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A impossibilidade da identidade a partir da psicanálise

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (páginas 54-59)

CAPÍTULO 1. IDENTIDADES E MÚLTIPLOS ATRAVESSAMENTOS NO

1.1 A formulação freudiana de “identificação” e a crítica psicanalítica à concepção

1.1.2 A impossibilidade da identidade a partir da psicanálise

Tendo retomado, na seção anterior, formulações freudianas sobre a concepção de iden-tificação, é importante situar que Cunha (1992) destaca o surgimento dessa noção no pensa-mento psicanalítico em um contexto específico: a discussão sobre o desejo recalcado e os so-nhos e sintomas que o realizam. A partir de 1914, uma transformação se introduz pela formu-lação do narcisismo e, de acordo com o autor, a discussão sobre o eu não pode prescindir da noção de narcisismo.

Um primeiro ponto importante a destacar é que, na seção 1.1.1, utilizamos o termo

“ego”, tal como aparece na versão brasileira das “Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud”, editada pela Imago. Nesta seção, utilizaremos o termo “eu”, que é utilizado pelos psi-canalistas com os quais trabalharemos.

Na versão brasileira do “Vocabulário da Psicanálise” de Laplanche e Pontalis (1982/2001), temos o verbete “ego ou eu”, com o destaque para os equivalente Ich, em alemão, moi, em francês, e ego, em inglês. No Brasil, o termo “ego” acabou ficando muito vinculado à vertente da “psicologia do ego” (ego psychology) – com sua crença em uma parte sadia do eu

na qual a análise deveria se apoiar, tendo o objetivo de fortalecê-lo. Algo que é questionado, por exemplo, por Lacan, ao colocar em questão a autonomia do eu.

Não trabalharemos diretamente a partir de uma perspectiva lacaniana, mas é importante situar alguns pontos que aparecem em formulações de psicanalistas com os quais trabalhare-mos, sobretudo no que se refere às concepções de eu e de sujeito. O conceito de “sujeito” não aparece em Freud, mas, a partir de uma leitura lacaniana de Freud, muitos psicanalistas recor-rem a essa concepção proposta por Lacan com base em Freud.

É importante lembrar que Lacan situa uma concepção não substancial de sujeito, como afirmam Baas e Zaloszyc (1996): “o sujeito, na experiência analítica, não é de forma alguma prévio, mas suposto e assujeitado ao significante, onde encontra suas identificações e do qual é um efeito. Isso equivale a dizer que esse sujeito não é uma substância” (p. 1). No texto “O estádio do espelho como formador da função do eu” (LACAN, 1949/1998) – muito retomado por psicanalistas para situar a impossibilidade da identidade na psicanálise – aparecem os ter-mos “Je” e “moi”, que, como sintetizam Ruder e Brauer (2007), tratam da “estruturação de um Je como posição simbólica do sujeito simultaneamente ao aparecimento de um moi como cons-trução imaginária” (p. 516, grifos nossos).

Tendo traçado essas breves considerações sobre terminologias e concepções, iniciare-mos com considerações sobre o narcisismo em Freud. No texto “Sobre o narcisismo: uma in-trodução”, Freud (1914/1996) afirma que o eu não é originário: “uma unidade comparável ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo; o ego tem de ser desenvolvido” (p. 84). O autoerotismo e a sexualidade perverso-polimorfa fazem com que a condição inicial do bebê seja de fragmentação (pulsões auto-eróticas parciais), existindo no início da vida o narcisismo pri-mário (investimento originário do ego, em que a criança investe toda a sua libido em si mesma), do qual, posteriormente, parte será cedida aos objetos do mundo externo.

No entanto, esse investimento do ego persiste durante toda a vida47: “há uma catexia libidinal original do ego, parte da qual é posteriormente transmitida a objetos, mas que funda-mentalmente persiste e está relacionada com as catexias objetais, assim como o corpo de uma ameba está relacionado com os pseudópodes que produz” (FREUD, 1914/1996, p. 83). Freud (1914/1996) recorre, então, ao narcisismo secundário (retorno ao ego da libido retirada dos seus

47 Essa catexia do ego persiste porque, no plano econômico, os investimentos de objeto não suprimem os investi-mentos do ego, e, no plano tópico, o ideal do ego é uma formação narcísica, nunca abandonada. De acordo com Laplanche e Pontalis (1982/2001), o ideal do ego funciona como referência ao ego para avaliar suas realizações.

Tal avaliação é realizada de acordo com o que se projeta diante de si como ideal, o que decorre do narcisismo perdido da infância.

investimentos objetais) não apenas para tratar de estados de regressão, mas o considerando como estrutura permanente do eu.

Cunha (1992) destaca que a noção de narcisismo marca a formulação de que o eu não está presente deste o início nem surge de um gradual processo adaptativo a partir das exigências da realidade, mas resulta de uma “nova ação psíquica”. A partir das formulações freudianas sobre identificação e sobre o eu, cabe questionar se uma experiência da ordem da identidade é possível, lembrando que a origem do conceito de “identidade” na filosofia diz respeito à inte-gridade e permanência no tempo (CUNHA, 2009).

Seria possível pensar essa integridade e permanência na psicanálise? Cunha (2000) lem-bra que, a partir das formulações freudianas, temos “um sujeito dividido, governado por forças que não controla, sujeito a desejos que não conhece e empurrado a atos e palavras em que absolutamente não se reconhece” (p. 224), o que se contrapõe à ideia de que algo poderia per-manecer íntegro. Se a concepção de identidade remete diretamente ao eu, e não ao sujeito, é importante situar que “também o Eu tem a sua parcela inconsciente, e não é de modo algum uma instância una, que está presente desde o primeiro momento – o Eu se produz, e não de uma maneira linear, no jogo entre a pulsão e as demandas do mundo exterior, ou ainda, no confronto entre o sujeito e a alteridade” (CUNHA, 2000, p. 224).

O psicanalista Joel Birman (2003), ao trabalhar a interlocução entre psicanálise e filo-sofia, indica que a filosofia do sujeito, que o inscrevia no campo da consciência e do eu, foi questionada pela proposição de descentramento do sujeito. No texto “Uma dificuldade no ca-minho da psicanálise”, Freud (1917/1996) afirma que a psicanálise implica uma “ferida narcí-sica” devido ao descentramento do psiquismo da consciência e do eu para o inconsciente.

Essa proposição condensada do descentramento do sujeito implica, como observa Bir-man (1997), três descentramentos: 1) da consciência para o inconsciente, 2) do eu para o outro, 3) da consciência, do eu e do inconsciente para as pulsões. Nos dois primeiros, o descentra-mento se empreende no campo da representação, enquanto no terceiro o descentradescentra-mento se funda fora da representação. Com isso, Freud colocou em questão os três registros em que o cogito se fundava: a consciência, o eu e a representação.

O primeiro descentramento está apresentado desde a primeira tópica, em que o incons-ciente é colocado como sistema psíquico em contraposição ao sistema pré-consincons-ciente/consci- pré-consciente/consci-ência. Assim, a consciência perdeu seu lugar de destaque no psiquismo e a realidade psíquica – centrada no inconsciente – ganhou autonomia, deixando de ser vista como mero reflexo da realidade material (BIRMAN, 2003).

O segundo descentramento está enunciado em “Sobre o narcisismo: uma introdução”

(FREUD, 1914/1996), com a formulação de que o eu não seria originário, mas derivado do investimento do outro. A partir da condição inicial de fragmentação, seria o outro quem pro-moveria a unidade do eu e do corpo através de uma imagem, constituindo o narcisismo primá-rio. O eu oscilaria entre se auto-investir e investir os objetos, de maneira que “a subjetividade estaria sempre polarizada entre o eu e o outro, num reconhecimento difícil deste, pois a onipo-tência que a fundaria estaria referida sempre ao outro” (BIRMAN, 2003, p. 67).

Apenas com o conceito de pulsão de morte – uma pulsão sem representação –, proposto por Freud em “Além do princípio do prazer” (1920), o descentramento promovido pela psica-nálise passou a ter a pulsão como referência, colocando em questão o registro da representação.

Para Birman (2003), o conceito de pulsão de morte foi sendo construído desde 1915, em “As pulsões e seus destinos”, com a proposição da força pulsional como exigência de trabalho im-posta ao psiquismo em função de sua inserção no corporal – portanto autônoma em relação ao registro da representação.

Essa perspectiva do descentramento do sujeito coloca em questão os ideais de integri-dade e permanência, que fundamentam a concepção de identiintegri-dade, como afirma Cunha (2009).

O modo de enunciação de si inteiramente sob controle do eu é colocado em xeque pelo primeiro descentramento, uma vez que o inconsciente traz a possibilidade de produção de sentidos e modos singulares de subjetivação em que “o inesperado, o falho e o disruptor atuem no centro da cena psíquica e da experiência subjetiva” (CUNHA, 2009, p. 68).

Com a formulação do narcisismo, o eu deixa de ser originário e perde a autonomia e soberania sobre o psiquismo, devido à sua dependência em relação aos investimentos libidinais.

Por passar a ser sexualizado, fica submetido à força da pulsão, disperso e fragmentário. Com isso, “a ideia de um inconsciente que pudesse ser ordenado em uma narrativa racional, obede-cendo aos padrões vigentes de inteligibilidade a partir do trabalho de deciframento operado pelo eu soberano também se torna cada vez menos viável” (CUNHA, 2009, p. 69).

A noção de pulsão de morte implica que o eixo da representação não pode integrar a experiência na relação consigo mesmo e com o outro. Com isso, pode-se questionar a concep-ção de uma narrativa do eu construída integralmente a partir da consciência. Com a noconcep-ção de inconsciente, “tal narrativa só seria possível a partir de uma permanente operação de exclusão dos conteúdos inaceitáveis pelo eu, supressão de afetos e produção de angústia” (CUNHA, 2009, p. 67). Com a introdução da pulsão de morte, é problematizada a noção de representação e, consequentemente, a ideia de uma narrativa que poderia “representar” o eu.

Assim, a autoidentidade, como narrativa construída pelo eu para garantir sua integridade e permanência, pode ser desconstruída a partir dos três descentramentos: com o primeiro, tal narrativa não seria possível senão pelo recalque das fantasias inconscientes; com o segundo, a noção de um eu íntegro e contínuo, fundado na razão e consciência, perde o sentido; e com o terceiro a própria ideia de narrativa é colocada em questão, pois com a pulsão de morte o eixo da representação deixa de ser capaz de integrar a experiência do sujeito (CUNHA, 2009).

Da mesma maneira, a partir de uma perspectiva lacaniana, Stavrakakis (1999) considera que a divisão e alienação do sujeito colocam a identidade como impossível. A concepção laca-niana de sujeito estaria para além de uma noção essencialista de subjetividade, de organização em torno de alguma essência positiva que seria transparente e poderia ser completamente re-presentável. O autor considera que essa formulação está em continuidade com a centralidade do inconsciente em Freud – que coloca em cena a divisão – e que, a partir de Lacan, a radicali-dade da formulação do inconsciente está em romper com a identiradicali-dade entre o sujeito e o eu.

Essa concepção de subjetividade remonta, na leitura de Stavrakakis (1999), à formula-ção freudiana da divisão (Spaltung), a que Freud recorre para tratar da divisão da psique entre os sistemas inconsciente, consciente e pré-consciente. Embora Freud nunca refira a concepção de “sujeito”, Lacan recorre a Freud para propor uma subjetividade fundamentalmente dividida.

No entanto, justamente porque a simbolização nunca dá conta, tornando impossível qualquer identidade, uma busca constante por cobrir a impossibilidade através da representação leva a identificações – ou seja, é preciso se identificar porque não há identidade, o que coloca a im-possibilidade da identidade e a centralidade da identificação (STAVRAKAKIS, 1999).

Como vimos na seção 1.1.1, a identificação deve sempre ser considerada em relação à alteridade, e a contingência se coloca quando se trata de processos identificatórios. Se temos as contribuições de Stavrakakis (1999), destacando a identificação como aquilo que coloca a im-possibilidade da identidade, temos também as proposições de Chantal Mouffe (2010) – com as quais trabalharemos no capítulo 4 –, para quem as identificações são sempre parciais e em movimento, justamente porque não existe algo fixo como uma identidade. No sentido da ela-boração de um projeto político, Mouffe (2010) trabalha a partir da concepção de pontos nodais e fixações parciais, que possibilitariam a enunciação no campo político a partir de uma pers-pectiva não essencialista.

A possibilidade de pensar a enunciação em torno de categorias identitárias a partir de uma perspectiva não essencialista possibilitaria, de alguma maneira, interrogar a psicanálise em sua formulação sobre a impossibilidade da identidade? Para iniciar a discussão sobre essa

questão, retomaremos, na próxima seção, conceituações de identidade estrangeiras à psicaná-lise, fazendo recurso ao campo das ciências sociais.

1.2 Conceituações de “identidade” e a colocação em cena dos riscos de essencialismo e

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