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4 A CONSTRUÇÃO DE UMA ABORDAGEM METODOLÓGICA

4.6 Corpus empírico e construção da análise da institucionalização da

5.1.3 Os anos de 1999: a noção de desenvolvimento local e os Conselhos

portanto, cabe-nos agora analisar esta nova articulação realizada em torno do Pronaf, e em que medida, ela trouxe a modificação de elementos em articulações.

5.1.3 Os anos de 1999: a noção de desenvolvimento local e os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável

A criação dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável se dá de forma efetiva a partir dos anos 1999/2000, como apontam estudos. A exigência de se instituir os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRSs) surge simultânea à elaboração por estes Conselhos, de Planos Municipais de Desenvolvimento Rural

39 Dadas as inúmeras modificações realizadas em torno das linhas do programa, optamos por analisa-las em

nosso último bloco histórico (2006-2013). Acreditamos que a percepção em torno das modificações que foram feitas ao longo desses dezessete anos não são tão relevantes para compreender o complexo campo discursivo em torno do programa, já que a maioria delas é de cunho quantitativo, relacionado a termos econômicos de incentivo. Como já dito, buscamos aqui analisar os aspectos macro do programa, sendo praticamente impossível concluir nossa análise se nos apegarmos a detalhes, sobretudo, detalhes numéricos. Tal escolha se dá também pelo respaldo de alguns estudos que nos permitem afirmar que tal escolha não nos prejudicará de forma a deslegitimar os apontamentos ao longo de toda a análise.

Sustentável40

(PMDRs). Dessa forma, a criação dos CMDRSs teve como pressuposto o envolvimento do agricultor familiar e das comunidades rurais na criação, na implementação e na avaliação das ações do Pronaf, possibilitando assim a ampliação de mecanismos de participação da população e a aposta numa melhoria da gestão e da eficiência no uso dos recursos (SCHNEIDER et al., 2009), deixando a cada município a livre escolha para priorização das ações do Pronaf.

Segundo o Decreto nº 3508 de 2000, os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural Sustentável possuem como principais objetivos (BRASIL, 2000):

I - a articulação e a adequação de políticas públicas estaduais e federais à realidade

municipal;

II - a compatibilização da programação físico-financeira anual dos Programas que integram o PNDRS e o Plano Estadual, acompanhar seu desempenho e apreciar os relatórios de execução;

III - os impactos das ações dos programas no desenvolvimento municipal e propor redirecionamentos;

IV - outras atribuições que lhe forem cometidas.

A criação dos CMDRSs como obrigatória para o desenvolvimento dos Planos Municipais de Desenvolvimento Rural aponta na direção de uma valorização dos municípios, na medida em que tal plano deve priorizar as ações voltadas às demandas locais dos agricultores familiares. Neste sentido, nota-se um diálogo entre a aposta do Estado nestes espaços participativos e estudiosos do tema. Abramovay (2001) é um dos estudiosos que em muito influenciou no incentivo à criação e à manutenção de tais conselhos gestores. Para o autor, “o simples fato de recursos federais destinados a um município passarem pela mediação de um conselho formado por representantes da sociedade local já constitui uma inovação organizacional significativa” (Abramovay, 2001, p. 122).

Portanto, os conselhos municipais são para Abramovay (2001), uma possibilidade para se gerar desenvolvimento rural, devendo ser pensados de forma a melhorar as realidades rurais brasileiras. Assim, o bom funcionamento dos conselhos necessita da valorização da base social e local, estimulando metas que possam ser cumpridas e sejam “suficientemente ambiciosas para motivar o trabalho dos indivíduos e dos grupos sociais mais dinâmicos de uma região”

, d

o incentivo aos jovens rurais para estabelecimento e estímulo ao empreendedorismo, como da criação de novas organizações econômicas. Os conselhos

40O Plano Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável se constitui “das diretrizes, dos objetivos e das metas

dos Programas Nacional de Reforma Agrária, Fundo de Terras e Reforma Agrária - Banco da Terra, de Fortalecimento da Agricultura Familiar e de Geração de Renda do Setor Rural” (BRASIL, 2000).

investem-se também da tarefa de que o funcionamento administrativo seja exemplar, possibilitando que o Plano Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável “seja um protocolo de práticas que materializam a ambição de uma certa comunidade a respeito de seu território”. (ABRAMOVAY, 2001).

Neste sentido, parece haver uma articulação criada que se direciona o incentivo à participação dos sujeitos rurais em conjunto com o estabelecimento da noção de desenvolvimento local, no qual participação e representação são concepções que deixam de ser elementos e passam a ser momentos que articulados adquirem extrema relevância no discurso do programa. Contudo, o que pode ser analisado a partir do decreto nº 3508 de 2000 é que a participação e a representação ficam condicionadas apenas a um aspecto descrito no mesmo: “O Conselho Municipal será integrado por representantes do poder público municipal, das organizações dos agricultores familiares, dos beneficiários do Programa Nacional da Reforma Agrária, das organizações da sociedade civil e das entidades parceiras” (BRASIL, 2000); ou seja, tais noções de participação e representação são reduzidas à uma definição sobre quais seriam os representantes neste espaço deliberativo.

Assim, na medida em que não há um detalhamento por parte do Estado de como deve se dar tal participação e representação, ou ainda uma avaliação em âmbito federal das mesmas de modo a problematizá-las para além de aspectos econômicos e quantitativos, identifica-se também, na maior parte dos trabalhos científicos (BISPO JUNIOR; SAMPAIO, 2008; OLIVEIRA, 2008; MEDEIROS; BORGES, 2007; MOURA, 2007; OLIVAL et al., 2007; BEDIN, 2005) uma falta de problematização acerca de como se dá a participação e representação nos CMDRSs, parecendo haver assim uma articulação em torno do discurso criado em termos de se pensar a agricultura familiar, o desenvolvimento rural e o desenvolvimento local das regiões rurais.

Apostando em uma noção de desenvolvimento rural que acredita poder gerar empregos, qualidade de vida e pleno exercício da cidadania (Fernandes, 2013), e, por isso, realizando nova articulação ao acrescentar a esta noção de desenvolvimento a importância de seu aspecto local, o discurso realizado em torno do Pronaf nos permite afirmar que o Estado enxerga a participação dos sujeitos rurais em espaços formais apenas como uma medida de exigência para recebimento de recursos, e não necessariamente como um espaço democrático em que diversas demandas devem ser discutidas, levando ao aprimoramento democrático. Pelo discurso desenvolvido em torno do Pronaf, pode-se notar a crença de que tal participação em moldes automáticos poderá gerar consequentemente o exercício amplo da cidadania.

Quanto aos estudos científicos, o que se identifica em tais trabalhos é que os temas discutidos em torno da participação dos sujeitos rurais estão reduzidos a questões que não permitem a problematização e a reflexão acerca da cidadania em seus aspectos mais amplos, ou seja, que perpassem noções relacionadas aos direitos civis, políticos e sociais dos sujeitos que vivem no meio rural e que se referem a emergências de demandas colocadas pelos sujeitos rurais. Assim, pela Figura 5 demonstramos como se dá este momento de articulação em torno da cidadania no meio rural, a partir do discurso do Pronaf que vai se reformulando, e traz para si mais elementos em torno do discurso do Estado para o meio rural.

Figura 5 - Os anos de 1999 e as transformações em torno do Pronaf.

Fonte: Construção da pesquisa, 2017.

Portanto, como demonstramos na Figura 5, novas articulações são realizadas em torno do programa em 1999. Isto porque, novos elementos (1) que existiam em torno do programa foram transformados em momentos (2 – 3) e articulados (4), criando quatro principais articulações que são identificadas como as principais noções abordadas no discurso: desenvolvimento rural, agricultura familiar, crédito agrícola e desenvolvimento local. Assim, os pontos nodais (4) em torno do discurso do crédito agrícola agora se reforçam por meio de uma articulação a partir da transformação de conceitos como participação, representação e a valorização dos municípios (2 – 3) de elementos para momentos, em que a partir dos pontos nodais (4) criados entre eles, se transformam em uma articulação em torno da noção de desenvolvimento local e da criação dos Conselhos de Desenvolvimento Rural Sustentável. Importante dizer que essa nova articulação em torno da noção de desenvolvimento local rearticula o discurso do programa, transformando assim as principais articulações (2)

identificadas pelo desenvolvimento rural, agricultura familiar, crédito agrícola, acrescentando o desenvolvimento local junto às principais articulações tidas como apostas para geração de cidadania no meio rural.

Assim, a cidadania no meio rural adquire novos aspectos, se identificando com a rearticulação feita em torno do desenvolvimento rural, que se transforma em uma concepção de desenvolvimento rural pautada no âmbito dos munícipios, ou seja, em um desenvolvimento rural local. Uma nova roupagem é realizada em torno do programa e do discurso de cidadania, ainda que mantenha a crença de que é a partir do crédito agrícola, e agora, do desenvolvimento local/econômico dos municípios, que a cidadania possa ser gerada. Mantem- se tal discurso, sobretudo, porque alguns elementos identificados antes da criação do programa permanecessem “pairando” (8) em torno da construção do discurso “universalizante”, sendo identificados por elementos como pequenos proprietários, sem terra, posseiros, indígenas, reforma agrária, direitos trabalhistas, política energética, lei Agrária, preservação ambiental, seringueiros, pescadores artesanais, atingidos por barragens, previdência social, saúde, extrativistas ribeirinhos.