CAPÍTULO 2. O QUE PERMANECE APÓS DESESTABILIZAR IDENTIDADES?
3.1 As restrições à sexualidade e as neuroses atuais: uma tematização da
No capítulo 1, recorremos ao texto “A psicogênese de um caso de homossexualismo em uma mulher” para trabalhar a questão da identificação e da escolha de objeto, bem como a contingência sustentada por Freud (1920/1996) ao propor que homossexualidade e heterosse-xualidade são igualmente possíveis, sendo as restrições decorrentes do regime de normatividade vigente. Partimos da retomada deste texto, de maneira a situar as restrições que recaem sobre a sexualidade, mais especificamente em relação à escolha de objeto “proibida pela sociedade”, tal como Freud (1920/1996) afirma, e como discutimos no capítulo 1.
Embora o foco do texto seja a questão da escolha de objeto, Freud (1920/1996) também traz algo em relação às características que denomina “mentais” e que diriam respeito à atitude
“masculina” ou “feminina”, o que leva o autor a recorrer ao termo “feminista” para se referir à jovem que não se conformava com sua condição como mulher.
Freud (1920/1996) descreve a jovem como “fogosa, sempre pronta a traquinagens e lutas, não se achava de modo algum preparada para ser a segunda diante do irmão ligeiramente mais velho” (1920/1996, p. 180), ou seja, inclinada a atividades e comportamentos considera-dos culturalmente como “masculinos”. Não se mostrava inclinada às ideias de gravidez e parto, sentia-se descontente em relação à posição relegada às mulheres e desejava a mesma liberdade dos homens, o que leva Freud (1920/1996) a afirmar que “era na realidade uma feminista;
achava injusto que as meninas não gozassem da mesma liberdade que os rapazes e rebelava-se contra a sorte das mulheres em geral” (p. 180).
Assim, a realidade da opressão aparece nesse caso, tanto no que se refere à escolha de objeto “proibida pela sociedade”, quanto na consideração de que existe uma restrição social quanto ao que se considera apropriado ou não para mulheres – bem como a revolta da jovem diante disso. Optamos por iniciar esta seção retomando esse caso para sustentar que Freud se mostra atento a aspectos da opressão das mulheres, proposição que pretendemos desenvolver nesta seção a partir da tematização freudiana de restrições à sexualidade.
Levando em conta a existência de opressões gênero-específicas, tal como proposto por Nancy Fraser (2003a) e discutido no capítulo1, consideramos importante destacar a abordagem freudiana das restrições à sexualidade como a tematização de um aspecto da materialidade a que estavam submetidas as mulheres no contexto histórico em que Freud produziu seus traba-lhos. Quando discute a imposição da abstinência e da sexualidade voltada à reprodução, no contexto da “moral sexual ‘civilizada’”, Ayouch (2018) considera que Freud aborda a temática da opressão das mulheres, embora apenas indiretamente. Nos termos do autor:
Freud lida apenas indiretamente com a opressão da mulher, abordando, em 1908, a
“moral sexual ‘civilizada’”, que generaliza a abstinência pela imposição do único ob-jetivo da reprodução a uma sexualidade que rompe com a reprodução pela pulsão.
Menos favorecidas pela “dupla” moral sexual deixando aos homens um fragmento de liberdade sexual fora do casamento, as mulheres “sucumbem a graves neuroses que assombram suas vidas”, enfatiza Freud, reconhecendo, assim, sua maior vulnerabili-dade.169 (AYOUCH, 2018, p. 76, tradução nossa)
Naquele contexto histórico, a “moral sexual ‘civilizada’” circunscreve a sexualidade ao âmbito do casamento heterossexual e da reprodução, e os efeitos dessa restrição recaem sobre homens e mulheres. Porém, Freud se mostra atento a uma vulnerabilidade diferenciada, como
169 “Freud ne traite qu’indirectement de l’oppression des femmes en abordant en 1908 la « morale sexuelle ‘civi-lisée’ », qui généralise l’abstinence par l’imposition du seul but de la reproduction à une sexualité qui s’en est détachée par la pulsion. Moins favorisées par la « double » morale sexuelle laissant aux hommes un fragment de liberté sexuelle hors mariage, les femmes « tombent dans de sévères névroses qui assombrissent leur vie », souligne Freud, reconnaissant ainsi leur plus grande vulnérabilisation.” (AYOUCH, 2018, p. 76)
destaca Ayouch (2018), o que é particularmente importante, para nosso trabalho, por indicar que existe algo – uma vulnerabilidade diferenciada ou opressões gênero-específicas – de que precisamos falar. Se falar dessa realidade em termos de identidade coloca problemas – tendo em vista os riscos associados ao essencialismo, como discutimos no capítulo 1 –, essa realidade não deixa de existir, o que, a nosso ver, coloca a exigência de que possamos lidar com os desa-fios epistemológicos.
Com o intuito de discutir essa vulnerabilidade diferenciada, no caso das mulheres, ini-ciaremos resgatando textos freudianos em que encontramos tematizações dos efeitos da “moral sexual ‘civilizada’”, bem como considerações sobre como esses efeitos se fazem sentir por ho-mens e mulheres. A primeira menção que encontramos em Freud a uma argumentação que faz referência a uma diferenciação entre homens e mulheres – articulada aos efeitos diferenciados sobre homens e mulheres do contexto das restrições à sexualidade – foi nas “Publicações pré-psicanalíticas” (1886-99), no contexto da primeira teoria freudiana da angústia.
Nesse momento, Freud (1894a/1996) diferencia neuropsicoses de defesa, caracterizadas pelo mecanismo de defesa de recalcamento de representações (incluindo histeria, fobias, ob-sessões e determinadas psicoses), e neuroses atuais (neurastenia e neurose de angústia), associ-adas a alterações na descarga da excitação sexual somática, e não a fatores de ordem psíquica.
Estas últimas são discutidas nos rascunhos submetidos por Freud a Wilhelm Fliess, em especial nos rascunhos B e E.
No “Rascunho B: A etiologia das neuroses” (FREUD, 1894b/1996), a neurastenia é as-sociada a um “esgotamento sexual” que seria causado, no homem, sobretudo pela masturbação e pelo coito interrompido. Campos (2004) explica que a inadequação da descarga da tensão sexual ocasionaria a neurastenia, uma vez que a masturbação ou poluções corresponderiam a substituições da ação específica. Essas descargas não satisfatórias acabariam produzindo um esgotamento do estoque energético
Freud (1894b/1996) tece considerações, separadamente, em relação à neurastenia mas-culina e feminina. No que se refere à masmas-culina, considera que é adquirida na puberdade, ma-nifestando-se no início da vida adulta (por volta de 20 anos), e que sua origem é a masturbação.
Identifica ainda um segundo fator nocivo, no caso de homens mais velhos: o coito incompleto, com a finalidade de evitar a gravidez.
No caso das mulheres, Freud (1894b/1996) considera que os casos de neurastenia em sua forma pura são relativamente raros e, nesses casos, “deve-se então pensar que surgiu
espontaneamente e do mesmo modo [? que nos homens]”170 (p. 226). Mais frequentemente, a neurastenia feminina decorre ou é produzida simultaneamente à neurastenia masculina, em qua-dro caracterizado pela mistura com histeria, a “neurose mista comum das mulheres” (p. 226).
Nesses casos, a neurastenia resultaria dos fatores nocivos relacionados à evitação da gravidez, surgindo durante o segundo impacto dos fatores nocivos sexuais.
Assim, embora parta da diferenciação entre homens e mulheres, a argumentação freu-diana caminha no sentido de indicar a evitação da gravidez como origem da neurastenia em ambos. Tal consideração é evidenciada por afirmações de Freud (1894b/1996), como, por exemplo: “A única alternativa seriam as relações sexuais livres entre rapazes e moças res-peitáveis; isto, contudo, só poderia ser adotado se houvesse métodos inócuos de evitar a gravi-dez” (p.228). Em decorrência disso, Freud (1894b/1996) considera que “na ausência de tal so-lução, a sociedade parece condenada a cair vítima de neuroses incuráveis” (p. 229). No que se refere à masturbação, esta é apresentada como fator etiológico no caso dos homens, mas parece ser também implicitamente considerada no caso de mulheres, com quadro de neurastenia em sua forma pura, quando o autor afirma que sua origem deveria ser pensada do mesmo modo – o que, dado o contexto, parece de fato significar “do mesmo modo que nos homens”.
No “Rascunho E”171, a etiologia da neurose de angústia é proposta como acúmulo de excitação sexual que não consegue encontrar descarga no campo psíquico (FREUD, 1894c/1996). Loffredo (2012) lembra que Freud apresenta suas primeiras formulações sobre a angústia na mesma época em que, no “Projeto para uma psicologia científica” (FREUD, 1895c/1996), discute a necessidade de descarga dos estímulos endógenos por meio de uma ação específica atrelada ao mundo externo.
Essa ausência de descarga aparece por meio da abstinência, uma vez que Freud (1894c/1996) parte da observação de grupos bastante heterogêneos (incluindo homens e mu-lheres, pessoas virgens, abstinentes etc.) e aponta a abstinência como elemento comum entre eles. A observação de que mesmo mulheres frígidas podem experimentar angústia após o coito interrompido levaria à conclusão de acúmulo de tensão sexual física, por ter sido evitada a descarga.
O acúmulo de tensão endógena só seria percebido quando determinado limiar fosse al-cançado, e então a tensão passaria a ter significação psíquica, o que induziria ao coito. Não
170 Essa marcação, entre colchetes e com interrogação, corresponde ao que está apresentada na versão brasileira das “Obras Completas”, não se tratando de acréscimo nosso.
171 De acordo com o editor James Strachey, o “Rascunho E” não está datado, tendo 1894 sido atribuído pelos editores da correspondência com Fliess (FREUD, 1894d/1996).
ocorrendo a reação específica, a tensão aumentaria e se tornaria uma perturbação. Na neurose de angústia, a tensão física aumentaria, atingindo o limiar em que despertaria a libido no âmbito psíquico, mas, por algum motivo, sendo a conexão psíquica insuficiente, a tensão física, não ligada psiquicamente, seria transformada em angústia (FREUD, 1894c/1996).
Essas formulações sobre a neurose de angústia são retomadas nas Primeiras Publicações Psicanalíticas. No texto “Obsessões e fobias”, Freud (1895b[1894]/1996) afirma a etiologia sexual da neurose de angústia, não articulada a representações da vida sexual, mas à acumu-lação de tensão sexual em decorrência de abstinência ou excitação sexual não consumada (coi-tus reserva(coi-tus, impotência do marido, excitação não satisfeita dos noivos, abstinência forçada etc.). Acrescenta que essas condições são “extremamente frequentes na sociedade moderna, especialmente entre as mulheres” (p. 86).
Além dessa breve menção no texto sobre obsessões e fobias, temos, nas Primeiras Pu-blicações Psicanalíticas, o texto “Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma sín-drome específica denominada neurose de angústia” (FREUD, 1894d/1996). Freud (1894d/1996), justifica a terminologia “neurose de angústia” pela possibilidade de agrupamento de todos os seus componentes em torno do sintoma principal da angústia. Sua etiologia é rela-cionada a fatores da vida sexual que, embora pareçam de origem variada, revelam sua caracte-rística comum. Para discutir as condições etiológicas, Freud (1894d/1996) afirma ser impor-tante considerar homens e mulheres separadamente.
Nas mulheres, que teriam uma predisposição inata para a neurose de angústia, Freud (1894d/1996) apresenta como fatores etiológicos: 1) angústia virginal ou angústia nas adoles-centes, que se refere a uma relação entre a produção da neurose de angústia e o primeiro contato com o problema do sexo (revelação de algo até então desconhecido, visão do ato sexual etc.), situação em que tipicamente haveria uma associação com a histeria; 2) angústia da recém-ca-sada, quando se observa desencadeamento de neurose de angústia em jovens casadas que per-maneceram anestésicas no período inicial da vida conjugal, e que pode desaparecer se advém a sensibilidade; 3) ejaculação precoce ou potência enfraquecida do marido, ou ainda prática do coito interrompido, situações consideradas por Freud como relações sexuais em que a mulher não obtém satisfação, o que estaria associado à neurose de angústia; 4) viúvas e mulheres vo-luntariamente abstinentes; e 5) no climatério, durante o último grande aumento da necessidade sexual.
Nos homens, Freud (1894d/1996) identifica: 1) abstinência voluntária, frequentemente combinada com sintomas de defesa (ideias obsessivas, histeria); 2) estado de excitação não consumada (por exemplo, durante o período do noivado ou em situações onde se evita a relação
sexual); 3) coito interrompido quando o homem, para satisfazer a mulher, procura dirigir vo-luntariamente o coito e adiar a emissão; 4) senescentes, em que o climatério, como nas mulhe-res, apresenta potência decrescente e libido crescente.
Após tecer as considerações em relação a mulheres e homens separadamente, Freud (1894d/1996) acrescenta casos que se aplicam a ambos os sexos: 1) pessoas que se tornaram neurastênicas pela prática da masturbação e que desenvolveram neurose de angústia quando abandonaram sua forma de satisfação sexual e 2) sobrecarga de trabalho ou esforço exaustivo.
Contudo, embora os fatores sejam apresentados separadamente para homens e mulhe-res, Freud (1894d/1996) destaca que os estados de excitação não consumada, que discute no caso masculino, podem se aplicar sem alterações no caso das mulheres. Além disso, no caso do coito interrompido, destaca que em geral apenas um dos parceiros adoece: aquele que não está obtendo satisfação.
Freud (1894d/1996) especifica que a causa da angústia está relacionada ao acúmulo de tensão sexual, em decorrência de abstinência sexual ou excitação sexual não consumada. Nesse sentido, consideramos possível articular as origens da neurose de angústia em homens e em mulheres ao contexto de restrições à sexualidade das mulheres, já que a interdição de relações sexuais fora do casamento recaía principalmente sobre elas, e essa abstinência forçada aparece na origem da neurose de angústia. Em outras palavras, a opressão vivenciada pelas mulheres resultaria em consequências negativas para ambos.
Também não podemos deixar de considerar uma vulnerabilidade diferenciada, que mui-tas vezes aparece em Freud como algo inato às mulheres, mas que poderíamos articular às con-dições sociais, uma vez que, como já pontuamos, ao homem ainda restavam possibilidades de
“burlar” as interdições, o que era muito mais difícil para as mulheres. Como destacamos a partir de Ayouch (2018), podemos observar “a sensibilidade de Freud a uma forma de maior opressão feminina pela moral sexual ‘civilizada’”172 (p. 76, tradução nossa).
A percepção dos efeitos de um regime normativo que coloca a sexualidade sob a égide da reprodução e do casamento aparece também na explicação do mecanismo da neurose de angústia, quando Freud (1894d/1996) inicia com uma discussão sobre o processo sexual nos homens: a excitação sexual somática produzida continuamente se expressaria como estímulo psíquico ao atingir certo nível. Esse estado psíquico resultaria em tendência a eliminar essa tensão, o que só seria possível mediante ação específica. Apenas a ação específica seria efetiva,
172 “[...] une sensibilité de Freud à une forme de plus grande oppression féminine par la morale sexuelle « civi-lisée ».” (AYOUCH, 2018, p. 76)
pois, uma vez atingido o limite da excitação sexual somática, ocorre a conversão contínua em excitação psíquica. Após essa explicação, no caso dos homens, segue-se a seguinte passagem, no que se refere às mulheres:
Afirmarei apenas que, em essência, essa fórmula é também aplicável às mulheres, a despeito da confusão introduzida no problema por todos os retardamentos e tolhimen-tos artificiais da pulsão sexual feminina. Também nas mulheres devemos postular uma excitação sexual somática e um estado em que essa excitação se transforma num estímulo psíquico – libido – e provoca a ânsia da ação específica a que está ligada a sensação voluptuosa. (FREUD, 1894d/1996, p. 110)
Importante destacar que Freud (1894d/1996) menciona “retardamentos e tolhimentos artificiais da pulsão sexual feminina”, o que indica sua percepção de processos artificiais – ou seja, produzidos historicamente – que atuam na repressão sexual das mulheres. Essa análise a partir de processos produzidos em um determinado regime de normatividade é destacada por Ayouch (2018), que considera que a ênfase de Freud recai menos sobre “traços masculinos ou femininos essencializados do que sobre a cultura e a moral restritiva que ela impõe, e que na maioria das vezes coloca como a única saída para as mulheres a doença neurótica”173 (p. 76, tradução nossa).
Essa percepção freudiana, muito atenta ao contexto histórico, é retomada em “A sexua-lidade na etiologia das neuroses”, quando Freud (1898/1996) tece considerações sobre a hipo-crisia no campo da sexualidade e defende uma maior liberdade nesse campo:
[...] é do interesse geral que se torne um dever, entre homens e mulheres, um grau mais alto de franqueza sobre as coisas sexuais do que se tem esperado deles até agora.
Isso só pode constituir-se em benefício para a moral sexual. Em matéria de sexuali-dade, somos todos, no momento, doentes ou sãos, não mais do que hipócritas. Será muito bom se obtivermos, em conseqüência dessa franqueza geral, uma certa dose de tolerância quanto às questões sexuais. (p. 254)
A questão das neuroses atuais reaparece no texto “Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna”, quando Freud (1908a/1996) coloca o fator sexual como fator básico na eti-ologia das neuroses atuais, devido a necessidades sexuais insatisfeitas. Aponta a sublimação como possibilidade, mas afirma que “parece ser indispensável uma certa quantidade de satisfa-ção sexual direta” (p. 193). A restrisatisfa-ção desta satisfasatisfa-ção sexual direta pode levar à doença, em um contexto de duras sanções sobre a sexualidade, sobretudo no que se refere às mulheres. Nos termos do autor:
173 “Car l’accusation de Freud porte moins sur les déviances dans la masturbation ou les perversions, l’affaiblisse-ment de la puissance sexuelle et leurs corrélatifs de traits masculins ou féminins essentialisés, que sur la culture et la morale contraignante qu’elle impose, et qui ne laisse le plus souvent aux femmes comme seule issue que la maladie névrotique.” (AYOUCH, 2018, p. 76)