CAPÍTULO I A ARQUITETURA DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL PARA O
1.1 DESENVOLVIMENTO: CONSTRUÇÃO E EVOLUÇÃO DO DISCURSO
1.1.1 A construção do conceito de Desenvolvimento
O termo desenvolvimento existe desde sempre em seu terreno natural e há mais de dois séculos no campo histórico-político (BOESNER, 1996; ACOSTA, 2016; ESTEVA, 2010). Contudo, a ideia de desenvolvimento hegemônico, foi característica constitutiva de uma determinada ordem mundial e de um determinado processo econômico.
Enquanto conceito organizador dessa nova ordem mundial, o termo se instituiu a partir do estabelecimento político de seu conceito reverso, o “subdesenvolvimento”. Em janeiro de 1949, o então presidente dos EUA, em seu discurso inaugural perante o Congresso estadunidense, transformou dois terços do mundo em subdesenvolvidos, quando apresentou o desenvolvimento como emblema de sua própria política e se tornou um imperativo global a ser perseguido e desejado por todas as sociedades, mas que implicava na difusão de um modelo estadunidense, europeu, herdeiro de valores Ocidentais. Desde então, desenvolvimento significou pelo menos uma coisa: escapar de uma condição indigna chamada subdesenvolvimento (ESTEVA, 2010, p. 2).
Nas palavras de Truman4:
we must embark on a bold new program for making the benefits of our scientific advances and industrial progress available for the improvement and growth of underdeveloped areas. More than half the people of the world are living in conditions approaching misery. Their food is inadequate. They are victims of disease. Their economic life is primitive and stagnant. Their poverty is a handicap and a threat both to them and to more prosperous areas. For the first time in history, humanity possesses the knowledge and skill to relieve suffering of these people. The United States is pre-eminent among nations in the development of industrial and scientific techniques. The material resources which we can afford to use for assistance of other peoples are limited. But our imponderable resources in technical knowledge are constantly growing and are inexhaustible (USA, 1949).
A Doutrina Truman inaugurou a Era do Desenvolvimento como o conhecemos hoje. Precisamente em seu discurso inaugural e seis meses depois na mensagem de
4 Discurso inaugural para o Congresso em 20 de janeiro de 1949. Ponto Quatro se refere ao quarto objetivo
da política externa dos EUA. Em USA. Committee on Foreigen Affairs.Point Four Background and Program. International Technical Cooperation Act (USA,1949).
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lançamento da Lei para o Desenvolvimento Internacional para Assistência aos Países Subdesenvolvidos5, o presidente dos EUA estabeleceu um novo tempo de entendimento e aplicação da política externa, especialmente a voltada para os países “subdesenvolvidos”, “primitivos” e “atrasados”. Neste discurso, Truman ressaltou que por meio do conhecimento científico e técnico, baseado em relações democráticas justas, uma maior produção seria a chave para a prosperidade e a paz, um eufemismo para referir-se ao capitalismo. A linguagem do desenvolvimento será, segundo Feres Jr (2004, p. 24), um dos elementos principais da agenda política estadunidense da Guerra Fria. Para Truman, o mundo se resumia aos EUA, aos comunistas e aos pobres e sua visão de mundo era marcada por oposições binárias: o próspero diante do miserável, o moderno contra o primitivo.
A visão de Truman estava embasada em uma perspectiva defendida por teóricos da modernização que viam o desenvolvimento como um processo de transformação de sociedades tradicionais em modernas por meio da mimetização do caminho seguido pelos países industrializados.
Os elementos constitutivos desse discurso vieram de várias disciplinas, mas principalmente da sociologia, psicologia, economia e ciência política cujos teóricos compartilhavam da mesma visão linear da história. Esses teóricos, por sua vez, beberam na fonte de pensadores como, por exemplo, a ideia de ordem e progresso de Auguste Comte e as variáveis de padrão de Talco Parsons (SAHLE, 2010, p. 33; SANTOS, 2016).
Entretanto, o que deu relevância a esse discurso foram os ortodoxos da economia política que passaram a produzir teoricamente desde meados dos anos de 1940 até 1970, com seu momento de maior influência nos anos de 1940 e 1950 com obras de economistas como Paul Rosenstein-Rodan, Kurt Mandelbaum, Hans Singer, Alexander Gerschenkron, Ragnar Nurkse, Walt Whitman Rostow, Arthur Lewis, Harvey Leibenstein, Prasanta Mahalanobis, François Perroux, Jan Tinbergen, Albert Hirschman e Tibor Scitovsky, em sua maioria acadêmicos de universidades estadunidenses e inglesas (HIDALGO- CAPITAN, 2011).
Os teóricos da modernização viam o processo de desenvolvimento como uma série de sucessivos estágios de crescimento econômico por meio do qual todos os países deveriam passar. Para eles, poupança, investimento e ajuda externa eram as receitas necessárias para habilitar os países “atrasados” a seguirem no caminho do crescimento
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econômico que historicamente foi feito pelos países desenvolvidos. Assim desenvolvimento se tornou sinônimo de crescimento econômico.
A teoria do desenvolvimento encontrou seu ponto mais radical com o seu mais influente expoente, Walt Rostow. No início do seu livro “Estágios do Desenvolvimento Econômico: um manifesto não comunista”, Rostow afirmou que era possível identificar todas as sociedades, em sua dimensão econômica, encaixando-as em uma das cinco categorias de estágios de desenvolvimento econômico: tradicionais, pré-condições para a “decolagem” para o crescimento autossustentável, a “decolagem”, marcha para a maturidade e a era do consumo em massa. Ele argumentava que todas as sociedades já tinham passado do estágio de crescimento autossustentável enquanto que os países subdesenvolvidos ainda estavam no estágio de sociedade tradicional ou de pré-condições.
Em um “barbarismo histórico” que não ocultava o seu objetivo ideológico, nas palavras de Santos (2016), por meio de sua obra, Rostow definiu todas as sociedades pré- capitalistas como tradicionais:
O modelo de Rostow não só tinha um começo comum na indiferenciada massa das economias e sociedades tradicionais, em que ele transformou os 6.000 anos de história da civilização, como terminava na indiferenciada sociedade pós- industrial, era da afluência à qual reduzia o futuro da humanidade, tomando como exemplo os anos dourados de crescimento econômico norte-americano do Pós-Guerra (SANTOS, 2016, p. 5).
Para Feres Jr., por meio da teoria da modernização, seus autores produziram um discurso socioeconômico científico para abordar a agenda da política externa da Guerra Fria, cujo “tema essencial foi o problema do desenvolvimento e do subdesenvolvimento no Terceiro Mundo” (FERES JR, 2004, p. 94).
Feres Jr., identifica a ligação entre os teóricos da modernização e os interesses políticos e de propaganda do governo estadunidense, por meio de projetos politicamente orientados, supostamente voltados para a modernização do Terceiro Mundo. O autor cita a mencionada obra de Rostow como o modelo de desenvolvimento mais amplamente conhecido dentro e fora dos círculos acadêmicos. Segundo ele, Rostow era ligado ao Center for International Studies do Massachusetts Institute of Technology, financiado pela Fundação Ford e pela CIA que elaborava subsídios para a política externa dos EUA e de mecanismos de controle de sociedades em processo de modernização. Na mesma linha, o autor aponta a obra “As Nações Emergentes”, tratado sobre modernização, encomendado pelo governo dos EUA e organizado pelo Centro com a participação de autores eminentes
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como o próprio Rostow, Max Millikan, Donald Blackmer, Everett Hagen, Daniel Lerner, Paul Rosestein-Rodan e Lucian Pye6 (FERES JR, 2004, p. 95-96).