(b) Investidor estrangeiro
6. As principais características do procedimento arbitral
A arbitragem mista administrada pelo CIRDI está submetida a regras procedimentais dispostas na Convenção de Washington de 1965 e nas Regras de Iniciação do Procedimento (RI) e Regras Processuais aplicáveis à arbitragem (RP), elaboradas pelo conselho administrativo da organização, a fim de complementar as disposições da Convenção.
O procedimento arbitral é deflagrado com a solicitação de arbitragem feita por uma das partes, ou em conjunto pelas partes de uma controvérsia, ao secretário geral da organização. Segundo as Regras de Iniciação, a solicitação deverá ser feita por escrito num dos idiomas oficiais do CIRDI (inglês, francês ou espanhol) e conter: a identificação completa das partes; a data da manifestação do consentimento das mesmas à jurisdição do Centro; a atribuição da nacionalidade do particular a um Estado contratante; e informações sobre o
objeto da controvérsia assinalando que se trata de uma disputa de natureza jurídica originada diretamente de um investimento (art. 36 da Convenção e RI n. 2).
Ao receber a solicitação, o secretário geral deve notificar o recebimento à parte solicitante, certificar-se do pagamento das custas e notificar a outra parte, enviando-lhe uma cópia da solicitação e dos documentos que a acompanhem (RI n. 5). Em seguida, o secretário geral apreciará a solicitação para decidir se a registra ou não. Se pelas informações contidas na solicitação, o secretário reputar que a disputa se encontra no âmbito da jurisdição do Centro, a solicitação será registrada e de imediato, as partes serão notificadas do registro. Nesta notificação, o secretário geral convidará as partes para, o quanto antes, constituírem o tribunal arbitral, enviando-lhe em anexo a lista de árbitros do Centro (RI n. 6 a 8).
O tribunal arbitral poderá ser composto por árbitro único ou por um número ímpar de árbitros escolhidos de comum acordo pelas partes. Se estas não chegarem a um acordo, o tribunal será composto por três árbitros, sendo que cada parte escolhe um árbitro e ambas, de acordo, escolhem o terceiro membro que figurará como presidente (art. 37). Se passados noventa dias da data de envio da notificação do registro da solicitação, o tribunal ainda não tiver sido composto, caberá ao presidente do conselho administrativo escolher os árbitros restantes, que não poderão ter a nacionalidade do Estado parte na disputa nem do Estado de origem do particular envolvido na controvérsia (art. 38).
O tribunal será considerado constituído quando o secretário geral notificar às partes que todos os árbitros aceitaram a nomeação. A substituição dos árbitros e os procedimentos a serem seguidos em caso de renúncia, incapacidade ou falecimento dos árbitros estão dispostos nas Regras Processuais para o procedimento arbitral (RP n. 7 a 12).
Após constituído, o tribunal terá sessenta dias para realizar a sua primeira sessão, salvo se as partes tiverem acordado outro prazo. O funcionamento do tribunal se dará por meio de audiências privadas, nas quais se exige a presença da maioria dos árbitros como quorum mínimo de deliberação. As decisões serão igualmente tomadas por maioria e as abstenções consideradas votos contrários. As sessões serão realizadas nas datas fixadas previamente pelo tribunal na sede do Centro, a menos que as partes escolham outro lugar e o mesmo seja aprovado pelo Tribunal (RP n. 13 a 18).
Segundo a seção 3, do Capítulo IV da Convenção, aos tribunais arbitrais cabe decidir sobre a sua competência (art. 41); sobre o caso em questão, aplicando as normas de direito acordadas pelas partes ou, em caso de ausência de acordo, a lei do Estado parte na
controvérsia e as normas de Direito Internacional aplicável (art. 42); sobre as provas consideradas necessárias para a comprovação das alegações (art. 43); e sobre medidas provisórias (cautelares) consideradas necessárias para a salvaguarda dos direitos das partes (art. 47).
Uma vez constituído o tribunal e realizada a audiência preliminar para a fixação de questões processuais como quorum, idioma, número e ordem dos escritos, prazos, extensão do procedimento escrito e oral e custas, é dado início ao procedimento ordinário e as atuações escritas e orais das partes, testemunhas e peritos. As atuações escritas são feitas por meio de memoriais, nos quais as partes expõem os seus argumentos, bem como pelo oferecimento de réplicas e tréplicas, caso o tribunal considere necessário (RP n. 29 a 31).
Já as atuações orais serão realizadas em audiências, nas quais serão ouvidas as partes, as testemunhas e os peritos, podendo os membros do tribunal interrogá-los (art. 32).
É possível, ainda, que as partes dêem início a procedimentos especiais, através da solicitação de medidas provisórias, destinadas a salvaguardar seus direitos; ou mediante o oferecimento de demandas subordinadas (incidentais ou adicionais) e de reconvenção, desde que, obviamente, estas se encontrem nos limites do consentimento e no âmbito da jurisdição do Centro (RP n. 39 a 40).
Além dessas demandas subordinadas, é facultado às partes interpor exceções à jurisdição do Centro, caso entendam que a demanda não preencha os requisitos dispostos na Convenção. A exceção deve ser interposta o quanto antes, embora o tribunal possa, de ofício e em qualquer tempo, deliberar sobre a sua competência (RP n. 41). Em geral, o procedimento sobre o mérito é suspenso enquanto se resolve a exceção à jurisdição, mas o tribunal pode decidir apreciar a exceção como uma questão preliminar ou juntamente com o mérito da controvérsia, proferindo um único laudo ao final (RP n. 41 (4)).
Terminadas todas as apresentações escritas e orais, o tribunal encerra o procedimento, que só será reaberto para a apresentação de alguma prova considerada como um fator decisivo na apreciação do caso (RP n. 38). Neste momento, as partes devem enviar por escrito ao tribunal uma planilha dos gastos realizados com o procedimento para efeito de comprovação das custas a serem fixadas no laudo.
Dentro de cento e vinte dias após o encerramento do procedimento, o tribunal deverá emitir o laudo arbitral contendo: a identificação completa das partes, uma declaração de que o tribunal foi constituído conforme dispõe a Convenção; o nome dos membros; o nome dos
advogados e conselheiros das partes; as datas e lugares das reuniões; um resumo do procedimento; um resumo dos fatos, as pretensões das partes; a decisão fundamentada sobre as questões apresentadas; a decisão sobre as custas a serem pagas; e a assinatura dos membros que votaram a favor (RP n. 47).
Em seguida, o texto original do laudo será autenticado e cópias serão enviadas às partes. A data de envio do laudo às partes será considerada a data de sua emissão para efeito de contagem do prazo fixado para interposição de recursos de esclarecimento, revisão e anulação (RP n. 48).
O laudo emitido pelo tribunal é obrigatório e não admite apelação. Entretanto, caso a decisão seja omissa em alguns pontos, as partes podem interpor recurso de esclarecimento sobre o sentido ou alcance do laudo proferido (art. 50 e RP n. 51). Além disso, é permitido às partes solicitarem uma revisão do laudo fundamentada no descobrimento de fato novo que possa influenciar decisivamente no deslinde da questão. Este recurso poderá ser interposto dentro dos noventa dias após o descobrimento do fato e dentro dos três anos posteriores à emissão do laudo (art. 51).
Por fim, há a possibilidade de anulação total ou parcial do laudo, em caso de constituição incorreta do tribunal; extrapolação manifesta das suas funções pelo tribunal; corrupção de algum dos árbitros; descumprimento grave de norma processual; e ausência de motivação expressa da decisão (art. 52). Para a apreciação do pedido de anulação, será constituído um Comitê ad hoc pelo presidente do conselho administrativo, que examinará o laudo proferido inicialmente seguindo as regras dispostas para o procedimento arbitral (art. 54). Caso o laudo seja anulado, as partes poderão solicitar que a controvérsia seja submetida a um novo tribunal arbitral. Em caso de anulação parcial, o novo tribunal decidirá apenas sobre os pontos anulados pelo Comitê ad hoc.
Considerações Finais
A análise sobre os fundamentos teóricos do Centro Internacional de Resolução de disputas sobre Investimento revelou os interesses controvertidos que tiveram que ser considerados na elaboração da Convenção de Washington de 1965. O contexto do surgimento deste Centro e as discussões travadas no processo de elaboração do texto do tratado que o
instituiu dizem muito a respeito dos seus verdadeiros interesses, finalidades e objetivos: incentivar o fluxo de investimentos para os países em desenvolvimento e, consequentemente o seu crescimento econômico, fornecendo segurança jurídica ao investidor privado estrangeiro.
Para tanto, seria necessário criar uma instância internacional, supostamente neutra e imparcial aos interesses não só dos investidores e dos seus Estados de origem, como também dos Estados receptores latino-americanos, que na década de 1960 se reuniram para exigir uma maior participação na elaboração do Direito Internacional e o reconhecimento do seu direito de soberania econômica, que incluía o reconhecimento do direito de nacionalização e o direito de resolver internamente as controvérsias surgidas sobre este assunto.
Mas ao observar o teor de algumas das discussões travadas nas reuniões preparatórias e o texto final da Convenção juntamente com as notas explicativas elaboradas pelos diretores executivos do Banco Mundial, algumas dúvidas apontam sobre a neutralidade e a imparcialidade do sistema do CIRDI.
Em princípio, a Convenção possui um caráter declaratório, deixando a maioria das decisões a cargo da manifestação voluntária das partes, o que contemplaria o respeito à soberania dos Estados. Por outro, a redação das disposições é demasiado ampla, a ponto de permitir interpretações extensivas, muitas vezes ferrenhamente rejeitadas pelos países em desenvolvimento nas reuniões preparatórias.
Diante disso, revela-se necessário observar como funciona o CIRDI na prática e como os árbitros interpretam a Convenção de Washington, as suas notas explicativas e os acordos arbitrais em caso de dúvida ou lacuna. Ao decidir em prol do aumento ou continuidade do fluxo de investimento, o CIRDI não estaria tomando partido do investidor em detrimento dos interesses e necessidades dos Estados hospedeiros e dos seus povos?
Não se questiona aqui a importância dos investimentos externos diretos para os países em desenvolvimento, nem a o papel da arbitragem mista internacional na solução pacífica de controvérsias envolvendo investimentos estrangeiros. Ressalta-se, apenas, que nem todos os investimentos são produtivos nem merecem ser protegidos, assim como nenhuma norma ou instituição, internacional ou nacional, flutua no ar, estando alheia às condicionantes políticas, econômicas e sociais do momento em que elas são elaboradas.