A arbitragem mista do Centro Internacional de Resolução de Disputas sobre Investimento (CIRDI) 21 : fundamentos teóricos
1. A Convenção e seus objetivos e finalidades
O Centro Internacional de Resolução de Disputas sobre Investimentos (CIRDI) foi instituído pela Convenção de Washington de 1965 sobre a solução de disputas envolvendo Estados e nacionais de outros Estados, elaborada pelos diretores executivos do Banco Mundial22 e aberta para assinatura e ratificação dos seus Estados membros.
O CIRDI, portanto, é uma das cinco instituições que compõem o Grupo do Banco Mundial, juntamente com o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), a Associação Internacional do Desenvolvimento (AID), a Corporação Financeira Internacional (CFI) e a Agência Multilateral de Garantia de Investimento (MIGA). É de se ressaltar que a participação de um país no BIRD está condicionada à participação do mesmo no Fundo Monetário Internacional (FMI). O pedido de afiliação às instituições componentes do Grupo do Banco Mundial, exceto ao CIRDI, está condicionado à participação no BIRD e na AID. O procedimento para afiliação no CIRDI consiste apenas na assinatura e ratificação da Convenção que o institui, não havendo necessidade de pedido formal a ser examinado pelos Diretores Executivos das respectivas instituições.
A Convenção, também conhecida pelo nome de “Convenção de Washington de 1965” ou “Convenção do CIRDI”, entrou em vigor em 14 de outubro de 1966, trinta dias após o depósito do vigésimo instrumento de ratificação. Atualmente, conta com 154 Estados assinantes, sendo que apenas 142 depositaram o instrumento de ratificação.
Vale ressaltar que, o Brasil não assinou o referido tratado, sendo o único Estado-parte do Mercosul a não utilizar o sistema instituído pelo CIRDI. O consultor jurídico do Ministério das Relações Exteriores à época, Dr. Augusto de Rezende Rocha, desaconselhou o Brasil a assinar a Convenção do CIRDI alegando que o Centro, ao se concentrar na resolução de disputas entre particulares e governos, favoreceria a posição dos investidores e consagraria o imperialismo econômico e financeiro ainda que disfarçadamente. Além disso, Rocha entendia
que a organização e funcionamento do CIRDI eram passíveis de sofrer influências prejudiciais à soberania dos Estados contratantes, posto que consagravam e institucionalizavam o estado de tensão existente entre economias dominantes e dominadas. O consultor do Itamaraty entendia ainda que o sistema do CIRDI pressupunha a suspeição e a parcialidade das instituições jurídicas e judiciárias do país que acolheu o investidor, o que as tornaria inaptas a solucionar controvérsias sobre investimentos, tornando necessária a solução arbitral. Por fim, a institucionalização da arbitragem também foi questionada. Considerada necessária para garantir a permanência e a continuidade da experiência de conciliação e arbitragem realizada casualmente por meio da arbitragem ad hoc, a arbitragem institucional, na visão de Rocha, não seria suficiente para garantir a completa imunidade dos árbitros às injunções políticas e econômicas externas (SOARES, 1985, p. 80-81).
Em relação aos demais países da América Latina, aqui considerados como todos os países do continente americano abaixo dos Estados Unidos da América, destaca-se a adesão tardia à Convenção do CIRDI, a maior parte delas na década de noventa, e a ausência de participação do México neste sistema23.
A finalidade da sua criação foi liberar o Presidente do Banco Mundial da tarefa de mediação e conciliação nas disputas entre governos e investidores estrangeiros e criar uma instituição que, ao facilitar a resolução das disputas sobre investimento, ajudasse a promover o aumento do fluxo do investimento internacional24. A despolitização da solução de disputas sobre investimentos mediante o oferecimento de um mecanismo institucional e imparcial que inspirasse a confiança de ambas as partes foi considerado o maior objetivo do CIRDI.
A função primordial do CIRDI é facilitar a solução pacífica de controvérsias sobre questões envolvendo investimentos entre governos e investidores estrangeiros através da conciliação e da arbitragem.
Na presente investigação será objeto de estudo apenas a atividade arbitral desenvolvida pelo Centro. Em linhas gerais, entende-se como arbitragem o método alternativo de solução de controvérsias, heterônomo e não-estatal, fundado na autonomia da vontade das partes para submeter uma controvérsia surgida da relação contratual existente entre elas, ao julgamento de um ou mais árbitros, que assume caráter obrigatório após realizado.
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O texto da Convenção e a lista de Estados contratantes estão disponíveis no site http://www.worldbank.org/CIRDI/index.html.
Uma segunda função do CIRDI foi criada em 1978, quando foram adotadas algumas regras adicionais (Aditional Facility Rules). Essas novas regras autorizam o Secretário Geral do Centro a administrar certos tipos de procedimentos entre Estados e nacionais de outros Estados que estão fora do âmbito de aplicação da Convenção, seja porque não envolvem questões relativas a investimentos, seja porque o Estado hospedeiro do investimento ou o Estado de origem do investidor não são partes contratantes da Convenção de Washington de 1965. Além disso, o Mecanismo Adicional do CIRDI autoriza o Centro a administrar um tipo de procedimento não previsto pela Convenção, chamado de fact-finding proceedings, que nada mais é do que um recurso voltado para a apuração e exame de fatos relevantes envolvendo um investimento em questão. Ressalte-se que, aos casos submetidos aos mecanismos adicionais não se aplicam as exigências específicas da Convenção, tais como a obrigatoriedade do reconhecimento e cumprimento da decisão arbitral por todos os Estados contratantes.
A terceira função do Centro, que pode ser atribuída apenas ao seu Secretário Geral, é a de escolher os árbitros de uma arbitragem do tipo ad hoc, que tem como característica a submissão voluntária das partes a um corpo de árbitros e a um conjunto de regras procedimentais, escolhidos para a realização de uma determinada controvérsia. Nesta arbitragem, são utilizadas frequentemente as regras arbitrais elaboradas pela Comissão das Nações Unidas para o Direito do Comércio Internacional (UNCITRAL). Esta comissão é o principal órgão jurídico das Nações Unidas no âmbito do Direito Comercial Internacional e sua função primordial é modernizar e harmonizar regras do comércio internacional. Dentro desta função de elaborar convenções, leis-modelos e normas aceitáveis em escala mundial (standards), a UNCITRAL formulou um regulamento de arbitragem em 1976; uma lei modelo sobre arbitragem comercial internacional em 1985, além de contribuir na formulação da Convenção de Nova York de 1958 sobre reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras25.
O CIRDI administra arbitragens realizadas segundo as regras contidas na Convenção de Washington de 1965 e as regras processuais elaboradas pelo seu Conselho Administrativo. A arbitragem realizada pelo CIRDI, portanto, é classificada como arbitragem institucional, caracterizada pela submissão prévia e voluntária das partes às regras de um órgão arbitral pré- existente ao surgimento da controvérsia.
Entretanto, as partes de uma controvérsia sobre investimentos podem, mesmo optando pela solução de controvérsias por meio de uma arbitragem internacional mista do tipo ad hoc, escolher o Secretário Geral do CIRDI para atuar como autoridade competente para designar os árbitros do tribunal, nos casos em que não haja um acordo sobre a composição do mesmo ou uma das partes se recuse a colaborar com a constituição do procedimento arbitral. Esta é a terceira função do Centro.
Por fim, é necessário esclarecer que o CIRDI é uma organização internacional autônoma com personalidade jurídica internacional, o que lhe permite: contratar, adquirir e dispor de bens móveis e imóveis; comparecer em juízo; e gozar de imunidades, isenções e privilégios, estendidos aos seus funcionários no exercício de suas atividades26.
Todavia, não é permitido olvidar que, como a Convenção de Washington de 1965 foi celebrada sob o patrocínio do Banco Mundial, a sua autonomia está estreitamente ligada a esta instituição, inclusive por questões orçamentárias e de estrutura administrativa27.