1 LEITURA E ESCRITA NA PERSPECTIVA DISCURSIVA FRANCESA
1.3 SÉCULO XXI - A LEITURA E A ESCRITA DA ERA DIGITAL
Aprender a escrever códigos amplia sua mente, fazendo com que você raciocine melhor, criando uma forma diferente de pensar, o que será extremamente útil em todos os desafios da sua vida (BILL GATES, 2013).4
Partindo da reflexão de Bill Gates acerca da temática escrever em códigos, pode-se confirmar o descrito no subcapítulo anterior, em relação às práticas de leitura e escrita fixarem-se mais no âmbito das práticas utilitárias: a criatividade liga-se à técnica e não à intuição. É sabido que Bill Gates atualmente é um ídolo da juventude, principalmente pelos talentos precoces de computação, pois ele é reconhecido e identificado como alguém inteligente, rico, que conseguiu vencer e destacar-se no mundo contemporâneo do conhecimento e da informação, antes dos 30 anos.
Neste excerto da dissertação pretendeu-se abordar questões a partir do atravessamento dos dispositivos tecnológicos da contemporaneidade, contemplados na nova organização do Ensino Médio e Técnico Profissionalizante que integram, na mesma área do conhecimento Linguagens, Códigos e suas Tecnologias as disciplinas Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Arte, Educação Física e Informática, cujas características comuns a essas disciplinas ou campos de conhecimento viabilizam a articulação didático-pedagógica interna da área, possibilitando enfatizar os conceitos explícitos ou subjacentes às linguagens e códigos que sustentam a área, como também promover procedimentos metodológicos comuns às disciplinas que a constituem (PCNEM, 2006).
Na escrita informal dos adolescentes de escola técnica profissionalizante, é notado o envolvimento deles com a tecnologia e a reação da família frente ao tempo gasto diante da tela do computador. Para alguns adolescentes, cursar escola técnica profissionalizante, significa dar continuidade às experiências vivenciadas na infância, ou seja, desde os primeiros anos já mexiam com códigos – a base da programação de computador – de jogos no ambiente Windows.
Nessa perspectiva a escola do século XXI, na qual se inclui a escola profissionalizante, propõe-se a ser um espaço de formação profissional ininterrupta, privilegiado para diversos tipos de leituras e de escritas que deverão ser consideradas em seus conjuntos de enunciados, as quais, mais que prover a decodificação de marcas gráficas, ou digitais – a escrita em si – manifestada pela leitura, firma-se como um lugar em que se pretende construir práticas de cidadania, visões de mundo e interioridades, subjetividades e,
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BILL GATES. Vídeo youtube. 2013. Disponível em: <http://www.youtube.com/ watch?v= LTTuWg 0SW FM>. Acesso em: 20 jul. 2013. Nesse vídeo Bill Gates e outros especialistas dão depoimentos e aconselham que se ensine aos alunos a ler e escrever códigos de programação.
especialmente, identidades. E essa identidade é o foco deste estudo, construída a partir das leituras e escrita de adolescentes na Internet – analisadas na rede social do Facebook.
A Internet é a mídia que mais cresce no mundo. Diante dessa realidade, novas formas de ler e escrever se instaura no cotidiano das pessoas, que de acordo com Chartier (2002), vive-se a primeira transformação da técnica de produção e reprodução de textos, e essa mudança na forma e no suporte influencia o próprio hábito de ler, e essa transformação reflete-se dentro da escola, sendo que as ferramentas de ensino, paulatinamente, nos centros mais avançados, estão sendo substituídas pelas maquinarias digitais. A prática docente, das décadas passadas, consistia em auxiliar a produção de escrita e leitura a partir dos livros, cadernos e materiais impressos, acrescentados, hoje, pelos novos suportes e, consequentemente, novas formas de leitura e escrita advindas dessas novas tecnologias emergiram na rotina escolar e na vida social do aluno da era digital. Na atual perspectiva, essa abertura se faz imprescindível para que o professor seja o promotor e partícipe de escolas que acompanha a evolução dos próprios sistemas de comunicação e informação, bem como das produções geradas pelos seus alunos.
Nesse sentido, Chartier (2002) define a internet sendo uma poderosa força aliada para manter a cultura escrita, pois, além de auxiliar na aprendizagem, faz circular os textos de forma intensa, aberta e universal. Nesses espaços, promovidos, também, pelas redes sociais, a leitura e a escrita têm seus sistemas de representação e de significação multiplicados, implicando ao sujeito-leitor-escritor, admitir, negar ou reivindicar identidade(s) diferente a cada enunciado lido ou escrito.
Seguindo na esteira tecnológica, a escola em seus espaços, observa-se que novas práticas de ensino estão surgindo, exigindo outras apropriações no ambiente educacional, das quais se espera que o professor supere a pedagogia de transmissão de conhecimento para ser o professor mediador, aquele que favorece ao seu aluno da era digital o prazer de produzir significados nesse oceano de informações.
Nessa perspectiva, se o professor não incluir a interface digital como ferramenta de ensino na sua prática docente, ele ficará na contramão da história como produtor de exclusão da Cibercultura5.
O gráfico demonstrado na Figura 1 mostra o crescente número de usuários da internet no Brasil no período de 2008 a 2012 – em milhões e em % da população. A
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Cibercultura - termo alcunhado por Lévy (1999) que quer dizer modos de vida e de comportamento assimilados na vivência histórica e cotidiana marcada pelas tecnologias, mediando informação e comunicação no espaço virtual.
estimativa será que, no ano de 2014, quase 50% da população terá acesso à internet. Portanto, conclui-se que a geração de alunos da contemporaneidade faz parte desta estatística, deram os primeiros passos na era digital, respiraram tecnologia, e são conhecidos por nativos digitais6.
Figura 1 - Gráfico referente estimativa de usuário de internet. Fonte: SITE VILLA EMA, 2012.
A escola que estes alunos, nativos digitais estudam, continua ainda, sendo um espaço privilegiado na formação de leitores e escritores, porém agora incrementada com novos suportes de leitura e escrita – a internet. A lousa, o giz, o livro estão sendo gradativamente substituídos pela tela do computador, que, quando conectado à internet, nas mãos de professores qualificados, tornou-se um poderoso instrumento de ensino.
Nessa perspectiva, a escrita digital ou letramento digital, dentro dos espaços escolares, tem sido incorporado na rotina acadêmica, a exemplo da escola da pesquisa. Numa escola informatizada, toda e qualquer acompanhamento da vida escolar é realizado pelo aluno e sua família pelo sistema on line. Da matrícula ao diploma, horário escolar, boletim, leituras obrigatórias disponíveis em download, informativos, listas de tarefas, são algumas atividades que podem ser disponibilizada pela escola para o acesso de todos os interessados, através do
site oficial da escola. Outra possibilidade é a criação, dentro da plataforma Facebook, de
grupo com interesse comum, cujo funcionamento se assemelha a uma agenda eletrônica, facilitando a comunicação entre os colegas de sala ou da escola toda. Constatou-se, durante a
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Nativos digitais e imigrantes digitais são termos que explicam as diferenças culturais entre os que cresceram na era digital e os que não. Os primeiros, por causa de sua experiência, têm diferentes atitudes em relação ao uso da tecnologiatermo denominadas àqueles que cresceram na era digital. (Marc Prensky – revista Época edição 634 de Julho de 2010). REVISTA ÉPOCA. Revista Epoca Digital. Marc Prensky. ed. 634 de Julho de 2010. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI153918-15224,00-MARC+PRENSKY+O+ ALUNO+VIROU+O+ESPECIALISTA.html. Acesso em: 10 maio 2013.
pesquisa, que essas práticas de escrita são dinâmicas, autônomas, interativas e, segundo depoimentos dos adolescentes do convívio da pesquisadora, muito mais atraentes.
Essa “nova” prática de leitura e de escrita mencionada por Soares (2002), em seu artigo Novas práticas de leitura e escrita: letramento e cibercultura, que atentou para o fato de que se vive diante de um novo tipo de letramento: o letramento digital. Para ela, “diferentes espaços de escrita e diferentes mecanismos de produção, reprodução e difusão da escrita resultam em diferentes letramentos”, sendo assim, a nova realidade clama por um novo olhar para as formas de leitura e escrita que emergem e se instalam.
Ainda segundo Soares (2002), o letramento digital é a utilização do computador e da internet de forma efetiva, exercitando a prática da leitura e da escrita na tela, não apenas através de textos escritos, mas também pelos meios visual, auditivo e espacial, o que inclui a habilidade de construir sentido em textos em múltiplas semioses – que mesclam palavras, sons e imagens em um único espaço – tal qual ocorre no gênero digital da rede social Facebook, altamente aceita e difundida, principalmente pelos jovens.
Dessa forma, a leitura e a escrita digital/eletrônica, associada aos recursos multimídia, são possíveis reunir num único suporte, som, texto, imagens fixas ou animadas, além da hipertextualidade que permite a navegação em um universo infindável de informações, favorecendo a interação entre o sujeito/leitor, rapidez do processamento e do armazenamento de informações.
Tal suporte permite ao sujeito/leitor/aluno navegar mais facilmente por meio de assuntos de seu interesse, despertar, enriquecer e diversificar as fontes de exploração dos conteúdos acadêmicos exigidos pela escola.
Ademais, o suporte eletrônico, com a possibilidade, também, de potencializar imagens – considerando que elas possam ser um elemento importante no processo de aprendizagem, ao complementar os conteúdos textuais – como, por exemplo, as imagens de motores elétricos, para ensinar os conceitos de corrente alternada, no currículo do curso profissionalizante de mecânica, torna-se um forte aliado da escola. Porém, uma escola on line não significa inclusão na cibercultura, ou seja, internet na escola não é garantia da inserção de novas práticas de leitura e de escrita. Elas devem ser construídas, direcionadas, ressignificadas, ampliando, assim, todas as possibilidades na construção do conhecimento no espaço virtual.
Por outro lado, acredita-se existirem algumas desvantagens do uso das novas tecnologias pelo sujeito/leitor/aluno dentro do processo de ensino e aprendizagem. Uma delas, percebido pela pesquisadora na rotina escolar dos sujeitos da pesquisa, o uso desenfreado e
sem conexão lógica naquilo que se pretende pesquisar, o que pode acarretar em desvio da atenção do foco principal do estudo quando o aluno, descompromissadamente, mergulha no oceano de possibilidades que o sistema digital oferece lincando outros sites relacionados ao assunto pesquisado, ou até desviando foco e atenção para chats. Também foi observado pela pesquisadora em conversas no chat e em algumas postagens analisadas o uso descompromissado da escrita do adolescente com relação às regras e normas gramaticais. Esse fato tem despertado a atenção de pais e educadores para emergência do “novo” estilo de escrita que tem características linguísticas específicas denominadas, internetês7 ou escrita teclada. Porém, assim como em várias outras circunstâncias na língua portuguesa não há certo ou errado, mas sim “adequado” e “inadequado” ao contexto em que a conversação está acontecendo, segundo especialistas da Vitae Futurekids/Planeta Educação.
No bate papo com amigos nas redes sociais não há nenhuma inadequação o uso simplificado das palavras, uma vez que a comunicação acontece com mais rapidez, desenvoltura e autonomia na produção dos discursos. Na opinião dos adolescentes que dominam a norma culta da língua portuguesa e confirmada pelos sujeitos da pesquisa, as abreviações nos chats e mensagens servem para agilizar a conversa, tendo clareza que não é a linguagem própria do meio acadêmico bem como do prejuízo social que este tipo de escrita pode acarretar.
Assim, pela dinamicidade e interatividade, característica própria da internet, é possível ler e escrever ao mesmo tempo e o tempo todo. A esse processo de escrita e de leitura, de agora em diante, será denominada de escrileitura8, termo, atualmente, utilisado por alguns estudiosos em mídia digital. A forma de escrita na internet é muito intensa, sendo possível a criação de blogs (diário eletrônico), e-mails (carta eletrônica); homepages (páginas pessoais); comentários (twiter, facebook etc.), a internet, enfim, faz parte da vida atual, o que segundo Lévy (1996), é na tela do computador o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular.
Esse processo de escrita – internetês – próprio da comunicação online acelera a comunicação entre usuários, principalmente, em salas de bate-papos e sites de relacionamento, e difundida em todas as idades, mas principalmente entre os adolescentes.
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Internetês é uma linguagem simplificada e informal que surgiu no ambiente da internet com o objetivo de tornar a comunicação mais rápida nos chats e, com a internet cada dia mais presente no cotidiano das pessoas os vícios de linguagem avançam em igual velocidade chegando à sala de aula.
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O termo escrileitura é um neologismo formado pela justaposição das palavras ‘escrita e leitura’. Apesar de Arnaud Gillot declarar que ele foi criado em português, em 1992, em Lisboa na tese de Pedro Barbosa intitulado
Criação literária e computador, Julia Kristeva em Sémiotique, cuja primeira edição data de 1968, utilizava o
Considera-se não convencional as características da escrita internetês pela norma culta da língua portuguesa, contudo acolhe-se que seja uma “evolução” no uso da linguagem e um desafio para a educação sua inclusão dentro da sala de aula.
Durante este estudo, encontraram-se muitas postagens com escrita de internet, como a exemplificada abaixo, capturada da homepage do Facebook de um dos sujeitos da pesquisa, respeitando a identidade e a imagem. Na Figura 2 o sujeito usa escrita simplificada, que, segundo Freitas (2005), autora do livro Leitura e Escrita de Adolescentes na Internet e
na Escola, os principais motivos da abreviação das palavras em primeiro lugar é a facilidade
de se escrever e em segundo é a pressa – características do perfil do jovem contemporâneo. Essa pressa, segundo essa especialista, está relacionada a economia e ao desejo de reproduzir virtualmente o ritmo de uma conversa oral.
Figura 2 – Escrita de Internet
Fonte: Retirado da homepage do facebook de um dos sujeitos da pesquisa em novembro
de 2012
Nota-se nesse espaço discursivo que a mensagem é grafada em internetês ––
migs (amiga); ~ (não), kkkkk e pela simbologia *---*. Não é nossa pretensão aprofundar
nessa forma de escrita, própria da internet, sendo o objetivo apenas ilustrar a dinamicidade da comunicação entre os adolescentes.
Conforme apontado, tal dinamicidade na leitura e escrita virtual é defendida por Lévy (1996a, p. 41):
O leitor em tela é mais “ativo” que o leitor em papel: ler em tela é, antes mesmo de interpretar, enviar um comando a um computador para que projete esta ou aquela realização parcial do texto sobre uma pequena superfície luminosa. [...] A tela informática é uma nova “máquina de ler”, o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor particular. Toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular.
Nessa dinâmica de dimensão singular, mas social, esse novo modo de ler e escrever no Facebook permite a mobilidade do leitor, revelando um escrileitor que participa simultaneamente da própria edição e montagem de seus posts. Para Chartier (2009), o texto digital exige um novo compromisso da escrita, uma vez que:
Ao tornar a produção, transmissão e leitura, de um dado texto, simultâneas, e ao atribuir a um único indivíduo as tarefas, até aqui distintas, de escrever, publicar e distribuir, a apresentação eletrônica dos textos anula as antigas distinções entre papéis intelectuais e funções sociais. [...] Estas incluem os conceitos jurídicos (direitos autorais, propriedade literária), categorias estéticas (originalidade, integridade, estabilidade), noções administrativas (biblioteca nacional, depósito legal) e instrumentos bibliográficos (classificação, catalogação, descrição), os quais vinham sendo usados até agora para caracterizar o mundo escrito (p. 21).
Dessa forma, no Facebook o processo dinâmico de leitura e de escrita na tela do computador possibilita a expansão do texto no papel, redefinindo as características performáticas do hipertexto, conforme aponta Lévy (1999, p. 56) no trecho “um texto móvel, caleidoscópico, que apresenta suas facetas, gira, dobra-se e desdobra-se à vontade frente ao leitor”.
Por essa configuração de recepção de texto, no suporte de leitura e de escrita virtual, transformações sociais aconteceram, clamando um novo desafio aos leitores: assimilar os inúmeros gêneros textuais, linguagens verbais, não verbais e imagens de forma leve, líquida, fluida e infinitamente mais dinâmica que a modernidade sólida suplantou (BAUMAN, 2001).
Nesse pensamento, os pesquisadores Chartier, Lévy também atentaram para o fato que, durante séculos, os livros impressos em sua condição estática e linear constituíram o suporte básico da leitura, sendo o principal espaço de armazenamento e disseminação de informação e conhecimento, contudo, com o aparecimento dos suportes digitais,
aumentaram-se espaços para circulação de discursos, propiciaram maior acesso do público leitor-navegador e participação de qualquer tipo de manifestação político-social.