Como demonstram alguns estudos, a idade da criança parece ser um factor decisivo no desenvolvimento geral da sua autonomia (e.g. Hillmans & Adams, 1992; Heurlin-Norinder, 1996; Serrano, 1996), até pelas restrições impostas ou pelo alargamento do seu limite espacial (e.g. Neto, 1997, 2001; Nordstrom et al., 2002), na vigilância parental que é cada vez mais tardia (e.g. Prezza et
al., 2001; Bjorklid & Nordstrom, 2004; Kytta, 2004), na escolha do tipo e na frequência dos lugares
mais favoritos (Korpela et al., 2002) e pela diferenciação ao longo do tempo, quer na organização espacial dos trajectos realizados, quer na exploração do espaço de brincadeira/jogo (e.g. Moreno, 2002; Christensen & O’Brien, 2003; Fotel & Thomsen, 2004; Granville et al., 2004; Woolley, 2006). A idade traz o aumento do desejo das crianças para serem mais autónomas em relação aos adultos nas actividades que praticam. Isto é particularmente verdade no período da puberdade, aquando da maturação física, intelectual e psicológica (Coleman & Hendry, 199015 citados por Woolley, 2006). O
desejo de ser independente é expresso de muitas maneiras e inclui experiências dos jovens no ambiente construído, em contexto urbano e nos espaços públicos abertos que fazem parte dessa construção. Quando a criança está a crescer, a atracç~o pelo centro urbano surge “a brincar” e aparece nas primeiras visitas ao centro da cidade e aos espaços cívicos onde as deslocações são realizadas com os pais ou com a família. Talvez uma das mais visíveis expressões do aumento de independência
14 Para esta situação, contribuirá o facto de quase metade dos indivíduos residirem fora da vila, em aldeias que distam mais de 5 kms
do local da escola. Isto deve-se à centralização do estabelecimento de ensino e de todas as actividades lectivas – o que ocorria a partir de um certo nível de ensino (2º ciclo) nas regiões do interior do país (Trás-os-Montes)
dos jovens é a pratica de skate no centros urbanos, principalmente pelos rapazes, que desejam usar, não só os espaços abertos no contexto urbano, mas os elementos daqueles espaços (Woolley, 2006). Como os estudos têm mostrado, à medida que a criança cresce, também aumenta o limite de exploração, em relação à casa, espaços públicos e lugares que ficam para lá da fronteira da família (Christensen & O’Brien, 2003). Quando se tornam mais velhas, as crianças tornam-se, não só, mais móveis por elas próprias, mas também, mais independentes emocional e socialmente; as experiências com o ambiente, em crianças e jovens, reflectem as atitudes e os valores das suas famílias e a base social e cultural em que se inserem (Nordstrom et al., 2002).
A rua constitui o espaço central da separação entre a infância e a puberdade/juventude; é nesse espaço que a criança ajusta o seu próprio crescimento. No contexto urbano contemporâneo, o movimento solitário significativo que a criança realiza fora do espaço doméstico e do espaço imediato que a rodeia, ocorre por volta dos 8-9 anos de idade – habitualmente é mais tarde nas raparigas – e é mais significativo se a criança estiver na companhia de outras crianças. Neste contexto, os espaços fora de casa ou apartamento, tal como quintais, jardins, espaços verdes e parques, tornam-se os lugares centrais de exploração e são importantes lugares para adquirir confiança nos espaços públicos. Mas, a incorporação de uma rotina regular da vida exterior só é mais visível por volta dos 11 anos, quando a criança transita da escola primária para um ciclo mais avançado, em escolas mais distantes, utilizando transportes públicos (Christensen & O’Brien, 2003).
A idade, é pois, o factor mais determinante para o número de restrições impostas às crianças, no que se refere à independência de mobilidade. Com o aumento da idade, aumenta também a independência, principalmente na autorização para atravessarem as ruas sozinhos e irem e voltarem da escola (Hillman & Adams, 1992). Estes autores identificaram alguns elementos no desenvolvimento da autonomia da criança que estão associados à variável idade: por exemplo, as crianças de 11 anos são mais autorizadas a atravessarem as ruas sozinhas; no entanto, nessa idade ainda poucas são autorizadas a utilizarem o autocarro por si próprias. Dos percursos realizados a pé para a escola, só cerca de metade das crianças de 7 anos, o fazem. Nas crianças de 11 anos, três quartos, realizam o percurso a pé, sozinhas. Estes resultados reflectem uma mudança marcante com o crescimento, ao nível do acompanhamento. Perto de três quartos das crianças mais novas são acompanhadas pelos pais para a escola. Contrariamente, apenas uma em três das crianças mais velhas são acompanhadas. Nas idades mais tardias, verifica-se um aumento das viagens casa-escola- casa sozinhas ou com amigos da mesma idade. Em relação ao uso de bicicleta própria, também se verifica um aumento com a idade. Aos 7 anos, só uma em seis crianças, são autorizadas a usar a bicicleta na rua. Aos 11 anos, uma em duas crianças, utilizam bicicleta. Mas a idade não parece influenciar muito, o número de actividades realizadas durante os fins-de-semana, assim como, a
proporção de actividades que realizam sem serem acompanhadas por adultos. Nesta investigação de carácter longitudinal, os autores sugerem que a liberdade pessoal e a liberdade de escolha que era permitida a uma criança de sete anos de idade em 1971, só é permitida, após 19 anos, a uma criança que tenha mais dois anos e meio, ou seja, cerca de nove anos e meio.
Heurlin-Norinder (1996) realizou um outro estudo, com crianças de 8 e 11 anos, sobre a relação entre a independência de mobilidade e o planeamento do envolvimento físico, com destaque para planeamento do tráfego automóvel. Ao comparar os dois níveis etários, quanto às viagens para a escola e para as actividades de lazer, constatou, em termos gerais, que os pais acompanhavam muito mais as crianças às actividades que à escola e acompanhavam mais, as crianças menores. A autora identifica assim, a idade, como condicionante para a independência de mobilidade das crianças que, associada ao factor limitador do tráfego automóvel, vai impedindo ou retardando as diferentes experiências e contactos da criança com o seu envolvimento local.
Serrano (1996) num outro estudo em crianças com idades entre 7 e 10 anos verificou que a idade era um dos factores importantes que condicionava as possibilidades de exploração espacial; foi em crianças mais velhas e do sexo masculino que registou maior mobilidade e limites espaciais mais vastos.
No estudo efectuado por Moreno (2002) ficaram claras algumas diferenças respeitantes ao desenvolvimento maturacional, em crianças de 11-15 anos, de ambos os sexos e de meios distintos (rural e urbano), quando relacionamos o tipo de percursos casa-escola-casa e os espaços de jogo e brincadeira utilizados com mais frequência: em ambos os meios (rural e urbano), verificamos que os rapazes, de idades mais avançadas, afirmam deslocar-se mais a pé para a escola e menos de transporte particular que os rapazes mais novos. Todas as crianças do sexo feminino, no meio rural (de todas as idades) utilizam com mais frequência o transporte escolar16, sendo que, as mais novas,
no meio urbano, afirmam usar mais o transporte particular e as mais velhas declaram, realizar mais o percurso a pé e em transporte particular. Na escolha do espaço de jogo/brincadeira, as diferenças são significativas, ao longo do desenvolvimento; as crianças mais novas, do meio rural, tendem a brincar mais na rua e as do meio urbano declaram brincar mais no pátio e quintal da residência; as crianças mais velhas do meio rural continuam a optar pela rua e as do meio urbano afirmam utilizar mais o jardim público ou o parque desportivo.
16 As mesmas razões referenciadas na nota 14, sendo a maioria da amostra do meio rural, residente em aldeias circunvizinhas à vila,
Uma multiplicidade de factores relacionados com o planeamento urbano, o tráfego automóvel e a alteração nas rotinas de vida das crianças, podem impedir gradualmente que, com a idade, as incursões sejam cada vez mais vastas e se vão estabelecendo relações cada vez mais fora da família. A rua, o bairro ou a aldeia, a escola, a casa dos amigos e os parques passarão a ser, mais tardiamente, os seus locais preferidos (Pimentel, 1985).