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Poliamor: origem, conceito, espécies e filosofia

5 A POLIAFETIVIDADE COMO HIPÓTESE DE FORMAÇÃO DE FAMÍLIA NO DIREITO BRASILEIRO

5.2 Poliamor: origem, conceito, espécies e filosofia

As alterações na vida íntima das pessoas têm se feito sentir mais fortemente a partir da segunda metade do século XX, vez que brutal e contínuo o processo de questionamento e ruptura dos preceitos patrimonialistas e patriarcais da instituição familiar. A família, então ambiente de reprodução e de conservação da espécie e de seu patrimônio, sujeito per si de direito, sofre uma alteração paradigmática, tornando-se um espaço de realização e de satisfação do ser humano em sua dignidade, com caráter instrumental, à qual as pessoas aderem com base num sentimento de afeto e respeito mútuos.

Nesse contexto emerge o poliamorismo, que abre uma nova dimensão para o entendimento e a prática de relacionamentos íntimos, sexuais e/ou amorosos.

Etimologicamente, a palavra poliamor se divide entre a origem grega poli – muitos ou vários e o latim amore – amor, isto é, vários amores ou amor por várias pessoas. Para a filosofia poliamorista, amar única e exclusivamente uma só pessoa pelo resto da vida é algo inconcebível, pois o amor não deve excluir o mundo ou as pessoas.

Importa aqui fazer um recorte, pois antes de falarmos sobre vários amores (poliamorismo), julgamos necessário compreender a concepção social do amor. De fato, o amor também pode ser visto como uma construção social, como produto e reflexo de certa época e sociedade. A partir desse viés, ao longo da história, observamos que o amor trafegou da idealização para a vigilância, depois para a ridicularização, e retornou à idealização, conforme sintetizam Tatiana Spalding Perez e Yáskara Arrial Palma.315

A Idade Média é marcada pelo amor cortês dos trovadores com ares de idealização e intangibilidade. É a primeira manifestação do amor como relação pessoal. No Renascimento

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SILVA, Marcos Alves. Conjugalidade sem casamento. A genealogia do concubinato no Brasil: demarcações para superação de um lugar de não direito. Disponível em: http://www.publicadireito. Acesso em: 16 abr. 2019.

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PEREZ, Tatiana Spalding; PALMA, Yáskara Arrial. Amar amores: o poliamor na contemporaneidade. Psicol.

popularizou-se o casamento religioso, ensaiando-se uma tentativa de aproximar o amor ao espírito e à matéria, fortalecendo uma vigilância moral e marcando o casamento como negociação. Na Idade Moderna, Igreja e Medicina buscaram apartar amizade e paixão. Aquela direcionada ao casamento e esta, pathos, próxima à loucura. O Iluminismo com suas luzes voltadas à razão, passou a ridicularizar o amor, que era considerado um passatempo, uma prática de sedução indispensável ao cortejo das mulheres. No século XIX, o amor retornou à idealização, ao romantismo, como um contraponto à racionalização excessiva apregoada pelo Iluminismo. O casamento, o encontro do par, se torna condição de felicidade, passando a ser moralmente reprovável se realizado por interesse econômico. A mulher exuberante é substituída pela virginal, voltada a esse amor casto e possível para todos, ainda que no mundo dos sonhos, estimulado pela literatura de então.

Nasce o mito do casamento estável e duradouro, no qual o papel do homem e da mulher é bem definido. Neste ideal de família burguesa, os homens ganham poder sobre as mulheres, tornando-se os patriarcas. A escolha do cônjuge lhes cabe e, para serem escolhidas, as mulheres devem se manter castas, já que a virgindade passa a elevar seu status, transformando-se mesmo em um objeto de valor econômico e político. A família monogâmica é indispensável para garantir a transmissão da herança advinda da acumulação de riquezas do sistema capitalista.

Na primeira metade do século XX, diante da insegurança gerada pela velocidade das modificações sociais, após a industrialização, o amor se torna a cura para todos os males e o casamento por conveniência vergonhoso. Calcula-se que, a partir da década de 1940, a maioria das pessoas já se casava por amor. Intensifica-se, assim, a ideia de que para cada pessoa existe um par à sua espera para viverem “felizes para sempre”. Entretanto, esse par só poderia ser de sexo diferente, pois apenas a família heterossexual era concebível.

A segunda metade do século XX, iniciada na década de 1950, foi também marcada pelo conservadorismo, com papéis de gênero bem definidos e ideais domésticos romantizados. Buscava-se recolocar a vida no lugar, após o impacto causado pela Segunda Guerra Mundial. Não era o momento para maiores questionamentos. Já entre as décadas de 1960 e 1970, tem lugar a revolução sexual. Ativada pelo surgimento da pílula anticoncepcional e pela inserção da mulher no mercado de trabalho, que permitiu movimentos de emancipação feminina, a livre expressão da sexualidade guardava ideais políticos,

libertários e igualitários, abrindo espaço para as relações homoafetivas.316

Sob essa perspectiva, casamento e vida familiar deveriam ser substituídos por relações novas, mais pessoais, expressões de amor e encontros sexuais, libertos da moralidade da Igreja e do Estado. Identifica-se a substituição da moral e dos bons costumes pela decisão pessoal, permitindo o questionamento de algumas normas do amor até então atuantes.

O amor romântico começa a sair de cena, levando consigo a ideia de exclusividade. Entre as diversas alternativas surgidas, emerge a possibilidade de se amar e de se relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Nesse ambiente, surge o poliamor, fruto do entendimento de que o amor não pode ser forçado, direcionado ou impedido de ser sentido.

O poliamor, de fato, encerra uma forma de não monogamia consentida por todos os envolvidos, cujo ideal repousa numa multiplicidade de sentimentos, que podem ser desenvolvidos com vários parceiros. As relações poliamorosas se configuram de modo distinto das relações monogâmicas, uma vez que elas se estabelecem entre no mínimo três pessoas, com o consentimento e ciência de todas as pessoas envolvidas.

Para a filosofia poliamorista, amar única e exclusivamente uma só pessoa por toda a vida é algo inconcebível; o amor não deve excluir o mundo ou as pessoas. O poliamor busca romper a ideia de propriedade e de exclusividade presentes nas relações monogâmicas.

O conceito pressupõe a liberdade e a honestidade dos seus membros, apresentando regras, linguagem e símbolos próprios. De fato, seus adeptos tendem a cultivar princípios que são norteadores dessa prática: honestidade e consenso, principalmente.

A origem do poliamor como identidade relacional é uma construção muito recente, da década de 1990, muito embora a teoria e a prática intencional de relacionamentos não monogâmicos tenha se desenvolvido desde o início do século XX, seja sob a onda feminista para permitir um maior domínio sobre a sexualidade e a reprodução, seja como fruto de uma variedade de movimentos sociais baseados na luta por direitos, que ampliaram o conhecimento sobre gêneros e sexualidade.

Alfred Charles Ward, em sua obra Ilustrated history of english literature, de 1953, guarda o primeiro registro bibliográfico da palavra “poliamor” ao descrever o rei inglês Henrique VIII, que protagonizou seis casamentos, como uma pessoa poliamorista, ou seja, que amava várias pessoas. Porém, o termo cunhado, ao se referir ao monarca, não encerrava

316 No final dos anos 1960, surge o movimento homossexual no Brasil, mas apenas em meados dos anos 1980 a homossexualidade deixou de ser considerada como “desvio” e foi retirada do Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders (DSM III) ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

exatamente o sentido empregado atualmente, eis que ausente a simultaneidade nessas relações.317

Em 1969, na obra Hind’s kidnap, do escritor americano Joseph McElroy, a palavra “poliamorosa” foi empregada associada ao fim da instituição familiar. Em 1971, Joséphine Grieder, na publicação XVIIe Siècle, afirmou: “ser politeísta é ser poliamoroso”. Harold Hart, um ano depois, em seu livro Marriage: for & agains afirma parecer óbvio que as pessoas são, comumente, poliamorosas em suas relações.318

Outras menções ao poliamor foram feitas nas décadas de 1970 e 1980, mas apenas em 1990 o movimento poliamoroso, pregando o direito e o respeito às relações amorosas e sexuais com mais de uma pessoa simultaneamente, passou a ter notoriedade, particularmente nos Estados Unidos, no contexto da Igreja de Todos os Mundos (Church of all worlds), um grupo neopagão originado a partir da obra de ficção Um estranho numa terra estranha, de Robert Heinlein, acompanhado de perto pelo Reino Unido e Alemanha. Essa a primeira corrente do poliamorismo, notadamente relacionada a valores espiritualistas.319

Outra corrente do poliamor possui um cunho marcadamente menos religioso e transcendentalista, mais preocupada em resolver os problemas surgidos nas relações monogâmicas consensuais da sociedade ocidental.320 Aqui, cunha-se o termo poliamor como forma de afastá-lo da negatividade trazida pela denominação de relação não monogâmica, como forma de desvinculá-lo a uma oposição direta à monogamia.

A existência dessas correntes influencia, até mesmo, a esparsa literatura sobre o tema, mais voltada à autoajuda e ao plano esotérico, em ambos os casos, dedicados à capacidade individual de mudanças, desprovidos de críticas às estruturas de poder sobre etnia, gênero, sexualidade e classe.321 Por outro lado, há aqueles que buscam construir um grupo de identidade com discurso politizado, socialista e feminista, focado na igualdade, também com vistas à legalização da união poliamorosa. Em sentido oposto, registre-se, há os que

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CARDOSO, Daniel. Amando vári@s – individualização, redes, ética e poliamor. Dissertação. Mestrado em Ciências da Comunicação. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade de Lisboa, 2010, p. 19.

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CARDOSO, Daniel. Amando vári@s – individualização, redes, ética e poliamor. Dissertação. Mestrado em Ciências da Comunicação. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade de Lisboa, 2010, p. 9-10.

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Igreja de Todos os Mundos é um movimento neopagão criado pelo casal de norte-americanos Oberon e Morning Glory Zell-Ravenhart, em 1962. Surgiu a partir de um grupo de amigos inspirados em uma religião de mesmo nome descrita na obra de ficção científica Stranger in a strange land – título em português Um estranho numa terra estranha – de Robert A. Heinlein, que conta a história de um humano criado por habitantes de Marte, que ao ser trazido à Terra, entra em contato pela primeira vez com seus iguais e se esforça para entender os costumes, a moral e as regras sociais que definem terráqueos. Dentre os diversos tópicos de discussão, o amor livre se destaca, pois em Marte o poliamor era entendido como aquela condição na qual a felicidade de outra pessoa é essencial para a sua própria felicidade. (Disponível em:

https://www.megacurioso.com.br/estilo-de-vida/104616-9-movimentos-espirituais-que-existem-no-mundo-e-que-voce- talvez-desconheca.htm. Acesso em: 16 abr. 2019).

320 CARDOSO, Daniel. Amando vári@s – individualização, redes, ética e poliamor. Dissertação. Mestrado em Ciências da Comunicação. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade de Lisboa, 2010, p. 9-10.

simplesmente embora também não monogâmicos, criticam os poliamoristas, que buscam uma identidade, defendendo uma política anarquista (querer), com discurso focalizado nas “diferenças”.322

Importa dizer que a prática, em si, de relações não monogâmicas de forma consensual não é algo recente. Antes, remonta há séculos. Não é possível sequer identificar a origem desse comportamento humano. A natureza humana é sem dúvida uma potencialidade. Entretanto o contorno de tal comportamento, sua identificação com o que se denomina poliamor, se fortalece na década de 1990. A partir daí as uniões vêm se consolidando ao longo do tempo.

As relações poliamorosas carregam o ideal de se admitir uma multiplicidade de sentimentos, que se desenvolvem com vários parceiros, indo além da relação sexual. O poliamor busca romper a ideia de propriedade e de exclusividade presentes nas relações monogâmicas.

De fato, um dos aspectos fundamentais no relacionamento poliamoroso está no amor, na afetividade e não no sexo, tal qual acontece nos movimentos de libertação sexual como amor livre, casamento aberto, swing, etc. Daí não se confundir com as demais formas de relacionamento não monogâmicos com as quais é frequentemente associado. No poliamor permite-se relacionamentos afetivos com duas ou mais pessoas simultaneamente com o consentimento de todas. Há regras e apelo à igualdade de sentimentos entre os envolvidos. A relação livre implica na ausência de regras. A pessoa é livre para se relacionar afetivamente/sexualmente com quem quiser. Na relação aberta os membros de um casal permitem a existência de relações com outras pessoas, geralmente só sexuais e não afetivas, longe da presença do outro membro. O swing diz respeito apenas à prática sexual. Um casal monogâmico tem relações com outro casal, sempre juntos ou com troca de esposa/marido no sexo.323

A psicanalista Regina Navarro Lins, referência nacional no assunto, assim percebe o poliamor:

Os poliamoristas argumentam que não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo fato de ter essa possibilidade sempre em aberto, mas, sim, de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente. O poliamor pressupõe uma total honestidade no seio da relação. Não se trata de enganar nem de magoar ninguém. Tem como princípio que todas as pessoas envolvidas estão a par da situação e se sentem à vontade com ela. A ideia principal é admitir essa variedade de

322 PILÃO, Antônio Cerdeira; GOLDENBERG, Mirian. Poliamor e monogamia: construindo diferenças e hierarquias.

Revista Ártemis, v. 13, jan.-jul., 2012, p. 67.

sentimentos que se desenvolvem em relação a várias pessoas, e que vão além da mera relação sexual, explica um adepto dessa prática amorosa.324

Entende a psicanalista, ainda, que uma das formas de poliamor é aquela em que “uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais.”325

Para alguns, esta seria a chamada relação poliamorosa “V”, na qual uma das pessoas, denominada “vértice”, se relaciona com as outras duas, no entanto, estas não mantém relacionamento entre si.326 O relacionamento assim estruturado pode ser visto, no campo do direito, como “família simultânea ou paralela”, com as ressalvas necessárias ao seu perfilhamento. Afinal, não é qualquer relação extraconjugal que é vista como apta à pretensa caracterização como entidade familiar.

As formas de poliamorismo realmente são muitas. Para além da monogamia, a multiplicidade de parceiros e conformações não encontra limites. As comunidades virtuais são hoje as responsáveis por criar novas terminologias, como as relações triângulo ou tríade, na qual todos os envolvidos se relacionam igualmente; relações “V”, onde uma pessoa tem relacionamento com as outras duas (pivô), mas essas outras duas não mantém relação entre si (braços); relações em formato “T”, quando o relacionamento é mais forte entre dois dos componentes, geralmente entre o casal, que agrega a terceira pessoa. As relações envolvendo quatro membros podem ser em forma de “N”, que envolvem dois homens e duas mulheres, mas apenas elas (ou eles) possuem relacionamento entre si; em forma de quarteto, onde pode existir relação entre duas ou mais pessoas do grupo; e relações em forma de quadrado, quando todos se relacionam diretamente, homens ou mulheres, geralmente bissexuais.327

Há também configurações poliamorosas mais complexas, com mais parceiros, sendo polécula o nome dado a essas diversas possibilidades, como relações formadas a partir das letras F para feminino e M para masculino. Uma relação F x M x M x F ocorre quando as mulheres se relacionam cada uma com um homem, e estes se relacionam entre si. No formato F x M x F x M, os homens se relacionam com as duas mulheres e não há relações homossexuais. Outros formatos possíveis são o M x M x F x F e o M x F x F x M. Enfim, caminham quase ao infinito as possibilidades. A par disso, é possível falar em certa hierarquia nas relações estabelecidas, ao identificar uma relação primária e outra secundária. A primeira, como o nome sugere, é a relação base, estabelecida por um casal antes de assumir a

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LINS, Regina Navarro. A cama na varanda. Arejando nossas ideias a respeito de amor e sexo. Rio de Janeiro: Best Seller, 2007, p. 339-340.

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LINS, Regina Navarro. A cama na varanda. Arejando nossas ideias a respeito de amor e sexo. Rio de Janeiro: Best Seller, 2007, p. 339-340.

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Disponível em: https://poliamorlibertaria.wordpress.com/2018/03/08/tipos-de-poliamor. Acesso em: 16 abr. 2019. 327 Disponível em: https://poliamorlibertaria.wordpress.com/2018/03/08/tipos-de-poliamor. Acesso em: 16 abr. 2019.

perspectiva poliamorista. Já a relação secundária, é aquela estabelecida pela inclusão de novos parceiros. Todos podem ou não coabitar, dependendo do quanto pactuado.328

Para mais, Antônio Cerdeira Pilão e Mirian Goldenberg colhem outras denominações dadas às variações poliamoristas: a) casamento em grupo ou relação em grupo, quando todos os membros têm relações amorosas entre si; b) rede de relacionamentos interconectados, quando cada um tem relacionamentos poliamoristas distintos dos parceiros – ou seja – os namorados de uma pessoa não o são entre si; c) as relações mono/poli, quando um dos parceiros é poliamorista e mantém outros relacionamentos e o outro é monogâmico. Destacam, outrossim, que esses três modelos podem se apresentar de forma “aberta”, quando há possibilidades de novos amores, ou “fechada”, quando praticada a polifidelidade, restringindo as experiências amorosas.329

Também Sandra Elisa de Freire citando Weitzman Davidson e Phillips330 afirma que o poliamor pode se expressar em diversas configurações: a) primário – casal em uma relação primária concorda em buscar outros relacionamentos, podendo desenvolver relações profundas e sérias ou terem amantes ocasionais; (b) tríade – três pessoas desenvolvem uma relação de compromisso íntimo. É mais frequentemente formada quando um casal já existe e inclui uma terceira pessoa; e (c) casamento grupal ou polifamília – três ou mais pessoas formam um coeso sistema de relacionamento íntimo. Eles podem ter exclusividade sexual entre os participantes do grupo (isto é chamado polifidelidade) ou podem concordar com as condições em relação a ter parceiros fora do grupo. Ainda, (a) poli solteiros – pessoas que não estão envolvidas em qualquer relacionamento, mas acreditam no conceito de poliamor, e nutrem a esperança de incorporá-lo nos relacionamentos futuros que possam ter; (b) família

expandida ou intencional– relação em que três ou mais parceiros conscientemente escolheram

uns aos outros como família, podendo ou não viver juntos, possuindo a liberdade de se relacionarem sexualmente com todos os membros envolvidos; entretanto, este não é um requisito.331

A utilidade das classificações trazidas será sentida mais adiante; sobre a não monogamia como hipótese de formação da família poliafetiva, deixamos apenas o registro.

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Disponível em: https://poliamorlibertaria.wordpress.com/2018/03/08/tipos-de-poliamor. Acesso em: 16 abr. 2019. 329

PILÃO, Antônio Cerdeira; GOLDENBERG, Mirian. Poliamor e monogamia: construindo diferenças e hierarquias.

Revista Ártemis, v.13, jan.-jul., 2012, p. 64.

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FREIRE, Sandra Elisa de Assis; GOUVEIA, Valdiney Veloso. Poliamor: uma forma não convencional de amar. Disponível em: http://www. e-revista.unioeste.br/index.php/tempodaciencia/article/view/18965. Acesso em: 16 abr. 2019; WEITZMAN, G; DAVIDSON, J.; PHILLIPS, Jr., R. A. What psychology professionals should know about polyamory. New York: National Coalition for a Sexual Freedom Inc., 2009.

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FREIRE DE SÁ, Maria de Fátima. Monoparentalidade e biodireito. In: (coord.) PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Afeto,

O poliamor abandona completamente o ideal de amor romântico monogâmico, no qual duas pessoas se completam, mas nem por isso é desprovido de regras e limites e deve ser visto como uma relação “evoluída” e sem ciúmes, tampouco como “patogênica” e “imoral.” Nesse sentido, Antônio Cerdeira Pilão:

Para que o projeto de “honestidade” poliamorista se estabeleça é necessário que o ideal romântico de dois sujeitos se completando seja desfeito. Uma comunicação “sem barreiras” pressupõe que não seja esperado ser o único amado do parceiro – parece ser esse o principal divisor entre o poliamor e a monogamia: a legitimação de múltiplos vínculos íntimos e profundos.332

De fato, os adeptos do poliamorismo tendem a cultivar princípios norteadores para tal prática. O poliamor pressupõe consentimento de todos os envolvidos, transparência, colaboração, solidariedade – deveres anexos à boa-fé objetiva.

No fundo, há pontos de convergência entre monogamia e poliamor. Ambos guardam o ideal do amor romântico, em relação à escolha dos pares, a associação amor e sexo e também o estabelecimento de um regramento intersubjetivo de confiança recíproca. Se por um lado a pessoa parece livre para amar quem lhe aprouver, ela esbarra nos acordos estabelecidos nos relacionamentos que restringem de algum modo essa liberdade.

Outrossim, ao contrário do que parece, o poliamor não é desprovido de ciúmes, pois não há no mundo quem não tenha inseguranças, muito embora seus adeptos tenham cunhado o termo compersão (compersion), para um sentimento contrário ao ciúme; sentimento de que todos podem se beneficiar com a felicidade do parceiro. Embora antagônicos, acreditam os poliamoristas que os dois sentimentos podem estar presentes simultaneamente na relação.

O mundo passa por constantes transformações sociais e o poliamor se coloca como uma nova escolha, dentro do que é viver o amor.

O poliamor, como se viu, envolve relacionamentos íntimos, afetivos, entre três ou mais pessoas, exteriorizados das mais diversas formas. A questão que agora se coloca é