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A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO DISCURSIVO: IDENTIDADE E

No documento CLAUDETE APARECIDA GARCIA BOSSHARD (páginas 42-45)

2 O SUJEITO ESCRILEITOR DA ERA DIGITAL

2.1 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO DISCURSIVO: IDENTIDADE E

Na adolescência, a estruturação da identidade é uma tarefa essencial para a formação do sujeito. Embora ela comece a ser construída desde o início da vida, sua constituição se firma nesse período, sendo esta atividade um dos principais acontecimentos dessa fase. A identidade se organiza por identificação; por ocasião do nascimento com a mãe, logo em seguida, com o pai, depois com outros elementos da família, mais tarde, na idade escolar, com os professores, amigos, ídolos.

Em nossa sociedade é comum a indagação “a qual família você pertence?” ou “qual a sua profissão?”. Essas perguntas costumam caracterizar o sujeito e identificar a qual classe social ou profissional pertence. No pensamento de Foucault (2009), essa investigação ultrapassa o limite de uma simples pergunta, o que deve ser, ou o que se possui, ou de qual família advém para poder participar de um ou outro grupo social. Para esse autor, a

identidade é uma das primeiras produções de poder. Através dela é conhecido o poder que se tem dentro da esfera social.

Outrora a identidade dependia de um desenvolvimento pré-estabelecido, cuja interação com o meio era considerada algo pronto e acabado. Todavia, novo conceito de identidade emerge na sociedade contemporânea. Para o sociólogo Stuart Hall (2001), a questão da identidade nos dias de hoje está sendo amplamente discutida, sendo o mote central do seu livro Identidade Cultural na pós-modernidade. O autor inicia sua obra com os argumentos:

[...] as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social (p.7).

Para Hall (2001), está-se vivendo uma modernidade tardia, com transformações a respeito do mundo e, consequentemente, da sociedade. Bauman (2001) também define esse momento sócio-histórico de modernidade líquida. Para aquele, o sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. Ela é formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais são representadas ou interpeladas nos sistemas culturais que o rodeia. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Para este, moderna líquida, tudo é temporário. Ela é leve, fluida, líquida e mais dinâmica que a modernidade suplantou. Liquidez é a metáfora que Bauman (2005) utiliza para explicar o sentido da pós-modernidade. Para esse autor, os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade, não fixam o espaço nem prendem o tempo:

Enquanto os sólidos têm dimensões especiais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminui a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhe toca ocupar, espaço que, afinal, preenchem apenas por um momento (p. 8).

Nessa sociedade líquida moderna a questão da identidade está intimamente conectada ao processo de globalização, de tal modo que o impacto dessa mudança na

sociedade gera questionamentos de nossas identidades. Para Bauman (2001, p. 40), os seres humanos não mais nascem em suas identidades, ele entende que a individualização do sujeito é o transformar da identidade.

É dentro desse conceito de sociedade que Orlandi (2001) classifica a forma-sujeito como resultante da interpelação da ideologia, que produz assujeitamento em qualquer época histórica, em qualquer que seja a condição de produção, é uma forma-sujeito histórica, com sua materialidade. Assim, forma-sujeito-histórica do sujeito contemporâneo é a forma capitalista, que atribui ao sujeito uma autonomia de ser origem o seu dizer, e, consequentemente, gera responsabilidade ao mesmo tempo em que o considera determinado pela exterioridade; caracterizado como sujeito jurídico, com seus direitos e deveres e sua livre circulação social.

Corrobora com esse pensamento Fernandes (2008), devendo para ele, o sujeito discursivo ser considerado como um ser social, apreendido em espaço coletivo, não fundamentado em uma individualidade, em um “eu” individualizado, e, sim, em um sujeito que tem existência em um espaço social e ideológico, em um determinado momento da história e não em outro.

Nesta perspectiva, novo espaço de construção de identidade se faz presente nas redes sociais. Ali, a base de seu funcionamento é a linguagem e é nesse sentido que reside o potencial de usos e apropriações na contemporaneidade e nesse cenário midiático virtual os sujeitos se relacionam instituindo uma forma de sociabilidade, de troca e de produção de conhecimento. Assim, as escritas acontecem como relações simbólicas, pelas quais, segundo Orlandi (1988), o sujeito se constitui e produz interpretação, intercedido pelo aparato tecnológico:

Ao dizer, o sujeito significa em condições determinadas, impelido, de um lado, pela língua e, de outro, pelo mundo, pela sua experiência, por fatos que reclamam sentidos e também por sua memória discursiva, por um saber/poder/dever fazer, em que os fatos fazem sentido por se inscreverem em formações discursivas que representam nos discursos as injunções ideológicas (p. 53).

Nesse ambiente virtual, tal qual na escola, os sujeitos se relacionam estabelecendo uma forma de socialização que está relacionada à própria formulação e circulação de conhecimento. Esse processo de produção e circulação ocorre pela possibilidade de o sujeito discursivo postar, compartilhar e fazer circular em sua homepage, ou de nas pages de outros sujeitos ou instituição pública ou privada: hipertextos, fragmentos de livros, vídeos, fotos, poesias, e outros assuntos.

Assim, pela perspectiva teórica da AD, que considera a linguagem em sua materialidade, ou seja, em relação ao processo de produção da vida em sociedade, entende-se que esse sujeito é histórico, constituído no confronto dos saberes, na contradição dos acontecimentos, aqui pelo acontecimento das novas mídias digitais. Também se reconhece que, por meio das redes sociais, novas formas de aprendizagem se estabelecem e devem ser consideradas como preservação da memória, formulação e circulação do saber, de divulgação de informação, enfim, todas essas possibilidades podem vir a ser geradoras de conhecimento; ao mesmo tempo, como, segundo Orlandi (2001), constituem em processo de produção do discurso.

A partir dessas considerações, evidenciou-se a importância de serem abordados os aspectos sociais, biológicos, psicológicos dessa fase de construção de identidade em que se encontram os sujeitos dessa pesquisa.

No documento CLAUDETE APARECIDA GARCIA BOSSHARD (páginas 42-45)