• Nenhum resultado encontrado

4 A CONSTRUÇÃO DE UMA ABORDAGEM METODOLÓGICA

4.1 A teoria do discurso: práticas discursivas e a construção de um lugar

4.1.2 A construção discursiva em torno do poder

Para Laclau; Mouffe (2015) a construção discursiva temporariamente hegemônica se dá por meio da unificação de diferentes elementos transformados em momentos que se aglutinam formando um discurso amplo, em que este se fortalece, dada sua possibilidade de agrupar discursos suturados31, que adquirem status de equivalência com os demais. Por isso, as identidades particulares se transformam em uma identidade o mais “universal” possível, ainda que Laclau e Mouffe discordem da possibilidade da objetividade enquanto sentido completo, acabado e totalmente transparente de qualquer discurso nas sociedades atuais. O que se tem então é uma identidade diferencial que se torna uma identidade temporariamente equivalencial (GIAGLIA, 2014). Assim, a noção de hegemonia se torna importante, sendo o conceito que nos permite compreender a unidade existente na formação social concreta, na medida em que um discurso, ao aglutinar vários outros discursos, se torna temporariamente hegemônico, dando sentido e formação à sociedade (LACLAU; MOUFFE, 2015). Neste

completa das amarras sociais. (Mendonça, 2014b). Para Laclau, a emancipação não é viável pelo fato de um determinado grupo modificar sua identidade no momento em que seu discurso se modifica e se aglutina a outros, criando pontos nodais, gerando assim o esvaziamento do sentido específico do discurso tido como específico daquele grupo. Ao esvaziar-se de seu discurso, este não mais é identificado como diferente dos demais, deixando de pertencer à uma lógica da diferença, e passa, ao esvaziar-se, a corresponder a lógica de equivalência existente no sentido dos outros discursos. Neste sentido, a emancipação se torna impossível porque sua conquista deve se dar justamente pela particularidade em que um grupo legitima sua necessidade de libertação, ao passo que tal processo só se dá se este grupo consegue se fortalecer e ser visto por demais na sociedade num processo que só ocorre a partir da aglutinação de demais discursos a ele.

30 A política está relacionada ao conjunto de práticas e instituições que possibilitam a criação da ordem e

organização dos sujeitos em sociedade. O político é o que Mouffe (2015) chama de “antagonismo”, ou seja, as relações que se estabelecem em torno da disputa entre discursos que buscam o poder e a hegemonia, algo que para Laclau e Mouffe é constitutivo das sociedades contemporâneas, devendo apenas ser repensado (por isso a proposta da transformação das relações antagonistas em relações agonísticas, como já explicado). (MOUFFE, 2015).

31 Este termo é demonstrado no texto de Mendonça (2014b, p. 85) para explicar de modo mais detalhado as

origens teóricas em que se baseiam Laclau e Mouffe. Este termo nos ajuda a pensar na noção de que um discurso quando agrupado a outros, jamais volta a ser o que era antes, ainda que mantenha algumas características tidas

sentido, a hegemonia é vista como um “discurso sistematizador, aglutinador [...], um discurso de unidade [...] de diferenças”. (MENDONÇA; RODRIGUES, 2014b).

O discurso, categoria-chave da teoria, é para Laclau; Mouffe (2015) tido como constituidor das relações sociais, isto porque, tais relações sociais só adquirem significado por meio de discursos, como um objeto, por exemplo, que não possui qualquer sentido se não se construir um discurso sobre ele. Enquanto isento de discursos, ele é apenas um objeto em sua existência, em que seu sentido se constrói a partir de “práticas articulatórias dentro de totalidades discursivas” (MENDONÇA, 2014b). Tais como as ações e acontecimentos na sociedade, que só adquirem sentido e são hierarquizados e classificados em suas dimensões (como ameaçadores, desejáveis, decisivos ou banais, etc...) por meio dos discursos e sistemas de significação (BURITY, 2014). A relevância de se analisar o discurso se dá pela sua possibilidade de se compreender qual o sentido de determinada ação ou acontecimento e quais as tensões e relações envolvidas em tal discurso.

Sendo assim, Mendonça (2014a) reconhece que, para Laclau e Mouffe, o social não tem sentidos objetivos, pois como qualquer discurso não é completo em si, nem completamente compreensível. Assim, como nenhum discurso nunca trará sentidos fixados, toda realidade social formada por práticas discursivas também nunca contemplará a todos de forma completa. Deste modo, apesar de discursos sempre buscarem essa completude, o que se tem é uma busca constante, que se conforma por meio da hegemonia de um discurso sempre passageiro, voltado a hegemonizar a visão da sociedade. Porém, ao mesmo tempo em que essa completude é impossível, é sempre necessário haver o estabelecimento de uma visão ideológica para manter uma ordem e permitir a governabilidade. O que há, então, são discursos contingentes e precários, coexistindo e sendo ameaçadas por outros discursos contrários, estes que seriam, nesse sentido, contra-hegemônicos por se voltarem a questionar a ordem discursivamente engendrada (MENDONÇA, 2014a).

Como explicado anteriormente, Laclau; Mouffe (2015) pensam o Estado a partir da lógica do político, em um contexto pluralista e democrático, lidando com tensões, conflitos e a busca pelo poder dos mais diversos grupos. Assim, o Estado busca unificar várias bandeiras em torno de um comum, em que as dinâmicas discursivas são resultantes de uma tentativa do Estado de acomodar tais tensões e conflitos, por meio de um viés democrático, e ao mesmo tempo, não deixando de abordar tensões liberais, a partir da crença na possibilidade do consenso de unificar diversas bandeiras.

Neste sentido, a partir da teoria do discurso, por meio de uma ideia discursiva em torno do poder, em um contexto de democracia e de disputa das diferenças, nosso principal esforço é compreender como o Estado respondeu, diante das inúmeras demandas articuladas e que pressionaram a construção da Constituição de 88, à institucionalização da cidadania no meio rural. De modo mais detalhado é possível compreender que, a partir da Constituição de 1988, a categoria “agricultor familiar” passa a ser alvo de várias de políticas públicas, sobretudo, políticas que se embasam em uma nova concepção de desenvolvimento rural, protagonizadas pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Neste processo, o discurso em torno do Pronaf parece se tornar central na operacionalização da cidadania por meio de políticas públicas para o meio rural brasileiro. Assim, nossas preocupações se voltam a questionar como se consolidou esta nova visão de políticas públicas de desenvolvimento rural como capaz de garantir a conquista e a ampliação da cidadania aos sujeitos rurais, a partir da construção de uma equivalência entre desenvolvimento rural e cidadania.

Para responder tal principal questão, dividimos nossa metodologia em três partes, a saber: (i) abordagem metodológica; (ii) procedimentos metodológicos; e, (iii) instrumental metodológico. Nossa abordagem metodológica está baseada na noção de Ginzburg (1989) de que construímos fatos a partir de pistas, indícios e sinais, em que estes são identificados a partir do material que os vincula, que restaram de toda a relação construída. Neste sentido, o historiador nos auxilia a enxergar “as sobras” nos documentos selecionados, fazendo-nos enxerga-los para além de simples documentos vazios. Para o segundo passo, nosso procedimento metodológico está baseado na pesquisa documental e na pesquisa bibliográfica, ou seja, utilizaremos respectivamente documentos oficiais do Estado e artigos científicos de pesquisadores e estudiosos acadêmicos. Posteriormente, partiremos para o instrumental metodológico: a análise de discurso. Para entendimento e aprofundamento à nossa principal pergunta utilizaremos noções de Mainguineau (2008; 2002; 1998), Laclau; Mouffe (2015) e leitores de Laclau e Mouffe. Assim, organizaremos os dados em uma cronologia espaço- temporal para que possamos compreender como se deram as dinâmicas discursivas da cidadania no meio rural a partir da escolha de uma política pública: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), principal aposta discursiva e institucionalizada do Estado para a cidadania no meio rural pós-88.