complementares; 6 das emendas se deram antes da Revolução de 1964.
Em 31 de março de 1964, com a retirada do presidente João Goulart, sucessor do presidente renunciante Jânio Quadros, um novo presidente foi eleito pelo próprio Congresso, o Marechal Castelo Branco.
Nesse momento, instaura-se uma ordem revolucionária no Brasil, que suplantou a Constituição de 1946, com a edição de 4 atos institucionais, com a finalidade de consolidar o regime estabelecido pela revolução, fortalecendo o Poder Executivo e colocando barreiras para a expansão da esquerda.69
Diante de tantas alterações, que acabou desconfigurando por inteiro a antiga Constituição, surgiu a necessidade de um novo texto constitucional. Por meio do Decreto n. 58.198/1966 foi nomeada uma comissão de jurisconsultos, sob o comando de Levi Carneiro, que redigiu o anteprojeto da nova Carta.70
O Congresso Nacional foi convocado extraordinariamente de 12/12/1966 a 24/01/1967 para discutir e votar o projeto elaborado pelo governo, que foi aprovado em clima de pressão e autoritarismo. Promulgada em 24/01/1967, a Constituição só entrou em vigor, por força de seu artigo 189, em 15 de março daquele ano. Embora fosse um texto claro e preciso, sem contradições internas, apesar dos traços que refletiam o regime militar que o ditara, foi veementemente atacada pela oposição, sob a alegação de que tinha um “defeito de origem”.71
Segundo José Afonso da Silva, sofreu influência da Constituição de 1937, cujas características assimilou. Reduziu a autonomia individual, no que se revelou mais autoritária do que as anteriores, exceto a de 1937, não permitindo a suspensão de direitos e de garantias constitucionais.72
A família continuou sendo aquela oriunda do casamento civil e religioso com efeitos civis depois de inscrito no Registro Público, indissolúvel e com direito à proteção dos Poderes
69 FERREIRA, Luís Pinto. Curso de direito constitucional. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 1999, p. 61. 70
COELHO, Bernardo Leôncio Moura. A proteção à criança nas Constituições brasileiras: 1824 a 1969. Revista de
Informação Legislativa, Brasília, n. 139, jul.-set., 1998, p. 106.
71
CRETELLA JÚNIOR, José. Comentários à Constituição de 1988. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 42.
72 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 28. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 87. No mesmo sentido: BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra da Silva. Comentários à Constituição do Brasil. v. 1. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 320-321.
Públicos, como se depreende do artigo 167 da Constituição, encartado no Título IV – Da família, da educação e da cultura.73
A Emenda Constitucional n. 1, de 17/10/1969 não alterou o disposto no referido artigo 167, mas cabe aqui, brevemente, o registro de uma divergência doutrinária: emenda constitucional ou nova Constituição. Celso Ribeiro Bastos74 entende tratar-se de uma emenda, embora reconheça a pequena relevância da questão. Já Marcelo Caetano75 prefere denominá- la de Constituição 1967-1969, pois considera que a Constituição continuava a ser a de 1967. Paulino Jacques76, por sua vez, afirma que, sob o ponto de vista formal, houve emenda na Constituição de 1967, do ponto de vista substancial, a Junta Militar outorgou uma nova Constituição ao país.
Em que pese tal divergência doutrinária, a partir de 17/10/1969, iniciou-se a mais autoritária fase da história constitucional brasileira. A despeito da existência de longa enumeração dos direitos individuais no artigo 153, havia, em contrapartida, poderes supressivos desses direitos.
Digna de nota, aqui, é a Emenda Constitucional n. 9, de 1977, que instituiu o divórcio. O casamento até então firmado como indissolúvel no ordenamento jurídico pátrio, verdadeiro resquício colonial das Ordenações do Reino – as quais, impregnadas pelo direito canônico, consideravam o casamento um sacramento – deixou de sê-lo. Neste primeiro momento, várias as restrições impostas para se alcançar o divórcio, o que amenizou a ira de setores mais conservadores da sociedade, especialmente aqueles ligados à Igreja Católica.
A dissolução do casamento só era possível após prévia separação judicial por mais de 3 anos ou prévia separação de fato por mais de 5 anos, desde que iniciada antes da data em que promulgada a emenda. O divórcio só poderia ser requerido uma única vez. A Emenda Constitucional n. 9/1977 permitiu a aprovação, no mesmo ano, da Lei n. 6.515/1977, a chamada Lei do Divórcio, que disciplinou a matéria no âmbito da legislação civil e processual civil, promovendo as necessárias alterações no Código Civil de 1916 e no Código de Processo Civil de 1973.
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Artigo 167. A família é constituída pelo casamento e terá direito à proteção dos Poderes Públicos. § 1º – O casamento é indissolúvel. § 2º – O casamento será civil e gratuita a sua celebração. O casamento religioso equivalerá ao civil se, observados os impedimentos e as prescrições da lei, assim o requerer o celebrante ou qualquer interessado, contanto que seja o ato inscrito no Registro Público. § 3º – O casamento religioso celebrado sem as formalidades deste artigo terá efeitos civis se, a requerimento do casal, for inscrito no Registro Público mediante prévia habilitação perante a autoridade competente. § 4º – A lei instituirá a assistência à maternidade, à infância e à adolescência.
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BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de direito constitucional. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 1997, p. 139.
75 CAETANO, Marcelo. Direito constitucional. 2. ed. v.1. Atualizado por Flávio Bauer Novelli. Rio de Janeiro: Forense, 1987, p. 601.
3.1.7 A Constituição de 1988
Apenas a partir de 1985, deflagra-se o processo de democratização, buscando restaurar as liberdades públicas no país, semeando campo próprio para a promulgação da nova ordem constitucional, em 05 de outubro de 1988.77
José Afonso da Silva sintetiza a Carta de forma bem esquemática:
Sua estrutura difere das constituições anteriores. Compreende nove títulos, que cuidam: 1) dos princípios fundamentais; 2) dos direitos e garantias fundamentais, segundo uma perspectiva moderna e abrangente dos direitos individuais e coletivos, dos direitos sociais dos trabalhadores, da nacionalidade, dos direitos políticos e dos partidos políticos; 3) da organização do Estado, em que estrutura a federação com seus componentes; 4) da organização dos poderes: poder legislativo, poder executivo e poder judiciário, com a manutenção do sistema presidencialista, derrotado o parlamentarismo, seguindo-se um capítulo sobre as funções essenciais à Justiça, com ministério público, advocacia pública (da União e dos Estados), advocacia privada e defensoria pública; 5) da defesa do Estado e das instituições democráticas, com mecanismos do estado de defesa, do estado de sítio e da segurança pública; 6) da tributação e do orçamento; 7) da ordem econômica e financeira; 8) da ordem social; 9) das disposições gerais. Finalmente, vem o Ato das Disposições Transitórias. Esse conteúdo distribuído por 245 artigos, na parte permanente, e mais 70 artigos na parte transitória, reunidos em capítulos, seções e subseções.78
No Título VIII – Da Ordem Social, abre-se o Capítulo VII Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso. Nesse capítulo, em seu artigo 226, afirma-se que a família é a base da sociedade e tem especial proteção do Estado. Reafirma-se que o casamento é civil e que nos termos da lei o casamento religioso tem efeitos civis e pode ser dissolvido pelo divórcio, nos parâmetros estabelecidos no § 6º, vale dizer, depois de um ano de separação judicial ou de dois anos de separação de fato.79
Até aí, nenhuma grande novidade. Novidade mesmo foi o reconhecimento, ainda no artigo 226, como entidade familiar, da união estável e da comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes, conhecida como família monoparental.80
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A respeito do processo de democratização, pontua José Afonso da Silva: “A luta pela normalização democrática e pela conquista do Estado de Direito Democrático começara assim que instalou o golpe de 1964 e especialmente após o AI-5, que foi o instrumento mais autoritário da história política do Brasil. Tomara, porém, as ruas, a partir da eleição de governadores em 1982. Intensificaram-se, quando, no início de 1984, as multidões acorreram entusiásticas e ordeiras nos comícios em prol da eleição direta do Presidente da República, interpretando o sentimento da vida nacional, que só poderia consubstanciar-se numa nova ordem constitucional que refizesse o pacto político-social.” (SILVA, José Afonso da. Curso de direito
constitucional positivo. 28. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 88).
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SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 28. ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 91-92 (destaques do autor).
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Por força da Emenda Constitucional n. 66, de 13.07.2010, foram abolidos quaisquer requisitos para o divórcio. Este deixou de ser um direito subjetivo comum e passou a ser um direito potestativo, contra o qual nem o outro cônjuge nem o Estado- juiz podem se opor.
80 Artigo 226, § 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento; § 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.
Abaixo analisaremos o impacto da nova ordem jurídica trazida pela Constituição Federal de 1988 na família.