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4.3 A FUNÇÃO DA LEI COMPLEMENTAR

4.3.1 A corrente Monatômica

Pensamos que esta é a menor e também menos investigada corrente sobre a problemática da função da lei complementar. Falamos isso, pois muitos Autores acabam confundindo que o posicionamento de alguns juristas pertence à corrente

147 GAMA, Tácio Lacerda. Sobre os papéis da lei complementar no regime jurídico das contribuições interventivas. Revista de Direito Tributário. N. 99. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 97.

148 CHIESA, Clélio. ICMS incidente na aquisição de bens ou mercadorias importados do exterior e contração de serviços no exterior: inovações introduzidas pela EC 33/2001. In ROCHA, Valdir de Oliveira (Coord.). O ICMS

dicotômica, quando na verdade não é. Tal fato, apesar de não ter sido investigado em profundidade, é mencionando por Maria do Rosário Esteves149 e por Frederico

Araújo Seabra de Moura150.

Apesar disso, não faremos a investigação que a corrente requer, mesmo porque, se fizéssemos, cometeríamos o pecado de fugir do nosso propósito para este capítulo, que é recolher subsídios e definir em qual corrente iremos nos perfilar. Entretanto, devemos fazer algumas observações relevantes para o deslinde desta corrente, que a despeito de não haver uma menção expressa da palavra monatômica ou um reconhecimento expresso de alguns dos autores que a seguem, entendemos adequado usá-la, pois ela expressa o sentido de que a lei complementar apresenta somente uma função.

Pois bem. De maneira expressa, José Souto Maior Borges afirma categoricamente que a lei complementar apresenta apenas uma única função151, que é a de unificar a regulação da produção legislativa. Essa é a compreensão que retiramos da transcrição que fazemos abaixo:

Mesmo que numa hipótese extrema, se considerássemos, contra a Constituição, que a lei complementar não poderia definir esses fatos geradores ou, na linguagem da doutrina, hipótese de incidência dos tributos estaduais e municipais, mesmo assim se poderia unificar as duas funções restantes, que seriam a de conflitos de competência e limitações constitucionais ao poder de tributar. Nada disso foi feito pela doutrina, a meu ver.

Agora, a partir dessas considerações, já se pode seguramente extrair a conclusão de a minha proposta é unificadora. Qual é a função da norma geral em direito tributário? Uma só função, e não mais que uma só: regular a legalidade, a norma geral, e a sobrenorma disporá sobre a legalidade tributária. E nada mais do que isso, também nada a menos do que isso152.

Com a mesma posição de que a função da lei complementar é apenas uma, registramos o entendimento de Paulo de Barros Carvalho153 que é no sentido de que esta tem um “relevante papel de mecanismo de ajuste, calibrando a produção

149 ESTEVES, Maria do Rosário. Normas gerais de direito tributário. São Paulo: Max Limonad, 1997, p. 97. 150 MOURA, Frederico Araújo Seabra de. Lei complementar tributária. São Paulo: Quartier Latin, 2009, p. 165. 151 BORGES, José Souto Maior. Pacto federativo e tributação. Revista de Direito Tributário. N. 116. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 17.

152 BORGES, José Souto Maior. Normas gerais do direito tributário, inovações do seu regime na Constituição de 1988. Revista de Direito Tributário. N. 87. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 69 - 70.

153 CARVALHO, Paulo de Barros. Derivação e positivação no direito tributário. Vol. 1. São Paulo: Noeses, 2011, p. 175- 178.

legislativa ordinária em sintonia com os mandamentos supremos da Constituição da República”154. Inclusive, cabe registrar que esse entendimento do autor foi

reafirmado em outra oportunidade155, deixando clara a sua ideia de que a função da lei complementar é somente uma.

É interessante notar, no entanto, que Paulo de Barros Carvalho156, em outra oportunidade, registra simpatia pela interpretação sistemática - característica essencial da corrente dicotômica, conforme se verá a seguir. Tal fato pode levar o intérprete a crer que o autor estaria se filiando à corrente dicotômica. Mas alertamos que não.

E falamos isso, porque José Eduardo Soares de Melo - outro autor que parecer ter o entendimento de que a lei complementar tem apenas uma função -, também entende pela necessidade da interpretação sistemática da lei complementar, consoante com suas próprias palavras:

Para que possa estabelecer o real alcance da regra constitucional e a eficácia da lei complementar, é imprescindível proceder-se a uma análise sistemática da Carta Magna. Imperioso tornar precisa a participação da lei complementar no processo de elaboração legislativa e sua harmonia com as demais espécies normativas, delimitando os respectivos âmbitos materiais157.

Agora, nos parece adequado refletir, que não é só pelo de fato de esses autores admitirem a necessidade de uma interpretação sistemática, que estes são filiados à corrente dicotômica. Especialmente porque, eles pretendem, a nosso ver, atribuir à lei complementar a função de uniformizar, em consonância com a matriz constitucional, o sistema tributário.

E isso é perceptível nas lições de José Eduardo Soares de Melo, quando afirma que:

154 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, Linguagem e Método. 3. ed. São Paulo: Noeses, 2009, p. 384.

155 CARVALHO, Paulo de Barros. Derivação e positivação no direito tributário. Vol. 2. São Paulo: Noeses, 2013, p. 167.

156 CARVALHO, Paulo de Barros. A lei complementar e a experiência brasileira. Revista de Direito Tributário. N. 81. São Paulo: Malheiros, 2001, p.162.

As leis complementares da Constituição (art. 59, II), que preveem a necessidade de quórum qualificado (maioria absoluta – art. 69), têm, essencialmente, a função e a finalidade de integra a eficácia das normas constitucionais referentes à estrutura do Estado, à formação dos poderes e suas relações, revestindo a natureza formal de lei nacional, produto do Estado total (global), que inspira, fundamenta e determina a edição das normas federais, estaduais e municipais (ordens parciais do Estado brasileiro)158.

E finaliza que cabe à lei complementar “explicitar a norma constitucional de eficácia limitada, caracterizando-se como lei nacional, que fundamenta a legislação federal, estadual e municipal”159.

Diante dessa singela investigação sobre essa corrente que dá à lei complementar uma única função, podemos perceber que esta visa dar uniformidade à função da lei complementar, de modo a calibrar a produção legislativa, assim como de manter em harmonia, com os ditames constitucionais, a legislação tributária.