As referências de identidade social do corpo, na infância, são construídas também pelo equilíbrio entre acção do corpo no espaço físico e a riqueza interactiva no espaço habitacional, na rua, na escola e na cidade (Neto, 2006a). O contacto directo com o envolvimento é muito importante para o desenvolvimento integral, saudável e harmonioso do indivíduo. A criança que cresce em liberdade, é uma criança mais autónoma, conhece melhor o seu envolvimento e o modo como ele funciona estando, por isso, mais apta para lidar com situações do quotidiano. Assim, o conceito de mobilidade
deve considerar um nível de independência mais vasto: a criança deve poder brincar fora de casa, ir para a escola sozinha, visitar amigos, ir a clubes ou associações, ir às compras, entre outras actividades. As crianças gostam de brincar em todo o lado (Van der Spek & Noyon, 1995). A forma como a criança aprende o funcionamento do seu envolvimento, tendo em conta os lugares por onde passa, joga ou convive com os companheiros, tem permitido perceber melhor o desenvolvimento da sua capacidade de autonomia progressiva em relação ao espaço físico. Esta capacidade de autonomia de mobilidade face ao envolvimento físico, permitirá o desenvolvimento das representações cognitivas do espaço físico, o desenvolvimento da liberdade e autonomia em jogo, a descoberta do envolvimento e o seu funcionamento, a descoberta das relações com o mundo adulto e a resolução de problemas, o desenvolvimento de hábitos saudáveis na vida activa e a prática do jogo e actividade física, essenciais para o equilíbrio emocional e psicológico (Neto, 2001). A independência de mobilidade pode ser, então, entendida como a capacidade de autonomia, a possibilidade de tomar decisões por si próprio, a capacidade de mobilidade face ao envolvimento físico, pelas “possibilidades de acç~o” que a criança é capaz de realizar (Malho & Neto, 2004).
Neto (2001, pp. 210) clarifica o conceito de independência de mobilidade, interpretando-o numa perspectiva evolutiva em que a criança “desenvolve ao longo do tempo uma representaç~o mais consistente do espaço físico (memória, percepção, identificação) bem como uma liberdade progressiva de acç~o no seu espaço quotidiano de vida”.
Nas últimas décadas, os trabalhos de investigação sobre a independência de mobilidade têm revelado o interesse pela dispersão de abordagens, como resposta às rápidas alterações nas rotinas de infância, na organização espaço-temporal da cidade e na estrutura familiar;
Assim, analisa-se a brusca diminuição da liberdade de movimento, como sinal de globalização em muitos países desenvolvidos, por exemplo Inglaterra, E.U.A, Finlândia, Suécia, Portugal (e.g. Hillman
et al. 1990; Arez & Neto, 1999; O’Brien et al., 2000; Bjorklid, 2002; Kitta, 2004). Revêem-se as restrições de mobilidade nos trajectos casa-escola-casa (e.g. Hillman & Adams, 1992; Prezza et al., 2001; Granville et al. 2002). Estabelecem-se relações entre envolvimentos de elevada e baixa densidade habitacional – contextos urbanos e rurais (e.g. Heurlin-Norinder, 1996; Van Der Spek & Noyon, 1997; Arez, 1999; O’Brien et al., 2000; Kitta, 2002; Serrano, 2003). Estuda-se a influência dos limites territoriais, uso dos espaços e dos lugares preferidos (e.g. Korpela et al., 2002; Christensen & O’Brien, 2003; Chawla & Malone, 2003; Karsten, 2005). As concepções parentais do perigo e ameaças sociais (e.g. Blakely, 1994; Holloway & Valentine, 2000; Harden, 2000). Outros estudos realçam a influência dos níveis de mobilidade no desenvolvimento emocional, social e cognitivo (e.g. Huttenmoser, 1995) ou no desenvolvimento motor e saúde física da criança (e.g. Armstrong, 1993;
Fjortoft, 2004). Muitos estudos focam a aquisição, processamento e estruturação do conhecimento do envolvimento, através da participação activa da criança no planeamento urbano (e.g. Horelli, 2002; Francis & Lorenzo, 2002; Riggio, 2002; Rissotto & Tonucci, 2002; Woolley, 2006).
Há uns anos atrás a mobilidade das crianças não era muito diferente da mobilidade dos adultos; no entanto, a autonomia dos adultos tem vindo a aumentar e no mesmo período de tempo, a autonomia e liberdade das crianças decresceu bastante, pelo risco de acidentes causados pelos automóveis. O fenómeno alargou-se actualmente a proporções paradoxais: os adultos reclamam mobilidade, elaboram escrupulosamente planos para a cidade e as escolhas de mobilidade nas recentes décadas, em meios urbanos, não possibilitam a independência de mobilidade para as crianças e outros grupos da população (Tonucci & Rissotto, 1998). Mas, para a criança adquirir independência de mobilidade/autonomia ela precisa de ver e viver a cidade, precisa de habitar os espaços públicos com segurança e autonomia, precisa de participar na vida da cidade. Os comportamentos de exploração e de interacção com o ambiente físico e social passam, durante a infância, por manipular e adaptar-se através dos sentidos e do próprio corpo. Ao longo do tempo a criança vai tendo acesso a diversos ambientes, tomando conta do lugar onde vive; para isso, ela precisa de se sentir emocionalmente bem e segura na casa onde vive com a família (Bjorklid & Nordstrom, 2004).
A dimensão-chave da mobilidade das crianças nas cidades é a sua independência dos adultos. Os pais podem ser promotores activos da (in)dependência de mobilidade dos filhos (O’Brien et al., 2000). Se lhes for possibilitado o acesso a novas experiências no seu envolvimento e a uma grande variedade de actividades, as crianças serão encorajadas a experimentar, a investigar e a solucionar problemas. Por essa razão, é de importância crucial que todas as zonas nas áreas residenciais sejam acessíveis às crianças, de modo a familiarizarem-se com o seu envolvimento, aprenderem a cooperar, a desenvolver a sensibilidade e a expressar a sua “agressividade”. Com o f|cil acesso ao envolvimento exterior, a criança aprende o funcionamento do próprio envolvimento (Arez, 1999). A redução destas possibilidades tem implicações no desenvolvimento da criança; a impossibilidade de poderem realizar diversos percursos autonomamente, induz a uma falha na aprendizagem das características do envolvimento para poderem desenvolver comportamentos apropriados, no sentido de uma autonomia segura (Hillman et al., 1990). É sabido que em muitas sociedades a possibilidade de mobilidade da criança e do jovem, tem decrescido largamente nas últimas décadas.
Alguns investigadores têm vindo a referir-se ao conceito de “criança padr~o” e “criança super- protegida”, sem capacidade de autonomia sobre o envolvimento e sem um estilo de vida activa (Neto, 1994a, 1997; Rissoto & Tonucci, 2002). Por exemplo, Armstrong (1993) que investigou o efeito da redução da autonomia de mobilidade no desenvolvimento físico; encontrou 50% de adolescentes do
sexo feminino e 30 % do sexo masculino, entre os 10 e 16 anos de idade que nunca andam mais de 10 minutos por dia. As crianças hoje, utilizam mais tempo em actividades de interior que no passado (Bjorklid & Nordstrom, 2004). Num estudo realizado em quatro distritos e subúrbios de Estocolmo (Suécia), Bjorklid (200210 citada por Bjorklid & Nordstrom, 2004) aplicou entrevistas a pais e
verificou que, um em três, afirmavam terem tido mais liberdade e mais oportunidades de irem a diversos locais com amigos, quando eram crianças. A mesma proporção de pais afirmava sentir-se mais segura, naquele tempo, em relação ao tráfego e a outros perigos. No entanto, estudos realizados na Noruega, referem que mais de 90% dos pais consideram que os seus filhos têm, actualmente, as mesmas possibilidades de se movimentarem no exterior que no passado (Bjorklid & Nordstrom, 2004).
A mobilidade das crianças constitui uma dimensão estruturante das metrópoles; Teles (2005) anota que as suas deslocações são cada vez mais precoces e específicas: desde muito cedo, tornam-se mais móveis e deslocam-se para mais longe, até porque a guarda da criança, ainda antes da idade escolar, se efectua com menos frequência no domínio da família. Registamos este paradoxo hodierno, em que as crianças s~o “mobilizadas” involuntariamente, na teia complexa das rotinas, ao mesmo tempo que perdem a autonomia básica de uma mobilidade activa que as integre conscientemente no espaço em que vivem.