V
ocê já deve ter ouvido falar que uma história tem sempre duas versões. E isso é uma verdade. O ano de 2009 foi divido em minha dedicação louca aos alunos e a problemática que isso gerou dentro da minha vida pessoal. Nessa época, eu fiquei praticamente cego e só queria saber de dar aulas e estudar, afinal de contas, eu já estava naquele pique louco desde 1998 e não iria parar por nada.O meu erro, nessa época, foi não trazer minha esposa e minha filha para o universo maravilhoso em que eu estava vivendo. Tentem imaginar como fica a família de um cara que fica “enterrado” dentro de um colégio de segunda a domingo, trabalha no serviço público e estuda feito louco quando está em casa.
Costumo não dar conselhos, até porque acredito mais em testemunho de vida do que simplesmente em palavras. Contudo, sou forçado a ir contra esse dogma e dizer o seguinte:
“Não afaste a família dos seus projetos. Agregue valor a eles, explicando-lhes o quão importante será para a vida de vocês quando você passar; o quão maravilhoso será poder comprar o que quer e não somente o que dá; poder comer o que deseja e não
somente o que o curto dinheiro de hoje pode comprar. Enfim, família é tudo e deve sempre estar presente, seja nos momentos alegres ou nos momentos difíceis!”
Posso dar esse testemunho com propriedade, pois minha busca desenfreada quase acabou com meu casamento e com minha família, mas – graças a Deus – no final tudo deu certo. Minha fiel companheira conseguiu captar a ideia e me resgatar, e devo isso integralmente a ela.
Os meses de 2009 voaram de uma forma que não posso explicar. O plantão na penitenciária federal ficava mais sombrio para mim a cada dia, pois, quanto mais o tempo passava, mais eu me dedicava à empresa e aos estudos. Nunca fui relaxado no trabalho, afinal de contas, foi esse concurso que mudou minha vida, mas também não podia ser chamado de o “servidor do ano”. Eu fazia o meu trabalho e, nas horas de folgas, arrebentava-me de estudar!
Logicamente, não contei a ninguém do meu plantão que iria fazer o concurso da Polícia Federal, do contrário iriam me encher de perguntas, o que geraria uma carga de responsabilidade que eu não queria. Assim, estudava muito e quietinho. Nas minhas horas de folga (eu folgava 72 horas), sempre reservava quatro horas para estudar as matérias relacionadas aos concursos da minha área (eu estudava, nessa época, para PF, PRF e delegado dos estados). Nunca fugi disso, ou seja, nunca estudei para tribunais, fiscais ou outras áreas. Religiosamente, eu separava algumas horas para o estudo, as demais deixava para ministrar as aulas e administrar a empresa.
No íntimo, eu sabia que não tinha como dar problema no concurso. Eu conhecia bem a banca, as matérias, o estilo de prova e já estava calejado de tanta pancada. Na semana
do concurso, tive uma conversa muito séria com os alunos e disse que o importante não era passar, e sim dar o melhor que tinham na prova: se o melhor não fosse o suficiente para passar daquela vez, era porque aquele não era o concurso, e que outros viriam.
Na verdade, eu dizia para eles o que eu queria que alguém tivesse dito para mim, e isso serviu como um grande alívio! Quero que imaginem a carga que eu sofria naquela época. O curso era novo e, para dizer a verdade, tinha mais gente jogando contra do que a favor! Os alunos me olhavam como o espelho da estrutura, e tudo dependia de mim. Isso era claro na minha cabeça.
No sábado que antecedia a prova, saímos em um ônibus de Cascavel a Curitiba, onde seria realizado o concurso. Chegamos ao hotel, e – como de praxe – peguei o resumo final para dar uma lida. Esse resumo é fundamental, e eu o organizava da seguinte forma:
“O importante, quando estamos estudando, é termos organização e bom senso. Matérias como Língua Portuguesa, Informática, Atualidades e os conteúdos fundamentais da parte de Direito ou específicas devem ser aprendidos antes, ou seja, já devem estar na massa. O resumo final deve ser feito com matérias em que geralmente perdemos ponto por bobeira, como Raciocínio Lógico-matemático, Matemática e aquelas leis que não são muito comuns.
Assim, separei, nesse resumo, uma lista de exercícios que sempre caem na banca CESPE/UNB, como álgebra das proposições, silogismo, tabela-verdade, entre outros conteúdos. Fiz e refiz compulsivamente as questões e reservei a noite anterior à prova para ler as leis que dependiam de “ decoreba”,
e não entendimento. Isso fez toda a diferença, pois posso afirmar que 90% dos exercícios de exatas estavam no meu resumo. Além disso, das leis que reservei para ler, metade caiu na prova!
Lembro-me como se fosse hoje: cheguei ao hotel, jantei, tomei um banho e estudei até umas quatro da manhã. Como a prova era à tarde, pude dormir até umas 11:00. Depois disso, almocei e parti para o local de prova. Para não ter que falar com ninguém, peguei o resumo de RLM e o refiz mais uma vez. Quando peguei a prova foi só alegria!”
Contudo, não quero que pensem que foi o resumo que fez meu bom desempenho na prova. O desempenho foi dado muito antes, com muitas horas de estudo e muita dedicação. Esse resumo serve para você ganhar algumas questões que perderia de bobeira e para manter-se aquecido para a prova. Sei que você deve conhecer alguém (que já passou em concursos) que diz para parar de estudar uma semana, ou dias antes. Tudo bem, cada um tem seu modo de fazer prova. Só estou dizendo que meu sucesso sempre se construiu estudando até os 45 do segundo tempo e isso, meus caros, fez toda a diferença em minhas aprovações.
Pois bem, terminei de fazer as questões de RLM, sentado no gramado do local de prova, e, quando a hora chegou, entrei para o local de prova. Eram vários prédios de uma universidade de Curitiba. Foi uma loucura, havia alguns perdidos, outros falando besteira e eu ali, concentrado ao extremo. Quando fui olhar meu nome na lista – para confirmar se aquele era mesmo o prédio em que eu iria fazer a prova – perdi a paciência!
Dois rapazes e uma moça estavam conversando e discutindo sobre a forma de correção da prova. O que me chamou a atenção foi que, no restaurante do hotel, as pessoas
estavam falando a mesma coisa, ou seja, os candidatos não sabiam ou não tinham certeza de que a formatação padrão do CESPE/UNB é aquela em que uma errada anula uma certa, ou seja, o esquema do menos um (–1). Até aí tudo bem, porque acredito firmemente que esses concursos não possuem concorrência e, se você estudar, uma vaga é sua, com toda certeza. O problema é que olharam para mim e me perguntaram:
– É verdade que uma errada anula uma certa?
Só podiam estar de brincadeira comigo! Perguntar isso para mim, no alto daquele momento da minha vida! A resposta foi mais dura que vocês podem imaginar. Até hoje fico me perguntando se foi necessário o que fiz! Respondi o seguinte:
– Filho, isso está no edital e, no mais, é um padrão da banca CESPE. Dessa forma, você pode e, na verdade, vai sair com ponto negativo, pois nunca vi ninguém passar nesses concursos sem ao menos treinar, fazer um simulado. De resto, olhe depois o edital, pois a prova física é uma das piores que já vi. Tem barra, natação, corrida, salto, além do psicotécnico e do exame médico!
Enfim, falei bem tecnicamente. Depois disso, ele me faz uma nova pergunta:
– E a concorrência?
Aí foi para acabar comigo mesmo! Respondi o seguinte: – Filho, pelo que sei, está dando 366 por vaga. Pense assim: nesse prédio em que faremos a prova, devem caber uns 300 e poucos candidatos. Eu estou aqui fazendo com vocês,
estudo desde 1998, dou aula, já passei em vários concursos, já sou servidor e farei a prova com vocês. Bem, se for pensar assim, nem entre, porque já perdeu a sua vaga!
Depois disso, virei as costas, fui fazer minha prova. Entrei na sala e fiz o que sempre faço, ou seja, eu tenho minha formatação de fazer provas. Nunca mudo, pois não adianta treinar de um jeito e jogar de outro. Entregaram a prova e fiz o que fui treinado para fazer!
A prova
Fazer prova é uma questão de treino. Treine fazer de um jeito e não mude. Eu sempre sigo a sequência da prova. Isso mesmo! Independente da organização das matérias, eu vou fazendo e deixando as que não sei assinaladas até terminar toda a prova. Depois disso, volto e, com calma, revejo as questões que ficaram para trás. Na maioria das vezes, eu consigo pegar pelo menos metade na segunda passada.
Contudo, quando o concurso pede prova discursiva – o que foi o caso desse concurso – eu sempre começo pela redação. Não tem jeito, preciso redigir e passar tudo para o caderno definitivo, pois isso me acalma e me dá segurança. Outro quesito importante é o tempo de prova. Vou dar uma fórmula genérica que você poderá usar em qualquer concurso e, para isso, vou usar como exemplo uma prova que possui redação, com tempo médio de quatro horas e meia.
O exemplo de prova
A visualização aqui será automática. Imagine que você tem 4 horas e 30 minutos para fazer 120 questões (estou usando aqui o formato CESPE/UNB, mas isso pode ser aplicado a qualquer banca) e uma redação. O importante,
nesse quesito tempo, é ter o controle, pois uma redação bem feita (e isso eu englobo o rascunho e passar a limpo) demora, em média, uma hora e meia. Dessa forma, sobram, para você, 3 horas para fazer a prova, certo? Errado! Você tem que lembrar que o gabarito é fundamental, pois não adianta fazer uma prova impecável e fazer besteira na hora de passar para o gabarito. Assim, deixe meia hora para marcar as respostas no gabarito. Depois disso tudo, sobram 2 horas e 30 minutos para fazer as questões, certo? Errado! Você tem que contar o tempo que vai ao banheiro, que come algo, enfim, você tem que contar com os imprevistos.
No final, o que vai importar é seu controle e se você realmente vai empregar tudo o que treinou em simulados ou provas anteriores. Sei que já ouviu muitas histórias e a finalidade aqui não é essa. A finalidade é provar para você que não adianta estudar muito e fazer uma prova sem planejamento. Muito menos tentar fazer uma prova sem estudar ou sem treinar antes.
Voltei daquele dia com a sensação do dever cumprido. Não comentei com ninguém – além dos alunos – como eu tinha ido na prova. Apesar de gostar de conversar, não falo de meus projetos – até que estejam concluídos – a ninguém. Por isso a frase:
“Quanto menos pessoas souberem de sua vida e de seus projetos, mais feliz e bem sucedido você será!”
Essa lição espero que você aprenda, pois em boca fechada não entra mosquito. Além disso, ela não é gerada uma responsabilidade excessiva. Para finalizar, vou contar a vocês como fiquei sabendo que passei no concurso. Assim, entenderão o que acabei de dizer!
Eu estava de plantão na penitenciária federal e, como era comum, corríamos na pista do presídio. De repente, alguém gritou meu nome e começou a gesticular feito louco. Parei de correr e fui ver o que tinha acontecido. Quando cheguei, vi um outro colega de trabalho bem irritado dizendo que eu era um mentiroso. Espantado, perguntei o que havia acontecido. Ele falou: “Você é complicado, disse que não iria fazer o concurso e fez, olha aqui seu nome!” Bem, desculpe o palavreado, mas tive que escrever aqui: É para acabar mesmo! O cara, antes de olhar o nome dele, foi ver se o meu estava lá. Está de brincadeira!
Sem perder a paciência, respondi:
– Filho, está maluco? Esse aí não sou eu, deve ser um homônimo. Virei as costas e voltei para minha corrida!
Resumindo: as pessoas se importam mais com as outras, com os projetos alheios, do que com suas próprias ambições. Aquele dia, eu tive a certeza de que, quanto menos pessoas souberem de meus projetos, mais bem sucedido eu seria. O legal de tudo é que naquele dia, a minha corrida foi vibrante e pude correr com a sensação de que tudo tinha valido a pena, que todo esforço, dedicação e anos de sofrimento estavam dando resultado. Mesmo sem assumir o cargo, minhas metas estavam traçadas e, mais uma vez, pude sentir o gosto da vitória, o gosto suave que a consequência do esforço nos traz!
“Quanto menos pessoas souberem de sua vida e de seus projetos, mais feliz e bem sucedido você será!”